ARTIGO CORRELAÇÃO DA DEPRESSÃO EM PACIENTES COM CÂNCER DE MAMA MASTECTOMIZADAS E NÃO MASTECTOMIZADAS

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1 ARTIGO CORRELAÇÃO DA DEPRESSÃO EM PACIENTES COM CÂNCER DE MAMA MASTECTOMIZADAS E NÃO MASTECTOMIZADAS Laura Tatiany Mineiro Coutinho 1 Cristina Andrade Sampaio 2 Danilo Lima Carreiro 3 Jean Claude Lafetá 4 Wagner Luiz Mineiro Coutinho 5 RESUMO O câncer de mama representa um grave problema de saúde pública em todo o mundo, pela sua alta incidência, morbimortalidade e elevado custo no tratamento. Sabe-se que as mulheres, após receberem o diagnóstico de câncer de mama, se deparam com diferentes conflitos pessoais e, ainda, com a possibilidade da realização da cirurgia de mastectomia. A retirada da mama pode ocasionar vários danos à mulher além da mutilação física, enunciando quadros emocionais patológicos. O presente estudo pretendeu correlacionar índices depressivos entre mulheres acometidas por câncer de mama que se submeteram à mastectomia, com aquelas que não se submeteram. A amostra constitui-se de 32 sujeitos, que apresentam diagnóstico clínico de câncer mamário, subdivididas em dois grupos, sendo o grupo 1 composto por mulheres mastectomizadas e o grupo 2 por nãomastectomizadas. Utilizou-se como instrumento de coleta de dados o Inventário de Depressão de Beck. A análise dos dados se deu pelo software SPSS 18, através do teste de Correlação de Coeficientes de Pearson. O estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Montes Claros - UNIMONTES. Os resultados demonstraram que as 1 Pós-graduada em Saúde Mental e Atenção Psicossocial - FASI-MG, e em Psico-oncologia - FCM-MG. Pós-graduanda em Educação a Distância - Unimontes-MG. 2 Mestre em Epidemiologia - UNIFESP-SP. 3 Graduando em Administração - FASA-MG. 4 Doutorando em Ciências da Saúde - UTAD-Portugal. 5 Pós-graduado em Emergências de Saúde na Educação Inclusiva - FIP-MG. Pós-graduando em Saúde Coletiva com Ênfase na Estratégia de Saúde da Família FIP-MG. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p ,

2 entrevistadas apresentam indícios de depressão severa a grave, sendo que essa última foi mais frequente entre as mastectomizadas. No entanto, o teste de Correlação de Pearson não encontrou correlação entre as variáveis depressão e mastectomia. Pôde-se concluir que, independentemente da intervenção cirúrgica de mastectomia, as mulheres diagnosticadas com câncer mamário apresentaram indícios significativos de transtorno de humor depressão. Palavras-chave: câncer de mama, mastectomia, depressão. INTRODUÇÃO O câncer de mama ou carcinoma mamário pode ser definido, de acordo com Gomes (1987), como um resultado de multiplicações desordenadas de determinadas células que se reproduzem em grande velocidade e desencadeiam o aparecimento de tumores ou neoplasias malignas, que podem vir a afetar os tecidos vizinhos e provocar metástases. Esse tipo de câncer aparece sob forma de nódulos, que na maioria das vezes podem ser identificados pelas próprias mulheres, por meio do autoexame. De acordo com Duarte e Andrade (2003), dentre as neoplasias malignas, o câncer de mama é responsável pelos maiores índices de mortalidade individual. Dados do Instituto Nacional do Câncer (2000) mostram que o câncer mamário ocupa o terceiro lugar de causas de óbitos entre mulheres, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país, sendo precedido apenas por mortes provocadas por doenças cardiovasculares e de causas externas. A sua incidência é mais frequente a partir dos 35 anos de idade, e também é o mais temido entre as mulheres em razão da sua alta frequência e das repercussões psicológicas que acarreta, por exemplo, no comprometimento da percepção da sexualidade e da imagem corporal. A terapêutica compreende uma série de modalidades de tratamento do câncer em seus aspectos tumorais, incluindo intervenção cirúrgica (mastectomia), quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e reabilitação. A combinação entre as terapêuticas aumentará a possibilidade da cura e diminuirá as perdas anatômicas, preservando assim a estética e funcionalidade orgânica comprometida (ROSSI; SANTOS, 2003). 172 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p , 2010

