Carlos Drummond de Andrade

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1 PARA LER O SENTIMENTO DO MUNDO Pincelada rápida de vida e obra 1 Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 1902, em família de fazendeiros, de tradição patriarcal. Apenas essa informação já nos será útil para a investigação de um poema da obra, a Confidência do Itabirano. Como teremos a oportunidade de verificar juntos, a cidade natal de Drummond, em representação do universo rural que se opõe ao urbano, é tema recorrente em sua obra: imagens do ambiente rural contrastam com a vida que o autor experimentou, depois, na cidade grande, especialmente no Rio de Janeiro. No poema Explicação, da obra Alguma Poesia, de 1930, já se verificava claramente essa oposição, que causou forte impressão no poeta e que deixou marcas em toda sua obra: Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante. A casa colonial da fazenda também era... No elevador penso na roça, na roça penso no elevador. Carlos Drummond de Andrade Em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, Drummond tinha vinte anos e o jovem poeta, que publicaria sua primeira obra oito anos depois, em 1930, sob larga influência do Modernismo, exatamente o livro Alguma Poesia que citamos logo acima, foi um dos fundadores de A Revista, em 1925, publicação que marcou a influência modernista em Minas Gerais. O autor completou sem muito interesse o curso superior de Farmácia, em Belo Horizonte, mas transferiu-se para o Rio de Janeiro entre 1933 e 1934, onde se tornou servidor público do Ministério da Educação, além de seguir a carreira literária e jornalística. A respeito da burocracia excessiva do serviço público, escreveu o breve poema Escravo em Papelópolis, em sua última obra, que teve o título sugestivo de Farewell, publicada postumamente, em 1996: Ó burocratas! Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio... É ainda o sentimento da vida que perdi sendo um dos vossos. O título que escancara a submissão do homem ao papelório sem valor das instituições burocráticas; o sarcasmo do poema, dirigindo-se aos burocratas, ironicamente, na segunda pessoa do plural; e a repetição da palavra ódio, que se amplia na segunda ocorrência por meio das reticências todos esses elementos apontam, de certa forma, para uma característica marcante da obra de Drummond: a rejeição à papelada sem sentido, diametralmente oposta à poesia como forma de mediação entre o sujeito poético e o tempo presente, os homens presentes, a vida presente expressões do poema Mãos Dadas, de importância fundamental na organização interna do, e que analisaremos a seguir. Na obra Claro Enigma, de 1951, Drummond, em certa medida, abandonou o viés empenhado que imprimiu aos poemas das obras publicadas até então. O pertence a essa primeira fase, em que algumas preocupações sociais emergem, sempre a partir da perspectiva do sujeito poético dummondiano. São essas as preocupações, verificadas a partir da análise de alguns poemas, que serão investigadas nas análises a seguir. De forma geral, perceberemos que, apesar desse engajamento, Drummond não transformará jamais seus poemas em panfletos políticos e é exatamente a tensão entre sujeito poético, de um lado, e mundo, de outro, que confere, de certa forma, a especificidade da obra poética de Drummond. Drummond faleceu em 1987, aos 84 anos, já consagrado como um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Para obter uma impressão mais viva do poeta, o candidato pode consultar na internet gravações de leituras que ele fez de seus próprios poemas. Autor: Carlos Rogerio Duarte Barreiros, professor de Literatura, Artes Visuais e Língua Portuguesa do CPV Vestibulares há dezoito anos, doze deles dedicados à preparação ao vestibular, sempre no CPV. Também é escritor, crítico literário e pesquisador de Literatura, doutorando na Universidade de São Paulo (USP). sentimento do mundo CPV

