PROJETO CAFÉ FILOSÓFICO: ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES PARA O ENSINO DE FILOSOFIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA

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1 PROJETO CAFÉ FILOSÓFICO: ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES PARA O ENSINO DE FILOSOFIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA Samuel da Silva Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Montes Claros Professor de Filosofia e Coordenador Pedagógico do Colégio CENEC- Pirapora/MG Especialista em Supervisão Escolar Especializando em Filosofia pela Universidade Estadual de Montes Claros Técnico em Administração de Empresa RESUMO O estudo de FILOSOFIA é essencial. Porque não se pode pensar em nenhum homem que não seja solicitado a refletir e agir. Isso significa que todo homem tem ou deveria ter uma concepção de mundo, uma linha de conduta moral e política, e deveria atuar no sentido de manter ou modificar as maneiras de pensar e agir no seu tempo. A FILOSOFIA oferece condições teóricas para a separação da consciência ingênua e o desenvolvimento da consciência crítica. Este trabalho tem como objetivo fundamental compartilhar com a comunidade de docentes, pesquisadores de práticas de ensino em educação, professores de FILOSOFIA com os demais interessados o Projeto Café Filosófico que é desenvolvido no Colégio Cenecista de Pirapora (Pirapora-MG) pelo professor de FILOSOFIA desde o ano de Esta experiência vem permitindo o estudante ler textos filosóficos de modo significativo, elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo, articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos de modo discursivos das ciências naturais e humanas e, o mais importante, a contextualização dos conhecimentos filosóficos tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sócio-político, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica. Todas essas competências e habilidades são desenvolvidas sob a perspectiva interdisciplinar e da ética da responsabilidade para com o mundo e a humanidade. Para contemplar os possíveis resultados deste projeto utilizou-se como metodologia levantamento bibliográfico e aplicação de questionário semi estruturado e de cunho quanti-qualitativo, levando em consideração dois Café Filosófico realizados no ano O primeiro teve como público alvo o 1º e 2º ano do ensino médio e o segundo foi com o 3º ano do ensino médio. PALAVRAS-CHAVE: Ensino Médio. Filosofia. Projeto. Educação. INTRODUÇÃO Desde que os gregos antigos começaram a se reunir ao redor da ágora, discutindo pequenas questões da vida cotidiana, a história do homem ocidental não foi mais a mesma. Está inaugurado o espaço público, o espaço da palavra, o espaço dos iguais (isoi). Está sinalizada a liberdade do homem que pensa, que discursa, descobrindo que o mundo mítico é

2 2 repleto de magia que envolve uma nuvem de misticismo. Como fruto desta ruptura paulatina surge a maior de todas as experiências humanas: o filosofar. Esta ação que é própria do pensamento confere ao mundo sentido e oferece inúmeras contribuições para o processo de formação humana. Formação esta que também foi precedida e pensada primeiramente pelos povos gregos, ao perceber que era possível atingir o aperfeiçoamento humano através de uma Paidéia (Pedagogia grega). A educação é uma função tão natural e universal da comunidade humana, que pela sua própria evidência, leva muito tempo a atingir a plena consciência daqueles que a recebem e a praticam (...). Da educação, neste sentido, distingue-se a formação do homem por meio da criação de um tipo ideal intimamente coerente e claramente definido. Esta formação não é possível sem oferecer no espírito humano uma imagem do homem tal como ele deve ser. (IAEGAER 1989, p.17) Somos herdeiros dessa tradição que visa educar e projetar a humanidade a partir de nossa realidade e anseios. Logo, é preciso ter clareza que educar crianças e jovens na presença ativa do filosofar é proporcionar aos mesmos uma instigação ao desmonte de certezas, ao questionamento do instituído; permitindo-os transitarem através de reflexões e leituras de textos diversificados, instrumentalizando a crítica e ampliando a visão de mundo. Este exercício proporciona que cada um possa conquistar a sua autonomia no exercício pleno da liberdade. O objetivo principal deste artigo é compartilhar com a comunidade pesquisadora uma experiência da prática de FILOSOFIA no ensino médio, que vem sendo realizada no Colégio Cenecista de Pirapora, (Pirapora-MG), no intuito de contribuir com os demais profissionais desta área que estão à procura de reafirmar a presença da filosofia no meio escolar. O referente artigo encontra-se estruturado em três partes: primeiramente versa sobre a FILOSOFIA no ensino médio, evidenciando a experiência particular do Projeto Café Filosófico e sua estrutura e demais procedimentos. Filosófico. A segunda parte apresenta os fundamentos éticos e epistemológicos do Projeto Café Enfim, na terceira parte apresentamos a percepção dos alunos sobre o Café Filosófico e nossas considerações finais. A pesquisa nesta etapa baseou-se em aplicação de questionários semi estruturado de cunho quanti-qualitativo, para com os alunos do ensino médio, atentando que os relatos estão na íntegra e que não se faz necessário a identificação dos mesmos.

