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Transcrição:

Banco do Brasil Fernando Nogueira da Costa Professor do IE-UNICAMP http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

Estrutura da apresentação 2

Evolução histórica do Banco do Brasil Descontinuidades nos 200 anos. Razão dos intervalos históricos.

Rio colonial 4

Serra do Mar e Vale do Paraíba 5

Minas colonial 6

Primeiro Banco do Brasil Há 200 anos, aconteceu fato inédito na história mundial: colônia se transformou em império, pois o Brasil passou a ser a sede da Coroa Portuguesa. Em 12 de outubro de 1808, através de alvará do príncipe regente D. João, foi criado o Banco do Brasil, que, instalado no Rio de Janeiro, iniciou suas atividades em 11 de dezembro de 1809. Ele foi exaurido por saques da Corte Portuguesa, em seu retorno a Lisboa, em 1821, caos administrativo e desmandos financeiros, durante o 1º Reinado; sob intensa oposição política, ele foi finalmente liquidado em 1833. 7

Segundo Banco do Brasil Passaram-se 20 anos e, em 1853, outro Banco do Brasil, criado dois anos antes por Barão de Mauá, devido à determinação legislativa, fez fusão com outro banco privado de emissão, o Banco Comercial do Rio de Janeiro. Essa operação foi liderada pelo Visconde de Itaboraí, considerado, oficialmente, o fundador do Banco do Brasil. 8

Terceiro Banco do Brasil Decorridos mais 40 anos, em fevereiro de 1893, as assembléias de acionistas aprovaram a união desse Banco do Brasil com o Banco da República dos Estados Unidos do Brasil, criando o Banco da República do Brasil. Alguns historiadores opinam que esse deve ser considerado o terceiro Banco do Brasil. 9

Atual Banco do Brasil Finalmente, o Decreto n 1.455 de 30 de setembro de 1905 aprovou os estatutos do atual Banco do Brasil. Entre outras determinações, é considerado liquidado o Banco da República do Brasil e foram incorporados seus bens, direitos e ações ao novo banco. Em dezembro, após entendimentos com os acionistas privados e autorização do Congresso Nacional, o governo passou a deter 50% do capital e o controle administrativo da instituição financeira, denominando-a de Banco do Brasil. Apesar de adotar nova personalidade jurídica, as operações (clientes e ativos) e os objetivos principais são os mesmos de 1853, o início da segunda fase operacional: fase atual é segunda, terceira ou quarta fase jurídica do Banco do Brasil? 10

Tentativa de reorganização do segundo Banco do Brasil em 1833 Considerando que a liquidação do primeiro Banco do Brasil tinha sido errado,logo se conseguiu a aprovação de ato legislativo prevendo o estabelecimento de novo BB. A nova instituição teria capital de 20.000 contos de réis, dos quais apenas 2.000 seriam subscritos pelo Governo, mas essa tentativa de reorganização do segundo Banco do Brasil, em 1833, fracassou em virtude das fraudes, ocorridas durante a extinção do primeiro banco, que ficaram na memória dos investidores. Ele não chegou a ser estabelecido, devido à impossibilidade de serem obtidos recursos privados suficientes para constituir seu capital mínimo. 11

Período regencial O país vivia também, no período que foi da abdicação de D. Pedro I, em 1831, à coroação de seu filho, D. Pedro II, em 1840, intensa turbulência político-militar. Houve as seguintes revoltas separatistas / nativistas: 1. Revolta Farroupilha, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, entre 1835 e 1845; 2. as Revoltas Liberais, em São Paulo e Minas Gerais, em 1842; 3. as Malês (1835) e Sabinada (1837-1838), na Bahia; 4. a Praieira, em Pernambuco, entre 1848 e 1852; 5. a Balaiada, no Maranhão e no Piauí, entre 1838 e 1841; 6. a Cabanagem, no Pará, entre 1835 e 1840. O período regencial foi, à custa da quebra do mito da índole pacífica do povo brasileiro, período-chave na construção da Nação brasileira com grande território unificado, distinto da fragmentação da América espanhola. 12

Brasil fragmentado 13

Revoltas regenciais As revoltas regenciais, aparentemente nativistas e/ou separatistas, questionavam o espaço político reservado para as oligarquias regionais e as províncias periféricas. A implantação de medidas descentralizadoras fortaleceu a disputa de poder das elites locais. Com a vitória dos que pregavam a centralização absolutista, as províncias revoltosas foram subordinadas ao poder central, já sob o império de Dom Pedro II. Só com a constituição de verdadeiro Estado nacional, tornou-se viável a emissão de uma única moeda aceita nacionalmente. Nos anos 40, legislou-se a respeito do novo padrão monetário: a Lei do Padrão Ouro. 14