2 2 PARA LER OS POEMAS DO SENTIMENTO DO MUNDO Para facilitar a leitura dos poemas de Drummond, seguem algumas orientações: a) a leitura atenta do poema mais de uma vez: poemas não são notícias de jornal, cujo sentido se apreende em apenas uma passada de olhos. Lembremos: de modo geral, e sem entrar em detalhes ou polêmicas, quem escreve poemas não tem a finalidade de contar uma história, mas de constituir uma imagem por meio das palavras (embora haja, é claro, poemas que contenham pequenas narrativas); b) se as afirmações anteriores são verdadeiras e acreditamos que elas o são, então é preciso entender que a constituição de imagens por meio de palavras se dá por meio de recursos de linguagem que, muitas vezes, não são usados na escrita cotidiana. O recurso de linguagem mais corrente é a metáfora, mas muitos outros podem ser identificados, de modo que o autor possa dar expressão poética à imagem que pretende constituir. Atenção, por exemplo, a recorrências; a palavras ou expressões utilizadas no sentido conotativo, isto é, figurado; à organização que o próprio sujeito poético dá aos versos e às estrofes. Finalmente: atenção a todos os fenômenos de linguagem que fazem a poesia, em alguma medida, distanciar-se do uso corrente da língua mesmo que contenha expressões do dia a dia; c) as afirmações anteriores podem levar o candidato a pensar que, nos poemas que leremos a seguir, encontraremos meros exercícios egoístas de linguagem, por meio dos quais o poeta estaria expressando seus sentimentos mais íntimos e que, portanto, a poesia de Drummond não guarda contato com a realidade. Trata-se, rigorosamente, do contrário: por meio das formas e recursos poéticos utilizados, poderemos observar, ainda que de forma rápida, conteúdos da realidade não como meras descrições, mas como expressões artísticas dessa realidade; d) tudo isso significa que, neste roteiro de leitura do Sentimento do Mundo, partimos do pressuposto de que a obra de arte guarda, nas suas manifestações formais, traços do chão histórico em que se formou. Dessa forma, entre os recursos poéticos de Drummond e as relações que eles guardam com o conteúdo dos poemas, poderemos encontrar o Brasil surpreendentemente, não apenas o Brasil da década de 1930, em que a obra foi escrita, mas também o Brasil que ainda conhecemos, já que alguns elementos formais utilizados por Drummond guardam em si elementos do que se poderia chamar brasilidade, grosso modo. Em outras palavras, para tentar facilitar a compreensão: a leitura atenta dos poemas de Drummond permite encontrar aspectos da vida nacional que se estendem até os dias de hoje. E talvez esteja aí um dos motivos que fazem de Drummond poeta grande da nossa literatura; e) finalmente, é preciso lembrar que é possível flagrar, na poesia de Drummond, passagens que dizem respeito não só ao Brasil, mas também ao mundo como um todo. Hoje entendemos com facilidade que somos país periférico no capitalismo internacional, e que somos parte integrante (e, de certa forma, importante) do sistema internacional do capitalismo. Assim, se deixarmos de lado o preconceito com nós mesmos, com nossa história e com nossa formação, poderemos perceber que o que pode ser entendido na vida, na literatura e na cultura brasileira como atraso ou desvio pode ser, por outro lado, lido como especificidade que às vezes até permite observar melhor as contradições das falsas consciências que importamos compulsoriamente dos países centrais, especialmente dos Estados Unidos. A obra de Drummond é fonte abundante desse tipo de reflexão, como veremos. Nossa proposição é, portanto, a seguinte: que o candidato tente ler os poemas a seguir não como se contassem linearmente uma história (como se faz num filme de Hollywood, por exemplo), mas como se apresentassem uma imagem que guarda um enigma a ser decifrado. Esse enigma não guarda obrigatoriamente uma grande mensagem, ou alguma frase edificante, para levar para a vida ou alcançar a felicidade e o sucesso (como se propõem os autores de obras de autoajuda, ou religiosas): o gosto da leitura de poesia está exatamente, entre outras coisas, em desfrutar a leitura do poema em si. Especificamente na primeira fase da obra de Drummond, a relação dos conteúdos com os elementos formais guarda a senha para o ingresso no Brasil que, de certa forma, ainda está por ser descoberto, como veremos. Finalmente, pedimos, ainda, um voto de confiança daqueles candidatos que não encontram na Literatura o desfrute que nós encontramos. O objeto das questões de vestibular é exatamente a relação entre elementos formais do poema e seu conteúdo, como teremos, também, a chance de demonstrar. As análises a seguir foram escritas com bastante prazer, com o máximo de clareza e simplicidade que nos foi possível, tendo em vista que nosso público leitor são candidatos a vagas em cursos de graduação, não alunos do curso de Letras, nem leitores acostumados à linguagem especializada da crítica literária. Assim, pedimos também a benevolência dos professores que lerem este trabalho e dele se utilizarem, porque ele está repleto de generalizações e algumas superficialidades, inevitáveis em textos deste tipo, com este público leitor. Quando utilizarmos explicitamente as proposições de algum crítico literário, indicaremos em nota de pé de página, sobretudo por honestidade intelectual: a experiência em sala de aula, especialmente em preparatórios para vestibulares, diz que nosso mérito, se temos algum, não está na formulação de novas interpretações, mas na ordenação clara de interpretações já consagradas, que deem aos candidatos a capacidade de observar a organização profunda de elementos internos que transformam uma obra como, de Drummond, em um todo coerente. CPV sentimento do mundo