3 3 Estamos convictos de que refletirmos e partilharmos as novidades da ação docente possibilita a todos envolvidos novos olhares para a ação educativa, que apresenta todos os dias novas necessidades, leituras e reflexões. A FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO: UMA EXPERIÊNCIA NO COLÉGIO CENECISTA DE PIRAPORA Ao longo de muitos séculos consolidou-se uma tradição que fez da FILOSOFIA uma disciplina acadêmica, restrita ás instituições de ensino. Nesses últimos anos, essa tendência parece ter mudado significativamente. Hoje, a FILOSOFIA pula seus próprios muros e habita outros espaços, como se de repente tivesse sido descoberta. Essa crescente valorização não é perceptível só pela quantidade de iniciativas, eventos, produções e publicações brasileiras nas quais se vê envolvida, como também por uma militância que começa oferecer resultados. A comunidade filosófica precisa alargar seus horizontes, ultrapassar limites, ousar pensar e atender uma dimensão sua que até então era pouco sistematizada: A do ensino de FILOSOFIA. E isto faz voltar nosso espírito para a lei , sancionada no dia 02/06/2008 pelo Exmo. Presidente da República em exercício, Sr. José de Alencar, que modifica o art. 36 da LDB, onde no novo texto obriga a instalação da FILOSOFIA e sociologia em todas as escolas que oferecem o Ensino Médio (DOU, 2008). Em meio aos prós e contras essa ação, que por sinal já é um fato, não tem como esquivar-se dessa problemática. Mais que uma conquista, as universidades que oferecem o curso de FILOSOFIA, e os professores que já estão na ativa se sentem angustiados e necessitados de um debate acerca do ensino de filosofia. Afinal, professor de filosofia, como também professores de outras disciplinas, deve buscar entender em que consiste a sua ação docente. Ao tentar entender ou aperfeiçoar o ensino da FILOSOFIA no nível médio da educação básica, muitos preconceitos podem vir à tona por parte dos alunos, como também por parte dos professores. Por parte dos alunos pode surgir a idéia de que a FILOSOFIA é muito difícil, que não tem como entender nada, que é algo muita das vezes subjetivo e praticamente inalcançável. Já por parte do professor pode surgir a idéia de que seria impossível esses

4 4 jovens de quinze a dezessete anos se interessarem em exercer o pensamento, pois são limitados, relapsos, e sem perspectiva, enfim poderia ser uma perda de tempo. Se ficarmos apenas com essas considerações e não nos aprofundarmos nessa problemática à procura de caminhos, com certeza poderíamos dizer que todo o esforço feito pelos defensores da causa da inserção da FILOSOFIA no ensino médio foi em vão. No Colégio Cenecista de Pirapora (CNEC) o professor de FILOSOFIA unido à equipe pedagógica vem procurando desenvolver e demarcar a identidade da FILOSOFIA nesse espaço conquistado. Por isso, uma das grandes preocupações do professor é possibilitar aos estudantes um momento significativo, ampliando as experiências da sala de aula, para que possam redescobrir o poder de exercer o diálogo, o direito à palavra, tecer paralelos entre o senso comum e o saber filosófico, num clima de respeito mútuo e de responsabilidade como seres pensantes. Ghedin (2008) afirma que a FILOSOFIA necessita conquistar seu espaço, tanto no campo político-institucional como no plano de sua efetivação no currículo. Para a efetivação destas competências e habilidades supracitadas sentimos a necessidade de realizar um projeto onde o ensino de FILOSOFIA possa fazer e estabelecer mediações. Sabemos da importância e de muitos resultados profícuos em se tratando de projetos bem elaborados e articulados que visem contribuir efetivamente para o processo de ensinoaprendizagem: Os projetos de trabalho constituem uma forma de organizar os conhecimentos escolares no interior de cada disciplina, tendo em vista um trabalho interdisciplinar. Além disso, abrem espaço para que o ensinoaprendizagem possa constituir um processo de investigação em sala de aula. (GHEDIN, 2008, p. 179). Tomados por esse desejo e necessidade, há três anos foi implantado no Colégio Cenecista de Pirapora o Projeto Café Filosófico. E desde já podemos afirmar que muitos são os frutos que colhemos desta prática educativa. Vejamos a história que originou o Café Filosófico, como também o modo como o mesmo é articulado para atender as demandas específicas dos estudantes cenecistas. Origens do Café Filosófico O primeiro Café Filosófico foi organizado pelo filósofo Marc Sautet especialmente no café de Phares, ao domingos na Praça da Bastilha, em 1992 (JÓIS, 2006).

