NEOLIBERALISMO, POLÍTICAS SOCIAIS E A POLÍTICA PÚBLICA SOBRE DROGAS NO BRASIL RESUMO

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1 NEOLIBERALISMO, POLÍTICAS SOCIAIS E A POLÍTICA PÚBLICA SOBRE DROGAS NO BRASIL RESUMO Adalisa Martins Marques Pultrini 1 Profª Drª Irenilda Ângela dos Santos 2 Na atualidade, as drogas correspondem a um fenômeno mundialmente divulgado e discutido, uma vez que o uso abusivo das substâncias psicoativas tornou-se a nível mundial um relevante problema social e de saúde pública. O artigo trás uma reflexão sobre o neoliberalismo, as políticas sociais e a política sobre drogas no Brasil a partir de uma revisão bibliográfica em livros, revistas, artigos, periódicos e outros sobre o tema. Propondo-se refletir sobre as políticas públicas sobre drogas no Brasil e o posicionamento e intervenção do Estado diante desta questão, a qual tem sido muito mais pela via da repressão do que pelo enfrentamento das causas e a diminuição dos riscos que levam ao uso abusivo das substâncias psicoativas. A reforma do Estado e a atual ideologia neoliberal, defensora de um Estado mínimo para a área social e máximo para o Capital, favorecem a elaboração de políticas públicas e sociais cada vez mais fragmentadas e seletivas, tornando-se imprescindível a efetiva participação da sociedade para as conquistas dos direitos sociais, construção da democracia e a integração e efetivação das políticas públicas e sociais, e consequentemente a melhoria das condições de vida, diminuição das situações de vulnerabilidades sociais e do uso abusivo do álcool e outras drogas. Palavras-chaves: Drogas. Estado. Políticas Sociais. Neoliberalismo. ABSTRACT At present, drugs represent a phenomenon globally publicized and discussed, since the abuse of psychoactive substances has become globally a significant social and public health problem. The article reflects on behind neoliberalism, social policies and the drug policy in Brazil from a literature review in books, magazines, articles, journals and others on the subject. Proposing to reflect on public policy on drugs in Brazil and the positioning and state intervention on this issue, which has been much by way of repression than by confronting the causes and reducing the risk that lead to misuse of psychoactive substances. State reform and the current neoliberal ideology, advocate a minimal state for social and maximum area for the Capital, favors the development of increasingly fragmented and selective public and social policies, making it essential to effective participation in society for the achievements of social rights, democracy building and the integration and effectiveness of public and social policies, and consequently the improvement of living conditions, reduction of vulnerabilities and social situations of abuse of alcohol and other drugs. Keywords: Drugs. State. Social Policies. Neoliberalism. ¹ Assistente Social e Mestranda em Política Social pela Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT - Turma 2013/1. Endereço: Rua 10, Quadra 10, Casa 09, Residencial Águas Clara, Distrito Industrial - Cuiabá/MT. E- mail: 2 Profª Drª em Desenvolvimento Sustentável//UNB, docente do curso de Serviço Social e do Programa de pósgraduação/mestrado em Política Social/UFMT.