3 3 "Mãos Dadas" A escrita como mediação entre o sujeito e o mundo Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. Acreditamos que o poema Mãos Dadas, didaticamente, é adequado para dar início à reflexão a respeito de Sentimento do Mundo. De certa forma, trata-se de uma poética isto é, de um texto em que o sujeito poético explica os procedimentos que utiliza no ato da criação desse livro: um poema com função metalinguística, portanto, debruçado sobre si mesmo, investigando o objeto da poesia. Primeiramente, do ponto de vista formal, trata-se de texto sem métrica regular ou rima, nos modelos tradicionais, o que significa que Drummond já assimilou plenamente a proposta de liberdade formal dos Modernistas de Por outro lado, é preciso verificar que o poema é cadenciado sonoramente por outros elementos. Na primeira estrofe, por exemplo, são os pontos finais que dão o andamento do texto: cada verso contém uma frase categórica, encerrada pelo ponto final, como se lêssemos uma lista de recomendações para ler o pelo menos para lê-lo nos termos em que o próprio sujeito poético propõe. Os dois primeiros versos contêm a formulação fundamental do poema, que será retomada nos dois últimos: o sujeito poético não cantará esse verbo, aqui, assume o sentido de celebrar em verso nem o mundo caduco, velho, nem o mundo futuro. Seu objeto de celebração será o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. Já podemos, por meio da associação entre os elementos iniciais e finais, que dão coerência interna ao poema, lançar algumas hipóteses. Celebrar a matéria presente pode significar opor-se às idealizações negadas na segunda estrofe, cujo andamento é mais acelerado, com a repetição insistente do não (chama-se anáfora à repetição da mesma palavra no início de diferentes versos) e com a fluência dada pelas vírgulas. De fato, todos os elementos rejeitados pertencem ao plano do ideal: a mulher é a musa cantada nos poemas, sempre idealizada e distante; a história cantada em versos é a dos heróis clássicos, como Ulisses; suspiros ao anoitecer e paisagem vista da janela sugerem imagens românticas, de sujeitos poéticos distantes de seus objetos de desejo; os entorpecentes e as cartas de suicida, as ilhas e o rapto por serafins podem ser todos entendidos como fugas que os poetas de diferentes momentos da literatura souberam transformar em temas. São todos lugares-comuns, temas poéticos do passado, que a liberdade formal herdada do Modernismo rejeita generalizadamente: as novidades poéticas, de certa forma, estão guardadas no plano da forma (ausência de métrica e de rima) e no do conteúdo (a matéria presente, não o passado idealizado, nem o futuro a esperar). Nesta altura da análise, é importante que o candidato perceba que nossas hipóteses foram todas formuladas com base em elementos do poema, especialmente a associação entre as afirmações iniciais e as finais no plano do conteúdo (passado idealizado e futuro superestimado versus presente concreto) e a utilização do vocábulo cantar, que no texto assume o sentido de celebrar por meio da poesia. Em poucas palavras, repetimos: Mãos Dadas é poema metalinguístico. O sujeito poético expressa a rejeição ao passado e ao futuro, em oposição à valorização do presente. E faz isso no plano da forma utilizando-se da forma livre do poema, sem rimas ou métrica clássica e no do conteúdo rejeitando o passado e o futuro, afirmando o presente. Mas nossa análise estaria incompleta se desconsiderássemos o título do poema Mãos Dadas e os companheiros citados pelo sujeito poético. Verificamos que o sujeito se diz preso ao mundo e percebemos, na utilização do adjetivo preso, certa adversidade. Se está preso ao mundo, o sujeito poético não está livre e essa simples observação dá a medida da afirmação a respeito dos companheiros: estão taciturnos, isto é se consultarmos o Dicionário Houaiss, estão calados, talvez melancólicos ou tristes, carrancudos, talvez cheios de pensamentos mórbidos. Em poucas palavras: o sujeito poético e seus companheiros estão tolhidos em suas liberdades, talvez daí a melancolia. Note-se que estar preso à vida não precisa significar, necessariamente, estar pensando ou desejando a morte, embora essa leitura seja possível; estar preso à vida também pode significar ter os pés no chão, por mais que as idealizações do passado e do presente possam tentar-me e desviar-me o olhar. sentimento do mundo CPV

