POTENCIALIDADES E LIMITES PEDAGÓGICOS NA UTILIZAÇÃO DOS DISPOSITIVOS MÓVEIS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

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1 POTENCIALIDADES E LIMITES PEDAGÓGICOS NA UTILIZAÇÃO DOS DISPOSITIVOS MÓVEIS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Fabíola Anita Romêro Gomes 1 (CEFET-MG) Resumo: O presente artigo visa refletir sobre os limites e as possibilidades trazidas pelo contexto emergente de aprendizagem com mobilidade mobile learning, considerando os recursos e ferramentas presentes nos aparelhos celulares. Os dados foram coletados em uma escola pública de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na cidade de Contagem em Minas Gerais, através da pesquisa qualitativa, por meio do estudo de caso. Os resultados obtidos indicam que os estudantes e os professores participantes na investigação são favoráveis à utilização do celular enquanto recurso pedagógico, sendo viabilizado por meio dos projetos de trabalho. Palavras-chave: mobile learning; projetos de trabalho; EJA. Abstract: This article aims to reflect on the limits and possibilities brought by the emerging context of learning mobility - mobile learning, considering the resources and tools available in the mobile handsets. Data were collected in a public school in Education for Youth and Adults (EJA) Count the city of Minas Gerais, through qualitative research, through the case study. The results indicate that students and teachers participating in the study are favorable to the use of mobile as a pedagogical resource, being made possible through the work projects. Keywords: mobile learning; work projects; EJA. Introdução A sociedade atual é fortemente marcada pelas tecnologias, que fazem parte do cotidiano das pessoas, a exemplo dos dispositivos móveis e, em específico, os telefones celulares. Trazendo este pensamento para o âmbito escolar, há o desafio 1 Fabíola Anita Romêro GOMES, Mestranda Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Estudo de Linguagens - 1 -

2 de se desenvolver uma compreensão sobre os dispositivos móveis e as potencialidades de seu uso pedagógico. A escola ainda apresenta dificuldades e barreiras em relação à crescente invasão dessas tecnologias através dos estudantes. Na EJA, este quadro fica ainda mais visível, considerando que a tecnologia mais utilizada por estes jovens e adultos são os celulares. (FUNDAÇÃO TELEFÔNICA, 2012; IBGE, 2011). Tive a oportunidade de observar esta relação mais de perto quando conclui, em 2009, o curso de Pedagogia e fui atuar como pedagoga na EJA, na rede municipal de Contagem, Minas Gerais. Havia um embate entre professores e estudantes em relação à utilização dos telefones celulares na escola. Os estudantes usavam os celulares exclusivamente para fins pessoais, mas ultrapassavam os limites impostos pela escola, ao ouvir músicas e atender ligações durante as aulas. Em contrapartida, os professores optaram pela tolerância zero aos celulares na escola, recorrendo a leis que proibiam sua utilização em sala de aula. Esta relação conflituosa me incomodava porque penso que a escola deveria se aproximar da realidade dos estudantes, através, também, dos recursos que os mesmos dispõem, transformando vivência e recursos individuais em aprendizagem coletiva. Este interesse foi ampliado quando entramos em contato com a literatura específica da área, mais precisamente os estudos relacionados ao uso de dispositivos móveis como ferramentas voltadas para o processo de ensinoaprendizagem, de forma ubíqua, conduzidos recentemente no Brasil e na Europa (BRITO GUERRA et al, 2012; BOTTENTUIT JÚNIOR, 2012; FERREIRA, 2009; MACEDO, 2008; MOURA, 2010). Este artigo está baseado em estudos como os citados acima e na consideração de que o uso da tecnologia computacional na educação não é um evento recente, mas uma realidade cada vez mais presente nas salas de aula. No entanto, isso não significa que o ensino mediado pelas novas tecnologias deve ser visto como algo melhor ou pior do que o ensino tradicional. Entendemos, com o apoio de Moran - 2 -