5 5 Como em França as pessoas têm o costume de parar em determinados pontos específicos para tomar um cafezinho, assim aproveitavam também para bater um papo e quando menos percebiam estavam discutindo profundas questões sobre a humanidade. Aos poucos essa idéia foi se espalhando e tomando outras proporções. Inspirado nesta experiência, como também nos Café Filosófico promovido pelo Departamento de Filosofia da Universidade estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e eventos de outros segmentos, decidimos adaptar essa idéia para responder as exigências da nossa realidade escolar. Colocamo-nos a trabalhar no intuito de realizar esse tipo de evento com os estudantes da educação básica que estão no nível médio. E desde o início fomos tomados pelo desejo da simplicidade, organização e valorização da disciplina de FILOSOFIA em interfaces com outros saberes dando o devido valor aos nossos adolescentes. Para a efetivação do Projeto Café Filosófico, usamos os seguintes procedimentos: Numa perspectiva interdisciplinar, escolhemos um tema, oferecemos aos estudantes textos científicos adaptados e que devem ser estudados a priori, indicamos um filme sobre a temática, marcamos uma data e um horário extra-aula, convidamos uma pessoa capacitada para brevemente discorrer sobre o tema, e ao som de músicas, poesias cantadas e declamadas pelos estudantes discutimos em mesas redondas algumas questões sobre o tema abordado, realizamos mini-plenário e com um saboroso lanche vivenciamos a partilha do saber, da experiência do espaço do público e da presença do outro. Também há um passo muito importante que é a avaliação do evento, e neste os promotores do projeto repousam total atenção. Assim, procuram avaliar o Café Filosófico e os alunos, instruindo-os a escrever registros apresentando sínteses dos textos lidos. A participação, debate nas mesas redondas, mini-plenário, como também a disciplina, envolvimento dos estudantes com a proposta são critérios de avaliações. E por último, o estudante faz uma auto-avaliação escrita e envia para o coordenador do projeto. Todos os acontecimentos do Café Filosófico se encontram no arquivo da escola disponíveis em fotos, registros de produções textuais e registros das auto-avaliações, servindo para o professor de material de pesquisa e busca de aperfeiçoamento da proposta. O PROJETO CAFÉ FILOSÓFICO E A EPISTEMOLOGIA ÉTICA DO FILOSOFAR