4 4 A importância dos companheiros está na capacidade que eles têm de mediar a relação traumática do sujeito poético com a vida e com a realidade. Leiamos juntos: a vida aprisiona; a realidade e o presente são enormes..., considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. A vida é fator limitante, a realidade e o presente assustam pela amplitude. É de mãos dadas que o sujeito poético prefere trilhar sua passagem pela vida: amparado pelos companheiros que nutrem grandes esperanças talvez seja mais fácil passar pela vida. Não nos esqueçamos, agora, de cotejar (comparar) essa passagem com o fim do poema: a vida presente (que aprisiona), o tempo presente (que assusta, pelo tamanho) e os homens presentes (que medeiam a relação do sujeito poético com a vida e o tempo) são a matéria da poesia de Drummond. E podemos ampliar nossa leitura: a escrita da poesia é também uma forma de mediação entre o sujeito e o mundo. É por meio da escrita que o sujeito dá as mãos ao mundo, à vida, ao tempo, aos homens, já que eles todos são sua matéria, serão seu objeto de observação. Já fica sugerido aqui, para analisarmos, juntos, depois: no último poema do livro, "Mundo Grande", investiga-se exatamente a desproporção entre o mundo objetivo, de um lado, e a percepção que o sujeito poético tem desse mundo, de outro. O crítico literário Antonio Candido sintetizou brilhantemente essa característica da obra de Drummond que é perfeitamente adequada para entender Mãos Dadas e o. Para esse estudioso, o próprio título do livro indica a polarização da obra madura de Drummond: de um lado, a preocupação com os problemas sociais; de outro, com os problemas individuais, ambos referidos ao problema da expressão, que efetua sua síntese 1. O que Antonio Candido quer dizer é que o sujeito poético de Drummond vive um dilema entre os temas sociais de sua época a matéria presente, os homens presentes, a vida presente e entre suas impressões subjetivas sobre esses temas. A tentativa de constituir uma síntese desse dilema em palavras é o problema da expressão a que se refere o crítico. Em palavras simples, percebe-se na obra de Drummond, especialmente (mas não exclusivamente) em Sentimento do mundo, um sujeito que se pergunta sempre o seguinte: Em que medida este poema dialoga com o mundo concreto, com o tempo presente, se ele foi escrito a partir de uma perspectiva rigorosamente pessoal e subjetiva?. 1 Antonio Candido. Inquietudes na poesia de Drummond. in: Vários Escritos. 3 a Edição revisada e ampliada, Duas Cidades, p. 112.A Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. Além de coincidir com o título do livro, o poema acima é o primeiro da obra. Ganha, por esses motivos, relevância para nosso roteiro de leitura. Comecemos pelo título em si: Sentimento do mundo é expressão que guarda duplo sentido, rico para nossa análise, afinal a polissemia isto é, a multiplicidade de sentidos é valiosa na leitura de poesia. A expressão do mundo pode ser entendida como paciente ou como agente da ideia expressa no substantivo abstrato sentimento. Em termos simples: entendemos facilmente que, no verbo sentir e no substantivo sentimento, subentendemse aquele que sente o agente e aquele sobre o qual recai o sentimento. Desse modo, podemos entender que a expressão sentimento do mundo quer referir-se às impressões que o sujeito poético tem a respeito do mundo ou aos sentimentos que o próprio mundo tem que, por sua vez, causam efeitos no sujeito poético. CPV sentimento do mundo

5 5 A dupla possibilidade de leitura do título é fundamental porque remete à mediação citada na análise do poema Mãos Dadas. O sujeito poético tenta, por meio da poesia, encontrar a si próprio, isto é, tenta identificar o papel que ocupa na enorme realidade, no presente grande, no mundo. Mais uma vez, o crítico Antonio Candido nos ajuda a entender o conflito pelo qual passa o sujeito poético: Trata-se de um problema de identidade ou identificação do ser, de que decorre o movimento criador da sua obra [...], dando-lhe o peso da inquietude que a faz oscilar entre o eu, o mundo e a arte, sempre descontente e contrafeita. Demos um passo adiante: a escrita da poesia é, ao mesmo tempo, a tentativa de sintetizar e