A Evolução da Morbidade e Mortalidade por Câncer de Mama entre a População Feminina de Minas Gerais 1995 a 2001 *

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1 A Evolução da Morbidade e Mortalidade por Câncer de Mama entre a População Feminina de Minas Gerais 1995 a 2001 * Andréa Branco Simão UFMG/Cedeplar Luiza de Marilac de Souza UFMG/Cedeplar Palavras Chave: Câncer de Mama, Morbidade Feminina, Mortalidade Feminina. Introdução O objetivo do presente estudo é verificar a evolução da morbidade e mortalidade em função do câncer de mama entre a população feminina de Minas Gerais, para os períodos entre 1995 e Os grupos etários incluídos nesta análise estão situados entre as idades de 15 e 80 anos e mais. Os dados são provenientes do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS), do Ministério da Saúde. A importância deste estudo está no fato de que o câncer de mama provocou, e continua provocando, um elevado número de mortes entre as mulheres brasileiras de 10 anos e mais, perdurando como a primeira neoplasia maligna, em ordem de importância, em vários períodos. Atualmente, 10 em cada mulheres morrem em decorrência do câncer de mama (INCA, 2002). Dados regionais indicam que, em 1996, na região Sudeste, 23,83% dos novos diagnósticos de neoplasias já estavam relacionados ao câncer de mama. Estimativas para o estado de Minas Gerais indicam que, em 2002, 3,520 novos casos da doença serão diagnosticados e 810 mulheres deverão morrer em conseqüência do câncer de mama (INCA, 2002). O conhecimento da evolução da morbimortalidade por câncer de mama pode fornecer subsídios para implementação de políticas de saúde pública no nível local que viabilizem a prevenção e possibilitem a identificação mais precoce deste tipo de * Trabalho apresentado no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, realizado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil de 4 a 8 de novembro de 2002.

2 neoplasia. Vale ressaltar que este trabalho representa o primeiro passo em direção a realização de pesquisas futuras que as autoras pretendem realizar na área de saúde da mulher. Metodologia Fonte de Dados Para a análise da evolução da mortalidade feminina, utilizam-se os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), gerenciado pelo Ministério da Saúde (MS), em conjunto com as Secretarias Estaduais de Saúde. Até 1995, as declarações de óbito foram codificadas de acordo com a 9ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID 9). A partir de 1996, as declarações passaram a ser codificadas segundo a 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças ( CID-10). Os períodos incluídos englobam os anos de 1992 a 1999, último ano para o qual as informações encontram-se disponíveis na página do DATASUS. Já para análise da evolução da morbidade feminina, utilizam-se os dados das Autorizações de Internação Hospitalar (AIH), que alimentam o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS), também geridos pelo Ministério da Saúde. Até 1997, inclusive, a codificação das causas de internação seguia a 9 a Revisão da Classificação Internacional de Doenças. A partir de janeiro de 1998 a 10 a Revisão passa a ser empregada para tal fim. Os dados disponíveis para morbidade feminina incluem os períodos que vão de 1995 a Para ambos os casos, as variáveis de interesse são o sexo do indivíduo, seu grupo etário, a causa de morte e morbidade e a unidade da federação. Qualidade dos Dados Para CHACKIEL (1986), regiões onde o percentual de causas mal definidas extrapolam 10% devem ser consideradas como tendo registros inadequados para fins de processamento estatístico. No caso de Minas Gerais, a proporção de causas mal 2