3 De acordo com Teng et al. (2005), a depressão é uma síndrome psiquiátrica altamente prevalente. Estima-se que acomete 3% a 5% da população mundial. Apesar de os estudos não apresentarem relação direta entre depressão e câncer, não existindo dessa forma evidências de que a depressão provoque algum tipo de câncer, a relação entre sobrevida do paciente oncológico e depressão é nítida. Em pacientes submetidas à mastectomia parcial ou total, repercussões emocionais importantes danificarão não somente a integridade física, como também alterará a imagem psíquica que a mulher tem de si mesma, de sua sexualidade e da relação que ela estabelece com seu corpo e mente (ROSSI; SANTOS, 2003). Sabendo que o quadro depressivo pode associar-se às mulheres diagnosticadas com câncer de mama e que os sintomas e atitudes da depressão podem ser agravados pelo impacto da intervenção cirúrgica, o objetivo deste estudo foi correlacionar o escore depressivo entre mulheres com câncer de mama, mastectomizadas e não mastectomizadas. METODOLOGIA O delineamento do presente estudo caracteriza-se como pesquisa descritiva, quantitativa e de corte transversal. População e amostra A população constituiu-se de mulheres atendidas no Centro Oncológico Irmã Malvina da Irmandade Nossa Senhora das Mercês, no município de Montes Claros, MG. A amostra foi composta por 32 indivíduos, independentemente da etnia e faixa etária, com diagnóstico clínico e anatomopatológico de câncer mamário. Foram subdivididos em dois grupos, sendo o grupo 1 constituído por 16 sujeitos submetidos à mastectomia e o grupo 2 também constituído por 16 indivíduos não submetidos a esse procedimento cirúrgico. Eles foram selecionados de forma intencional, obedecendo como critério de inclusão o quesito de apresentarem exame anatomopatológico com referência ao diagnóstico clínico. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p ,

4 Procedimento de coleta de dados Para coleta de dados foram utilizados Formulário de Autorização para realização da pesquisa no centro oncológico, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para participação na pesquisa e Inventário de Depressão de Beck (BDI). Trata-se de um instrumento de medida de autoavaliação de depressão amplamente usado, quer em pesquisas ou por sua alta aplicabilidade clínica, tendo sido traduzido para vários idiomas e validado em diferentes países. Esse instrumento constitui-se de 21 itens, incluindo sintomas e atitudes relacionados com quadro depressivo, cuja intensidade varia de 0 a 3. Quanto maior o escore obtido, maior indicação de quadro depressivo grave (GORESTEIN; ANDRADE, 1998). A estratégia adotada para obtenção dos dados deu-se a partir da seleção da amostra. Uma vez selecionado, e com o devido consentimento para participar na pesquisa, o sujeito preencheu o questionário proposto. Análise dos dados Os dados foram analisados pelo SPSS 18 (Statistical Package for the Social Sciences). Foi utilizado o teste de Correlação de Coeficientes de Pearson. RESULTADOS A amostragem desta pesquisa teve faixa etária compreendida entre 33 e 65 anos, com média de idade de 49,9 anos (± 8,85). Verificouse que 40,6% apresentou menopausa tardia após os 50 anos de idade. A presença de história familiar de câncer foi mensurada num total de 21 sujeitos, o que representa 65,6% da amostra. Em relação ao pré-diagnóstico, todas as entrevistadas observaram alterações na mama: 75% delas relataram ter verificado modificações anatômicas e apenas 25% detectaram presença de nódulos através da auto-palpação. Ao analisar os escores do BDI, não foram encontrados sujeitos com índices que apontassem ausência de depressão ou depressão subclínica. Ficou demonstrado que 28,1% das entrevistadas 174 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p , 2010