3 (2013), Levy (1997), Prensky (2001), Leffa (2006) e Macedo (2008) que a tecnologia, por si só, não é capaz de trazer contribuições para a área educacional se for utilizada como o ingrediente mais importante do processo educativo, ou sem a reflexão humana. Ela deve adequar-se às necessidades de determinado projeto político-pedagógico, colocando-se a serviço de seus objetivos e nunca os determinando. Considerando o quadro apresentado, acreditamos que os dispositivos móveis apresentam possibilidades pedagógicas pouco exploradas por estudantes e professores. Desse modo, essas observações nos levaram a investigar as potencialidades e limites pedagógicos dos dispositivos móveis na EJA, em específico, dos telefones celulares, em uma escola pública do município de Contagem, em Minas Gerais. Para desenvolver o estudo buscamos contribuições nas teorias interpretativas, considerando a interação entre os sujeitos intermediada pelas novas tecnologias, bem como um enfoque qualitativo, pois o recorte delimitado visava responder questões sobre uma situação específica e contextualizada. Além disso, os instrumentos de coleta e análise de dados tiveram fundamentação metodológica nos conceitos de estudo de caso (Ludke e Andre, 1986). Para a coleta de dados, utilizamos questionários, entrevistas, diário de bordo e arquivo contendo a troca de mensagens enviadas e recebidas (SMS) entre a pesquisadora e os sujeitos participantes da pesquisa. Contexto da investigação A investigação foi realizada em uma escola pública de Educação de Jovens e Adultos em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. As tarefas pedagógicas elaboradas foram construídas junto com os professores e estudantes que se disponibilizaram a participar do estudo

4 Desta forma, vinculado ao tema que estava sendo trabalhado pelos mesmos sobre astronomia por meio do projeto B. nas estrelas, foram desenvolvidas atividades que envolvessem a utilização pedagógica do telefone celular. Os dados desta investigação foram coletados durante o final do primeiro e o início do segundo semestre de Neste período os estudantes utilizaram os próprios telefones celulares para desenvolver as tarefas propostas. No desenvolvimento do questionário inicial, que tinha por objetivo levantar o perfil do público da instituição e a afinidade com as tecnologias, obtivemos a adesão de 51 estudantes e 3 professores. Posteriormente, na realização do grupo focal, tivemos a adesão voluntária de 8 estudantes, sendo mais participativos 03 estudantes, identificados no estudo como E01, E02 e E03 e o envolvimento mais ativo de 01 professor, de Geografia e História, identificado como PRM. As tarefas que deveriam ser desenvolvidas pelo grupo focal, visavam a utilização das funcionalidades presentes nos aparelhos celulares dos 8 estudantes que fizeram parte do grupo focal, sendo: 1º) Filmar ou tirar foto da visita ao Observatório da UFMG; 2º) Entrevistar uma pessoa amigo, familiar, colega, sobre o tema Astronomia. A resposta podia ser filmada ou gravada; 3º) Durante a visita ao Observatório, entrevistar um estudante da escola que estava participando da visita, registrando a sua opinião em relação à atividade. A resposta podia ser filmada ou gravada; 4º) Elaborar uma pergunta para entrevista ao professor PRM e enviar a pergunta por SMS à pesquisadora e 5º) Gravar ou filmar a entrevista ao professor PRM sobre o projeto B. nas Estrelas, com a participação de todo grupo focal. Jovens e adultos na era digital Cada vez mais visualizamos os impactos tecnológicos sobre o homem, principalmente em seu modo de viver e de se relacionar com o mundo. Convivemos com diversos tipos de tecnologias que fazem parte de nosso cotidiano, e elas vêm - 4 -