6 6 Pensar o processo de formação do homem na perspectiva de uma metafísica é se inclinar para uma problematização filosófica merecedora de profundas reflexões: Que homem e mulher queremos educar para a nossa sociedade? Esta problematização nos faz entender que toda educação é acompanhada de princípios teleológicos, ou seja, visa um fim último. No processo de ensino-aprendizagem a formação dos estudantes não consiste apenas no desenvolvimento das capacidades e habilidades intelectivas do homem e sim em cultivá-los espiritualmente para a vida social. Eis aí uma necessidade da formação do indivíduo para o exercício da cidadania, interpretando e participando das decisões políticas vigentes. Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, á igualdade perante a lei: é, em resumo, ter direitos civis. É também participar no destino da sociedade, votar e ser votado, ter direitos políticos. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles que garantem a participação do individuo na riqueza coletiva: o direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, á saúde, a uma velhice tranqüila. Exercer a cidadania plena é ter direitos civis, políticos e sociais. (PINSKY, 2003, p. 10) Ao projetarmos o Café Filosófico pensamos de imediato no estudante diante da ação do filosofar. Filosofar é segundo Ghedin (2008) uma construção de um caminho que ajude a pessoa a pensar criticamente, criando uma estrutura cognitivo-reflexiva que lhe permita compreender a realidade em sua complexidade, aguçando-lhe o juízo, a habilidade analítica, o horizonte de compreensão e de construção de sentido ante os desafios da sociedade do mundo contemporâneo. Essa compreensão implica atribuir caráter ético-político á FILOSOFIA no espaço da escola e constitui a dimensão cultural do filosofar. Isto nos leva a redescobrir na escola a concepção de espaço público. O espaço público é o espaço de todos que é demarcado pelo valor imperativo da liberdade. E é função da escola preparar os seus estudantes para exercer a ação política, através da cidadania, como também entender as suas implicações. Durante o Café Filosófico isto fica bem visível, pois o espaço escolar é preparado para receber a todos, e a partir desse momento se encontrarão diante de uma ética pública que deve necessariamente ser mais ampla e superior à ética privada. O estudante consegue entender que é preciso permitir o exercício da escuta, conferindo aos outros o direito de se manifestarem, apresentarem suas opiniões contrárias ao que está sendo debatido, pois neste exato momento ao praticar o exercício da locução e da escuta nós

7 7 oportunizamos e incentivamos muitos companheiros a revelarem suas idiossincrasias, mediante as considerações científicas que são expostas. A partir de então entra em cena o valor ético da alteridade, a capacidade de tolerar, valorizar o outro e as suas diferenças. Afinal, estamos educando os estudantes para o exercício da liberdade, da autonomia e do respeito. Quando este espaço é favorecido e cultivado, todos que estão envolvidos se sentem aptos na tranquilidade inquietante do diálogo: O diálogo se dá sob duas perspectivas: os estudantes têm oportunidade de dialogar silenciosamente com a temática através dos textos que receberam para ler em casa, e no dia do evento acontece o diálogo entre os textos teóricos, a visão de cada um sobre a temática e as apreciações do convidado especial que media os conflitos. Esta qualidade reveladora do discurso e da ação vem à tona quando as pessoas estão com as outras, isto é, no simples gozo da convivência humana, e não pró ou contra as outras. Embora ninguém saiba que tipo de quem revela ao se expor na ação e na palavra, é necessário que cada um esteja disposto a correr o risco da revelação; e nem o praticante de boas ações, que precisa ocultar sua individualidade e manter-se em completo anonimato, nem o criminoso que precisa esconder-se dos outros, pode correr o risco de revelar-se. Ambos são indivíduos solitários; o primeiro é pró e o segundo é contra todos os homens; ficam, portanto, fora do âmbito do intercurso humano e são figuras politicamente marginais que, em geral, surgem no cenário histórico em épocas de corrupção, de desintegração e decadência política. (ARENDT 1991, p. 193) Ao compreender o que somos ou quem somos uma perspectiva se desponta para todos nós educadores e educandos: A demanda por sentido e a responsabilidade. Após discutirmos a temática proposta os estudantes tem o prazer de se sentarem ao redor da mesa para dividir o lanche num clima de muitas alegrias. Este momento é culminante, pois cada um trouxe alguma coisa para partilhar e, junto com o alimento acontece a partilha de sonhos, músicas, lembranças escolares e muitos risos. Quando oferecemos e recebemos do outro um pouco de sua vida, nos sentimos responsáveis pela mesma vida e alimento partilhado. Esse apelo dos entes existentes no mundo exige uma resposta á solicitação do outro. Implica responsabilidade para com o outro (...) desse modo, filosofar é um compromisso de responsabilidade ética para com as outras existências do mundo. Em obediência a uma característica antropológica, o ser humano só se humaniza diante do outro, como horizonte de sua própria identidade. (GHEDIN 2008, p.51)

