INSTABILIDADE POLÍTICA E PIORA ECONÔMICA 24 de Março de 2015 Nas últimas semanas, a instabilidade política passou a impactar mais fortemente o risco soberano brasileiro e o Real teve forte desvalorização. Não vemos razões, pelo menos no curto prazo, para que a percepção acerca da economia brasileira melhore significativamente. Assim, elevamos nossa nova projeção de câmbio para R$ 3,45/US$ para o final do ano. O aumento do custo da energia elétrica em todo país, a desvalorização do Real ocorrida e projetada, assim como a elevada inflação do primeiro trimestre do ano fez com que nossa projeção para o IPCA passasse de 7,2% para 8,2% em 2015. Diante de uma inflação mais alta, revisamos nossa projeção de taxa de juros de 13% para 13,75%, acreditando que o Banco Central irá continuar firmemente a combater as altas inflacionárias. De toda forma, o Relatório Trimestral de Inflação, a ser divulgado no dia 26 de março, poderá dar uma sinalização mais clara sobre as intenções do Banco Central, quando tal projeção será reavaliada. A atividade econômica seguiu piorando e a paralisação de caminhoneiros parece ter causado danos à economia em fevereiro. Além disso, a desvalorização do Real e a contínua elevação da taxa básica de juros nos levaram a reduzir o crescimento do PIB projetado para 2015, de -0,7% para -1,2%. Os dados de crédito vêm mostrando continuidade no movimento de maior seletividade na concessão, tanto para PJ com baixíssimo crescimento nas micro, pequenas e médias empresas, quanto para as linhas de crédito de maior risco para PF crédito pessoal não consignado e veículos. Atividade Econômica Os dados divulgados recentemente demonstram uma piora na atividade econômica brasileira nos dois primeiros meses do ano, intensificando a tendência de arrefecimento da economia observada no decorrer do ano passado. O IBC-BR, divulgado pelo Banco Central e que serve como uma medida similar ao PIB em frequência mensal, apresentou, em janeiro, uma queda de 0,1% em relação ao mês de dezembro (já descontados os efeitos sazonais) e de 1,8% em relação a janeiro de 2014. Embora o IBC-BR não tenha abertura setorial, podemos entender que o baixo desempenho está associado a uma queda generalizada nos setores da economia, mais intensamente na produção industrial, que acumula uma queda de 3,4% no acumulado em 12 meses fechados em janeiro. Um dos poucos setores para o qual é esperado um resultado favorável é a agricultura, que, segundo o IBGE, deverá ter uma expansão de 3,5% na produção de grãos em 2015. Quando forem divulgados os dados do mês de fevereiro, deveremos ter outra queda na atividade, com grande impacto da paralisação dos caminhoneiros. Para o resto do ano, não projetamos uma recuperação importante da atividade econômica. Pelo lado do consumo das famílias, pesa o fato de que a confiança na economia está no menor nível da série divulgada pela FGV desde 2005. Além disso, os resultados do mercado de trabalho têm apontado para uma queda na geração de empregos formais e um aumento da taxa de desemprego. Por fim, o aumento de impostos e a elevação da taxa de juros também atuarão como inibidores do consumo.
Pelo lado do investimento, os empresários seguem pessimistas com a economia brasileira, tendo em vista a instabilidade política, a queda no consumo das famílias e a elevação do risco soberano brasileiro. Além disso, a elevação das taxas de juros (Selic e TJLP) e o aumento de impostos e de tarifas públicas também agravam esse cenário. Por fim, a desvalorização cambial, que, por um lado, beneficia o exportador, no curto prazo torna máquinas e equipamentos importados mais caros, desincentivando o investimento. Pelo lado externo, a situação é melhor. A desvalorização recente do câmbio irá tornar os produtos nacionais mais competitivos na comparação com os importados. Além disso, as empresas brasileiras exportadoras deverão se beneficiar da recente perda de valor da moeda nacional frente ao dólar, aumentando o fluxo de produtos para fora. No caso do setor agropecuário, as culturas que foram plantadas no ano passado a um câmbio mais valorizado tiveram um custo menor com insumos importados e agora conseguem um ganho maior em decorrência do câmbio mais desvalorizado no período da colheita. Em contrapartida, as culturas a serem plantadas neste ano deverão apresentar custos maiores em decorrência de insumos importados mais caros. Em suma, os dados de curto prazo têm sido piores do que estavam sendo previstos e a greve de caminhoneiros prejudicou o desempenho do primeiro trimestre. Adicionalmente, a desvalorização cambial reduz o investimento no curto prazo e a elevação adicional da taxa de juros, no nosso cenário, pressiona ainda mais para baixo a atividade. Nesse sentido, revisamos o nosso cenário básico de uma queda de -0,7% em 2015, para -1,2%. Lembramos que ainda há riscos nessa projeção, diante de fatores com alta complexidade para serem inseridos em nossos modelos estatísticos, tais como: risco de racionamento de energia, Operação Lava-Jato e instabilidade política. Inflação e taxa de juros Os dados mais recentes de inflação, desde a