3 definidas, para idades a partir de 20 anos não atinge este patamar em nenhum dos períodos incluídos neste estudo. Em 1998 o grupo etário entre 10 e 19 anos de idade chega a 10%. Os anos de 1995 e 1996 apresentam valores muito próximos a 10% (9,7%), tal como é possível observar na Tabela 1, a seguir. Tabela 1 - Porcentagem de Causas Mal Definidas Femininas sobre o Total de Causas de Morte Feminina Segundo Grupos Etários Minas Gerais a 1999 Grupo Etário ,66 9,68 9,71 8,91 10,16 7, ,81 8,09 7,44 6,94 7,62 6, ,42 6,93 6,82 6,77 6,97 5, ,30 6,34 7,21 7,14 7,29 6, ,52 6,76 7,06 7,55 6,62 6, ,02 7,07 7,43 7,52 7,03 6, ,44 5,80 6,15 5,96 5,87 5, ,74 3,31 4,96 3,52 2,70 4,70 Fonte: SIM-DATASUS/MS/FNS ( ) Em relação a qualidade dos dados de morbidade, vale ressaltar que estas informações se referem somente as internações efetuadas em hospitais públicos ou privados conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que impede que se possa afirmar que sejam representativos da população em geral. Esta forma de captar as informações exclui da contagem as mulheres acometidas pelo câncer de mama que não utilizam o SUS, gerando um déficit no volume dos dados coletados. Num estudo realizado para o estado de São Paulo, REA et al. (2000) ressalta que uma parcela importante da população afetada por câncer se trata na rede privada e não consta na rede do SUS. Uma hipótese levantada pelos autores é de que a existência de hospitais privados especializados em oncologia, além de ser mais atraente para os médicos, leva mesmo famílias mais modestas a mobilizarem recursos para o tratamento de parentes que apresentam esta patologia. 3

4 Mortalidade Feminina por Câncer de Mama em Minas Gerais Num estudo sobre os neoplasmas malignos na população feminina brasileira, CUNHA (1998) mostra que, para o total de mulheres no ano de 1995, as doenças do aparelho circulatório apresentavam o maior peso relativo, representando 38% do total. Os neoplasmas malignos apareceram como a segunda causa de morte, alcançando valores superiores a 15%. As doenças respiratórias ficaram em terceiro lugar, atingindo uma marca de quase 12%. Em relação aos neoplasmas malignos, a autora encontrou que, no ano de 1995, quase 93% dos óbitos relacionados a esta causa estavam relacionados a mulheres acima de 35 anos de idade. A Tabela 2, a seguir, apresenta a mortalidade feminina, por causas, para o estado de Minas Gerais. É possível observar que, assim como para o Brasil, as neoplasias ocupam o segundo lugar entre as causas de morte, antecedidas somente pelas doenças do aparelho circulatório. Ano Doenças infecciosas e parasitárias Tabela 2 - Óbitos Femininos por Grupo de Causas Minas Gerais a 1999 Neoplasias Doenças do aparelho circulatório Doenças do aparelho respiratório Causas externas Demais causas definidas Total Fonte: Ministério da Saúde/Funasa/CENEPI - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM Assim como o que ocorre para o Brasil como um todo, no conjunto das neoplasias malignas, as de mama feminina representam a primeira causa de morte entre as mulheres mineiras. Os dados da Tabela 3 mostram que a mortalidade por câncer de mama é expressivamente alta entre as mulheres acima de 40 anos e aumenta de forma vertiginosa nas idades mais avançadas. Ao realizar uma análise comparativa da incidência do câncer no sexo feminino nas idades a partir de 65 anos,(telles, 2000) 4