Necessidade de moeda nacional A Lei Euzébio de Queiroz, em 1850, regulando a repressão do tráfico de escravos, teve o papel de quebrar a força econômica dos comerciantes de escravos. Naquele estágio, não foram conquistados: 1. a extinção da escravidão, 2. o assentamento rural dos negros libertos, o que exigiria reforma fundiária, e 3. a criação de mercado de trabalho assalariado, A expansão desse mercado de trabalho, certamente, ampliaria o mercado consumidor interno e a necessidade de moeda nacional. 15

Seguidas fundações de bancos particulares de emissão O começo de longo ciclo cafeeiro no Brasil e o estabelecimento de bancos por meio da emissão de ações contribuíram para seguidas fundações de bancos particulares de emissão. O primeiro banco privado do país foi o Banco do Ceará, criado em 1836 e liquidado três anos após; em 1838, grupo de capitalistas fundou o Banco Comercial do Rio de Janeiro, que atuou sem carta patente até 1842, ao qual se seguiram outros estabelecimentos como o Banco Comercial da Bahia em 1845, o Banco Comercial do Maranhão em 1846, o Banco do Pará em 1847, e o Banco Comercial de Pernambuco em 1851. Surgiu então o que viria ser o maior dos novos bancos: o Banco do Comércio e Indústria do Brasil, fundado, em 1851, por Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), Barão e depois Visconde de Mauá; o nome do seu banco logo mudou para Banco do Brasil, o mesmo nome do banco que tinha quebrado em 1833. 16

Fundação definitiva do BB No grupo político então detentor de poder, aliado ao Imperador, questionava-se a concessão de direitos de emissão a banqueiros que os utilizavam em benefício próprio, isto é, de suas outras empresas. Isso se referia, particularmente, a esse Banco do Brasil de propriedade do então opositor Barão de Mauá. Os vales dos bancos privados concorriam com as Notas do Tesouro Nacional, causando a depreciação da moeda nacional. Dessa forma, só quando foram estabelecidas as condições mínimas necessárias para a soberania nacional o monopólio estatal da violência e o da emissão de uma moeda nacional foi fundado, definitivamente, o Banco do Brasil. Seu principal objetivo institucional era o mesmo do atual: ser banco de governo, servindo a Estado soberano, para construir Nação integrada e independente. 17

Funções do Banco do Brasil BB: semi-autoridade monetária e/ou banco de governo? Fio-condutor da sua história.

Hipótese unificadora Hipótese para unificar a história do BB em torno de fio-condutor: embora ele tenha experimentado, periodicamente, crises de identidade (e até mesmo crises de desaparecimento ), predominou, em última análise, seu papel de banco do governo. Ele nunca assumiu, inteiramente, todas as funções clássicas de autoridade monetária. Talvez, até porque também tenha assumido, na sua última versão (após 1905), a função de fomento do desenvolvimento nacional. 19

Funções clássicas de Banco Central O Banco do Brasil foi fundado, pela primeira vez, por D. João VI, como banco de governo. Esta é uma das funções clássicas de Banco Central, é aquela em que atua, prioritariamente, como agente de financiamento do governo, o que inclusive coloca limite para sua taxa de juros. Somente quando teve sua Carteira de Redescontos (1920-1924 e 1930-1945), ele atuou como banco dos bancos, ou seja, emprestador em última instância. Em outros momentos ele foi cerceado nessa função, pois ela consistia em ser fator expansionista do estoque nominal de moeda. 20

Funções clássicas de Banco Central Ele também nunca foi banco fiscalizador, isto é, supervisor do cumprimento da regulamentação do sistema financeiro nacional, visando a estabilidade sistêmica. A Inspetoria Geral dos Bancos, em 1921, a SUMOC, em 1945, e, finalmente, o Banco Central do Brasil, em 1964, assumiram essa atribuição. Como banco de câmbio protetor dos valores de troca entre a moeda nacional e a moeda estrangeira, estabilizando (ou não) a taxa de câmbio o Banco do Brasil atuou como linha - auxiliar da política cambial, desde a época da Caixa de Conversão (1906) até a extinção da CACEX (1953-1990), no início da era neoliberal de abertura externa. 21

Funções clássicas de Banco Central Com a mesma orientação de linha-auxiliar da política econômica, em seu papel de regulador de mercado, o BB foi banco controlador da taxa de juros e dos termos de financiamento, principalmente no crédito agrícola. Entretanto, nem sempre buscou cumprir a meta da programação monetária e/ou da inflação, pois sua prioridade maior foi, em vários momentos, a atuação desenvolvimentista e não o controle da oferta de moeda interna. 22