2 2 1 Introdução O uso de drogas tem acompanhado a história da humanidade. A relação dos indivíduos com as drogas se modificou ao longo do tempo, e na contemporaneidade temos visto este uso se tornar cada vez mais complexo e abusivo. Aliado a isto, está o atual ideário neoliberal, de investimentos mínimos na área social e máxima para o Capital, repercutindo diretamente nas políticas sociais para a prevenção e tratamento da dependência química. Ao longo dos anos, a forma de enfrentar a dependência química e trabalhar com a mesma, sofreram alterações. A necessidade de encarar o uso do álcool e outras drogas como uma questão que não é de ordem moral ou de caráter do indivíduo, trouxe para a discussão a importância das ações de prevenção e tratamentos, bem como a necessidade de intervenção do Estado através das políticas sociais. Porém, no decorrer dos tempos, o posicionamento do Estado brasileiro diante desta questão, tem sido muito mais pela repressão do que pela prevenção e enfrentamento das causas que levam ao abuso do álcool e outras drogas. No desenvolvimento de ações setorizadas e focalizadas pelo Estado, repassando a responsabilização para a família e a sociedade civil, através da filantropia, caridade e Organizações Não Governamentais, como as comunidades terapêuticas e Grupos de auto e mútua ajuda. As dificuldades enfrentadas nos dia atuais para a efetivação dos direitos e das políticas sociais são iniciadas a partir da reforma, ou melhor, a contra-reforma do Estado Brasileiro, com a reestruturação produtiva a partir dos anos 70 e 80, como também o modelo de produção neoliberal iniciado nos anos 90, com o foco no desenvolvimento do Mercado e do Capital e no enxugamento dos investimentos na área social, consequentemente a redução e precarização das políticas e serviços sociais, causando o desmonte dos direitos sociais conquistados pela classe trabalhadora. Torna-se, portanto, de suma relevância, as lutas e os movimentos sociais para a consolidação e universalização das políticas públicas e sociais. Objetivando a melhoria das condições de vida dos trabalhadores, a construção, efetivação e ampliação do acesso aos direitos e as políticas sociais mediadas pelo Estado, os quais contribuem com a redução da vulnerabilidade social e das situações de riscos para o uso abusivo do álcool e outras drogas. 2 A reforma do estado brasileiro e as políticas sociais O Estado, que se origina dessas contradições entre os interesses da classe burguesa e a

3 3 classe trabalhadora, fazem o papel de mediador dos conflitos entre as classes, mantendo os antagonismos sob controle. Segundo Carnoy (1986, p.67), embasado em Marx, o Estado é um instrumento essencial de dominação de classes na sociedade capitalista. Ele não está acima dos conflitos de classes, mas profundamente envolvido neles. Este envolvimento, imperceptível para muitos está presente em sua base de origem, que são as relações de produção, responsáveis pelo condicionamento da vida social, política e intelectual. Segundo o autor Engels (2012), o Estado surge a partir da divisão de classes e a luta de classes provenientes do desenvolvimento econômico. Dessa forma, o Estado nasce para moderar os conflitos entre classes antagônicas e mantê-las dentro dos limites da ordem social. Estado não é, pois, de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro (...). É, antes, um produto da sociedade quando esta chega a determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar... Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela, e dela se distanciando cada vez mais, é o Estado. (Idem, p.213). Portanto, para Marx e Engels o Estado é fruto da divisão da sociedade em classe, e um mecanismo para garantir a acumulação e reprodução do Capital, e consequentemente a manutenção do modo capitalista de produção. Não havendo a possibilidade de apropriação do Estado pela classe trabalhadora. O sistema capitalista tem vivenciado constantes crises econômica. A conjuntura da reforma ou contra-reforma do Estado faz parte de um processo global de reestruturação capitalista mundial. As pressões para uma refuncionalização do estado capitalista nos anos 80 e 90 está articulado com uma nova fase de crise desse sistema, manifestada com a crise do petróleo nos anos 70, refletindo até os dias atuais. Montaño e Duriguetto (2011) apontam que o Capital após a crise de e a elevada concorrência capitalista no mercado mundial, precisou se reestruturar, paralelamente também à crise do bloco soviético, a derrota de lutas armadas e o recuo do impacto das lutas dos movimentos operários, encontrando o Estado uma maior facilidade para a sua reestruturação.