5 ocorrendo em um menor intervalo de tempo, principalmente as tecnologias relacionadas à informação e a comunicação. Este avanço tecnológico é sentido por pessoas de todas as idades, sobretudo aquelas nascidas na era digital os nativos digitais (PRENSKY, 2001) e também aqueles que são adultos, que são chamados de imigrantes digitais (PRENSKY, 2001). De acordo com o PNAD/ IBGE (2011), de 2005 para 2011, os bens duráveis com maior crescimento nos lares brasileiros foram o microcomputador com acesso à internet, o microcomputador e o telefone celular. Em relação ao telefone celular, chegou a 115,4 milhões o número de pessoas com dez anos ou mais de idade que têm celular de uso pessoal, ou seja, a população com celular cresceu 107,2%. Os mais velhos e os mais novos foram os que mais fizeram crescer o contingente. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais com celular aumentou 161,3% e a proporção das jovens de dez a 14 anos com celular cresceu 118,2%. Jovens e adultos na escola: novas perspectivas A educação de jovens e adultos (EJA), de acordo com a LDB (1996), é uma oferta de educação regular, destinada às pessoas que não tiveram acesso à escolarização na idade própria ou cujos estudos não tiveram continuidade nos níveis fundamental e médio. Assim, estudantes a partir de 15 anos completos podem cursar o ensino fundamental e estudantes a partir de 18 anos completos podem cursar o ensino médio, ambos na modalidade de EJA. Os estudantes que procuram as escolas de EJA são pessoas que por algum motivo pessoal, social, econômico ou cultural, abandonaram a escola regular, no tempo em que deveriam estar estudando. São indivíduos com idades entre 15 e 60 anos aproximadamente e normalmente de classes sociais mais baixas

6 De acordo com o IBGE (2011), o Brasil ainda possui 8,6% de analfabetismo na população de 15 anos ou mais. Isto equivale a 12,9 milhões de brasileiros. Neste sentido, de acordo com Di Pierro (2004, p. 16), para aumentar, flexibilizar, diversificar e qualificar as oportunidades educacionais, o lugar da Educação de Jovens e Adultos na agenda da política educacional brasileira terá de ser revisto. Segundo Paulo Freire (2000), principal referência na EJA, a escola deve primar pela participação ativa e dinâmica do estudante trabalhador na sala de aula. Por meio de sua pedagogia dialógica e problematizadora, ele defende que a experiência de vida dos estudantes é a base para a construção dos novos conhecimentos dos mesmos. Freire (2000) acredita que o sujeito deve ser autônomo, procurando construir o seu próprio conhecimento, através da curiosidade e interesse pelo saber e que cabe a escola instigar este processo. Desta forma, a EJA se apresenta como mais um espaço de construção da autonomia, como tempo de aprendizagem, movimento de vida e possibilidade de concretização de um direito (CUNHA & SILVA, 2004). Pensar, portanto, o cidadão como sendo o principal agente de mudança da realidade em que vive é pensar numa educação libertadora (FREIRE, 1997) em que os conhecimentos construídos pelo sujeito aprendiz são a possibilidade de compor e transformar a si próprio e o meio com o qual se relaciona. Nesta perspectiva, os Projetos de Trabalho se apresentam como uma opção para a EJA. Projetos de Trabalho: uma opção para a EJA Fernando Hernandez & Montserrat Ventura (1998) definem projeto como uma forma de organizar a atividade de ensino e aprendizagem ou os conhecimentos escolares, adotando como aspectos essenciais a aprendizagem significativa e o conhecimento globalizado

7 De acordo com Almeida & Moran (2005), o trabalho com projetos questiona o currículo engessado, ao propor atividades que partam das problemáticas que permeiam o cotidiano dos estudantes. Desta forma, Hernandez & Ventura (1998) pontuam que um projeto pode organizar-se seguindo determinado eixo: a definição de um conceito, um problema geral ou particular, um conjunto de perguntas interrelacionadas, uma temática que valha a pensa ser tratada por si mesma. Nesta perspectiva, conforme ressalta Espíndola (2005), os conteúdos não se apresentam mais como um fim em si mesmos, mas ganham significados diversos a partir das vivências sociais dos estudantes e passam a ser meios para a ampliação de seu universo cognitivo, mediando seu contato com a realidade de forma crítica e dinâmica. Nesta prática, os estudantes são sujeitos ativos da aprendizagem, onde os professores devem propor estratégias e reflexões que contemplem a autoria dos estudantes e preservem, de acordo com Hernandez & Ventura (1998), a função principal da escola: o desenvolvimento da autonomia do ser humano, a produção de conhecimento e a construção da cidadania. Para levar adiante a organização curricular a partir de Projetos de trabalho, Hernandez & Ventura (1998) destacaram as seguintes bases teóricas, que os fundamentam: 1. Aprendizagem significativa, partindo do que os estudantes já sabem a respeito do tema abordado; 2. Aprendizagem conectada com os interesses dos estudantes, buscando uma atitude favorável para o conhecimento e aprendizagem; 3. Previsão, por parte dos docentes, de uma estrutura lógica e sequencial dos conteúdos, numa ordem que facilite sua compreensão; - 7 -