organizar a relação do sujeito poético consigo próprio e com mundo. Sua arte será sempre descontente e contrafeita porque haverá incongruências entre o universo subjetivo e o objetivo e é nessas incongruências que poderemos encontrar o toque particular de Drummond à poesia brasileira, porque o dilema de seu sujeito poético é radicalmente brasileiro. Uma informação de cada vez. Primeiramente, avaliemos a primeira estrofe do poema: Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Podemos entender que as duas mãos aludem à ação já que é com as mãos que se fazem as coisas e que o sentimento do mundo alude à percepção aquela com que o sujeito poético tomará a consciência do mundo. Tudo isso é pouco: note-se que ele tem apenas as mãos e o sentimento. Acresça-se que a conjunção adversativa mas opõe mãos e sentimento, de um lado, a escravos, lembranças escorridas, transigência e confluência. Um elemento por vez, para que todos, juntos, componham sentido: as lembranças escorridas e os escravos parecem aludir a um universo passado nostálgico, de certa forma associado à sociedade patriarcal escravista: é o que veremos com mais clareza na Confidência do Itabirano. Por enquanto, notemos que a transigência do corpo na confluência do amor é expressão que alude, mais uma vez, à ideia de mediação, como vimos em Mãos Dadas. O verbo transigir está carregado do sentido de conciliar por meio de concessões, de ceder, de tolerar. A confluência do amor sugere, também, ideia de movimento, sem contradições. Assim, a imagem constituída na primeira estrofe pode ser a seguinte: por mais que tenha a percepção do mundo e as mãos com as quais pode atuar para interferir no curso da história, o sujeito poético também está repleto de elementos do passado que o levam a certa sensação de completude e, por extensão, de imobilidade: ele está cheio de escravos, as lembranças o passado escorrem (como suor, talvez lhe recobrindo o corpo) e o corpo cede às tentações do amor. De modo geral, as ações por meio da percepção do mundo parecem estar, no mínimo, obstruídas por um corpo em que fazem peso o passado e desejos menos nobres. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Na segunda estrofe, o verbo levantar-se pode ser associado à ideia de despertar talvez, à ideia de tomar ciência do mundo. Em versos acelerados pela pontuação, pelas repetições e pelo efeito do enjambement isto é, do encadeamento da leitura do texto, em que um verso puxa outro, de modo que o sentido só estará completo ao final da leitura da estrofe o sujeito poético revela a aceleração do mundo que lhe é externo: antes que o homem possa se dar conta do que está acontecendo, a realidade concreta tomou-lhe o céu, os bens e a própria vida. Retomando a primeira estrofe, aprimorando-lhe a leitura por meio da segunda: o sujeito poético tem a intenção de tocar o mundo com as mãos, tem a percepção do mundo, mas está imobilizado pelo passado, que o impede de acordar pro mundo antes de poder agir efetivamente. É o mundo que invade a vida do poeta e a coloca de ponta cabeça, chegando ao extremo de tomá-la a ele. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. Mais uma vez, o mundo externo e objetivo surge no poema como elemento que passa a perna no sujeito poético, cuja sensibilidade tem ritmo muito menos acelerado ele é disperso, / anterior a fronteiras : para ele, a guerra, embora esteja presente por meio das premências, não faz muito sentido. Os companheiros de Mãos Dadas são aqui camaradas termo de tratamento usado entre membros do Partido Comunista. O sujeito poético está atrasado em relação a eles, pois não sabia que havia guerra nem necessidades urgentes que precisavam ser atendidas. O desajuste entre sujeito poético desatento, talvez autocentrado em exagero e mundo objetivo imerso na guerra é flagrante. Só resta ao sujeito pedir perdão pela dispersão em que está envolvido. sentimento do mundo CPV