4 4 A reestruturação produtiva não deve ser entendida apenas como um processo de reestruturação econômica e tecnológica do Capital, pois esta também tem uma dimensão política, social e cultural, visto que o Capital diante de um quadro de crise se vê desafiado a engendrar uma nova correlação de forças para a sua sobrevivência e reprodução. Não ocorrendo mudanças apenas no processo de produção, mas também na correlação de forças entre Capital e Trabalho e no redirecionamento do Estado. Neste contexto de reformas, a partir dos anos 80, o projeto neoliberal vem se fortalecendo e reduzindo o papel do Estado, ampliando a esfera do mercado. Segundo Montaño e Duriguetto (2011), o neoliberalismo aparece como uma nova estratégia, que altera os processos típicos do anterior (e em crise) regime de acumulação fordista-keynesiano, com o objetivo de garantir e ampliar os fundamentos da acumulação capitalista. O ideário neoliberal busca romper com o pacto keynesiano e o Estado de Bem Estar Social, para dar continuidade num contexto de crise, à acumulação ampliada do Capital na fase monopolista. Conforme Behring (2003), essa contra reforma do Estado Brasileiro será a partir do ideário social-liberal, exigindo a disciplina fiscal, a privatização e a liberalização comercial. E com a reforma passaria por transferir para o setor privado as atividades que podem ser controladas pelo mercado. E a descentralização para o setor público não-estatal os serviços que não precisam do poder do Estado, mas apenas serem subsidiados, como a educação, saúde, cultura etc. Caracterizando-se como um processo de publicização e como uma novidade da reforma que atinge diretamente as políticas e os direitos sociais. Behring (2003) relata sobre o Brasil e as proposições do Plano Diretor da Reforma do Estado (PDRE) elaborado pelo MARE (Ministério da Administração e da Reforma do Estado) nos anos 90, com o ideário de fortalecimento da ação reguladora do Estado numa economia de mercado, especialmente em relação aos serviços básicos e de cunho social, transferindo para o setor privado atividades que supostamente podem ser realizadas pela via do mercado. O Estado então reduziria a prestação direta de serviços, mantendo-se como regulador e provedor. O plano da reforma do Estado, atacou os direitos garantidos pela Constituição Federal do Brasil de 1.988, em especial ao princípio da Seguridade Social, do funcionalismo público e o campo dos direitos sociais. Esta reforma baseia-se na necessidade do Capital em

5 5 liberalizar e alargar o mercado, deixando explícito o seu caráter negativo, com o objetivo maior de expropriar os direitos sociais, conquistados no decorrer do século XX, devendo-se entender no lugar de reforma, como afirma Behring (2008) um processo de Contra Reforma do Estado. Behring (2003) citando Fiori (2000, p.37) aponta que a contra reforma do Estado, tal como está sendo conduzida, é a versão brasileira de uma estratégia de inserção passiva e a qualquer custo na dinâmica internacional e representa uma escolha político-econômica, não caminho natural diante dos imperativos econômicos. Uma escolha, bem ao estilo de condução das classes dominantes brasileiras ao longo da história. Para a autora, o neoliberalismo em nível mundial configura-se como uma reação burguesa conservadora e monetarista de natureza claramente regressiva, dentro da qual se situa a contra reforma do Estado. (p.129). Costa (2006) afirma que a partir do ideário neoliberal, a cidadania é reduzida aos aspectos civis e políticos, já que o enfrentamento da desigualdade social figura no campo da filantropia, na área empresarial e no crescimento do terceiro setor. O neoliberalismo caracteriza-se essencialmente por um movimento político e ideológico que busca criar legitimidade e manter os avanços da globalização econômica, justificando a desigualdade social a partir da idéia de diferenças naturais. O Estado está no centro da disputa neoliberal, pois como movimento político-ideológico visa essencialmente usar o poder político para dar liberdade de ação ao grande capital. (Idem, p.79). A tendência geral tem sido a de restrição e redução de direitos, transformando as políticas sociais em compensação nos períodos de crises do Capital. Sabemos, portanto, que a política social no contexto do capitalismo maduro não é capaz de reverter o quadro que esse traz a sociedade, e nem é esta sua função. Porém, não significa que temos que abandonar a luta dos trabalhadores para a implementação e consolidação das políticas sociais, tendo em vista a sua importância para elevar o padrão de vida dos trabalhadores, além de suprir e suscitar novas demandas e necessidades. Segundo Coutinho (2008), as políticas sociais não são apenas um instrumento da burguesia para legitimar sua dominação, mas sim conquista e luta dos trabalhadores pelos direitos sociais. Porém, a presença de tais direitos na Constituição e seu reconhecimento legal

