Administração Financeira MÓDULO 9 O crédito divide-se em dois tipos da forma mais ampla: o crédito público e o crédito privado. O crédito público trata das relações entre entidades públicas governo federal, estadual e municipal - e as pessoas ou empresas. O crédito privado trata das relações entre as pessoas ou entre as empresas. O crédito privado, nosso foco nesta obra, pode subdividir-se em: crédito mercantil e crédito bancário. O crédito mercantil é a forma mais comum de financiamento a curto prazo, e também é conhecida como crédito comercial. Podemos definir crédito mercantil como crédito a curto prazo concedido por um fornecedor a um comprador, em decorrência da compra de mercadorias, matérias-primas ou serviços para posterior revenda ou utilização. O produtor concede o crédito, quando vende seus produtos, a prazo, ao atacadista. Concede-o depois, o atacadista, quando faz a venda desses mesmos produtos ao varejista. E concede-o, finalmente, o varejista, quando por sua vez, vende esses mesmos produtos ao consumidor final, a prazo. Para conceder crédito, as empresas precisam estabelecer, entre as políticas possíveis, aquela que irão adotar. Há três políticas para concessão de crédito: a) Política de Crédito Liberal As empresas que adotam normas que determinam e controlam este tipo de política devem ser aquelas cuja situação financeira é razoavelmente boa. É comum o estabelecimento deste tipo de política pelas empresas novas no mercado, e que precisam se tornar conhecidas rapidamente, a fi m de que suas vendas aconteçam. Esta política pode ser utilizada também pelas empresas cuja margem de lucratividade seja considerada alta. A competição de mercado pode ser elemento impulsionador para a prática da política de crédito liberal. Pode ocorrer sua prática em circunstâncias especiais, quando em promoções gerais ou específicas a produtos de pouco giro, ou até obsoletos ou fora de linha de comercialização ou produção. Ao adotá-la, como fator de um maior volume de vendas que poderá trazer, seguir-se-á um risco maior no crédito, com possibilidades de maior atraso nas contas as receber e, com isso, maiores possibilidades de perdas. b) Política de Crédito Rígida
As empresas que adotam normas que determinam e controlam esse tipo de política devem ser aquelas cuja situação financeira não permite maiores riscos por falta de capital de giro. É comum encontrá-la nas empresas que comandam determinados mercados com poucos concorrentes, ou nas monopolistas, como também em épocas de demanda elevada de consumo com produção insuficiente para atendê-la. De modo geral, fatores como falta de capital de giro, margem de lucratividade pequena e tendência à inadimplência por parte dos clientes, são motivos adicionais a serem considerados na adoção deste tipo de política. Como conseqüência, poderemos ter menores vendas, menor lucratividade, menor quantidade de clientes atendidos, e menor risco de crédito, e, em contraposição, possibilidades maiores de as contas a receber estarem sendo pontualmente quitadas. c) Política de Crédito Compatível As empresas que seguem normas que determinam e controlam esse tipo de política são aquelas que adotam uma linha de flexibilidade de ação, levando em conta as condições do mercado e de seus clientes. É a política moderada que leva em conta, sobretudo, as possibilidades de capital de giro da empresa ao empreender sua linha de financiamento aos clientes. Não deixa de pertencer ao tipo de empresa com alto grau de controle em seus negócios. Como conseqüência desse tipo de ação, espera-se obter vendas de acordo com o planejamento e com o mercado, um maior equilíbrio entre as vendas e os recebimentos, permitindo uma situação financeira controlável no decorrer do tempo, pois todos os riscos do crédito são absolutamente planejados. Cada uma destas políticas de crédito apresenta riscos inerentes, que se traduzem nas possibilidades de perda e incerteza nas previsões de recebimento. Este assunto será aprofundado no Capítulo 4 da presente obra. Um outro tópico de extrema importância na análise deste importante componente do ativo circulante de uma organização é o que diz respeito à segurança do crédito, que se traduz nos 5 Cs, criados por Weston e Brigham, em seu livro Managerial Finance. Em termos de risco de crédito, segurança absoluta é uma utopia. Segurança relativa com base nas técnicas mais apropriadas de concessão de crédito é o objetivo mais adequado. Os 5 Cs buscam esta segurança relativa. São eles:
a) Caráter Refere-se à determinação de pagar; é a integridade ou qualidade moral que se traduz em honestidade em todas as transações comerciais. b) Condições Refere-se às condições financeiras ligadas à conjuntura econômica, do país ou entre as nações, ao ambiente econômico e sua organização ou desorganização. c) Capacidade Refere-se às condições de gerenciamento do negócio que o cliente possui, à sua competência administrativa, à suas habilidades no negócio. d) Capital Refere-se às condições materiais de que dispõe o cliente, se ele possui ou não capital de giro suficiente para trabalhar e gerir o negócio. e) Colateral Refere-se às garantias e bens pessoais que o cliente oferecerá na hipótese de o negócio ruir ou fracassar. Finalizando o capítulo, apresentaremos um modelo de limitação de crédito, de nossa autoria, o qual pretende determinar um limite à concessão e que seja compatível com as possibilidades de cada cliente. A fase de compra e venda mediante o prazo inicia-se pela visita de um vendedor ao cliente e é materializada pela efetiva compra de mercadorias, matérias-primas ou serviços. Há duas possibilidades: venda feita à vista ou feita a prazo. Se ela for efetuada a prazo, teremos o preenchimento de uma ficha cadastral, com dados de bancos, fornecedores e demais fontes de informação. Essa ficha será analisada, as confirmações de idoneidade serão colhidas, serão ouvidas entidades ligadas ao crédito, como a Serasa e a Associação Comercial, e, quando for o caso, analisadas as demonstrações financeiras fornecidas. Se todas informações forem favoráveis e a análise das demonstrações financeiras possibilitar a concessão do crédito solicitado, virá a questão importante: qual o valor do acúmulo de vendas a prazo que poderá ser
concedido para aquele cliente, ou, em outras palavras, qual será o limite de crédito que aquele cliente suporta ou merece, da parte de um só fornecedor? A fórmula a seguir foi discutida em apresentação para a obtenção do título de mestre em ciências contábeis pelo autor, em 1990, e foi plenamente aprovada pela banca de examinação. Seus parâmetros financeiros são os seguintes: A primeira somatória de informações é denominada Fontes Positivas de Crédito, e os significados das abreviaturas são os seguintes: A segunda somatória de informações é denominada Fontes Negativas de Crédito, e os significados das abreviaturas são os seguintes: Iremos analisar três empresas do ramo de produção de alimentos, com situações totalmente diferentes, e cujas demonstrações apresentam-se a seguir. A aplicação da fórmula determinou:
Podemos notar que os limites são bastante heterogêneos, e que teremos analisado com maior profundidade as demonstrações financeiras, o que deve ter sido tarefa precedente.
É interessante observar que a utilização da fórmula evidenciou que a empresa com menor liquidez corrente foi aquela que apresentou menor limite de crédito, enquanto a que apresentou maior liquidez corrente foi a que apresentou maior limite de crédito. Bibliografia BRAGA, Roberto. Fundamentos e Técnicas de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1989. GITMAN, Lawrence, J. Princípios de Administração Financeira. 3ª. edição, São Paulo. Ed. Harper & Row: 1984. Princípios de Administração Financeira, 10a. edição. São Paulo: Pearson Addison Wesley, 2004. site http://www.bcb.gov.br/?sfncomp, 9.6.2007, 8:20 h, do Banco Central do Brasil, sobre os agentes operadores do Sistema Financeiro Nacional. HOJI, Masakazu. Administração Financeira: uma abordagem prática: matemática financeira aplicada, estratégias financeiras, análise, planejamento e controle financeiro. 5ª. edição. São Paulo: Atlas, 2004. LEITE, Helio de Paula Introdução à Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1994. MARION, José Carlos Análise das Demonstrações Financeiras. São Paulo: Atlas, 2005. MATARAZZO, Dante C. Análise Financeira de Balanços: abordagem básica e gerencial. São Paulo: Atlas, 1998. ROSS, Stephen A. Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 2002. SOUZA, Alceu, CLEMENTE, Ademir Decisões Financeiras e Análise de Investimentos. São Paulo: Atlas, 2004.