8 8 Com esta afirmativa Ghedin (2008) nos apresenta a principal característica fundadora do filosofar: a dimensão ética. Ao voltarmos os olhos, ouvidos e mãos para a realidade gritante emanada da exclusão e da injustiça nos convoca a buscar outros caminhos, renovar a humanidade, e esse deve ser o fim último do filosofar como atividade de pensamento e de práxis que procura partir das questões problemáticas na contemporaneidade e apontar saídas para ela. VOZ DOS ESTUDANTES: A PERCEPÇÃO DOS ALUNOS DO ENSINO MÉDIO, DO COLÉGIO CENECISTA DE PIRAPORA, SOBRE O CAFÉ FILOSÓFICO. O projeto realizado tem como fim último a participação, promoção intelectual e humana dos estudantes de nível médio. Sendo assim, é necessário registrar a percepção dos mesmos diante do evento. É importante saber que as apreciações ora aqui registradas são relativas aos encontros realizados no ano de No ano referido sentimos a necessidade de fazermos dois encontros para facilitar a dinâmica do projeto, uma vez que nas diferenças de idades e percepções, como também no conteúdo programático da filosofia em sala de aula, a maturidade se dá em tempos diferentes. A partir destas considerações e de avaliações que outros alunos dos anos anteriores proporcionaram para refletirmos sobre a dinâmica do evento, no ano de 2009 preparamos um Café Filosófico para o 1º e 2º ano do ensino médio, onde desenvolvemos a temática A filosofia e a reconquista dos saberes, tendo como convidados para uma mesa redonda os professores do ensino médio da comunidade cenecista, para que assim pudessem partilhar um pouco da experiência pessoal de cada um com a disciplina que ministra. Já com o 3º ano do ensino médio contamos com a presença honrosa de um professor pesquisador na área da educação e que apresentou uma pesquisa feita a priori com os estudantes e nesta perspectiva desenvolveu o tema O que é isto, a universidade. Esta temática foi bem propícia naquele momento, uma vez que os estudantes do terceiro ano estavam prestes a encerrar o último ano da educação básica e ao mesmo tempo galgava os degraus dos cursos superiores.

9 9 Para obtermos e apresentarmos algumas ponderações dos estudantes participantes do Café Filosófico a pesquisa nesta etapa baseou-se em aplicação de questionários semi estruturado e de cunho quanti-qualitativo. É preciso saber que os relatos apresentados estão na íntegra (exceto no relato D, onde a estudante registra o nome do professor pesquisador e que nós decidimos manter a não identificação, preferindo deixar entre aspa o tratamento do mesmo como professor pesquisador), e que não se faz necessário a identificação dos estudantes, preservando os direitos dos mesmos. O Café Filosófico teve uma ótima acolhida pelos alunos, onde foi permitido sublinhar a importância da FILOSOFIA em nossa cotidianidade, destacando a sua simplicidade, profundidade e rigor metodológico. Ao observarmos as considerações do relato A é possível perceber o espírito de companheirismo e trabalho em equipe antes e durante o evento. Relato A: O café filosófico proporcionou a todos nós um grande enriquecimento, nos ensinando a presença da filosofia no dia a dia e a questão da ética. Ao longo do café filosófico, aprendemos a trabalhar em grupo e a respeitar o próximo. (Estudante do 1º ano E.M/2009) Este espírito de companheirismo é confirmado no relato B onde é visível nas entrelinhas que dividir o saboroso lanche torna o encontro mais fraterno e alegre, afinal, na palavra saber encontramos a palavra sabor, ambas de origem da mesma palavra latina sapere. Saber debater é colocar-se em processo de escuta, é permitir que o outro expresse a sua alteridade, é alimentar-se das riquezas que cada um traz como bagagem existencial. Relato B: A conversa envolvida e o tema foram bastante satisfatórios, já que os alunos souberam debater e trabalhar sobre o tema proposto em cada mesa. O lanche estava delicioso, hum! Esperamos que no próximo ano aconteça novamente. O conhecimento é um importante fator para progredirmos na vida, a escola possui um importante papel na formação dos alunos. (Estudante do 2º ano E.M/2009) No Colégio Cenecista de Pirapora, uma vez que oferece todas as séries da educação básica, há alunos que escrevem neste espaço toda sua história de estudos até os 17 anos. Todos os anos uma turma se despede da escola para continuar o caminho na conquista dos sonhos profissionais onde muitos ingressam no mundo universitário. O momento de despedida é sempre uma retrospectiva emocionante. No Café Filosófico realizado no ano de

