JUROS NA INCORPORAÇÃO



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Transcrição:

IMOBILIÁRIA JUROS NA INCORPORAÇÃO Inicialmente, é importante esclarecer de forma bastante sintética, que os juros na incorporação imobiliária, consistem na remuneração do capital que os incorporadores recebem, pela venda de imóveis a prazo. A cobrança dos juros é perfeitamente legal, devendo contudo, observar alguns ditames legais, dos quais se destacam a sua limitação, em 12% ao ano e a proibição de cobrança de juros sobre juros, ou anatocismo, ou ainda juros capitalizados (observando-se que essas duas limitações não costuma atingir as Instituições Financeiras). TABELA PRICE Esclarecido o que são os juros, cumpre agora, de forma resumida, esclarecer que a Tabela Price, é um sistema de amortização de empréstimos de captial a juros, baseado em uma fórmula que faz com que as prestações fiquem uniformes ao longo de todo o financiamento. Importante observar que as parcelas serão uniformes, porém, serão acrescidas de correção monetária pelos índices estabelecidos em contrato. A correção monetária, na verdade não altera o valor da parcela, mas apenas a atualiza para a data de seu vencimento, de modo a preservar o seu valor efetivo.

2 A Tabela Price, pelo fato de pela simples aplicação de sua fórmula, determinar o valor das prestações de modo uniforme, é o sistema mais amplamente utilizado em nosso mercado imobiliário, de modo que as incorporadoras que negociam imóveis a prazo, via de regra, adotam o sistema de amortização da Tabela Price. Contudo, tem sido comum em nossos Tribunais, a alegação por parte de adquirentes, da existência de anatocismo decorrente de aplicação da Tabela Price. O anatocismo, ou capitalização de juros, é a hipótese em que se verifica a incidência de juros sobre juros, o que é vedado em nosso ordenamento jurídico. Contudo, não obstante a complexidade da questão, o fato é que já é pacífico o entendimento em nossos Tribunais, de que a tabela price não acarreta capitalização de juros ou anatocismo. Para melhor compreender a questão, verifique, nesse sentido, parecer fornecido pelo Doutor Cláudio Bernardes, ao escrever sobre o assunto, no Diário das Leis Imobiliário, 2 o decêndio de junho de 1.999, e que demonstra, a saciedade, a inexistência de capitalização composta de juros resultante da aplicação da Tabela Price, senão vejamos: Suponhamos que alguém compre um bem no valor de R$ 100.000,00, para pagamento em 4 parcelas mensais, e que seja estabelecida uma taxa de juros de 1% ao mês. Só para efeito de raciocínio vamos supor que foi utilizado um sistema hipotético para estabelecimento de valores das parcelas que irão amortizar o capital emprestado, de tal forma que este cálculo tenha resultado na estipulação de 04 parcelas mensais e iguais de R$ 25.628,11 e que o capital seja amortizado com uma taxa de juros de 1% ao mês, sem que haja contagem de juros dos juros.

3 Vamos desdobrar o pagamento de cada parcela ao longo do período de pagamento, para que possamos entender como o capital é amortizado. Cada parcela é composta de duas partes: 1) juros; 2) amortização, que assim se distribuem ao longo do período de pagamento: 1 a Parcela 25.628,11 1) juros = 100.000,00 x 1% = 1.000,00 2) amortização do principal = parcela estipulada - juros 25.628,11 1.000,00 = 24.628,11 Saldo devedor: 100.000 24.628,11 = 75.371,89 Como se pode observar acima o saldo devedor ( 75.371,89) não contém parcela de juros. Calculou-se o saldo devedor somente subtraindo-se do capital inicial a parcela referente à amortização do principal, da qual se excluíram os juros. 2 a Parcela 25.628,11 1) juros: 75.371,11 x 1% = 753,72 Importante observar o cálculo da parcela de juros. Foi aplicada taxa de juros sobre o saldo devedor calculado acima, valor que não inclui nenhuma parcela de juros. Portanto, não existe aí contagem de juros dos juros. 2) Amortização do principal: 25.628,11 753,72 = 24.874,39 Saldo Devedor: 75.371,11 24.874,39 = 50.507,50 A mesma sistemática se repete para as parcelas seguintes:

4 3 a parcela 25.628,11 1) juros: 50.507,50 x 1% = 505,08 2) amortização do principal: 25.628,11 505,08 = 25.133,04 Saldo Devedor: 50.507,50 25.133,04 = 25.374,46 4 a Parcela 25.628,11 1) juros: 25.374,46 x 1% = 253,74 2) amortização do principal: 25.628,11 253,74 = 25.374,37 Saldo devedor: 25.374,46 25.374,37 = 0,09 (zero) Portanto, conforme está demonstrado acima, o sistema hipotético utilizado para determinação das parcelas, fez com que fosse amortizado o capital, em 4 parcelas, à uma taxa de 1% sem que se contasse juros dos juros. O sistema hipotético utilizado nada mais é do que o Sistema Francês de Amortização, mais conhecido como Tabela Price. Dessa forma, é imediata a constatação de que a adoção do Sistema Francês de Amortização em nada contraria o disposto no artigo 4 o do Decreto nr. 22.626, de 07/04/33. Ou seja, nesse sistema não há a contagem de juros dos juros. Tal exemplo é claro, e não deixa dúvidas de que a Tabela Price não implica em capitalização exponencial de juros, pois se realizarmos os cálculos aplicando os juros de 1% ao mês, permitidos em nossa legislação, e amortizando a parcela fixada de acordo com tal sistema, ao final, chegaremos a liquidação do financiamento, o número de parcelas ajustadas. Veja a jurisprudência de nossos Tribunais:

5 Revisão de contrato de venda e compra de imóvel. Inexistência de cláusulas abusivas ou ilegais. Uso da tabela price que é legal porque não contém juros capitalizados. Jurisprudência do STJ. Recurso improvido. (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo Apelação Cível nr. 401.739-4/0 4ª Câmara de Direito Privado Relator: Desembargador Maia da Cunha julgamento em 13 de julho de 2.006 v.u.) Da decisão que originou a ementa supra transcrita, cabe transcrever o seguinte trecho, extremamente elucidativo para o nosso estudo: Não há ilegalidade no uso da tabela price. O tema, é bom que se diga desde logo, já foi debatido e decidido neste Egrégio Tribunal de Justiça e no Colendo Superior Tribunal de Justiça, de modo que se mostra dispensável a cansativa exposição doutrinária acerca do uso da tabela price e sua incidência no financiamento de compra e venda de imóvel. Não há capitalização na tabela price se, mensalmente, o saldo devedor é atualizado segundo a correção monetária e os juros contratados, abatendose do saldo total do débito, separadamente, o valor que é para pagamentos daqueles encargos e o que é para amortização real da dívida.

6 Os juros do mês seguinte incidem sobre o valor já reduzido da amortização ocorrida no mês anterior, a afastar a idéia de capitalização que se assenta primariamente na cobrança de juros sobre juros. Óbvio que nada é tão simples e que há respeitáveis opiniões no sentido de que ela embute por via reflexa a cobrança de juros sobre juros, mas não é o entendimento que prevalece nesta 4ª Câmara de Direito Privado, nem no Colendo Superior Tribunal de Justiça, que já decidiu pela Legalidade da adoção do Sistema Francês de Amortização nos contratos de mútuo para aquisição de imóvel pelo SFH. Precedentes REsp 600.497 / RS, 3ª T, Rel Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJ 21/02/2005, AgRg no Ag 522.632/MT, 3ª T, Rel Min. Antônio de Pádua Ribeiro, DJ 29/11/2004, Resp 427.329/SC, 3ªT, Rel. Min. Nancy Andrigui, DJ 09/06/2003 (Resp 643933/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, em 26.04.2005, in DJ 06.06.2005, p. 193). O certo é que, não obstante as longas razões iniciais e recursais, a matéria de direito, no que é pertinente à revisão do contrato pela presença de cláusulas abusivas, não restou configurado. Daí porque se mostra de rigor, quanto ao mérito, a confirmação da r. sentença pelos seus próprios fundamentos. Assim, observa-se na verdade, que essa decisão, demonstra que os julgadores compreenderam a questão da tabela price, e independentemente de necessidade de realização de prova pericial para todas as ações que tratam do tema, decidiram de forma jurídica, e não técnica matemática, que a tabela price não implica em capitalização de juros. Demonstrou ainda tal decisão, que esse entendimento é o pacifico na atualidade na Corte Paulista, e principalmente, no Superior Tribunal de Justiça, pois transcreveu ementa em que se balizou, e na mesma vieram diversos outros precedentes.

7 Portanto, o que se observa, é que a alegação feita por adquirentes, de ilegalidade da Tabela Price, tornou-se extremamente frágil, e tem pouquíssimas chances de ser acolhida em discussão judicial sobre o assunto. Marcos Roberto Bussab OAB/SP 152.068