EXPANSÃO E PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU CAPTANDO DESAFIOS

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1 EXPANSÃO E PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU CAPTANDO DESAFIOS Maria da Graça Ramos GEUIpesq/UFPel Resumo: No presente texto procura-se estabelecer as relações fundamentais entre a produção da ciência com a pesquisa institucionalizada nas universidades e no sistema educacional, destacando o papel da pós-graduação tendo o Estado do Rio Grande do Sul como cenário demonstrando como se dá o processo de formação de recursos humanos. Este texto discute as políticas emanadas da esfera federal com suas implicações na moldura legal do ensino de Pósgraduação nas últimas décadas, em especial no âmbito das universidades gaúchas, que se propõe a apresentar e discutir algumas regras que estão em jogo e seu impacto sobre a organização e funcionamento desse nível de ensino. São destacados os parâmetros legais e suas implicações no cotidiano das universidades. A qualificação docente é a força motriz que leva a produção de pesquisa e a organização de cursos de Pós-graduação. É entendida como a grande ponte entre a Pós-graduação, a produção e socialização do conhecimento Os dados apontam que as universidades no RS possuem significativo número de Cursos de Pós-graduação reconhecidos pela CAPES, que explicita como condição indispensável para esse reconhecimento, a comprovação da prévia existência de grupo de pesquisa consolidado na mesma área de conhecimento do curso, evidenciando que há consolidação das universidades gaúchas, em especial das instituições federais que concentram a grande maioria das investigações científicas e a Pós-graduação do país.constata-se que essa instituição aponta para a tendência que vem ganhando cada vez mais espaço no contexto acadêmico brasileiro: a formação de redes de pesquisadores que buscam um fluxo contínuo de conhecimento nas diversas áreas sob a perspectiva da solidariedade e da cooperação. Sinaliza na direção de as pessoas dentro dessa instituição buscarem aproximações para trabalhar, pesquisar, não a partir do departamento, mas em torno de temáticas. Mostra uma flexibilidade que se opõe à rigidez da estrutura burocrática clássica. Palavras chaves: pós-graduação, políticas públicas, pesquisa, RS. A produção da ciência, através da pesquisa institucionalizada, é, cada vez mais, parte indissociável da idéia de universidade, neste novo milênio. Entretanto, para o desenvolvimento da pesquisa, é necessária a formação de recursos humanos capazes de gerar e difundir conhecimentos. Tal gerência e difusão foram determinantes na institucionalização da Pós-graduação no Brasil. No entanto, tendo presente que a Pós-graduação, como processo de formação de recursos humanos, é parte do Sistema Educacional e do Sistema de Ciência e

2 Tecnologia, ambos com setores administrativos, agências de fomento e conselhos, entende-se que ela depende das suas políticas para uma adequada evolução. No Brasil, o ensino superior, como um todo, é controlado pelo Governo central por meio do ministério competente o Ministério da Educação e de seus órgãos assessores. Esse controle não é recente e faz parte de uma herança que atravessou diferentes regimes políticos que se sucederam. A relação do Estado com o ensino superior, por meio do Ministério da Educação e de órgãos administrativos assessores, compreende o papel de financiador do segmento público federal, de modelador ao disciplinar o modelo de ensino superior que pretende dar organicidade ao sistema em seu conjunto e o papel de fiscalizador do funcionamento do sistema no provimento de um bem público, explicitando normas legais e procedimentos burocráticos por meio de diferentes órgãos consultivos e deliberativos. Como parte dessa ingerência do Estado, a reforma universitária, ao estabelecer a indissociabilidade das atividades de ensino e pesquisa, e através do incentivo à adoção do regime de tempo integral, da valorização da titulação e da produção científica, estabeleceu, com isso, condições favoráveis ao desenvolvimento do sistema de pós-graduação, o que veio a ocorrer principalmente nas universidades públicas. É portanto, na direção das políticas emanadas da esfera federal com suas implicações na moldura legal do ensino de Pós-graduação nas últimas décadas, que nos propomos a apresentar e discutir algumas regras que estão em jogo e seu impacto sobre a organização e funcionamento desse nível de ensino em especial no âmbito das universidades gaúchas. Políticas de Pós-graduação : sinalizações A implantação da Pós-graduação, no Brasil, conforme o parecer n. 977/65 do Conselho Federal de Educação, aprovado em 03/12/1965, baseia-se fundamentalmente em três motivos: formar professorado competente que possa atender à expansão quantitativa do ensino superior, garantindo a elevação dos atuais níveis de qualidade; estimular o desenvolvimento da pesquisa científica

