Turma e Ano: Delegado Civil (2013) Matéria / Aula: Direito Civil / Aula 1 Professor: Rafael da Mota Mendonça Monitor: Marcelo Coimbra E-mail do professor: rafaeldamota@gmail.com Parte Geral do Direito Civil: A parte geral do direito civil é dividida em três livros: pessoas, bens e fatos jurídicos. O livro I Das Pessoas é dividido em três títulos: da pessoa natural, da pessoa jurídica e do domicílio. O título I da pessoa natural é dividido em Personalidade, Capacidade, Direito da Personalidade e Ausência.
1) Personalidade: a. Conceito de Personalidade (Art. 1º CC): É a capacidade de adquirir direitos e deveres na ordem civil. Quem tem essa capacidade é chamado de sujeito de direito. Pode ser sujeito de direito tanto a pessoa natural quanto a pessoa jurídica. b. Início da Personalidade (Art. 2º CC): a personalidade da pessoa natural tem início no nascimento com vida. O Código Civil adotou a Teoria Natalista. A segunda parte do Art. 2º diz que os direitos do nascituro estão protegidos desde o momento da concepção. O nascituro tem direitos? Não. Ele tem somente expectativa de direito. Questão: eu posso fazer uma doação para um nascituro? Posso, mas a doação é um negocio jurídico condicional (existe, é valido, mas so produzira os efeitos se ocorrer um evento futuro e incerto que é o nascimento com vida - fazer uma remissão do Art. 2º para o Art. 542, que trabalha com a doação para o nascituro). Não esqueça que o STF e o STJ adotam a Teoria Concepcionista e por esta teoria, o nascituro já seria titular de direitos da personalidade. Não esqueça que a personalidade também pode ter outro viés. Pode ser chamada de Conjunto de Atributos da Pessoa Humana (honra, moral, nome, corpo, imagem, privacidade), que nada mais são que os Direitos da Personalidade. Enquanto a personalidade é tratada sob uma ótica patrimonial, os direitos da personalidade são tratados sob ótica extrapatrimonial. O nascituro para o STF e STJ só tem direito da personalidade, mas não tem personalidade no viés patrimonial, então para o STF e STJ continuam a ser um negocio jurídico condicional. c. Extinção da Personalidade: i. Tipos de Extinção da Personalidade: A personalidade da pessoa natural se extingue com a morte. A morte pode ser natural, acidental e presumida.
ii. Espécies de morte presumida: temos a morte presumida do Art. 7º e a morte presumida da Ausência (Art. 22 ao Art. 38). Art. 7º: Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência: I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida; II - se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra. Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do falecimento. No Art. 7º não é necessário um processo de ausência, porque nesse caso a morte é muito provável. Questão: uma pessoa esta num voo, o avião cai no mar e a pessoa desaparece. Para abrir um inventário é necessário somente um documento da empresa aérea dizendo que a pessoa estava no voo, ou é necessária uma sentença? A morte presumida do Art. 7º tem que ser declarada judicialmente? O parágrafo único do Art. 7º diz que sim, é necessária sentença. Essa sentença tem que ser registrada ou averbada? Em que cartório? Registro (Art. 9º) é um primeiro ato. Já averbação (Art. 10) tem um caráter acessório, é qualquer retificação que se faça naquele registro. Então a sentença que declare a morte presumida tem que ser REGISTRADA no registro civil de pessoas naturais. Morte presumida da ausência: precisa também de uma decisão judicial. Será trabalhada posteriormente.
