Culturas e Imagens IMAGENS E REALIDADE. Alice Casimiro Lopes. Pinto o que sei, não o que vejo. [PABLO PICASSO]

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1 Culturas e Imagens IMAGENS E REALIDADE Alice Casimiro Lopes Pinto o que sei, não o que vejo. [PABLO PICASSO] Claude Monet, Impressão, sol nascente, Museu Marmottan, Paris Joan Miró, Noturno, coleção privada.

2 Artur Bispo do Rosário, Abatjour, Museu Bispo do Rosário. Já se tornou lugar comum dizer que vivenciamos uma época em que as imagens proliferam e ganham destaque em relação à palavra. Nas escolas, professores sentem dificuldade para motivar seus alunos a ler livros quando o DVD, o computador, a televisão, o MP4, o cinema e as propagandas nas ruas atraem mais do que as palavras. As imagens parecem ser mais atraentes e as palavras só produzem significado se estão a elas associadas. A despeito disso, ainda é comum pessoas, e não apenas os alunos nas escolas, manifestarem certo desconforto com a pintura abstrata, ou com a fotografia que modifica a realidade do representado, ou mesmo com o

3 filme que não inclui cenas sem que se perceba de imediato qual o sentido de sua inclusão naquele dado momento. Interessante é que este mesmo desconforto também se apresenta, muitas vezes, em relação a um texto mais abstrato, uma poesia que valorize ambivalências, um romance em que a narrativa de uma história, com começo, meio e fim, não seja central, uma teoria que se coloque mais abstrata. Com o risco de simplificar uma discussão muito mais longa e profunda, defendo que esse processo em nossa cultura ocidental está associado à prioridade conferida ao realismo na interpretação do mundo. Focalizando particularmente as imagens, considero que, mesmo em um mundo onde as imagens são tão destacadas, ainda tratamos tais imagens como se tivessem que ser o espelho de um objeto entendido como real. O realismo, essa constante tentativa de tornar acessível aos olhos os padrões racionais e o imaginário, acompanha grande parte da existência humana. A idéia de que ver é saber constitui a chamada concepção ocularista do conhecimento e já foi objeto de discussão de vários autores (Novaes, 1988). Imaginar, criar e assim modificar o mundo que se vê é então considerado um risco ao real conhecimento do mundo. É possível apresentar toda uma discussão de quanto esse realismo é capaz de tornar problemática a relação com o conhecimento em geral, mas nos limites desse texto prefiro me dirigir a algumas das conseqüências que esse realismo traz para as artes. Quando os pintores impressionistas, no fim do século XIX, chocaram os amantes da arte isso se deu, sobretudo, em virtude da desvalorização do percebido, do a priori do conhecimento, em nome da exploração sensorial. O impressionismo, segundo Monet, queria ser o triunfo da sensação sobre a concepção racional, o sinto logo existo de Gide em contraposição ao penso logo existo cartesiano (Pessanha, 1988). Para isso, o olhar se modificou, não mais reproduzindo o real. O olhar passou a buscar a impressão e a impressão era apenas cor e luz, expressando a descontinuidade da matéria e rompendo com o aparente (Schapiro,

4 2002). A impressão não revelava uma propriedade substancial, mas uma característica transitória, relacional, ocasional como no quadro Impressão, sol nascente. Como diria Bachelard, o compromisso com o real dado era um obstáculo à percepção dessa outra ordem de realidade que a pintura impressionista foi capaz de nos fazer ver no mundo. A técnica de produzir imagens impressionistas ficou marcada como uma ruptura nas artes por ter sido, na época, uma técnica para estabilizar e registrar as impressões: era preciso reproduzir o que se via, sem saber o que era, pois o que importava era a impressão, não o objeto em si. Quando vemos hoje os quadros impressionistas percebemos como cores e luzes são despojadas de conteúdo, são apenas signos, podendo assumir vários significados (Schapiro, 2002). Uma vez olhando essas imagens, o olhar para o mundo (real?) se faz outro. Dessa forma, o impressionismo, superando a natureza, corresponde ao auge de quatro séculos de representação da natureza na pintura (Schapiro, 2002). Hoje, a aceitação, e mesmo vulgarização, dos quadros impressionistas é grande. Eles estão em nossos chaveiros, em capas de agendas, saltam de sites na internet para ilustrar e colorir nosso desktop. Mas isso não parece ter feito com que seja superado um enfoque realista diante das imagens pictóricas. Ainda permanece a expectativa de que para uma imagem significar algo ela precisa estar amparada pelo processo de representar uma outra coisa que não o que está na tela. Quando Miró nos brindou, no século XX, com Noturno, foi mantido o incômodo com o que se apresenta como não-real, aquilo que, por ser imaginado, passa a existir. Mas não seria essa uma das mais importantes contribuições das imagens em nossas vidas? Ir além da realidade, mudar o que vemos, criar para além da visão, relacionar imagem com imaginação, construir uma outra

5 razão, ou mesmo uma desrazão, ao sabor de caminhos antes não existentes? E com as palavras não se dá o mesmo? O ser linguageiro não é um ser que produz significados no mundo ao falar? Talvez estejamos assim nos aprofundando em um processo de luta, que não é de hoje, pela significação do mundo. Penso então que este processo nos faz, também, ver os objetos de outra maneira, como nos convida belamente Artur Bispo do Rosário. Parece-me que aceitar esse convite é um desafio promissor, capaz de nos fazer entender o fascínio do ato de significar, seja por imagens ou palavras. Sobre o(a) autor(a): Professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ, exercendo a sua Coordenação; vice-líder do GRPesq Currículo: sujeitos, conhecimento e cultura. Referências bibliográficas (ou textuais): NOVAES, Adauto. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, PESSANHA, José Américo da Motta. Bachelard e Monet: o olho e a mão. In: NOVAES, Adauto. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo reflexões e percepções. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

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