8 4. Sentido de funcionalidade do que se deve aprender, considerando os procedimentos e as diferentes alternativas organizativas aos problemas abordados; 5. Valorização da memorização compreensiva de aspectos da informação, que constituem-se em base para novas aprendizagens e relações; 6. A avaliação, que se destina, sobretudo, a analisar o processo seguido ao longo de toda sequencia e das inter-relações criadas na aprendizagem. Assim, os projetos de trabalho são uma forma de fazer com que o estudante seja participante ativo na construção de seu conhecimento, incluindo-o em todo o processo de aprendizagem. A partir dessa ótica, de acordo com Freire et al. (1998), o estudante, sujeito ativo da aprendizagem, aprende ao levantar, fazer e testar ideias, experimentar, construir conhecimentos e representar o pensamento. Cabe ao docente, como mediador da aprendizagem, possibilitar situações que promovam a interação, o trabalho em grupo, a busca de informações e de novas possibilidades, assim como a construção de novos conhecimentos, principalmente nesta era da aprendizagem móvel, como apresentado a seguir. Dispositivos móveis na EJA m-learning Para Ferreira (2009), ao testemunharmos as novas formas de viver e de aprender fora da escola, baseadas em formas de interação mediadas por tecnologias digitais, podemos questionar se a escola, tanto no que se refere ao que ensina como a forma que ensina, está adequada aos tempos atuais, ou se está defasada em relação ao mundo a sua volta. Desta forma, a educação, as novas tecnologias e o conhecimento têm sido alvo de atenção, se considerarmos que o uso das mesmas pode contribuir para novas práticas pedagógicas desde que baseadas em novas concepções de - 8 -

9 conhecimento, de estudante e de professor, transformando uma série de elementos que compõem o processo de ensino-aprendizagem. A grande maioria dos jovens e adultos possui telefones celulares e o uso pedagógico dos mesmos, de acordo com Ferreira (2009), promove o desenvolvimento de competências na utilização de conteúdos digitais e na realização de tarefas colaborativas essências na era digital, caracterizada pela globalização, interação e mediação. A utilização destes dispositivos pelos estudantes é incontornável, portanto a escola precisa criar oportunidades para utilizar estes dispositivos a favor das suas práticas pedagógicas. É neste contexto que surge o m-learning. Mobile learning (m-learning), de acordo com Moura (2010), é um termo didático-pedagógico, usado para designar um novo paradigma educacional, definido como o processo de aprendizagem que ocorre apoiado pelo uso de dispositivos móveis, tendo como característica fundamental a portabilidade dos dispositivos e a mobilidade dos sujeitos. Resumidamente, de acordo com Ferreira (2009), o termo m-learning, em português, pode ser traduzido por aprendizagem móvel. Uma das características do m-learning, de acordo com Moura (2010) é o aproveitamento dos dispositivos que os estudantes, jovens e adultos, usam e levam com eles para todo o lado, que consideram dispositivos pessoais e amigáveis, que são fáceis de usar, que usam constantemente em todos os momentos da vida e numa variedade de situações, exceto ainda na esfera educativa. É, pois, urgente, enfrentar esta questão e ter em consideração, tanto metodologias, como conteúdos (MOURA, 2010). Mudar as metodologias em primeiro lugar e aprender a comunicar na linguagem e estilo dos estudantes, ou seja, se letrar digitalmente (RIBEIRO, 2009), fatores que verificamos no estudo conforme mostrado a seguir