5 observa que nas diferentes regiões brasileiras, as neoplasias têm aumentado sua participação relativa na composição das causas de óbito em 1,2% de 1980 até A autora encontrou que, no início do período incluído em seu estudo, 12,5% das mortes eram devidas às neoplasias malignas de mama e que estas passaram para 13,7% em Tabela 3 - Taxas de Mortalidade Específica por Neoplasia de Mama Feminina Minas Gerais a 1999 Grupo Etário Total 0 a 29 0,12 0,18 0,27 0,04 0,14 0,06 0,13 30 a 39 4,57 5,02 4,12 3,52 4,16 4,70 4,34 40 a 49 14,05 15,02 14,96 15,18 14,79 13,04 14,50 50 a 59 28,4 29,51 22,92 29,15 27,07 27,58 27,40 60 a 69 35,82 33,92 33,57 37,03 31,94 35,86 34,68 70 a 79 45,63 48,61 45,95 50,64 47,56 39,40 46, ,11 63,13 60,04 58,34 70,77 69,15 64,48 Total 7,42 7,65 7,75 8,28 8,03 7,87 7,84 Fonte: Ministério da Saúde/Funasa/CENEPI - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM Como mostra o Gráfico 1, de 1996 para 1997 verifica-se uma elevação nas taxas de mortalidade por neoplasia de mama feminina nos grupos etários entre 50 e 59, entre 60 e 69 anos e entre 70 e 79 anos de idade. O aumento mais acentuado ocorre no grupo etário de 80 e mais anos entre os anos de 1997 e Em relação ao período entre 1998 e 1999, observa-se uma tendência de declínio para os grupos etários entre 40e 49 anos e entre 70 e 70 anos de idade. Uma elevação nas taxas de mortalidade no grupo etário entre 60 e 69 anos. Para este mesmo período, os grupos etários de 50 a 59 anos de idade e o de 80 anos e mais mostram uma tendência a estabilização nas taxas de mortalidade por neoplasia mamaria. 5

6 Gráfico 1 -Taxas de Mortalidade por Neoplasia de Mama Feminina Minas Gerais a 1999 Taxas 80,00 70,00 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 0, Anos 40 a a a a Fonte: Tabela 3. Para 2002, o Instituto Nacional da Câncer (INCA) estima que, no estado de Minas Gerais, em cada mulheres, 8,7 morrerão em decorrência do câncer de mama. Quando comparada a estimativas passadas, efetuadas para o Estado como um todo, as previsões do INCA indicam um aumento considerável das mortes femininas devido a neoplasia maligna de mama. Morbidade Feminina por Câncer de Mama em Minas Gerais De acordo com os dados disponíveis no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS), o volume de internações em decorrência do câncer de mama, de 1995 a 2001, foi de cerca (DATASUS, 2002), o que eqüivale a, aproximadamente, 11,40% das internações por neoplasias em geral. A maior concentração de internações encontra-se no grupo etário de mulheres entre 40 e 49 anos, o qual apresenta, no período analisado, um total de internações, totalizando por volta de 27% do total das internações por neoplasia mamaria. Este grupo foi seguido pelo das mulheres na faixa etária entre 50 e 59 anos de idade, as quais apresentaram um total de internações, perfazendo um valor aproximado de 23% das internações 6

7 devido a neoplasia mamaria. Juntos, estes dois grupos de mulheres representam 50% da morbidade por câncer de mama em Minas Gerais. O Gráfico 2 permite a visualização da evolução das taxas de morbidade no Estado, para os períodos analisados. Nele, ficam evidentes os aumentos ocorridos ao longo do tempos nas taxas de morbidade ocorridas nos grupos etários de 50 a 59 anos, como mencionado anteriormente, e no de 80 anos e mais. Um aspecto que merece uma investigação mais detalhada é a situação apresentada para a ano de 2000, quando uma queda acentuada nas taxas de morbidade dos grupos etários a partir de 40 anos podem ser observadas, inclusive com o grupo de 80 anos e mais sem nenhum registro para o ano de Este quadro levanta dúvidas sobre a qualidade dos dados para o período em questão pois, para o ano seguinte, este grupo apresenta uma taxa de morbidade de mais de 80 casos por cada mulheres. Gráfico 2 - Taxas de Morbidade por Neoplasma de Mama Feminina Minas Gerais a ,00 100,00 80,00 60,00 40,00 20,00 0, a a a a a a a Fonte: Ministério da Saúde - Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) Para 2002, o INCA estima que, para Minas Gerais, dos novos casos de câncer, serão de câncer de mama. Em termos de taxas, o INCA (2002) calcula, para o total das neoplasias malignas, um valor aproximado de 217 novos casos por cada mulheres, já para a neoplasia mamaria maligna, estima-se uma taxa bruta de 38/

