INFLUÊNCIA DE FASES EXTREMAS DA OSCILAÇÃO SUL SOBRE A INTENSIDADE E FREQUÊNCIA DAS CHUVAS NO SUL DO BRASIL

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1 INFLUÊNCIA DE FASES EXTREMAS DA OSCILAÇÃO SUL SOBRE A INTENSIDADE E FREQUÊNCIA DAS CHUVAS NO SUL DO BRASIL Alice M. Grimm Grupo de Meteorologia - Departamento de Física - Universidade Federal do Paraná Celso Luiz da Silva Sant Anna Bolsista de Iniciação Científica CNPq - Grupo de Meteorologia - Universidade Federal do Paraná ABSTRACT Extreme phases of the Southern Oscillation have significant impact on the seasonal amounts of precipitation over Southern Brazil. Daily rainfall data are used to identify the impact of these events on the average amount of rainfall during rainy days in a season and on the number of rainy days within this season. INTRODUÇÃO As fases extremas da Oscilação Sul (El Niño e La Niña) provocam significativas alterações nos totais mensais e sazonais de precipitação no Sul do Brasil (Grimm et al., 1998, 2000). Entre elas, pode-se citar que a fase negativa da Oscilação Sul (El Niño, EN) traz primaveras mais chuvosas, além de aumentar a precipitação no inverno do ano seguinte ao início do evento. Já a fase positiva (La Niña, LN) produz primaveras mais secas. Esses estudos tem se concentrado nas escalas mensal e sazonal, não havendo ainda uma avaliação do seu impacto sobre a freqüência de ocorrência de eventos de chuva ou sobre sua intensidade média. A questão que se deseja responder neste trabalho é: os totais mensais de precipitação no Sul do Brasil são maiores (menores) durante eventos El Niño (La Niña) por que chove com maior (menor) intensidade ou por que há mais (menos) dias de chuva? Tal questão tem importância prática e é relevante para o detalhamento das previsões climáticas. O aumento da precipitação em escala sazonal, se bem distribuído, pode não afetar de forma significativa o escoamento superficial, associado à ocorrência de enchentes. A diminuição dos totais sazonais de precipitação, se bem distribuída entre os dias de chuva, pode trazer menos prejuízo à agricultura. MATERIAL E MÉTODOS Neste trabalho foram utilizados totais diários de precipitação de 250 estações meteorológicas, obtidas da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e do IAP (Instituto Ambiental do Paraná). Foram calculadas a quantidade média de dias chuvosos e a precipitação média em dias chuvosos durante períodos selecionados de eventos EN, LN e anos normais. A tabela abaixo lista os anos de início de eventos EN e LN (anos 0). El Niño 1911, 1913, 1915, 1918, 1923, 1925, 1930, 1932, 1939, 1941, 1944, 1951, 1953, 1957, 1963, 1965, 1969, 1972, 1976, 1979, 1982, 1986, 1991 La Niña 1910, 1916, 1920, 1924, 1928, 1931, 1933, 1938, 1942, 1949, 1954, 1956, 1964, 1970, 1973, 1975, 1985, Os períodos analisados são: i) junho (0) a agosto (0), por ser a fase inicial dos eventos; ii) outubro(0) a dezembro (0), por ser a fase de maior impacto dos eventos na Região Sul; iii) fevereiro (+) a abril (+), por ser representativo do verão após o início dos eventos, tendo em vista que durante janeiro (+) não há praticamente impacto significativo na Região Sul; iv) junho (+) a agosto (+) por haver impacto em parte da Região Sul no inverno seguinte a eventos El Niño. No caso do período junho (0) a agosto (0) e junho (+) a agosto (+), consideraram-se anos normais aqueles que não eram início (ano 0) nem ano seguinte (ano +) ao início de um evento EN ou LN. Isto deve-se ao fato de que pode haver impacto desses eventos no sul do Brasil tanto no seu início como no ano seguinte (Grimm et al., 1101