10 Limites e possibilidades Por se tratar de uma investigação qualitativa, optamos pela tematização dos dados nas seguintes categorias: EJA; Projetos de Trabalho; Funcionalidade; Mobile Learning e Letramento Digital, considerando os limites e as potencialidades em cada um deles. Dinâmicas da EJA No decorrer da investigação enfrentamos algumas dificuldades relacionadas ao fluxo dos estudantes e ao calendário escolar, ou seja, aos tempos da EJA. Uma das características da EJA é a infrequência dos estudantes, e na escola onde aconteceu esta pesquisa não era diferente. Por se tratarem de jovens e adultos, esses sujeitos possuem diversas demandas extra-escolares. Como ressaltado por Cunha & Silva (2004, p. 50), olhamos para sujeitos que vivenciam uma variedade de situações concretas, formadoras de subjetividades. Desta forma, os estudantes faltavam com freqüência e isso refletiu na coleta de dados e no desenvolvimento do Grupo Focal. Na EJA também existe uma rotatividade de professores, e no decorrer do projeto alguns professores saíram e outros entraram. O professor de Ciências, que estava envolvido no projeto B. nas estrelas, por diversos motivos, acabou não acompanhando as fases finais do projeto, ficando mais ao cargo do professor de Geo./História encaminhar as atividades. No entanto, a escola, por meio da iniciativa de alguns professores, buscou trabalhar com estas características da EJA a seu favor, por meio dos projetos de trabalho

11 Projetos de Trabalho A escola investigada já tinha a prática de desenvolver projetos. Na EJA eles acontecem com mais freqüência, devido as possibilidades de flexibilidade e (re)significação dos tempos e espaços. Uma grande parte dos projetos e atividades desenvolvidos pelos professores acontecia fora do espaço escolar, mas no horário das aulas. Os projetos que aconteciam dentro da escola, demandavam reorganização dos tempos, não sendo marcados por horários rígidos. O projeto B. nas estrelas abarcou estes dois momentos: dentro e fora da escola. A atividade fora da escola foi a visita ao Observatório da UFMG. O professor responsável já tinha o costume de trabalhar com projetos e de acordo com ele, os projetos de trabalho são a sobrevivência da educação, no sentido que você consegue, através de projetos, desenvolver uma linguagem mais direta, uma proposta mais eficaz. Tem projetos que você fica ali nos duzentos dias letivos, talvez infinitos. Então a eficácia está nos projetos. (PRM) O seu pensamento vem ao encontro de teóricos que defendem os projetos de trabalho. De acordo com Almeida & Moran (2005), o trabalho com projetos questiona o currículo engessado, ao propor atividades que partam das problemáticas que permeiam o cotidiano dos estudantes, que considere a demanda e a vivência dos sujeitos. Podemos perceber então que este trabalho conjunto, entre pesquisa e projeto, considerando o interesse dos estudantes, ajudou na aprendizagem significativa dos mesmos, como demonstrado na fala de E02 Ajuda sim. É o conhecimento. Muitas coisas que pelo menos eu não sabia, coisas que eu nunca tinha ouvido falar, eu aprendi... São conhecimentos que a gente guarda para a vida toda

12 Verificamos então que os projetos de trabalho contribuem para a utilização do telefone celular como ferramenta pedagógica, considerando a disponibilidade, envolvimento e flexibilidade da comunidade escolar. No entanto, quais funcionalidades do aparelho celular, voltadas para a aprendizagem, os estudantes poderiam utilizar? Funcionalidades do telefone celular Em primeiro lugar, destacamos a familiaridade dos estudantes com este dispositivo móvel, como também constataram Ferreira (2009), Macedo (2009) e Moura (2010). Como apresentado pelos dados do questionário, a maioria dos estudantes possuíam telefones celulares com recursos de câmera, jogos, internet, Bluetooth, mp3 e utilizavam com freqüência a maioria destas funções, somando a isso o envio de mensagens (SMS). Desta forma, o telefone celular não é apenas um aparelho para se fazer ligações. São verdadeiras centrais multimídias (ANTÔNIO, 2010). Na fala de PRM, Eu acho que o celular é uma central de multimídia, ele atende plenamente todas as oportunidades: ouvir música, ouvir rádio, tirar foto, filmar, falar, ouvir, conectar internet. Praticamente 100% dos estudantes participantes do grupo focal possuíam celulares com os recursos de câmera, jogos, internet, Bluetooth e mp3 e sabiam utilizar estas funções. O gravador de voz foi a função que eles menos utilizavam, sendo que alguns estudantes não sabiam como ela funcionava, buscando instruções de uso para pesquisadora e colegas da escola. Assim, analisando as tarefas propostas ao grupo focal, observamos que os estudantes que desenvolveram as atividades não apresentaram dificuldades para utilizar a maioria dos recursos disponíveis em seus aparelhos celulares