2) Capacidade: a. Espécies de Capacidade: i. De Direito/Genérica: o conceito se confunde com o conceito de personalidade. É a capacidade de adquirir direitos e deveres. ii. De Fato/Exercício: é a aptidão que a pessoa tem para pessoalmente praticar atos jurídicos. Quem não tem essa aptidão é chamado de incapaz. A incapacidade é definida por lei. Não é a decisão que vai dizer se a pessoa é ou não incapaz, quem vai dizer é a lei, a sentença judicial é meramente declaratória. b. Incapacidade: i. Absoluta (Art. 3º): não pode praticar atos jurídicos pessoalmente, mas pode desde que esteja assistido. Quem é absolutamente incapaz? Art. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I - os menores de dezesseis anos; II - os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos; III - os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade. ii. Relativa (Art. 4º): Art. 4o São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido; III - os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo;
IV - os pródigos. Parágrafo único. A capacidade dos índios será regulada por legislação especial. iii. Observações sobre incapacidade: 1. Atos em que o menor entre 16 e 18 anos pode praticar sem assistência: a. Depor como testemunha (Art. 228, I); b. Ser mandatário (Art. 666); c. Celebrar testamento (Art. 1860, p.u.); d. Votar e. Alistamento Militar 2. Hipóteses de Antecipação da Capacidade Plena do Menor (Emancipação) Art. 5º p.u.: a. Emancipação Voluntária (I -1ª Parte): é aquela que os pais realizam em favor dos filhos. Tem três requisitos: mínimo de 16 anos; vontade de ambos os pais; instrumento público. Se um dos pais não autoriza emancipação? O menor representado pelo outro pai tem que entrar com ação judicial de suprimento de vontade. A vontade desse pai será substituída por decisão judicial. A emancipação não deixa de ser voluntária, mesmo com a decisão judicial substituindo uma daquelas vontades. b. Emancipação Judicial (I 2ª Parte): é aquela que depende de decisão judicial. Ocorre quando o tutor quiser emancipar o seu tutelado. Nesse caso o menor também tem que ter o mínimo de 16 anos.
c. Emancipação Legal (II, III, IV e V): é a emancipação que independe de decisão judicial, ocorre pela vontade da lei. Casamento: é causa de emancipação. A idade núbil é de 16 anos (Art. 1517). O menor com 16 pode casar, mas precisa de autorização dos pais. Entretanto em hipótese de gravidez, poderá o menor casar com menos de 16 anos (Art. 1520). 3) Direitos da Personalidade: a. Características dos Direitos da Personalidade: i. Extrapatrimonial ii. Intransmissível (os direitos da personalidade não se transferem com a herança, são extintos com a morte) iii. Inalienável iv. Impenhorável v. Oponível Erga Omnes vi. Imprescritível vii. Inatos (decorrem da simples existência humana) viii. Irrenunciável: o seu titular não pode dispor de seus direitos, mas essa irrenunciabilidade é relativa o titular só poderá dispor dos próprios direitos da personalidade quando a lei autorizar. Hipóteses em que a lei autoriza a disposição dos direitos da personalidade: Art. 13 e 14 CC. Estes artigos trabalham com o direito ao corpo. Tanto pode se dispor do próprio corpo que eu posso doar um órgão. 4) Pessoa Jurídica:
a. Classificação da Pessoa Jurídica: i. Pessoa Jurídica de D. Público Interno: Art. 41. São pessoas jurídicas de direito público interno: I - a União; II - os Estados, o Distrito Federal e os Territórios; III - os Municípios; IV - as autarquias, inclusive as associações públicas; V - as demais entidades de caráter público criadas por lei. Parágrafo único. Salvo disposição em contrário, as pessoas jurídicas de direito público, a que se tenha dado estrutura de direito privado, regem-se, no que couber, quanto ao seu funcionamento, pelas normas deste Código. Temos duas observações a fazer no rol do Art. 41. A primeira observação está no inciso IV (Associações Públicas). Que associações públicas são essas? Podemos perceber que esse inciso IV foi alterado pela L. 11.107/05 que é a Lei dos
Consórcios Públicos. Essa associação pública que está aqui é a associação que administra o consórcio público. Questão: o rol do Art. 41 é taxativo ou exemplificativo? É só olhar o inciso V, quando ele abre para as demais entidades de caráter público criadas por lei. Logo o rol é exemplificativo. Se o rol é exemplificativo, quais são as pessoas jurídicas de direito público interno que não estão nesse rol? O parágrafo único fala nas pessoas jurídicas de direito público a que se tenha dado estrutura de direito privado. Não estamos falando aqui das Sociedades de Economia Mista e Empresas Públicas, pois estas são pessoas de direito privado. Estamos falando sim das Fundações Públicas e os Entes de Fiscalização Profissional. Qual a natureza jurídica dos bens que integram essas pessoas jurídicas de direito público com estrutura de direito privado? (faça uma remissão do Art. 41 p.u. para o Art. 99 p.u.). Salvo disposição legal são bens públicos dominicais. ii. Pessoa Jurídica de D. Público Externo (Art. 42): Art. 42. São pessoas jurídicas de direito público externo os Estados estrangeiros e todas as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público. Qual a natureza jurídica da República Federativa do Brasil? É de pessoa jurídica de direito público externo. iii. Pessoas Jurídicas de Direito Privado: Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado: I - as associações;