5 apresentaram escore depressivo grave e 71,9% apresentaram indícios de depressão severa. Quando analisadas nos subgrupos de mastectomizadas e não mastectomizadas, a análise estatística demonstrou que o índice de depressão severa é discretamente mais frequente entre as pacientes mastectomizadas, enquanto a depressão grave é mais frequente entre as não mastectomizadas, conforme apresentado na Tabela 1. Tabela 1- Escore de BDI em pacientes mastectomizadas e não mastectomizadas Escore BDI Pacientes Mastectomizadas Pacientes Não Mastectomizadas Depressão Grave 3 6 Depressão Severa Fonte: dados coletados pelos autores. Apesar do resultado apresentado anteriormente, foi pesquisada a correlação entre os escores de BDI em pacientes mastectomizadas e não mastecomizadas, através da Correlação de Coeficientes de Pearson; o resultado demonstrou que essa correlação não foi significativa. DISCUSSÃO Destaca-se que os estudos literários sobre depressão em mulheres com câncer mamário, não enfocaram a correlação entre a elaboração diagnóstica, a intervenção cirúrgica e o quadro depressivo, o que torma mais complexa a elaboração da discussão. A história familiar é um fator de risco bem reconhecido para o câncer mamário associado às mutações dos genes BRCA-1 e BRCA- 2 (PAIVA et al., 2002). Nosso estudo encontrou uma frequência de 65,6% da amostra com história familiar de câncer. Estudo de Thuler (2003), desenvolvido entre 1996 e 2000, levantou a incidência dos registros de câncer na população de Goiânia, São Paulo e Manaus e concluiu que, em relaçao à faixa etária, 60 a 70% dos novos casos da doença ocorreram entre os 40 e 69 anos de idade. Nossa amostra enquadrou-se nessa estimativa, uma vez que a média de idade entre as pacientes foi de 49,9 anos. R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p ,

6 Há evidências na literatura que apontam para a existência de uma associação entre estrogênios e câncer de mama; fatores de risco como menopausa tardia e menarca precoce foram considerados significativos na etiologia da doença (CARREÑO et al.,1999). Esse dado foi confirmado nesse estudo, que identificou história de menopausa tardia em 40,6% da amostra. O Ministério da Saúde desenvolve campanhas de educação em saúde que estimulam a participação feminina no diagnóstico precoce de alterações mamárias, principalmente por meio do autoexame. Assim como encontrado na pesquisa de Fernandes e Narchi (2002), em que 53% das mulheres de uma comunidade carente em São Paulo não souberam explicar o que significa o autoexame da mama e 59% não sabem realizá-lo, no presente estudo também se constatou essa lacuna ao levantar-se que apenas 25% das entrevistadas detectaram presença de nódulos através da autopalpação. Quanto aos dados obtidos através do BDI, que constataram escore depressivo grave e depressão severa, Souza et al. (2000), ao estudarem a presença ou não de ansiedade generalizada e depressão maior em pacientes com prescrição de quadrantectomia ou mastectomia, observaram distúrbios psiquiátricos independentemente do tipo cirúrgico, resultados que corroboram os achados na presente pesquisa. Arantes e Mamede (2003) e Duarte e Andrade (2003) participam dessa ideia ao apresentarem resultados de estudos que constataram em mulheres com câncer de mama sentimentos negativos de diversas ordens, relacionados ao impacto do diagnóstico e tratamentos propostos; as pacientes relataram ainda o choque emocional produzido principalmente ao receberem o diagnóstico do câncer de mama. Resultados encontrados nesse estudo são compatíveis com a literatura citada, uma vez que se detectou presença de sintomas e atitudes relacionados com quadro depressivo entre os sujeitos amostrais a partir da elaboração do diagnóstico clínico, independentemente da realização da intervenção cirúrgica. CONCLUSÃO Com base no estudo desenvolvido, foi permitido avaliar a presença significativa de depressão em pacientes com câncer mamário que se 176 R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p , 2010