13 Os limites para o desenvolvimento das tarefas se condicionaram aos recursos dos aparelhos celulares, como baixa qualidade da câmera e vídeo e ao envio de SMS, sendo esta uma das atividades de menor retorno, aproximadamente 50% dos estudantes. Ao avaliar as funções utilizadas, os estudantes gostaram de filmar, tirar foto e gravar. Esta última foi a que eles mais gostaram. Desta forma, considerando a utilização das funcionalidades do telefone celular nas atividades propostas, questionamos os estudantes e o professor M. sobre o potencial do telefone celular como ferramenta de aprendizagem e eles avaliaram que a sua utilização é possível. Na fala de PRM O celular é o vislumbre do momento. É o objeto de desejo de todo mundo. Menino de 10 anos já quer ter um celular... Eu acho que o celular tendo esta característica de multimídia e ele sendo portátil, eu acho que ele atende bastante, atende plenamente. Eu acho até que supre ai um custo maior de notebook, de netbook, tablet. O celular é uma conexão portátil e multimídia. Eu acho fantástico... e com um preço acessível. Sobre as características que os telefones celulares devem ter para se tornarem ferramentas de aprendizagem eles apresentaram em primeiro lugar a internet, seguido da câmera, mensagem e calculadora. No que se refere aos limites para a instauração desta tecnologia como ferramenta útil de aprendizagem, eles apresentaram os altos custos da internet, a conexão lenta, os recursos de alguns aparelhos celulares e a incompatibilidade entre alguns destes dispositivos. Mobile Learning Neste tópico, os questionários apresentaram que no grupo focal, 87% dos estudantes já haviam utilizado o telefone celular para atividades escolares e 100%

14 considerava positiva a utilização deste aparato tecnológico para atividades escolares, reconhecendo o seu potencial como ferramenta de aprendizagem. Acreditamos, como apresentado por Moura (2010), que estes dados favoreceram a aceitação às atividades propostas para este grupo relacionadas à utilização do telefone celular. Na entrevista eles disseram que a possibilidade de utilizar o próprio aparelho facilita o processo, demonstrando um favorecimento à apropriação do telefone pessoal como ferramenta de aprendizagem. No entanto, E01 e E02 pontuaram que tem que ser um celular que permita tirar fotos, gravar, e ter acesso à internet, ou seja, que tenha recursos para desenvolver as atividades, conforme apresentado no tópico anterior. De acordo com Coscarelli (2011, p. 28), com a internet o que era impossível passa a ser alcançável. O que não era realidade dos alunos (e que muita gente acredita que não deve ser) passa a poder fazer parte do dia a dia deles. Além das funcionalidades, E01 acrescentou que também depende da matéria, de como o professor vai encaminhar e de quais atividades ele vai solicitar. Para isto, PRM ressalta que é necessário promover formações aos professores para lidar com esta ferramenta. Desta forma, questionamos aos estudantes e ao professor, sobre o potencial do telefone celular como ferramenta para aprender em qualquer lugar e a qualquer hora, ou seja, a aprendizagem ubíqua, e eles avaliaram positivamente, ou, na fala de E01, uma mão na roda. Como constatado por Moura (2010), acreditamos que os estudantes compreenderam que o telefone celular dilui as fronteiras da sala de aula e a aprendizagem pode acontecer em qualquer momento, adotando esta prática no seu dia-a-dia, conforme apresentado na fala de E02 O celular hoje para gente é uma aprendizagem. Muitas coisas que você não sabe, se você tem dúvida, você busca ali na internet que você acha. Alguma noticia que você quer saber, informação que você quer saber que não tem. Hoje em dia eu acho que é importante. Eu uso direto, no meu trabalho, em casa

