AS ESTIAGENS NO OESTE DE SANTA CATARINA ENTRE

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1 AS ESTIAGENS NO OESTE DE SANTA CATARINA ENTRE Fábio Z. Lopes 1, Maria Laura G. Rodrigues 2 1,2 Epagri/Ciram, Florianópolis - SC, Br. RESUMO: O presente estudo tem por objetivo investigar o padrão de chuvas no oeste de Santa Catarina, entre 22 e 26, e o padrão de atuação dos sistemas meteorológicos que resultou em significativos déficits de precipitação. Foram utilizados dados de precipitação do município de Chapecó (estação INMet/Epagri), onde em todos os anos analisados foram registrados períodos de estiagem, com pelo menos dois meses consecutivos com percentual negativo de precipitação de mais de 4%, quando o escoamento dos sistemas frontais foi localizado acima de 4S. ABSTRACT: DROUGHT IN THE WEST REGION OF SANTA CATARINA STATE FROM 22 TO 26 The objective of this study is to investigate the rainfall pattern in western Santa Catarina State from 22 to 26, and the performance pattern of the meteorological systems that resulted in significant precipitation deficits. It was used the precipitation data from Chapecó municipality (meteorological station INMet / Epagri), where droughts were registered in the whole analyzed period, with at least two consecutive months with negative percentage of precipitation of more than 4%, when the frontal systems flow was located above 4S. Palavras-Chave. Precipitação, estiagem, Santa Catarina. 1. INTRODUÇÃO Localizado em latitudes médias, na Região Sul do Brasil, o Estado de Santa Catarina apresenta precipitação bem distribuída ao longo do ano. O oeste é uma das regiões catarinenses com maior total anual de chuvas (em torno de 2.2mm), sendo os maiores totais mensais registrados de setembro a fevereiro (primavera e verão), quando o sistema de baixa pressão que predomina no norte da Argentina e Paraguai torna-se mais ativo, provocando chuvas intensas que se deslocam em direção aos Estados do Sul do Brasil. No verão, a temperatura e a umidade do ar elevadas favorecem a convecção e as pancadas de chuva entre final da tarde e noite, muitas vezes de forte intensidade. De março a agosto (outono e inverno) a média mensal de precipitação é menor em relação aos demais meses do ano (NIMER, 1979 e SATYAMURTY et al, 1998). Este padrão de distribuição de chuvas, no entanto, pode ser modificado por alterações do clima de caráter interanual. O período entre 22 e 26 foi caracterizado por episódios de estiagem em Santa Catarina, atingindo especialmente a região oeste do Estado com forte impacto nos setores da agropecuária e abastecimento de água. Em 25, os prejuízos na agricultura do Estado chegaram a R$ , e mais de 15 municípios ficaram em estado de emergência, com problemas de racionamento de água (CRUZ et al, 26). O presente estudo tem por objetivo investigar o padrão de chuvas na região, entre 22 e 26, e o padrão de atuação dos sistemas meteorológicos que resultou em significativos déficits de precipitação. O melhor conhecimento dos campos meteorológicos associados a episódios de estiagem é importante para a realização de futuras previsões climáticas.

2 2. METODOLOGIA Foram utilizados dados diários de precipitação da estação meteorológica convencional do INMet/Epagri localizada no município de Chapecó (27 5'26' de latitude, 52 38'2' de longitude e 679 m de altitude), oeste de Santa Catarina. Entre 22 e 26, foram determinados os percentuais de precipitação em relação à média climatológica, considerada de 1974 a 26 (33 anos), assim como os períodos com mais de 14 dias consecutivos sem registro de chuva. Para os meses com maior déficit de precipitação, foram determinados os campos médios de pressão ao nível do mar, na região da América do Sul entre 7S a e 1W a 1W. Para isto foram usados dados de reanálise do NCEP (National Centers for Environmental Prediction) (KALNAY et al, 1996). Jan-fev-mar foram definidos como meses de verão; abr-mai-jun, de outono; jul-ago-set, de inverno; out-nov-dez, de primavera. 3. RESULTADOS Para cada ano foi determinado o percentual mensal de chuva em relação à média climatológica (Figura 1). Verifica-se que, em geral, os meses de verão (jan a mar) apresentaram percentuais negativos, especialmente fevereiro, enquanto nos meses de primavera (out a dez) as chuvas ficaram entre a média e acima da média climatológica. Em todos os anos foram observados percentuais positivos em algum dos meses entre setembro e dezembro. Os anos de 23 e 26 foram os mais secos do período analisado, com uma seqüência de anomalias negativas de precipitação entre abril e outubro. Em 22 e 25, no entanto, foram registrados percentuais positivos, de mais de 3% em alguns meses, exceto no verão Percentual mensal de precipitação em Percentual mensal de precipitação em 23 a) 22 b) Percentual mensal de precipitação em 24 Percentual mensal de precipitação em 25 c) 24 d) c) 24 d) 25