Papelismo X Metalismo Ao longo de sua história (em suas várias versões), o Banco do Brasil ganhava e perdia, sucessivamente, a faculdade de ser o único emissor de moeda. O monopólio emissor, ocasionalmente, passava ao Tesouro Nacional. Essas idas e vindas refletiam o debate que durou décadas entre a escola papelista, que dava prioridade ao atendimento da demanda de meio circulante, e a escola metalista, defensora do padrão-ouro. O Banco do Brasil obedecia ora a uma corrente, ora a outra, de acordo com os dirigentes que detinham o poder em um ou outro momento. 23

Pluralidade emissora Em vários momentos do século XIX, a chamada free banking policy triunfou, retornando o país à pluralidade emissora, principalmente sobre o lastro de apólices. Desde que terminasse a reserva de moeda puramente metálica do país, o Banco do Brasil recebia atribuições que lhe permitiam absorver a maior parte dos bancos de emissão existentes. 24

Semi-autoridade monetária Essa dubiedade permaneceu até pelo menos 1986. Em sua condição híbrida de banco comercial e banco central, o Banco do Brasil sempre foi capaz de ofertar recursos em quantidade superior à sua captação, na medida em que não era obrigado a custodiar parte dos seus depósitos, como os demais bancos comerciais. Como semi-autoridade monetária, o Banco nunca esteve sujeito aos rigores da prática bancária usual, que previa: determinados limites de segurança para o encaixe monetário e o recolhimento compulsório de certa fração dos depósitos bancários. 25

Conta de Movimento Apesar de ter sido proibido de emprestar ao Tesouro, o Banco do Brasil preservou, após 1964, o manejo de recursos fiscais e a exclusiva capacidade de avançar crédito sem as restrições impostas aos demais bancos. Na prática, ficou desobrigado dos depósitos compulsórios, uma vez que sua conta de reservas bancárias no Banco Central desfrutava de nivelamento automático através da chamada Conta de Movimento. Por isso, manteve-se na condição de quase-autoridade monetária até as reformas das finanças públicas, implementadas de 1986 a 1988, necessárias para o processo de unificação orçamentária. A partir de então, o Tesouro Nacional deixou de lhe fornecer os recursos necessários para ele atender às operações de crédito agrícola. 26

Crise do BB Nesse triênio (1986 a 1988), a redefinição das relações entre o Tesouro Nacional, o Banco Central e o Banco do Brasil, além de estreitar, mais uma vez, o seu lugar no âmbito da política monetária e fiscal, foi também decisiva para conduzir o Banco do Brasil à situação de crise, refletida em sua situação patrimonial e financeira. Essa crise explodiu, no 2º semestre de 1994, devido a: o fim do ganho inflacionário com floating, o descompasso entre a variação dos ativos, indexados à UFIR ao dólar (ativos de US$ 6 bi no exterior), em relação à dos passivos na nova moeda nacional (real) sobrevalorizada, as seguidas perdas com renegociações da dívida rural e a carência de funding adequado para a política agrícola. 27

PDV Em todos os bancos federais, expressando o espírito da era neoliberal, tentou-se a implementação de política que estancasse o crescimento da folha de pagamentos, inclusive controlando salários e diminuindo o número de empregados através de Programas de Incentivo ao Desligamento Voluntário (PDV) no primeiro ano do governo FHC, foram cortados 24.711 empregos no Banco do Brasil, cerca de 21% do total dos empregados (119.380) no ano anterior. Ele tinha alcançado, somando 126 mil empregados e 25 mil estagiários, 151 mil funcionários em dezembro de 1993. Com a diretriz seguidora das ondas de enxugamento dos empregos (reengeneering, decruiting, downsizing, etc.), três anos após, em dezembro de 1996, o número de funcionários já tinha caído para 99 mil, sendo 85 mil empregados e 14 mil estagiários. 28

Questão do perdão das dívidas Não houve nenhuma abertura de espaço para discussão sobre alternativas possíveis ao PDV. Se o processo de debate fosse aberto ao público, o diagnóstico teria de ser aprofundado e a terapia não seria restrita ao corte de folha de pagamentos. Haveria de se enfrentar o conflito de interesses, inclusive com a bancada ruralista no Congresso, em torno da atuação do Banco. De maneira velada e recorrente, era imputado à contabilidade bancária o ônus de decisões exógenas de natureza fiscal. 29