3 através da preparação adequada de pesquisadores e assegurar o treinamento eficaz de técnicos e trabalhadores intelectuais do mais alto padrão frente às necessidades do desenvolvimento nacional. Esse Parecer do Conselho Federal de Educação foi uma importantíssima decisão política que acabou por estruturar a base de pesquisa científica e tecnológica no Brasil, ao declarar que deveria ser montado um parque de Pós-graduação neste país, estando este intimamente associado à atividade de pesquisa e cabendo às universidades o o papel de suporte institucional para isso. A CAPES, um dos órgãos responsáveis pelo funcionamento da Pós-graduação, teve entre seus objetivos dar conta de todas as ações necessárias ao aperfeiçoamento do pessoal das universidades brasileiras, e esta instituição acabou por ocupar lugar central e decisivo na organização do sistema de Pósgraduação stricto sensu que foi implantado no país no final dos anos 60. Em se tratando de Política de Pós-graduação, certamente, é preciso destacar que os Planos Nacionais de Pós-graduação, tiveram um papel fundamental no processo de institucionalização da Pós-graduação brasileira, consistindo esses, de fato, instrumento de política, pois as ações do governo nesta área guardavam certa coerência com os objetivos e metas declarados. No entanto, além da política expressa pelos Planos Nacionais de Pós-graduação, que se voltaram diretamente à alçada da Pós-graduação, outras políticas educacionais também constituem meios de estimular esta esfera de ensino. Nesse sentido, apontamos a política educacional expressa na Lei 9.394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada em dezembro de 1996, que em seu art.52, nos parágrafos II e III, determina que a universidade deve ser constituída por, pelo menos, 1/3 do corpo docente com Pós-graduação stricto sensu e 1/3 em regime de tempo integral. Essas exigências da Nova LDB, sem dúvida, conduzem à valorização da Pósgraduação e à conseqüente demanda, além de garantirem condições para maior participação do corpo docente nas atividades de pesquisa, através do regime de tempo integral.

4 A própria Constituição Brasileira assegura, também, através do seu Artigo 218, parágrafo 3º, que o Estado apoiará a formação de recursos humanos nas áreas de ciência, pesquisa e tecnologia, e concederá aos que dela se ocupem, meios e condições especiais de trabalho. No que diz respeito à ações voltadas para a Pós-graduação cabe salientar que, a CAPES, com sua permanente preocupação com a qualidade desse nível de ensino, ao longo do tempo, provocou discussões e estudos sobre o assunto e instituiu instrumentos com condições de avaliar a qualidade dos cursos e do Sistema Nacional de Pós-graduação. Na segunda metade dos anos de 1990, em documento resultante desse tipo de discussão, identifica-se preocupações de estudiosos do assunto, relacionadas com a expansão da Pós-graduação que ocorreu com níveis diferenciados de qualidade, com desequilíbrios em termos regionais, de instituições e de áreas de conhecimento, assim como preocupações com o tempo médio gasto para titulação em nível de mestrado e doutorado. Aparece, ainda, a inquietação sobre a rigidez do modelo de Pós-graduação existente no Brasil, criado a partir de uma necessidade externa à universidade, acenando desse modo para uma flexibilização do mesmo. A partir do referido documento também evidencia-se a necessidade de pensar a evolução da Pós-graduação brasileira a partir de dois eixos básicos: flexibilização e autonomia institucional, cabendo a cada universidade chamar a si, a responsabilidade pela gestão de seu sistema de pós-graduação, propondo modelos abertos próprios à sua vocação e objetivos. É pensada a diversificação e/ou flexibilização do modelo de pós-graduação em função de uma sociedade que está mudando, que apresenta necessidades e características novas, não devendo o sistema de pós-graduação deixar de levar isso em consideração. A flexibilização, se manifesta nas modalidades de oferecimento da Pósgraduação, hoje já efetivadas através dos Mestrados Interinstitucionais e os Mestrados Profissionais.