II - as sociedades; III - as fundações. IV - as organizações religiosas; V - os partidos políticos. VI - as empresas individuais de responsabilidade limitada. O rol do Art. 44 é taxativo ou exemplificativo? R: Exemplificativo. Temos outras pessoas de direito privado que não estão aqui, como as Empresas Públicas e as Sociedades de Economia Mista. O condomínio (há quem entenda que é pessoa jurídica) também não está aqui. 5) Domicílio: a. Conceito: o conceito de domicílio é formado por dois elementos: um elemento objetivo e elemento subjetivo. O elemento objetivo é a estada habitual em determinada localidade. Porém a simples estada não forma domicílio, por isso precisa do elemento subjetivo que é o animus de permanecer em definitivo. O Brasil adotou no Art. 71 CC a Teoria da Pluralidade Domiciliar. E aquelas pessoas que não tem o animo de permanecer em definitivo em lugar algum? São chamados de adônidas. O Art. 73 diz que o domicílio do adônida é o local onde for encontrado. b. Classificação do Domicílio: i. Domicílio Profissional (Art. 72) ii. Domicílio da Pessoa Jurídica (Art. 75) iii. Domicílio Necessário (Art. 76 e p.u.): é o domicílio imposto por lei. Não interessa o animus, interessa o que a lei quis. iv. Domicílio do Diplomata (Art. 77) v. Domicílio Especial (Art. 78)
6) Bens: Os bens estão disciplinados do Art. 79 ao 103. Estudaremos de forma diluída ao longo do curso. 7) Fatos Jurídicos: a. Conceito: É qualquer fato que cria, modifica ou extingue um direito. Se esse fato for causado pela natureza, temos um fato jurídico natural, se for causado pelo homem, temos um fato jurídico humano. b. Atos Ilícitos: Na responsabilidade civil, dividimos o estudo na responsabilidade civil extracontratual e na responsabilidade civil contratual. Qual é a fonte da responsabilidade civil extracontratual? O Ato ilícito. A fonte da responsabilidade civil contratual é o inadimplemento. O conceito de ato ilícito está no Art. 186. Deste conceito, nós tiramos os seus três elementos: culpa, nexo causal e dano.
Quando precisamos dos três elementos (culpa + nexo causal + dano) para comprovar a responsabilidade civil, estamos falando na responsabilidade subjetiva (Teoria da Culpa). Mas em alguns momentos podemos excluir o elemento culpa, que são os casos de responsabilidade civil objetiva, presentes no Art. 927, lembrando que o ato ilícito é fonte da responsabilidade extracontratual. Abuso de Direito (Art. 187): Hoje o exercício abusivo de um direito é ato ilícito. Mas quando uma pessoa exerce de forma abusiva um direito? O Art. 187 traz quatro limites: Limite do fim econômico, do fim social, dos bons costumes e da boa-fé objetiva. A responsabilidade civil no exercício abusivo de um direito é objetiva. Não é necessário demonstrar a conduta culposa. O Art. 188 trabalha com as Excludentes de Ilicitude (legitima defesa, exercício regular do direito e estado de necessidade. Aqui, por mais que se cause um dano a alguém o ato praticado será um ato lícito. c. Ato Jurídico: Qual a diferença entre Ato Jurídico e Negócio Jurídico? O ato jurídico tem os seus efeitos previstos em lei, enquanto o negócio jurídico tem os seus efeitos decorrentes da vontade das partes. O Art. 185 diz que se aplicam ao ato jurídico todas as disposições do negócio jurídico. Isso se deve ao fato de que o legislador, por lógica, achou melhor disciplinar de forma mais elaborada o negocio jurídico (cujos efeitos decorrem da vontade das parte) do que o ato jurídico (cujos efeitos se encontram na lei). d. Negócio Jurídico: i. Classificação do Negócio Jurídico:
1. Negocio Jurídico Unilateral: O negócio jurídico unilateral é aquele que se aperfeiçoa com a manifestação de apenas uma vontade. Os negócios unilaterais estão entre os Art. 854 a 878. Ex.: testamento, promessa de recompensa. 2. Negócio Jurídico Bilateral: é aquele que se aperfeiçoa com o encontro de pelo menos duas vontades. Ex.: Contrato. Obs.: não de pode confundir o negócio jurídico com o contrato unilateral e bilateral. O contrato unilateral é aquele que gera obrigações para apenas uma das partes. O contrato bilateral gera obrigação para as duas partes. Ex. Contrato Unilateral Doação. Para que o contrato de doação é necessária a aceitação do donatário (porque é um contrato). ii. Elementos do Negócio Jurídico:
1. Elementos Essenciais: são aqueles que devem estar presentes e todo e qualquer negócio jurídico. - Partes - Objeto - Consentimento - Forma 2. Elementos Acidentais (Art. 123 ao 127): são aqueles que vão estar presentes no negócio quando as partes convencionarem. - Condição - Termo - Encargo 3. Planos do Negócio Jurídico: a. Plano de Existência: o negócio jurídico existe quando estão presentes os elementos essenciais (partes, objeto, consentimento e forma), independentemente de estarem em conformação às exigências da lei. Ex.: Compra e venda celebrada por um menor de 11 anos existe? Sim. A capacidade da parte é irrelevante para o plano de existência. b. Plano de Validade: o negocio jurídico é válido quando estão presentes os elementos essenciais e todos estão em conformidade com a lei. É por isso que o art. 104 vai dizer que o negócio é valido quando as partes forem capazes e legitimas, quando o objeto for lícito, possível, determinado ou determinável; o consentimento for livre; e a forma for prescrita ou não defesa em lei. Em regra, aqui o negócio jurídico já é eficaz. A não ser que as partes estipulem os elementos
acidentais, que são a condição, o termo e o encargo. Porém caso o negócio seja inválido, temos que saber qual é o grau da invalidade, para isso temos a Teoria das Nulidades. Temos que saber se o negócio é nulo (nulidade absoluta), ou anulável (nulidade relativa). As hipóteses de nulidade absoluta ou relativa são impostas por lei. As hipóteses de nulidade absoluta estão no Art. 166 e as de nulidade relativa, no Art. 171. Diferenças entre Nulidade Absoluta e Nulidade Relativa: Nulidade Absoluta Nulidade Relativa Quanto aos legitimados para requerer a nulidade: Quanto à sanabilidade do vício Quanto aos prazos Qualquer interessado, ou o MP (Art. 168) Vício Insanável (Art. 169) Pode ser requerida a qualquer tempo Somente as partes. Vício Sanável as partes podem confirmar o negócio (Art. 172 ao 175) Prazo decadencial de dois ou quatro anos (A regra é que seja de quatro anos
Quanto ao reconhecimento de ofício pelo magistrado Quanto à natureza jurídica da sentença Quanto aos efeitos da sentença O juiz pode reconhecer de ofício (Art. 168 p.u.) Sentença declaratória Ex tunc - retroagem Art. 178) O juiz não pode reconhecer de ofício (Art. 177) Sentença constitutiva Em regra são ex nunc. Porém o Art. 182 traz o efeito ex tunc. c. Plano de Eficácia: o negócio jurídico será imediatamente eficaz se valido for e não estiverem presentes os elementos acidentais (condição, termo e encargo). 4. Hipóteses de Nulidade Absoluta: Vejamos o Art. 166: Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando: I - celebrado por pessoa absolutamente incapaz; II - for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto; III - o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito; IV - não revestir a forma prescrita em lei;
V - for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade; VI - tiver por objetivo fraudar lei imperativa; VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção. a. Inciso IV: quando falamos na forma do negócio jurídico a regra no CC é o formalismo ou o informalismo? A regra é o informalismo, essa regra está no Art. 107 CC. Eu posso celebrar o negocio jurídico do jeito que eu achar melhor é o principio da Liberdade das Formas. A não ser que a lei imponha uma forma específica. b. Inciso V: alguns contratos tem solenidade, e essas solenidade tem que ser observada sob pena de ser considerado nulo. Ex.: Casamento. c. Inciso VII: o rol do Art. 166 é taxativo ou exemplificativo? É exemplificativo, pois o inciso VII abre a outras hipóteses. Questão: o direito brasileiro permite a compra e venda de coisa futura? Sim, o Art. 483 permite. Porém a compra e venda de coisa futura é contrato aleatório (Art. 458 a 461). Mas qual é a única coisa futura que não pode ser objeto de compra e venda? A herança de pessoa viva (Art. 426 CC). Se eu ignoro essa proibição e vendo, é nulo, por força da 2º parte do inciso VII do Art. 166. 5. Hipóteses de Nulidade Relativa (Art. 171): Art. 171. Além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico: I - por incapacidade relativa do agente;
II - por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores. O rol é exemplificativo. a. Inciso II: esse inciso traz um vício de consentimento e um vício social (fraude contra credores é um vicio social porque atinge um terceiro). Esses vícios estão todos eles disciplinados nos Art. 138 ao Art. 165. 8) Prescrição e Decadência: a. Diferenças entre prescrição e decadência: Quanto ao direito envolvido Prescrição Direito Subjetivo Decadência Direito Potestativo Quanto ao objeto Pretensão Direito Potestativo Quanto aos prazos Quanto ao reconhecimento de ofício pelo magistrado Quanto à Renúncia Quanto às causas preclusivas Previsto em lei Sim Sim, expressa ou tacitamente. Sim (Art. 197, 198, 199 e 202) Previsto em lei ou pela vontade das partes Somente a decadência legal Somente a decadência convencional Em regra, não. Exceção: Art. 195 e 198, I.