10 foi aberto um espaço para que os estudantes pudessem dividir um pouco das inúmeras emoções que cercavam cada um deles. Segundo o relato C o momento foi bem propício, demarcado pela saudade e desejo de retorno à comunidade escolar. Relato C: O café filosófico foi muito proveitoso para os alunos e convidados. Todos se divertiram e se emocionaram muito com as músicas, homenagens e um lanche saboroso. Espero no ano que vem (mesmo não sendo mais aluno desta escola) eu possa ser convidado a participar novamente. (Estudante do 3º ano E.M/2009) O relato D nos apresenta pontos muitos significativos. A estudante demonstra suas aflições diante da escolha que terá que fazer. A pesquisa realizada e discutida sobre o perfil do futuro universitário teve como universo pesquisado a sala desta estudante que estava no 3º ano, e tal pesquisa apresentou resultados impactantes, como também desafios, exigindo dos ouvintes posturas de maturidade para fazer escolhas. Durante a palestra o convidado configurou o universo educacional brasileiro, apresentou problemas que as universidades encaram como desafios e debateu algumas questões, como por exemplo, o sistema de cotas, etc. Um ponto ainda rico no relato D é a capacidade da estudante reconhecer o convidado como profundo conhecedor da área da educação. Isto é de grande satisfação, pois a escola de educação básica precisa buscar auxílio dos pesquisadores, como também o contrário, para que assim o jovem estudante possa sentir que o conhecimento científico está no alcance de todos e perceber que todo e qualquer conhecimento produzido deve se apresentar como oportunidade de desenvolvimento cultural, social e político. Ou seja, um conhecimento que esteja a serviço da realização do ser humano em sua plenitude. Relato D: A partir do encontro foi possível, desenvolver um conhecimento mais realista sobre o nosso futuro ambiente de estudo, que até então desconhecemos. Entre outros fatores que colaboraram para um agradável encontro, a presença do professor pesquisador que se revelou um profundo conhecedor na área da educação. (Estudante do 3º ano/2009). CONSIDERAÇÕES

11 11 Com essa experiência do Café Filosófico coroamos e congraçamos o trabalho da FILOSOFIA em nossa comunidade escolar, alcançando alguns objetivos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1999) que versam sobre a disciplina FILOSOFIA: permitiu o estudante ler textos filosóficos de modo significativo, elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo, articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos de modo discursivos das ciências naturais e humanas e, o mais importante, a contextualização dos conhecimentos filosóficos tanto no plano de sua origem específica, quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sócio-político, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica. Ao partilharmos esta prática docente do ensino de FILOSOFIA é possível perceber que o Projeto Café Filosófico é simples, contudo uma simplicidade que produz frutos visíveis e significativos. Mas para que isso aconteça é preciso que o professor de FILOSOFIA possa estar atualizado nas leituras científicas, buscando inovar sua prática em um contínuo diálogo com a universidade e outros colegas de sua área. É preciso que a comunidade escolar, especialmente a equipe pedagógica, esteja envolvida e perceba através da prática do professor a importância deste tipo de projeto filosófico. Esperamos que a partilha desta experiência tenha sido, de fato, uma contribuição e incentivo para que outros professores, independentemente da área em que atuam possam apresentar os frutos das inovações de suas práticas docentes. Assim, cremos que estas reflexões não se encerram aqui. REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: MEC/SEMTEC, BRASIL. Casa Civil. Subchefia para assuntos Jurídicos. Diário Oficial da União. 03/06/2008. GHEDIN, Evandro. Ensino de Filosofia no Ensino Médio. São Paulo: Cortez, 2008 (Coleção Docência em formação. Série Ensino Médio).

12 12 IAGAER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, JÓIS, Alberto. In: Passa Lá pra Filosofar. Revista Discutindo Filosofia: ano 1, Nº 2, pág. 46. São Paulo: Escala, PINSKY, Jaime (org). História da Cidadania.São Paulo: Contexto, 2003.

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