2 2000). No caso do período outubro (0) a dezembro (0), anos normais são aqueles que não são anos EN ou LN, tendo em vista que nesse período do ano seguinte ao início dos eventos não há mais impacto significativo. Para o período fevereiro (+) a abril (+), anos normais são aqueles que não são anos seguintes ao início dos eventos. RESULTADOS E DISCUSSÃO No período junho (0) a agosto (0) não há ainda impacto significativo de eventos EN e LN no sul do Brasil (Grimm et al., 1998, 2000). Não há realmente diferenças na precipitação média em dias chuvosos nesse período entre anos EN e anos normais a não ser valores um pouco maiores no oeste da Região Sul (noroeste RGS, oeste de SC e PR) durante EN (Fig. 1). Também a freqüência de dias chuvosos aumenta um pouco nesta região (Fig. 2), embora diminua um pouco no leste do PR e SC. A intensidade média em eventos LN é um pouco maior que em anos normais basicamente na mesma região em que o é para EN (Fig. 1), mas a frequência não se altera praticamente nessa área. Ela aumenta principalmente no sudeste da Região Sul (Fig. 2). Este efeito deve-se à tendência de eventos LN ocorrerem logo após eventos EN e, como tiramos da lista de anos normais para esse período os anos (+) de eventos EN, o período junho (0) a agosto (0) de eventos LN tenderão a ser semelhantes ao período junho (+) a agosto (+) de eventos EN, quando há significativas anomalias positivas de precipitação no sudeste da Região Sul. Na primavera, de outubro (0) a dezembro (0), há durante eventos EN, um visível aumento da precipitação média durante dias chuvosos na parte oeste da Região Sul, em relação a anos normais (Fig. 3). Já na parte leste, não há aumento visível. Há aumento de número de dias chuvosos em quase toda a Região Sul, mas principalmente nos planaltos paranaenses e litoral de SC e RGS (Fig. 4). Nessas regiões, há indicações de que o aumento do total sazonal de precipitação deve-se principalmente ao aumento dos dias de chuva. Já no oeste, embora tanto a quantidade de precipitação como a quantidade de dias de chuva contribuam para o aumento de precipitação sazonal, parece haver um predomínio da primeira. Durante eventos LN, a precipitação média diminui em algumas regiões, principalmente no litoral, mas o principal fator para a diminuição da precipitação sazonal parece ser a diminuição do número de dias chuvosos, exceto no litoral (Figs. 3 e 4). Este efeito é mais visível no RGS. Durante o verão, de fevereiro (+) a abril (+), a precipitação média em eventos EN aumenta visivelmente no sudoeste do RGS (Fig. 5). O número de dias chuvosos aumenta em menor proporção (Fig. 6). Durante LN, a precipitação média diminui em partes do sudoeste do RGS (Fig. 5), sendo menos visível a diminuição de número de dias chuvosos nesta região (Fig. 6). Em outras partes da Região Sul há até um aumento de dias chuvosos. O impacto de eventos EN na parte sudeste da Região Sul no inverno do ano seguinte, de junho (+) a agosto (+), é visível tanto no aumento da precipitação média em dias chuvosos, quanto no aumento da quantidade de dias chuvosos. Já após eventos LN, a precipitação média não se altera, embora haja indicação de aumento de dias chuvosos no litoral e partes de SC e PR, principalmente noroeste do PR (Figs. 7 e 8). CONCLUSÕES A primavera é a estação de maior impacto médio de eventos EN e LN sobre a precipitação no Sul do Brasil. Durante eventos EN, tanto o aumento da precipitação média em dias chuvosos quanto o aumento do número de dias chuvosos parece contribuir ao aumento da precipitação sazonal. O primeiro fator parece predominar no oeste e o segundo no leste, especialmente no litoral de SC e RGS e sobre os planaltos paranaenses e região serrana. Durante eventos LN, predomina a influência da diminuição do número de dias chuvosos, exceto no litoral. Este aspecto é especialmente danoso para a agricultura. Durante o verão, a variação da precipitação durante eventos EN e LN ocorre principalmente no sudoeste do RGS, e deve-se principalmente à variação da quantidade de chuva média nos dias chuvosos. Isto pode sugerir a importância do maior ou menor suprimento de umidade para a região. O impacto de eventos EN no sudeste da Região Sul no inverno do ano seguinte ao início dos eventos é claramente visível, tanto na quantidade de chuva em dias chuvosos como no número de dias chuvosos, havendo relativa prevalência deste último fator. Embora a existência de condições favoráveis em grande escala para levantamento dinâmico do ar seja também importante para a quantidade média de precipitação em cada dia chuvoso, poderíamos, como primeira aproximação, relacionar o aumento do número de dias chuvosos com condições médias de grande escala favoráveis a levantamento dinâmico e o aumento da quantidade de chuva em cada dia chuvoso com maior aporte de umidade. Isto parece ser coerente com os resultados obtidos para inverno e primavera, quando, além das condições de convergência/divergência de umidade, a baroclinicidade é significativa na Região Sul e as alterações no jato subtropical alteram significativamente condições de levantamento dinâmico. 1102

3 AGRADECIMENTOS Esta pesquisa contou com apoio do CNPq e do IAI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GRIMM, A.M., FERRAZ, S.E.T., GOMES, J. Precipitation anomalies in Southern Brazil associated with El Niño and La Niña events. Journal of Climate, v.11, p , GRIMM, A.M., BARROS, V.R., DOYLE, M.E. Climate variability in Southern South America associated with El Niño and La Niña events. Journal of Climate, v.13, p.35-58,

4 Fig. 1. Precipitação média durante dias chuvosos no trimestre junho (0) a agosto (0) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. Fig. 2. Quantidade média de dias chuvosos no trimestre junho (0) a agosto (0) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. 1104

5 Fig. 3. Precipitação média durante dias chuvosos no trimestre outubro (0) a dezembro (0) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. Fig. 4. Quantidade média de dias chuvosos no trimestre outubro (0) a dezembro (0) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. 1105

6 Fig. 5. Precipitação média durante dias chuvosos no trimestre fevereiro (+) a abril (+) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. Fig. 6. Quantidade média de dias chuvosos no trimestre fevereiro (+) a abril (+) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. 1106

7 Fig. 7. Precipitação média durante dias chuvosos no trimestre junho (+) a agosto (+) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. Fig. 8. Quantidade média de dias chuvosos no trimestre junho (+) a agosto (+) de eventos El Niño, La Niña e anos normais. 1107

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