i. Quanto ao Direito Envolvido: Direito subjetivo é o poder que a lei confere ao individuo para exigir determinada prestação de outrem. Já o direito potestativo é o poder que o individuo tem de influenciar a esfera jurídica alheia. Ex.: Divórcio. ii. Quanto ao Objeto: O objeto da prescrição é a pretensão (Art. 189). A pretensão é o que dá exigibilidade ao direito subjetivo. Se eu fico inerte, ocorre a extinção da pretensão, que é a prescrição (Os art. 882 e 883 dizem que a dívida prescrita é irrepetível). O objeto da decadência é o próprio direito potestativo. iii. Quanto aos Prazos: o Art. 192 diz que os prazos prescricionais só podem estar na lei, e estão nos Art. 205 e 206. No Art. 205 temos o prazo prescricional ordinário, que é de dez anos, e tem caráter residual (só será aplicado quando não tiver um prazo específico do art. 206). Os prazos decadenciais podem estar na lei ou decorrer do encontro de vontades. Qualquer prazo do código que não esteja no art. 205 e 206 é prazo decadencial. iv. Quanto ao Reconhecimento de ofício pelo magistrado: o juiz pode reconhecer de oficio a prescrição(art. 219 5º CPC). Quanto a decadência? O Art. 210 CC diz que o juiz só pode reconhecer de ofício a decadência legal. v. Quanto à renúncia: é possível renunciar à prescrição? Sim, Art. 191. A renuncia poderá ser expressa ou tácita. Exemplo de renúncia tácita da prescrição é o pagamento. Outro exemplo é a novação de dívida prescrita. Renúncia à decadência: o Art. 209 diz que é nula a renúncia à decadência fixada em lei. Pode-se renunciar somente a decadência convencional. vi. Quanto ao momento para arguir: o Art. 193 diz que você pode arguir a prescrição em qualquer grau de jurisdição. Então eu posso arguir prescrição pela primeira vez em
recurso especial? Não, pois faltará o prequestionamento. E a decadência? Aqui não há uma diferença: ela também pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, tanto a legal quanto a convencional. Cuidado porque o Art. 211 vai dizer que a decadência convencional pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, mas a legal também pode. vii. Quanto às causas preclusivas: O que são causas preclusivas? São causas que impedem, suspendem ou interrompem os prazos. Essas causas se aplicam à prescrição? Sim. E quais são elas: estão nos Art. 197, 198 e 199 (impeditivas e suspensivas) e no Art. 202 (causas interruptivas). A mesma causa pode ser uma causa impeditiva e suspensiva? Sim. Tudo depende do momento em que o direito subjetivo for violado. O legislador tentou em cada um desses artigos agrupar causas de mesma natureza. No art. 197 ele agrupou causas que decorrem de relação jurídica (entre cônjuges, ascendentes e descendentes...). No Art. 198 o legislador agrupou causas que decorrem de uma situação pessoal do titular, e no Art. 199 o legislador agrupou causas externas. Causas que interrompem a prescrição: estão no Art. 202. Duas observações: a interrupção só pode ocorrer uma vez, por qualquer das causas; o prazo volta a contar do zero da data em que se interrompeu a prescrição. Essas causas preclusivas se aplicam à decadência? O Art. 207 diz que não se aplicam à decadência as normas que impedem, suspendem ou interrompem a prescrição, salvo disposição em contrário. Essa exceção está no Art. 208, que diz que se aplica a decadência o disposto nos art. 195 e 198, I (não corre a prescrição contra absolutamente incapaz). Contra o absolutamente incapaz nem a prescrição nem a decadência. 9) Direito das Obrigações:
a. Teoria do Adimplemento Obrigacional: o adimplemento de uma obrigação se dá com o pagamento. O efeito do pagamento é a extinção da obrigação. b. Modalidades de Pagamento: i. Pagamento Direto ii. Pagamento em Consignação iii. Pagamento com Sub-rogação iv. Imputação do Pagamento v. Dação em Pagamento c. Formas de Extinção das Obrigações sem pagamento: i. Novação: extinção da obrigação pela criação de uma nova obrigação. ii. Compensação iii. Confusão iv. Remissão: é um perdão, sem pagamento. v. Transação: a transação e o compromisso são contratos em espécie, e estão nos art. 840 a 855 CC. As modalidades de pagamento vão do Art. 304 ao 359, enquanto as formas de extinção sem pagamento vão do Art. 360 ao 388. vi. Compromisso d. Pagamento Direto (Art. 304 a 333): i. Quem deve pagar: o devedor. Mas o terceiro também pode pagar. O terceiro pode ser interessado ou não-interessado. O terceiro não interessado pode pagar em nome e conta do devedor ou pode pagar em nome próprio. ii. Terceiro Interessado: é aquele de quem o credor pode exigir diretamente o cumprimento da obrigação e também aquele que sofre as consequências do inadimplemento. Ex.: Fiador (pode ser exigido diretamente), sublocatário (sofre as consequências do inadimplemento), cônjuge, etc. O terceiro interessado pode pagar? Sim. Mas se ele pagar, o que acontece? Ele se sub-roga no direito do credor. A subrogação pode ser legal (Art. 346) ou convencional (Art. 347).
Na hipótese do terceiro interessado, a sub-rogação se dá por força de lei. Quais são os efeitos da sub-rogação? Estão no Art. 349, e são chamados efeitos translativos. Pelos efeitos translativos da sub-rogação, o terceiro interessado que paga assume todas as garantias e privilégios do credor. E se o credor se opõe ao pagamento de terceiro interessado? O terceiro interessado pode consignar o pagamento? Sim, Art. 304 (faça uma remissão para o Art. 334, que é o artigo da consignação em pagamento). O devedor pode se opor ao pagamento feito por terceiro interessado? Art. 306: sim, desde que demonstre que tem meios para ilidir a ação. iii. Terceiro Não-Interessado: O terceiro não-interessado pode pagar em nome e conta do devedor ou em nome próprio. O que acontece quando um terceiro não-interessado paga em nome e conta do devedor? Nada, pois é ato de liberalidade. O terceiro não interessado que paga em nome e conta do devedor, pode consignar o pagamento? Sim. O Art. 304 diz que igual direito cabe ao terceiro não interessado se fizer em nome e à conta do devedor. O devedor pode se opor ao pagamento de terceiro não interessado que o faz em sua conta e nome? O p.u. do Art. 304 diz que ele pode se opor, mas não precisa demonstrar meios para ilidir a ação.
O terceiro não-interessado que paga em nome próprio, o que acontece? Diz o Art. 305 que ele terá direito a reembolsar-se do que pagar, mas não se sub-roga nos direitos do credor. O terceiro não-interessado que paga em nome próprio pode consignar o pagamento? Não pode, por ausência de previsão legal. O devedor pode se opor ao pagamento feito por terceiro não interessado em nome próprio? Art. 306: pode, desde que demonstre meios para ilidir a ação. iv. A quem se deve pagar: ao credor (Art. 308). Aqui é importante ficar ligado na figura do credor putativo, que é um falso-credor. É aquele que aparenta ser o credor, mas não o é. Isso ocorre muito na cessão de crédito. Na cessão de credito o credor tem que dar ciência ao devedor. Uma cessão de credito sem a ciência do devedor é ineficaz em relação ao mesmo. O pagamento feito ao credor putativo extingue a obrigação, desde que feita de boa-fé. Para a próxima aula: Teoria do Inadimplemento.