divulgação do documento anterior, pioraram substancialmente o cenário. Apenas no mês de fevereiro, a inflação medida pelo IPCA variou 1,22%, com contribuição importante da elevação da energia elétrica residencial. Além disso, os preços do grupo dos livres (produtos e serviços sem reajustes por contrato) estão apresentando variações maiores do que aquelas do quarto trimestre de 2014, o que nos indica uma possível contaminação pelos elevados reajustes nos preços da gasolina e nas tarifas de energia elétrica. Adicionalmente, podemos ver que a greve de caminhoneiros, as condições climáticas não tão favoráveis no Sudeste e a desvalorização cambial têm pressionado os preços de alimentos no atacado. A inflação medida no atacado (IPA-M) saiu de -0,06% em janeiro para +2,03% em fevereiro, fazendo com que a inflação de março, ao consumidor, ficasse ainda maior. Adicionalmente, a Aneel aprovou um reajuste de 24% nas contas de energia, com efeitos já a partir de março. Por fim, também revisamos nossa previsão de taxa de câmbio, como apresentado na sessão específica desse tema. Diante destes fatores, nossa projeção de inflação (IPCA) para 2015 passou de 7,2% para 8,2%. O Comitê de Política Monetária (COPOM) reportou que a inflação prevista para 2016 foi reduzida, segundo consta da ata de sua última reunião, realizada nos dias 3 e 4 de março. Para o colegiado, já há sinais de que o ritmo da demanda da economia a qual o comitê avalia tender para um cenário mais moderado poderá favorecer o desempenho da inflação à frente. Apesar disso, afirma também que a inflação ainda está acima do centro da meta de 4,5% e que a melhora observada em 2016 não é suficiente. Portanto, o trabalho de elevação
de juros está trazendo resultado, ou as variáveis econômicas estão se deslocando em linha com os objetivos do Comitê. Mesmo assim, o trabalho não está concluído e ainda demanda esforços. Considerando a forte surpresa inflacionária de dados que vieram a ser divulgados pós-reunião do COPOM e acreditando que o Banco Central não deverá encerrar seus trabalhos já na próxima reunião, revisamos nossa projeção de taxa de juros Selic de 13% para mais duas altas de 0,50 p.p., deslocando a taxa de juros no mês de abril para 13,25% e no mês de junho para 13,75%. Esperamos que a taxa de juros permaneça nesse nível até a última reunião do Copom do ano, quando deverá ser iniciado um processo de queda na taxa de juros. Contudo, não descartamos uma postura mais moderada da autoridade monetária, a qual levaria a taxa básica em 13,75% através de três altas, sendo uma de 0,50 p.p. na reunião de abril e outras duas altas de 0,25 p.p. nas reuniões subsequentes. Taxa de câmbio O Real vem se desvalorizando de maneira intensa desde o final de janeiro. A moeda brasileira estava sendo cotada a R$ 2,66/US$, no fechamento do primeiro mês do ano, e passou para R$ 3,24/US$ no dia 20 de março, o que representa uma variação de 21,8% no período de aproximadamente 40 dias. Esse movimento de depreciação do Real diante do Dólar tem como principais explicações a crise política interna do país, a baixa observada nos preços internacionais das commodities (alimentícias e metálicas) e, por último, a iminência da elevação da taxa básica de juros nos Estados Unidos. Internamente, há incerteza por parte dos agentes sobre a capacidade de levar a cabo o ajuste fiscal proposto pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A falta de diálogo entre o Executivo e o Legislativo, conjuntamente com as investigações da Operação Lava-Jato, trouxeram mais incertezas ao ambiente político. Estas disputas internas fizeram o risco-brasil descolar-se dos outros países emergentes que possuem grau de investimento, ficando 34,4% acima. Além desses fatores específicos do Brasil, as moedas dos países emergentes e mesmo desenvolvidos têm sofrido desvalorização em relação ao Dólar diante da expectativa de aumento de juros nos EUA. Na Ásia e na Europa, os bancos centrais das duas regiões estão dando maior liquidez e reduzindo as suas taxas de juros. O Banco Central Europeu (BCE) iniciou seu programa de relaxamento quantitativo no início de março, programa que deverá se estender até setembro de 2016 e que deverá injetar mais de 1 trilhão de euros na economia. Como não vemos uma melhora da atividade econômica e da coordenação política no curto prazo, entendemos que o risco-país deverá continuar elevado, o que fez nossa previsão da taxa de câmbio passar de R$ 2,95/USD para R$/US$ 3,45 no término desse ano. Crédito A carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional continuou desacelerando no mês de janeiro, passando de uma expansão de 11,3% em dezembro para 11,0% em janeiro. Esse cenário é explicado, basicamente, pela desaceleração da economia brasileira, pela elevação dos juros, pela inflação persistentemente alta, pelo ajuste fiscal em curso com elevação de impostos e taxas e; por fim, pela maior seletividade das instituições financeiras na concessão de crédito. Enquanto os bancos públicos apresentam elevação de cerca de 16% da sua carteira em relação ao ano anterior, os privados crescem apenas 6%.