15 Nesta fala também percebemos a autonomia do estudante para construir o seu próprio percurso de aprendizagem, outra característica do m-learning, de acordo com Sharples et al. (2007). Em relação à aprendizagem colaborativa, os estudantes consideraram significativas as atividades de interação, entre estudante e estudante, e professor e estudante. Eles reforçaram a importância da interação entre os sujeitos, bem como um trabalho mais próximo e significativo, dados estes também levantados por Moura (2010) e Sharples et al. (2007). Letramento Digital Ao analisar os dados do questionário, bem como as entrevistas, consideramos relevante fazer uma reflexão sobre o letramento digital. Os dados do questionário demonstraram que grande parte dos estudantes que consideraram o telefone celular sem utilidade para atividades escolares, se encontra na faixa dos 30 a 39 anos, e acreditamos estar ligado, dentre outros, a não familiaridade com esta tecnologia, já que foi nesta faixa também que tivemos menos estudantes que utilizavam variadas funções dos dispositivos móveis, mesmo os aparelhos possuindo os recursos. Logo associamos este quadro às características presentes nos imigrantes digitais (PRENSKY, 2001), devido às dificuldades destes estudantes em compreender e expressar-se digitalmente. No entanto, esta não é só uma dificuldade apresentada pelos estudantes. Mesmo apoiando a utilização do telefone celular como ferramenta de aprendizagem, PRM confessa A gente (considerando as pessoas e os professores da sua idade) ainda não sabe lidar com a tecnologia. Nós pegamos o final dos anos 90, e entramos nesta tecnologia de informática e celular. Ainda não domino

16 Mesmo assim, estas dificuldades não impedem que os estudantes e professores possam aprender a utilizar estas tecnologias, buscando se letrar digitalmente. De acordo com Lévy (1999), letramento digital pode ser entendido como um conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, como sendo um novo meio de comunicação. (LÉVY,1999, p. 17) Desta forma, Ribeiro (2009) ressalta que as pessoas precisam aprender a fazer uso da tecnologia para gerar um benefício ou comodidade para ela. Foi esta postura que o professor e os estudantes entrevistados buscaram desenvolver, frente as suas dificuldades com a tecnologia. Mas não são somente os imigrantes digitais que precisam se letrar digitalmente. De acordo com a análise dos dados do questionário e das entrevistas, os nativos digitais também precisam aprimorar o seu grau de letramento digital, já que, como apresentado por Buzato (2001), letramento digital não quer dizer apenas saber como utilizar as tecnologias digitais, mas também entrar em contato com elas de maneira significativa, entendendo seu uso e possibilidades em nossa vida em sociedade, de maneira crítica e com responsabilidade. Na escola pesquisada, conforme apresentado, a proibição do aparelho celular estava muito associada a forma do estudante não saber lidar com a tecnologia no espaço escolar, ouvindo música alta, utilizando o aparelho celular dentro da sala de aula, durante a aula, para ouvir música, ligar e enviar mensagem. Ou seja, o estudante precisa saber como utilizar esta tecnologia nos diferentes espaços, buscando, como apresentado por Coscarelli (2013), uma educação digital, que discuta suas implicações éticas e morais, para além da utilização instrumental. Este termo também apareceu na fala de PRM

17 O estudante não tem educação digital. Não é culpa dele. É uma coisa recente, que nos ainda estamos caminhando. E hoje estourou mais de um aparelho por habitante no Brasil, em muito pouco tempo, realmente não sabemos lidar com isso. Desta forma, cabe à comunidade escolar, por meio do trabalho conjunto entre os nativos e imigrantes digitais, buscarem o letramento e a educação digital. O que não deve acontecer, como apresentado por PRM, é a escola fechar os olhos para a tecnologia, no caso o telefone celular, que se apresenta como uma super ferramenta... e uma grande oportunidade (PRM). Considerações finais Este estudo buscou analisar o uso da tecnologia móvel de comunicação voltada para a aprendizagem com mobilidade e o ensino na Educação de Jovens e Adultos (EJA), considerando as suas potencialidades e limites pedagógicos. Neste contexto, consideramos o mobile learning como um novo paradigma educacional, sendo possível a sua inserção por meio dos projetos de trabalho. Os dados do estudo também caminharam neste sentido. Por meio de uma coleta de dados qualitativa, através do desenvolvimento de atividades que visavam à utilização do aparelho celular no projeto B. nas Estrelas, os estudantes e professor demonstraram ser possível a utilização do celular enquanto ferramenta pedagógica. As principais limitações encontradas foram: a infrequência dos estudantes; alteração do calendário escolar; dificuldades em lidar com algumas funcionalidades; incompatibilidade entre aparelhos diferentes. As principais possibilidades para a utilização pedagógica do aparelho celular na Educação de Jovens e Adultos são: a flexibilização dos tempos e espaços; os projetos de trabalho; as funcionalidades - internet, vídeo e câmera; a familiaridade