8 Vale ressaltar que em termos de incidência, o melanoma maligno de pele apresenta valores muito mais elevados do que o de mama. No entanto, a letalidade da neoplasia de mama é muito mais alta. Os dados do INCA (2000) estimam que, enquanto a taxa de mortalidade por câncer de mama, para o ano de 2002 em Minas Gerais, será de cerca de 9/ , a de melanoma maligno de pele será de apenas 0,38/ mulheres. Considerações Finais Atualmente, no Brasil, o câncer de mama se constitui na primeira causa de morte por câncer entre as mulheres, tendo se convertido num problema de saúde pública que merece atenção. Um dos fatores que contribuem para esta alta mortalidade é a demora para a realização do diagnóstico do problema, o que resulta no atraso do tratamento. No momento em que as mulheres são submetidas ao primeiro tratamento, a doença já se encontra em um estado bastante adiantado. O que se observa é que, em geral, 50% dos casos são diagnosticados em estádios avançados (INCA, 2002). Uma conseqüência deste diagnóstico tardio é que as maiores taxas de incidência e de mortalidade serão verificadas nas idades mais avançadas. Vale ressaltar que, como no Brasil o acesso aos serviços de saúde tem melhorado e a população está envelhecendo, a incidência da doença vem apresentando uma curva ascendente. Este estudo mostrou que, assim como para o Brasil, as neoplasias mamarias malignas vem aumentando sua participação relativa na composição da morbimortalidade feminina no estado de Minas Gerais. Observou-se que, para o Estado como um todo, as neoplasias malignas de mama feminina representam a primeira causa de morte entre as mulheres. Os resultados deixam bastante claro que as mulheres acima de 40 anos são as mais acometidas pelo câncer de mama, e esta tendência persiste por todo período analisado neste trabalho. Em relação a morbidade, o que os dados revelam que a maior incidência de casos encontra-se entre as mulheres dos grupos etários acima de 50 anos para todo o período incluído na investigação. O quadro apresentado para o Estado aponta que existe uma situação concreta extremamente séria a ser tratada pelos órgãos responsáveis pela saúde pública no 8

9 Estado, deixando evidente a necessidade de campanhas mais freqüentes e eficazes que tratem da prevenção do câncer de mama, uma vez que o diagnóstico precoce da doença pode atuar no sentido de reduzir a mortalidade de mulheres. Além disto, tais campanhas podem servir como fontes de incentivo para as que mulheres realizem os exames necessários para detecção mais precisa e precoce do câncer de mama. Em função da expressividade que as neoplasias malignas de mama vem assumindo entre a população feminina, os registros de câncer passam a desempenhar um papel de destaque como instrumento de apoio para a formulação de políticas nacionais de prevenção e controle do câncer em âmbito nacional e regional. É evidente que nas últimas décadas estes registros apresentaram uma melhora expressiva, pois os houve uma conscientização de que eles são parte importante de um sistema de vigilância de câncer mais eficaz. Bibliografia CHAKIEL,J. Studies of causes of death in Latin America current situation and future perspectives. International Union for the Scientific Study of Population and Institute of Statistics University of Siena, Siena, Italy, jul CUNHA, E. M. G. P. Os neoplasmas malignos na população feminina brasileira. Anais do XI Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, Caxambú-MG, p , INCA Instituto Nacional de Câncer. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Datasus/SIM Sistema de Informação sobre Mortalidade, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Datasus/SIH Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde, REA, M. F. et al. São Paulo. In: BERQUÓ, E. e CUNHA, E. M. G. P. (orgs). Morbimortalidade feminina no Brasil ( ), Editora da UNICAMP,Campinas, p ,

10 TELLES, S.M.B.S. A mortalidade da população feminina de 65 anos e mais no Brasil no período In: BERQUÓ, E. e CUNHA, E. M. G. P. (orgs). Morbimortalidade feminina no Brasil ( ), Editora da UNICAMP,Campinas, p ,

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