Em termos desagregados, nota-se que o crescimento segue heterogêneo. Os recursos livres (não direcionados) cresceram 5,1%, em janeiro, na comparação com janeiro de 2014, com desempenho similar entre as carteiras PJ e PF. Já os recursos direcionados continuam seguindo uma trajetória de desaceleração, com alta de 19,6% em janeiro contra o mesmo período do ano anterior. O crescimento da carteira PF de janeiro de 2015, em relação ao mesmo período de 2014, está em 13,2%, ao passo que para PJ encontra-se em 9,2%. O foco das instituições financeiras segue sendo o empréstimo pessoal consignado e o crédito imobiliário nas linhas PF e para grandes empresas nas linhas PJ. Enquanto a carteira de micro, pequenas e médias empresas está praticamente estável em relação a 2014, a carteira de grandes empresas cresce 20%. A inadimplência total no Sistema Financeiro Nacional encontra-se em 2,9% e vem apresentando leve retração. Especificamente para PF, contudo, observa-se uma elevação da inadimplência em duas linhas: cartão de crédito e crédito pessoal não consignado, ambas próximas de 8%. Para PJ, enquanto a inadimplência das grandes empresas está em 0,4%, a do grupo de micro, pequenas e médias chega a bater quase 4%. Segundo pesquisa com as instituições financeiras, duas preocupações são levantadas quando as mesmas são questionadas sobre a possibilidade de redução da oferta de crédito para PF: nível de emprego e condições salariais. Já no que se refere às micro e pequenas empresas, os maiores problemas para a oferta de crédito estão nos níveis de inadimplência e na tolerância ao risco, ao passo que a demanda é afetada pelo aumento dos juros. Assim, considerando o atual cenário econômico, nossa projeção é de que a carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional cresça 9,0% em 2015, com melhor desempenho das linhas de crédito de menor risco, mantendo comportamento recente. Fonte: Banco Central e IBGE. Projeções: Sicredi.
Dados e Projeções Econômicas 2010 2011 2012 2013 2014P 2015P 2016P Atividade Econômica PIB Nominal, R$ bi 3.675,0 4.019,5 4.402,5 4.779,3 5.085,2 5.436,1 5.764,6 PIB Nominal, US$ bi 2.087,9 2.421,4 2.246,2 2.212,6 1.911,7 1.575,7 1.623,8 Crescimento Real do PIB, % 7,5 2,7 1,0 2,5 0,0-1,2 0,8 Taxa de Desemprego, Média (%) 6,7 6,0 5,5 5,4 4,9 6,2 6,8 Inflação IPCA, % 5,9 6,5 5,8 5,9 6,4 8,2 5,2 IGP-M, % 11,3 5,1 7,8 5,5 3,7 6,6 5,2 Juros Taxa Selic, Fim do Período (%) 10,75 11,00 7,25 10,00 11,75 13,25 11,25 Taxa Selic, Média do Período (%) 9,90 11,76 8,57 8,38 10,96 13,13 12,23 Taxa de Juros Real, Fim do Período (%) 4,57 4,23 1,33 3,86 5,03 4,67 5,75 Taxa de Câmbio Taxa de Câmbio (R$/US$), Fim de Período 1,67 1,88 2,04 2,34 2,66 3,45 3,55 Taxa de Câmbio (R$/US$), Média do Período 1,76 1,66 1,96 2,16 2,35 3,26 3,51 Setor Público Resultado Primário, % PIB 2,8 3,1 2,4 1,9-0,6 0,5 2,0 Crédito Crescimento da Carteira de Crédito (%) 20,6 18,8 16,4 14,6 11,3 9,0 10,0 Obs: Dados destacados em cinza referem-se às projeções. Para dúvidas ou sugestões, favor enviar e-mail para analise_economica@sicredi.com.br Disclaimer Esse documento foi produzido pela Gerência de Análise Econômica do S.A. e tem por objetivo fornecer informações de indicadores econômicos. Ressaltamos, no entanto, que as análises bem como as projeções contidas refletem a percepção da Gerência de Análise Econômica no momento em que o texto é produzido, podendo ser alteradas posteriormente. O S.A. não se responsabiliza por atos/decisões tomadas com base nos dados divulgados nesse relatório.