3 Percentual mensal de precipitação em 26 e) 26 Figura 1 Percentual mensal de precipitação em relação à média climatológica ( ), no período entre 22 e 26, em Chapecó-SC. Nos cinco anos analisados, foram registrados seis episódios de estiagem no oeste de Santa Catarina (CRUZ et al., 26): (1) janeiro a abril /22; (2) abril a outubro /23; (3) janeiro a março /24; (4) janeiro a março /25; (5) novembro e dezembro /25; (6) abril a outubro /26. Em cada um destes observaram-se dois meses consecutivos com um déficit de chuva de mais de 4% (Figura 1): jan-fev/22; ago-set/23; fev-mar/24; nov-dez/25; abr-mai/26, exceto em fev/25, quando o déficit ficou entre 9% e 1% em um único mês. Os campos médios mensais de pressão ao nível do mar foram analisados nestes 11 meses. Na Figura 2, são apresentados os campos médios para os meses de mar/24, fev/25, dez/25 e mai/26, nos quais se observa o predomínio de um sistema de alta pressão no Atlântico Sul, próximo ao Uruguai, entre 35S e 4S, e em torno de 5W, e a conseqüente diminuição na passagem de frentes frias, durante estes meses, no Sul do Brasil. Este resultado foi observado nos demais meses (figuras não mostradas) e, em todos eles, verifica-se um fluxo de deslocamento dos sistemas frontais localizado em latitudes superiores a 4S. (a) (b)

4 (c) (d) Figura 3 Campos médios mensais de pressão ao nível do mar (hpa): (a), em mar/24, (b), fev/25 (c) dez/25 e (d) mai/26. Fonte: NCEP As estiagens registradas nos meses de verão, outono e inverno ocorreram, em sua maior parte, em fases de neutralidade do ENOS (El Niño Oscilação Sul), enquanto a estiagem registrada em nov-dez /25 (primavera) ocorreu em uma fase de La Niña ( o que está de acordo com os estudos de GRIMM et al. (1998) e LOPES e MONTEIRO (26), que definiram os meses de outubro e novembro como os de maior influência do fenômeno em Santa Catarina. Nos anos de 22 a 26, foram determinados os períodos com mais de 14 dias consecutivos sem registro de chuva em Chapecó-SC, apresentados na Tabela 1, totalizando oito casos, sendo seis em períodos de estiagem. Todos os casos da Tabela 1 ocorreram em meses de verão, outono e inverno, especialmente entre maio e agosto, e nenhum caso entre setembro e dezembro. Mesmo na primavera de 25, caracterizada por significativos déficits de precipitação, não foram encontrados mais de 14 dias consecutivos sem ocorrência de chuva. Assim, a primavera apresenta-se como a época de melhor distribuição de chuvas na região de estudo. RODRIGUES (23) também encontrou, para Santa Catarina, uma maior ocorrência de períodos prolongados sem chuva nos primeiros seis meses do ano, apontados como os de maior variabilidade no número médio mensal de frentes frias, enquanto a primavera aparece como o período de maior regularidade de passagens frontais. Tabela 1. Períodos com mais de 14 dias consecutivos sem precipitação em Chapecó/SC entre 22 e 26. Data Número de dias consecutivos Estação do ano 6/5 a 22/5/23 17 dias outono * 23/6 a 8/7/23 16 dias outono/inverno * 18/7 a 5/8/23 19 dias inverno * 16/3 a 2/4/24 18 dias verão * 26/1 a 1/2/25 16 dias verão * 26/5 a 11/6/25 17 dias outono 24/7 a 7/8/25 15 dias inverno 23/4 a 18/5/26 26 dias outono * (*) Períodos caracterizados como de estiagem (CRUZ et al., 26).

5 4. CONCLUSÕES Em todos os anos entre 22 e 26, foram registrados períodos de estiagem no oeste de Santa Catarina, com pelo menos dois meses consecutivos com percentual negativo de precipitação de mais de 4%, quando o escoamento dos sistemas frontais foi localizado acima de 4S. Os períodos secos foram observados principalmente no verão (5% entre janeiro e março), seguido dos meses de outono-inverno. E, em todos os anos, foram observados percentuais positivos em algum dos meses entre setembro e dezembro. A primavera apresenta-se como um período de melhor distribuição de precipitação e regularidade na passagem de frentes frias. Somente a estiagem verificada em meses de primavera ocorreu durante um evento de La Niña, enquanto as demais, em fases de neutralidade do ENOS. Em estudos futuros, é importante analisar o padrão de precipitação e dos campos atmosféricos nos demais anos da série histórica e em outras estações meteorológicas do Estado. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CRUZ, G.; RODRIGUES, M. L. G., CANÔNICA, E.; MORAES, M.;. Análise sinótica o verão 24/25 no Oeste e Meio-Oeste Catarinense. Anais: XIV Congresso de Meteorologia, 26. GRIMM, A. M.; FERRAZ, S. E. T.; GOMES, J. Precipitation Anomalies in Southern Brazil Associated with El Niño and La Niña Events. In: Journal of Climate KALNAY, E. and Coauthors, The NCEP/NCAR 4-Year Reanalysis Project. Bulletin of the American Meteorological Society, Vol. 77, Nº 3, pp LOPES, F. Z.; MONTEIRO, M. Relação entre a precipitação de Santa Catarina e a TSM das regiões dos Niños. Congresso Brasileiro de Meteorologia, 14, 26, Florianópolis, SC. Anais... Florianópolis, SC: SBMET, 26. CD-ROM. NIMER, E. Clima. In: Geografia do Brasil: Região Sul. Série Recursos Naturais e Meio Ambiente. n º 4, Rio de Janeiro: IBGE, p NOAA/NCEP/CPC. Disponível em:< Acesso em: 15 mar. 28. RODRIGUES, M. L. G. Uma climatologia de frentes frias no litoral catarinense com dados de reanálise do NCEP f. Dissertação (Mestrado) - ENS/UFSC, Florianópolis, SC. SATYAMURTY, P.; NOBRE, C. A.; SILVA DIAS, P. L., Tropics - South America. In: Meteorology of the Southern Hemisphere, (Ed) Kauly, D. J. and Vincent, D. G., Meteorological Monographs. American Meteorological Society, Boston, pp

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