6 6 não garantem a efetiva materialização dos mesmos, sendo necessária a constante luta da classe trabalhadora para efetivá-los e tornar um dever do Estado. Pelo ângulo econômico, as políticas sociais [...] assumem a função de reduzir os custos da reprodução da força de trabalho e elevar a produtividade, bem como manter elevados níveis de demanda e consumo, em épocas de crise (Behring, 2008, p.37). Ao mesmo tempo, estas são também viabilizadoras de direitos sociais, pois garantem o acesso da população usuária a serviços públicos que provêm condições de sua sobrevivência e reprodução sendo, portanto, centrais na agenda de lutas dos trabalhadores e na imposição de limites aos ganhos do Capital. As políticas sociais não se referem desse modo, tão somente às formas de articulação do Estado com o capital, mas também às manifestações das forças sociais, da organização e da mobilização das classes subalternas na alteração da ordem estabelecida. Coutinho (2008) aponta que o instrumento e o local da conciliação das lutas de classes foi sempre o Estado, no qual se verifica na atualidade um fortalecimento do que Gramsci chamava de sociedade política através dos aparelhos burocráticos e militares que exercem a dominação através do Executivo, em detrimento da sociedade civil e do conjunto de aparelhos ideológicos através dos quais uma classe, ou bloco de classes, luta pela hegemonia ou pela capacidade de dirigir o conjunto da sociedade. Conforme o autor, a ampliação da cidadania termina por se chocar com a lógica do Capital e somente uma sociedade sem classes, como o socialismo e o comunismo pode realizar o ideal de plena cidadania e democracia. Para Coutinho (idem), o Estado esta em disputa, podendo ser apropriado pela classe trabalhadora. Portanto, debater a ampliação dos direitos e das políticas sociais é fundamental, por que engendra a disputa pelo fundo público e envolve necessidades básicas de milhões de pessoas, impactando na melhoria das condições de vida da população, na ampliação, implementação e controle social das políticas públicas, e consequentemente na prevenção e redução do uso abusivo do álcool e outras drogas na sociedade. 3 A política social sobre drogas no contexto da reforma e contra reforma do Estado Brasileiro

7 7 Conforme Ribeiro e Laranjeiras (2007), o consumo de drogas sempre existiu ao longo da história da humanidade, desde as épocas mais remotas até os dias atuais, perpassando por todas as culturas e povos. Sendo que o consumo das substâncias psicoativas cresceu assustadoramente a partir da segunda metade do século XX, configurando-se nas últimas décadas como um fenômeno de massa e como uma questão de saúde pública. Ribeiro e Laranjeiras (2007) relatam que neste período da Idade Moderna, as cidades inchavam pelo aumento da população e inúmeros camponeses moravam em cortiços e guetos, vivendo na miséria e no desemprego. E que a partir do século XVII, com o desenvolvimento da indústria as substâncias psicoativas foram disponibilizadas com baixo custo e acesso facilitado nos bares, armazéns, farmácias etc, contribuindo para que inúmeras pessoas apresentassem problemas relacionados ao uso do álcool e outras drogas. Portanto, podemos caracterizar o aumento do uso das substâncias psicoativas como uma expressão da questão social 2. Sendo que na atualidade, a dependência química é considerada um dos maiores problemas de saúde e segurança pública. Em relação às políticas públicas e sociais sobre drogas, até a década de 1990 o Brasil não dispunha de uma política específica para esta questão, sendo enfrentado apenas com medidas repressivas direcionadas para o impedimento da oferta e do comércio de drogas. Numa perspectiva da legislação jurídica, as primeiras ações do Estado brasileiro sobre drogas advêm do Decreto Legislativo nº de 06 de julho de 1921, inspirado na primeira Convenção Internacional do Ópio realizado em Haia no ano de 1912 nos Países Baixos, regulamentado pelo Decreto de 1921, o qual revelou a importância de criar dispositivos para controlar a importação de entorpecentes, o comércio, o registro, a prescrição médica, a internação judicial e voluntária de toxicômanos em sanatórios. Portanto, desde a década de 30, a questão das drogas em nosso país vem sendo tratada como um caso de polícia. Em relação ao tratamento, até a década de 60, época em que as comunidades terapêuticas começaram a surgir no Brasil, o dependente químico e/ou sua família tinham como única opção a internação em manicômios, juntamente com as demais pessoas com transtornos 2 Questão social entendida como O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação de seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (Iamamoto, 1998, p. 27).