6 6 Mas o mundo objetivo guarda o apelo mais dolorido: o da morte de pessoas comuns o sineiro, a viúva e o microscopista, ou o amanhecer mais noite que a noite, em que a violência do mundo real se impõe sobre o sujeito. Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite Se a violência se impõe sobre o sujeito, impõe-se também sobre sua produção poética. Eis aí o motivo pelo qual o título do poema coincide com o título da obra: estamos diante da dinâmica interna fundamental da obra, aquela em que o sujeito poético é tocado pelas impressões muitas vezes violentas do mundo objetivo, que lhe é externo e que não coincide com sua experiência objetiva, deflagrando, portanto, os poemas que pretenderão, como veremos a seguir, mediar esses dois universos desencontrados. Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres [e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval 2 ; este couro de anta, estendido no sofá de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! 2 Santeiro é aquele que fabrica santos, para decorar igrejas ou altares particulares. Alfredo Duval de fato existiu e tornou-se célebre graças a Carlos Drummond de Andrade. Leia mais sobre ele no site da cidade de Itabira: Um cuidado que é necessário tomar antes de ler o poema anterior é o de não identificar necessariamente o sujeito poético do poema com o sujeito empírico Carlos Drummond de Andrade. Devemos assumir, primeiramente, que o poema representa o ponto de vista de um setor da classe dominante aquele que teve ouro, gado e fazendas, mas que não se modernizou no ritmo do país e que acabou ocupando cargos públicos, muitas vezes de alto escalão 3. Trata-se do processo pelo qual passou parte da elite agrária brasileira na Era Vargas. No título, chama a atenção o termo confidência porque só se confidencia com o outro aquele que sente culpa pelos erros cometidos. Talvez seja essa a chave para entender a frase exclamativa do último verso: apesar de estar ciente de que o patriarcado agrário ficou no passado, o sujeito poético ainda têm saudades dele. Na verdade, a sensação é ainda pior: Itabira não está completamente abandonada no passado, na medida em que esse passado ainda se faz presente. Na primeira estrofe, o itabirano é definido como triste, orgulhoso, de ferro: Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. A cidade-natal parece determinar a impermeabilidade do sujeito, derivada da impermeabilidade do ferro: E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. Os versos são, como os da primeira estrofe das Mãos Dadas, encerrados por pontos finais sensivelmente expressivos da intransigência do Itabirano: não há poros que permitam a comunicação do sujeito-itabira com o mundo que lhe é externo. Se quiséssemos voltar ao Sentimento do Mundo, diríamos que a guerra, embora possa até ter sido noticiada em Itabira, não interferiu na estabilidade ferrosa da cidade e de seu filho, daí seu descompasso temporal com a aceleração do mundo. Alheamento e alheio, alienação e alienado guardam origem comum, segundo o Dicionário Houaiss: a sensação de alheamento é a de estar afastado, separado; em casos extremos, chega-se o limite da perturbação ou do delírio; finalmente, o vocábulo também está associado a sensação de ser estrangeiro. O itabirano talvez seja isto: estrangeiro em sua cidade, ciente de que o mundo exterior é bem mais acelerado; estrangeiro no Rio de Janeiro, saudoso do ritmo ainda précapitalista de Itabira; estrangeiro de si 4, cindido (separado) entre dois mundos incompatíveis ainda que o ferro de Itabira possa ser entendido como matéria-prima do mundo acelerado. Os costumes de Itabira são idílicos, típicos de sociedade periférica do capitalismo, e opõem-se ao mundo do trabalho, isto é, da cidade grande: a vontade de amar vem de Itabira 3 A análise da dinâmica interna da obra e do poema não teria sido possível sem a leitura de A Nação Drummondiana, Alexandre Pilati, Editora 7 Letras. 4 A afirmação de que o brasileiro é um estrangeiro em sua própria terra está nas primeiras linhas das Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. CPV sentimento do mundo

7 7 e paralisa o trabalho; o hábito de sofrer é herança de Itabira e diverte, exatamente o oposto do que representa o trabalho alienante. É importante perceber que Itabira, embora seja cidade do passado, ainda se faz presente: o advérbio ora, o presente do indicativo na forma verbal ofereço e a recorrência do pronome demonstrativo este na terceira estrofe asseveram essa hipótese. A dinâmica Itabira versus cidade grande, ou ainda a dinâmica subjetividade poética versus mundo objetivo que, no nível profundo da análise, é a mesma coisa parece encontrar solução apenas por meio dos poemas. É neles que esses dois mundos contraditórios se encontram e ganham expressão artística. No mundo concreto, a contradição segue insolúvel trata-se da experiência nacional, em muitos sentidos. Até hoje o Brasil e os brasileiros somos atrasados e modernos, a um só tempo. O São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval ; o couro de anta, estendido no sofá de visitas ; o orgulho, a cabeça baixa : todos são elementos que aludem ao arcaísmo periférico de Itabira, mas que são resquícios ainda vivos e atuais da