5 A expansão diferenciada consiste na diversificação da oferta de perfis de formação, com a criação de mestrados profissionais que atenderão às necessidades de qualificação de pessoal para o desempenho de atividades outras que não a geração do conhecimento científico ou tecnológico. Esse tipo de mestrado, como todo programa de Pós-graduação stricto sensu, tem a validade nacional do diploma condicionada ao reconhecimento prévio do curso. No caso do Mestrado Interinstitucional (MINTER), o mesmo dirige-se à qualificação docente das instituições afastadas das grandes universidades. Busca desenvolver condições para que a(s) universidade(s) receptora (s) qualifique (m) seu corpo docente e/ou desenvolva condições para a concretização de atividades sistemáticas de Pós-graduação e de pesquisa orientadas para o estabelecimento de programa próprio, em futuro próximo. Não surpreende, portanto, que tais programas tenham se expandido, considerando especialmente as exigências de titulação colocadas pela LDBEN 96. Entretanto, essas políticas voltadas para a Pós-graduação, estimuladoras da formação qualificada do docente para o ensino superior e a pesquisa, de modo flexível e diversificado, algumas vezes têm gerado cursos onde é nítida a priorização financeira e o atendimento às exigências do mercado. Não podemos, entretanto esquecer que alguns cursos de universidades públicas têm transformado as novas modalidades de mestrado numa fonte significativa de rendimentos. Cabe também ressaltar que, em relação a reconhecimento, assim como a autorização e renovação de reconhecimento de cursos de Pós-graduação stricto sensu, que são concedidos por prazo determinado e dependente de avaliação realizada pela CAPES, a Resol. 01/2001 do C.N.E., em seu Artigo1 5º explicita como condição indispensável para que isso ocorra, a comprovação da prévia existência de grupo de pesquisa consolidado na mesma área de conhecimento do curso. No que se refere à preocupações relacionadas as disparidades regionais em termos da distribuição espacial dos programas de Pós-gradução, aliadas à falta de articulação das ações governamentais, inclusive entre as universidades, levaram o

6 Fórum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-graduação a elaborar o Plano Sul de Pós-graduação, envolvendo instituições do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Este Plano tem como estratégias: capacitar docentes em nível de Pósgraduação stricto sensu, tendo como horizonte o doutorado; promover integração das IES; propor novos modelos de Pós-graduação; requerer apoio para aquisição de equipamentos, instalação e melhoria de laboratórios, bem como para a implantação e desenvolvimento do próprio Plano Regional Sul. (Plano Sul de Pósgraduação,1996). A necessidade de alterar a centralização dos programas de Pós-graduação, nas capitais e nas grandes universidades, foi um dos desafios enfrentados pelo Plano Sul de Pós-graduação Nesse sentido, no Rio Grande do Sul, a Pós-graduação, através da pesquisa e da formação de novos quadros universitários, cumpre importante papel na consolidação das universidades e na geração e fortalecimento de uma cultura e de um sistema de pesquisa. É visível nas universidades gaúchas a significação relevante que envolve a Pósgraduação, pois as instituições que sustentam mantêm bons cursos de Pósgraduação com elevados níveis na qualificação acadêmico-científica de seus quadros promovem a formação humana e a pesquisa, não como atividades eventuais e esporádicas, mas de forma sistemática. Dados recentes apontam que existem no país 1769 cursos de mestrado, 1014 de doutorado e 126 mestrados profissionais, organizados basicamente em forma de programas. A situação do Rio Grande do Sul está contemplada nas tabelas 1, 2 e 3 Tabela 1. Cursos de Pós-Graduação no RS Reconhecidos até início de 2004 Cursos Federais Particulares Total Doutorados Mestrados Mestrados Prof Fonte:Capes. consulta via internet em site