7 submeteram à intervenção cirúrgica de mastectomia, bem como naquelas que não realizaram essa conduta terapêutica. A triagem realizada pelo BDI mostrou que os sujeitos relatam sofrimento psicológico que condiz com quadros de depressão grave e severa independentemente da realização da intervenção cirúrgica. Torna-se necessário, diante dos resultados obtidos, que a metodologia utilizada para prevenção do câncer de mama, no âmbito da promoção à saúde, seja avaliada no tocante às dificuldades apresentadas pelas mulheres em assimilarem as atuais informações veiculadas. Vale ainda ressaltar a necessidade que as mulheres acometidas pelo câncer mamário têm de ser acompanhadas desde o momento do diagnóstico por uma equipe multiprofissional, para que tenham suas demandas biopsicossociais assistidas. ABSTRACT Correlation of Depression Among Women With Breast Cancer Mastectomized not Mastectomized Breast cancer represents a serious public health problem worldwide, for its high incidence, morbidity and high cost of treatment. It is known that women, after receiving the diagnosis of breast cancer, are facing various personal conflicts also with the possibility of performing surgery to mastectomy. The removal of the breast can cause extensive damage to the woman beyond the physical mutilation, eliciting pathological frames emotional. To correlate levels of depression among women affected by breast cancer who underwent mastectomy with those who have not undergone. The sample consisted of 32 subjects, who have a clinical diagnosis of breast cancer, subdivided into two groups, one group composed of women who had mastectomies and group 2 for non-mastectomies. It was used as an instrument of data collection the Beck Depression Inventory. Analysis of data was by SPSS 18 software, through the test of Pearson s correlation coefficients. The study was approved by the Ethics and Research of Universidade de Montes Claros - UNIMONTES. The results showed that the subjects show signs of severe depression to severe, and the R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p ,

8 latter was more common among mastectomy. However, the Pearson correlation test found no correlation between the depression and mastectomy. The conclusion that regardless of the surgical procedure of mastectomy, women diagnosed with breast cancer showed no significant indications of mood disorders-depression-. Keywords: breast cancer, mastectomy, depression. REFERÊNCIAS ARANTES, Sandra Lúcia; MAMEDE, Marli Villela. A participação das mulheres com câncer de mama na escolha do tratamento: um direito a ser conquistado. Revista Latino Americana de Enfermagem, v. 11, n.1, p , CARREÑO, Marcela S. R.; PEIXOTO, Sérgio; GIGLIO, Auro del. Reposição hormonal e câncer de mama. Revista da Sociedade Brasileira de Cancerologia, v. 2, n. 7, p , DUARTE, Tânia Pires; ANDRADE, Ângela Nobre. Enfrentando a mastectomia: análise dos relatos de mulheres mastectomizadas sobre questões ligadas à sexualidade. Estudos de Psicologia, v. 8, n. 1, p , FERNANDES, Rosa Áurea Quintella; NARCH, Nádia Zanon. Conhecimento de gestantes de uma comunidade carente sobre os exames de detecção precoce do câncer cérvico-uterino e de mama. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 48, n. 2, p , GOMES, R. Manual de Oncologia Básica. Campinas: Revinter, GORESTEIN, Clarice; ANDRADE, Laura. Inventário de Depressão de Beck: propriedades psicométricas da versão em português. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 25, n. 5, p , INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER. Coordenação Nacional de Controle Tabagismo - CONTAPP. Falando sobre câncer e seus fatores de risco. Rio de Janeiro, R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p , 2010

9 PAIVA, Carlos Eduardo et al. Fatores de risco para câncer de mama em Juiz de Fora (MG): um estudo caso-controle. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 48, n. 2, p , ROSSI, Leandra; SANTOS, Manoel Antônio. Repercussões psicológicas do adoecimento e tratamento em mulheres acometidas pelo câncer de mama. Revista Psicologia, Ciência e Profissão, v. 23, n. 4, p , SOUZA, Fábio Gomes de Matos et al. Depressão e ansiedade em pacientes com câncer de mama. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 27, n. 4, p , TENG, Chei Tung et al. Depressão e comorbidades clínicas. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 32. n. 3, p , THULER, Luiz Cláudio. Considerações sobre a prevenção do câncer de mama feminino. Revista Brasileira de Cancerologia, v. 49, n. 4, p , Endereço: R. Min. Educ. Fís., Viçosa, Edição Especial, n. 5, p ,

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