cidade que está em fotografia na parede. A própria fotografia parece sintetizar a dinâmica passado versus presente: é por meio de uma inovação tecnológica que as imagens do passado são repostas. É exatamente essa a mediação simbólica que também se manifesta no poema de Drummond: a confidência está em assumir ao leitor, o confidente da segunda pessoa De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço: que o sujeito poético não só é impermeável às modernizações representadas pelo funcionarismo público, como também sente saudades de Itabira saudades que chegam a doer. DESDOBRAMENTOS Agora que já encontramos a dinâmica interna geral de, podemos verificar desdobramentos dos temas e das dinâmicas que observamos acima, em diversos poemas. Na Tristeza do Império, a dinâmica passado versus presente se repete, agora alçada ao plano nacional: Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo* das donzelas opulentas que ao piano abemolavam bus-co a cam-pi-na se-re-na pa-ra li-vre sus-pi-rar, esqueciam a guerra do Paraguai, o enfado bolorento de São Cristóvão, a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé, sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana, com rádio [e telefone automático. * ebúrneo: semelhante ao marfim na cor ou lisura Nesse poema, observa-se claramente a contaminação do universo público pelos interesses privados da classe dominante 5. O título de conselheiro típico do universo político brasileiro do século XIX, imortalizado por Machado de Assis no Conselheiro Aires dos romances Esaú e Jacó 6 e Memorial de Aires era dado a homens de meia-idade e de longa carreira política, aos quais cabia a responsabilidade de aconselhar o imperador em momentos de gravidade. No poema de Drummond, observamos os conselheiros tomados por desejos sexuais e esquecidos dos eventos nacionais a guerra da Paraguai, com a palavra guerra grafada com letra minúscula, perdendo o alcance histórico; o enfado bolorento de São Cristóvão, isto é, os trabalhos de formulação da Constituição da República, concluídos em 1891, ocorridos no Palácio de São Cristóvão, antiga residência do imperador; o abolicionismo. Evidentemente o vocabulário afetado utilizado na descrição da cena acaba por ridicularizar os conselheiros e as donzelas: ante o colo ebúrneo é retomada irônica do formalismo dos poetas parnasianos, passadistas e oficiais, do final do século XIX, a que os modernistas se opuseram violentamente; abemolavam significa colocar bemóis em, isto é, abaixar ou enfraquecer os componentes de alta frequência de um som (sem contar a semelhança do verbo abemolar com o verbo amolar). Tudo soa a passado, a século XIX: os conselheiros, o vocabulário, a modinha Busco a campina serena, de Cândido Inácio da Silva que pode ser ouvida no Youtube e os eventos históricos. Em contrapartida, o sonho dos conselheiros aponta para as inovações tecnológicas do século XX: os arranha-céus contribuições definitivas do pragmatismo norte-americano à arquitetura 7 seriam habitações coletivas e símbolos da democracia, mas no Brasil retratado no poema acabam por assumir ares de leviandade: os homens do século XX desejam a chegada de apartamentos, rádio e telefone apenas para a realização de desejos meramente pessoais, não para o desenvolvimento do país. Atenção aos desdobramentos: primeiramente, percebemos, por meio da leviandade dos conselheiros, que o próprio ideal de liberdade de que está investido o arranha-céus norte-americano é o que chamamos na introdução deste trabalho de falsa consciência. Em palavras simples, deposita-se no edifício a ideia da democracia, mas a sua utilização leviana e personalista, no Brasil, revela que as ideologias estrangeiras são falseadoras da realidade. O edifício é lucrativo para os empresários da construção civil e para seus fornecedores de matérias-primas, além de sê-lo, 5 Mais uma vez, foi Sérgio Buarque de Holanda que cunhou nas Raízes do Brasil a análise de que, em nosso país, o universo público é largamente utilizado em benefício dos interesses privados das classes dominantes. 6 Em Esaú e Jacó, de Machado de Assis, observa-se claramente como as diferenças de dois irmãos gêmeos (assunto de foro íntimo e familiar) podem interferir nos destinos do Brasil como um todo. Trata-se exatamente do mesmo tema investigado por Drummond no poema. 7 Em Artes Plásticas na Semana de 22, Editora Perspectiva, Aracy Amaral afirma que o skyscraper, o arranha-céu, é a contribuição norte-americana à arquitetura do século XX. sentimento do mundo CPV

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