18 com a tecnologia; a autonomia e a interação entre os sujeitos e a disponibilidade para se letrarem digitalmente, tanto o professor, quanto os estudantes. Assim como apresentado por Moura (2010), um dos aspectos mais relevantes da utilização do telefone celular como ferramenta pedagógica está relacionada ao fato de ser utilizado, no contexto escolar, um aparato tecnológico que é propriedade dos estudantes. A utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação na educação tem consequências, tanto para a prática docente como para os processos de aprendizagem. O futuro sucesso do m-learning em ambiente escolar dependerá da predisposição dos professores em adotar as tecnologias móveis na sala de aula. Para tanto, é necessário mudar a forma do ensino baseado na transmissão ou exposição, em que o professor transmite informação para alunos passivos e sem conhecimento. Os professores devem se transformar em mediadores do conhecimento. Eles precisam acreditar que a integração de uma ou outra tecnologia é positiva para as experiências de aprendizagem. Para tanto, precisam buscar se letrar digitalmente, (re)significando sua prática docente. Como apresentado por Moura (2010), os dispositivos móveis, ferramentas ubíquas, multimídias e portáteis, mudam a natureza do conhecimento e discurso e consequentemente, a natureza da aprendizagem e a forma como se aprende. Mesmo não sendo o objetivo da investigação, verificamos que os estudantes E01, E02 e E03, a partir das tarefas desenvolvidas com seus telefones celulares, bem como o professor PRM, considerando a proposta do estudo e as conversas informais com a pesquisadora, (re)significaram o papel das tecnologias na sua vida, estendendo as possibilidades de sua utilização para atividades extra-escolares, como trabalho, vida pessoal, passeios, dentre outros. Como possibilidades futuras, avaliamos que seria significativa uma parceria entre empresas de telefonia e escola, visando uma redução de custos; formação

19 continuada para os professores sobre as possibilidades pedagógicas do uso de dispositivos móveis e o estreitamento das relações entre universidade e escola. Referências ANTONIO, José Carlos. Uso pedagógico do telefone móvel (Celular). Professor Digital, SBO, 13 jan Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2010/01/13/uso-pedagogico-do-telefonemovel-celular/&gt>. Acesso em: 10/05/2013. ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcin; MORAN, José Manoel (Org.) Integração das tecnologias na educação: salto para o futuro. Brasília, DF: MEC, BOTTENTUIT JUNIOR, J.B. Do Computador ao Tablet: Vantagens Pedagógicas na Utilização de Dispositivos Móveis na Educação. Revista EducaOnline, ISSN , Vol. 6, N 1, Jan/Abril BRASIL. Lei n /96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. BRITO GUERRA, L. N. et al. Mobile Learning: O caso de uma Universidade privada de uma capital do Nordeste. Revista Gestão e Planejamento, Salvador, v. 13, n. 2, p , maio/ago Disponível em: <http://www.revistas.unifacs.br/index.php/rgb>. Acesso em: 08/05/2013. BUZATO, M. E. K. O letramento eletrônico e o uso do computador no ensino de língua estrangeira: contribuições para a formação de professores. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Disponível em: <http://libdigi.unicamp.br/document/?down=vtls >. Acesso em: 10/05/2013. COSCARELLI, Carla Viana. Alfabetização e Letramento digital. In: Coscarelli, Carla Viana & Ribeiro, Ana Elisa (Orgs.). Letramento digital: aspectos e possibilidades pedagógicas. 3ª Ed. Belo Horizonte: CEALE; Autêntica, Ler é mais que ler: a leitura em tempos digitais. Palestra proferida na Faculdade de Educação da UFMG em 16/04/

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