8 8 psiquiátricos. A partir das mudanças sócio-econômicas, políticas e culturais ocorridas no país, bem como os movimentos antidrogas a nível nacional, com forte influência externa, vários decretos de abrangências normativas e penais foram sancionados, culminando com a legislação anti-droga através da Lei de 1976, o qual determinou a criação de um Sistema Nacional de Prevenção, Fiscalização e Repressão de Entorpecentes. No Brasil, até o ano de 2006, esta referida lei regulamentava o trato jurídico às drogas ilícitas dispondo a respeito das medidas de prevenção e repressão ao tráfico e o uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. Nessa lei, ocorre pela primeira vez há distinção entre o traficante e o usuário de drogas. Os usuários estariam sujeitos às medidas sócio-educativas e os traficantes às medidas privativas de liberdade. Outro avanço percebido é a decisão em legislar a respeito da reinserção social do dependente químico, que não era contemplada na lei anterior. Silva e Duarte (2008) apontam que, no Brasil somente a partir do ano de deu-se início a construção de uma política pública nacional específica sobre a redução da demanda e da oferta de drogas, sendo neste mesmo ano criada a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), com a missão de coordenar uma Política Nacional Antidrogas, por meio da articulação e integração entre governo e sociedade. Assim, em por meio do Decreto Presidencial nº de 26 de agosto foi instituída a Política Nacional Antidrogas (PNAD), a qual a partir do ano de passou a chamar-se Política Nacional sobre Drogas (PNAD), estabelecendo os fundamentos, os objetivos, as diretrizes e as estratégias para que ações voltadas para a redução da demanda e da oferta de drogas, fossem realizadas de maneira planejada e articulada. Com o Decreto nº 3.696/2000, a SENAD e o Conselho Nacional Antidrogas (CONAD) passaram a integrar o Gabinete de Segurança Institucional do Governo Federal. Em função da realidade do aumento significativo do uso de substâncias psicoativas e das consequências associadas, o Ministério da Saúde instituiu no ano de 2003, o Programa Nacional de Atenção Integrada ao usuário de Álcool e outras Drogas, direcionado a criação de serviços específicos para usuários de drogas. Um dos dispositivos normativos desta política foi a Portaria GM/816/2002, que instituiu o Programa Nacional de Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool e de Outras Drogas, no Sistema Único de Saúde. Através desse programa, foi previsto e está sendo implantado os Centros de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e outras drogas (CAPS AD) nos municípios, prevendo

9 9 como estratégia uma assistência ao usuário de drogas e seus familiares. Esta política tem em seu regimento uma perspectiva intersetorial, envolvendo programas do Ministério da Saúde e de outros setores do governo, como também de organizações não-governamentais e representações da sociedade civil organizada; tendo como centralidade a redução de danos e diminuição dos riscos do uso abusivo do álcool e outras drogas, e não apenas a abstinência. Considerando os diversos componentes associados ao crescimento da violência, da criminalidade e dos problemas decorrentes do consumo de crack e demais drogas no país, foi lançado no ano de 2.010, o Decreto nº 7.179, que institui o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas. O Plano tem por objetivo desenvolver um conjunto integrado de ações de prevenção, tratamento e reinserção social de usuários de crack e outras drogas, como também enfrentar o tráfico em todo o território nacional em parceria com estados, municípios e sociedade civil, com foco na redução da criminalidade associada ao consumo dessas substâncias. Podemos observar que, um dos últimos modelos de policiamento no Brasil as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) deixam bem clara esta funcionalidade da guerra às drogas na efetivação do controle penal sobre a classe trabalhadora, especialmente aos pobres e aos em situações de vulnerabilidade social. Sob o pretexto de libertar as favelas da cidade do Rio de Janeiro dos traficantes de drogas, esse novo modelo de policiamento consiste na ocupação militarizada dessas comunidades pobres, contribuindo com o estigma, o preconceito e a idéia do gueto, sujeitando as pessoas que vivem nas favelas a uma permanente vigilância e monitoramento, reforçando a idéia de culpabilização dos indivíduos pelo uso abusivo de drogas. Ao longo da história da sociedade brasileira, o que tem existido e prevalecido em relação às drogas, é a força do cumprimento dos decretos e leis focados na repressão. Os programas preventivos surgiram recentemente, a partir da década de 70 e sob forma de compensação seletiva e de forma focalizada. Conforme Rodrigues (2004), no Brasil a questão do uso do álcool e outras drogas sempre foi tratado como problema de segurança pública, refletindo isso no perfil da primeira política governamental, a Política Nacional sobre Drogas (PNAD), a qual possui um caráter mais repressivo, focado na oferta do produto, redução dos crimes correlacionados ao tráfico, do que na prevenção e no tratamento, o que reafirma a