Capitalização e reestruturação patrimonial O caminho mais fácil, politicamente, foi o escolhido. Tratou-se de ampliar os números negativos do Banco do Brasil pela contabilização antecipada como prejuízo de dívidas ainda a receber. Anunciar que o Banco estava à beira da falência justificava as medidas saneadoras a serem adotadas, facilitando a aceitação da inevitabilidade das demissões. A crise somente veio a ser enfrentada, de fato, em 1996, pela primeira vez, e 2001, na segunda tentativa, com a capitalização e a reestruturação patrimonial, realizadas por seu controlador, o Tesouro Nacional. 30

Histórica crise de identidade 1. O Banco do Brasil deveria se assumir como instrumento e agente de políticas públicas voltadas para o fomento de setores prioritários tais como a agropecuária, a agroindústria e os complexos exportadores e as seguidas renegociações políticas de suas dívidas? 2. Ou deveria se dedicar, exclusivamente, a explorar todas as dimensões de banco múltiplo, fortalecendo sua competitividade no mercado? 31

Lição da história A lição da história bancária brasileira é que esse impasse é congênito aos bancos públicos. A contínua troca de direções, seja em regime ditatorial, seja em regime democrático, devido à alternância de poder, tornou insuperável o problema da descontinuidade administrativa e estratégica. Mas colou a história do Banco à do Brasil. 32

Debate ideológico: Banco do Brasil perante visões conflitantes

Sindicalistas X neoliberais Nos anos 90, os sindicalistas detonaram campanha contra a privatização e em defesa das empresas estatais: de início, foi em vão. Os neoliberais contra-argumentavam que, em vez de ser ideológica, insinuava-se, claramente, estratégia para manutenção do status quo das empresas estatais na sua função de cabides de emprego. Privatizar, para os neoliberais, significaria sanear essas empresas, para que se tornassem atraentes para os investidores. Sanear representaria enxugar suas folhas de pagamento, colocar fim na histórica estabilidade do emprego. Especialmente, no caso dos bancários, significaria fragilizar o movimento sindical onde ele era mais forte, nos bancos estatais. 34

Agenda 21 Banco do Brasil com Responsabilidade Socioambiental No último quarto de século, a luta contra o modo de produção foi superada, no sentido de manutenção e ampliação, pela luta por novo modo de vida ecológico, em que haja: o reconhecimento dos direitos da diversidade entre as pessoas e a sustentabilidade do meio ambiente. Essa é a genealogia do ponto de chegada na história do BB: a Agenda 21 Banco do Brasil com Responsabilidade Socioambiental. O idealismo dessa atitude empresarial contemporânea é contraposta à pseudo-racionalidade, à pretensa eficácia e ao pragmatismo (responsável pela manutenção do status quo) da agenda liberal-conservadora hegemônica até então. 35

Novo pacto corporativo O Banco do Brasil faz parte do conjunto das organizações brasileiras responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias na sociedade civil. A alternância democrática do poder, em 2003, possibilitou a criação de novo pacto corporativo em torno da responsabilidade socioambiental da Empresa. Proporcionou, assim, a colagem ideológica entre a alta administração e o corpo funcional, cujo entendimento mútuo tinha sofrido rompimento ou, pelo menos, interrupção de continuidade, nos episódios (PDV) ocorridos em meados da década anterior. 36

Coesão interna Essa divisão entre a alta administração e o corpo funcional era ainda fratura exposta na coesão interna. A quebra de históricos compromissos implícitos respeito profissional e estabilidade no emprego constituiu violação ou infração tão violenta do contrato mútuo que apenas acordo consensual em torno da responsabilidade socioambiental a superaria. A nova direção buscou ganhar aliados para suas posições, restabelecendo a coesão interna, através da participação e do consenso. 37

Governança corporativa Como mecanismo de defesa contra a ingerência política, em 2006, o Banco do Brasil foi a primeira empresa federal a aderir ao Novo Mercado da Bovespa, segmento que reunia as instituições com as mais rigorosas práticas de governança corporativa. Nesse sentido, o estatuto do BB passou a prever práticas de governança corporativa, para garantir: 1. o equilíbrio de direitos entre os acionistas (Tesouro Nacional, Previ, BNDESpar e privados minoritários), 2. a sustentabilidade dos negócios, 3. a transparência, 4. a prestação de contas para acionistas e para a sociedade, e 5. a ética no relacionamento com seus públicos. 38

Consenso a respeito da nova agenda da Empresa O Banco do Brasil cuida para que seus negócios gerem resultados econômicos, sob a forma de: lucros e participação no mercado. Mas, ao mesmo tempo, busca resultados sociais e ambientais, sob a forma de: inclusão social, geração de trabalho e renda e respeito ao meio ambiente. 39

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