7 Os dados da tabela 1 apontam que as universidades no RS possuem significativo número de Cursos de Pós-graduação reconhecidos pela CAPES, que portanto estão submetidos ao processo de avaliação dessa instituição, atendendo a Resol. 01/2001 do C.N.E., em seu Artigo1 5º que explicita como condição indispensável para esse reconhecimento, a comprovação da prévia existência de grupo de pesquisa consolidado na mesma área de conhecimento do curso, evidenciando que também nesse aspecto, há consolidação das universidades gaúchas, em especial das instituições federais, que abarcam o maior número dos programas de Pós-graduação do estado. Por outro lado, também é possível observar que a Pós-graduação no RS procura acompanhar a orientação das políticas nacionais apontando para a flexibilização, que se manifesta no oferecimento da modalidade de Mestrados Profissionais, que buscam atender as demandas de qualificação de pessoal para o desempenho de atividades outras que não a geração do conhecimento acadêmico. Tabela 2.Cursos de Pós-Graduação Novos, no RS, Recomendados até início de 2004 Cursos Federais Particulares Total Doutorados Mestrados Mestrados Prof Fonte:CAPES consulta via internet em site A tabela 2 evidencia que as universidades gaúchas continuam a fazer esforços na criação de cursos de Pós-graduação stricto sensu, investindo assim, na geração de pesquisa, uma vez que há evidências que é a Pós-graduação dentro das

8 universidades que responde pela grande maioria das investigações científicas do país. Tabela 3.Total de Cursos de Pós-Graduação Reconhecidos e Recomendados no RS até 2004 Cursos Federais Particulares Total Doutorados Mestrados Mestrados Prof Fonte: Capes, consulta via internet em site A partir dos dados da tabela 3 é possível inferir que para emergirem programas de Pós-graduação e, como decorrência, a geração de pesquisa, condições essas, fundamentais para a produção de conhecimento na esfera acadêmica., as universidades gaúchas investiram na qualificação do seu quadro de pessoal, pois nessa esfera encontra-se a condição basilar para a implantação da Pósgraduação stricto sensu. Portanto, há uma cadeia em movimento: a qualificação obtida a partir da titulação vai gerar a pesquisa que, por sua vez, vai produzir o conhecimento. Cabe destacar, que os dados relacionados a configuração da Pós-graduação no Rio Grande do Sul contidos na tabela 3 ratificam os resultados de levantamentos sobre a realidade brasileira, ou seja que nas universidades públicas concentra-se a grande maioria das investigações científicas e a Pós-graduação do país. Ainda que as mesmas vivenciem um momento difícil, marcado pela ideologia neoliberal, da universidade de resultados e de restrições de recursos para sua manutenção, da deteriorização dos salários e dos meios para a pesquisa. Algumas Considerações Em face às políticas de pós-graduação tangenciadas no presente trabalho entende-se que, a política de Pós-graduação no Brasil, inicialmente buscou

9 capacitar os docentes das universidades, depois voltou-se para o desempenho do sistema de pós-graduação e, por fim, com o desenvolvimento da pesquisa na universidade, e que nesse sentido, o RS não foge a regra. É preciso destacar que o modelo de universidade proposto pela reforma do ensino de 1968 traz a idéia da pesquisa, mas da pesquisa desenvolvida preferencialmente pelo ensino de Pós-graduação. Pode-se dizer, que há sinalizações que a Pós-graduação brasileira, vive um momento, que aponta na direção de menor separação entre mestrado e doutorado, entre graduação e pós-graduação e entre academia e mercado não acadêmico. Na perspectiva governamental há a proposta que a formação de recursos humanos de mais alto nível requer uma revisão aprofundada do sistema existente, na linha definida pela Capes no início da década de 1990: tornar os mestrados mais eficientes e voltados para o mercado de trabalho; reduzir a duração e melhorar a qualidade dos doutorados; estimular a criação de cursos intensivos e de especialização. Cabe salientar que, a orientação das políticas da educação, originárias de organismos como o MEC e Ministério de Ciência e Tecnologia, têm vinculado a expansão da educação e do conhecimento com conceitos como flexibilidade, competitividade, modernização, eficiência, autonomia e qualidade, conceitos esses atrelados à lógica da nova ordem econômica mundial. Para finalizar, pode-se acrescentar que no RS assim como no Brasil, as instituições públicas concentram o maior número de programas de Pósgraduação, bem como grande parte das investigações científicas, mesmo que nos últimos tempos, a política do governo federal para a educação superior tenha sido refém de uma política de redução do déficit público, traduzidos em cortes drásticos nos orçamentos das universidades públicas, bem como em vagas de pessoal docente e pessoal técnico-administrativo.

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