10 10 criminalização do usuário. Ao nos debruçarmos sobre o processo histórico de construção da legislação e da política social brasileira no que se refere à questão das substâncias psicoativas, podemos observar que o uso de drogas nas políticas públicas, foi tratado durante muitos anos como caso de polícia, adquirindo tardiamente o caráter de saúde pública. De ações de repressão ao usuário de drogas, passou gradativamente e de forma residual, para ações de prevenção, atenção e reinserção social; porém, mantendo a repressão sobre a produção e o tráfico. Analisando o tráfico de drogas na perspectiva do atual modelo econômico vigente o capitalista, essa forma mercantil é totalmente permitida, uma vez que atende ao principal interesse das nações que é o acúmulo incessante de Capital através das trocas de substâncias entorpecentes, seja ela a cocaína, o crack, o ecstasy, LSD ou a maconha, além de permitir a chamada lavagem de dinheiro. Para manter esta situação sob o controle das forças policialescas, os aparelhos ideológicos fazem a sociedade crer que o aumento do contingente repressor legitimado pelo Estado é a saída mais eficaz no combate ao tráfico de drogas, assim como a prisão dos traficantes e até usuários. O século do proibicionismo foi o mesmo século do crescimento do consumo de drogas. Defender um modelo alternativo ao proibicionismo não é afastar o Estado do problema, mas rediscutir o seu papel para que ele atue com mais eficiência. Como pensar em um regime democrático quando a análise da política de drogas aponta para a execução de um projeto que tem como finalidade manter a repressão e a exclusão social? A nova ordem mundial neoliberal tem se estruturado neste processo de aprofundamento das desigualdades sociais, com a ampliação da competição e com a redução e eliminação da regulamentação do papel do Estado, o que contribui com a precarização e a diminuição das políticas públicas e sociais. A proposta do modelo econômico neoliberal é de um Estado mínimo para o investimento na área social, repassando tais obrigações à sociedade e ao mercado, com a ampliação do Terceiro Setor. Conforme Coutinho (2008), na atualidade o neoliberalismo propaga o fim dos direitos sociais, propondo ao mercado a regulação das questões que envolvam a área da saúde, habitação, educação, etc; tendo em vista a lógica capitalista da ampliação máxima dos lucros.

11 11 Behring (2003) relata que há uma forte tendência de desresponsabilização pela política social em nome da qual se faria a reforma no Estado acompanhado pelo desprezo pelo padrão constitucional de seguridade social. O trinômio do neoliberalismo para as políticas sociais privatização, focalização e descentralização se expandiram por meio do Programa de Publicização, o qual se expressa na criação das agências executivas e das organizações sociais, e mais recentemente na regulamentação do Terceiro Setor. Esta última, estabelece um termo de parceria com as ONG s e instituições filantrópicas para a implementação das políticas e serviços sociais. Na atuação e no tratamento da dependência química, estas se expressam no surgimento das Comunidades Terapêuticas, Grupos de auto e mútua ajuda, Casas de apoio, entre outras instituições organizadas pela sociedade civil e entidades religiosas, os quais recebem muitas vezes o apoio financeiro e mantenedor do Estado. A essa nova arquitetura institucional na área social se combina ainda o serviço voluntário, o qual desprofissionaliza as intervenções nessas áreas, além de desresponsabilizar o Estado. Há, portanto, uma forte tendência de desresponsabilização pela política social em nome da qual se faria a reforma acompanhada pelo desprezo pelo padrão constitucional de seguridade social, com o desmonte dos direitos sociais duramente conquistados. A mudança do paradigma deve, portanto, ser simultânea à construção e efetivação das políticas públicas e sociais que contribuem de fato com a melhoria das condições de vida da população e com a prevenção do uso abusivo do álcool e outras drogas. Com lutas e movimento sociais em prol do processo de universalização efetiva da cidadania, das políticas sociais e da socialização da riqueza que é socialmente produzida, com a construção de uma sociedade mais justa, democrática e socialista. 4 Considerações Finais No processo histórico da humanidade as drogas sempre estiveram presentes, porém seu uso abusivo na sociedade contemporânea, entre outros motivos, está relacionado às tensões contraditórias do atual modelo sócio-econômico capitalista, com o aumento da desigualdade social, concentração de renda e injustiças sociais.

12 12 A falta de acesso e efetividade das políticas públicas sobre drogas são um dos maiores entraves para a prevenção, tratamento e para a diminuição dos riscos do uso abusivo do álcool e outras drogas. Além do atual governo neoliberal, na qual o Estado se torna mínimo para o investimento na área social e máximo para o Capital e o mercado; impactando diretamente as políticas sociais e os direitos dos trabalhadores. A conjuntura da contra-reforma do Estado Brasileiro iniciada na década de 70 e 80, juntamente com o ideário neoliberal nos anos 90 promoveu no Brasil uma reestruturação do Estado, repercutindo diretamente nas políticas sociais, com a lógica da focalização, seletividade e solidariedade, na refilantropização da pobreza, redução dos gastos, descentralização e mercantilização dos bens e serviços sociais, contribuindo assim com o desmonte dos direitos sociais e a diminuição dos investimentos do Estado na área social e nas políticas públicas, transferindo esta responsabilidade para o indivíduo, a sociedade, o Mercado e o Terceiro setor. Nas políticas sobre drogas, estas mudanças podem ser observadas nas diversas Comunidades Terapêuticas filantrópicas e religiosas, grupos de auto e mútua ajuda, organizações não governamentais (ONG s), clínicas e internações viabilizadas pela via do mercado, entre outros no tratamento e prevenção da dependência química. As pesquisas e a realidade social nos mostram um aumento do uso das substâncias psicoativas, mas principalmente, mostram-nos a necessidade de um maior planejamento, alocações de recursos e de efetivação e consolidação das políticas sociais para a prevenção e tratamento aos usuários de drogas, integradas com as demais políticas públicas e sociais. Portanto, as propostas oficiais voltadas para a questão do abuso de drogas requerem a integração e consolidação de todas as políticas públicas e sociais, a partir de uma visão do ser humano em sua totalidade, com a busca da melhoria efetiva das condições de vida da classe trabalhadora, contribuindo para que os fatores de proteção e prevenção ao uso das substâncias psicoativas possam ser alcançados e os fatores de riscos minimizados. Para a viabilização desse processo, torna-se imprescindível a efetiva participação da sociedade civil nestes espaços de decisão, controle e consolidação das políticas e direitos sociais, para que se efetive o processo de construção da democracia e do acesso universal aos serviços públicos e as políticas sociais; contribuindo com a diminuição das situações de vulnerabilidades sociais e consequentemente a redução do uso abusivo do álcool e de outras drogas.

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14 14 SILVA A. O.; DUARTE V. A. C. P. Prevenção do Uso de Álcool e outras Drogas no Ambiente de Trabalho. Curso de Prevenção ao Uso de Álcool e Outras drogas do Ambiente de Trabalho. Conhecer para Ajudar / Secretaria Nacional de Políticas Sobre drogas SENAD, YASBEK, Maria Carmelita. Pobreza e exclusão social: expressões da questão social no Brasil. Temporalis: Revista da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social, Brasília, v. 2, n. 3, ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade e do Estado; tradução de Leandro Konder. 3ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

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