Imagens de professores e alunos. Andréa Becker Narvaes

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1 Imagens de professores e alunos Andréa Becker Narvaes Inicio este texto sem certeza de poder concluí-lo de imediato e no intuito de, ao apresentá-lo no evento, poder ouvir coisas que contribuam para continuidade da análise aqui esboçada. Minha intenção neste trabalho é refletir sobre os sentidos que perpassam a relação professor-aluno, temática central da minha tese de doutorado, ainda em processo de elaboração. Não quero deixar de registrar que me incentiva na elaboração dessa comunicação as palavras sábias do professor Mário Osório Marques (1997, p.13): Coçar e comer é só começar. Conversar e escrever também. Trata-se da noção de que o próprio processo de escrita pode ser um processo de elaboração e organização do pensamento do escritor, noção que me intriga, pois, vai contra o que aprendi na escola: primeiro organizar as idéias e depois passá-las para o papel. Tento reaprender agora, talvez por isso tão difícil seja escrever para pensar! Sendo assim, entendo ser necessário para organizar meu pensamento e o entendimento do leitor, explicitar de pronto alguns pressupostos conceituais a partir e junto com os quais estou realizando minha pesquisa, em seguida pretendo relatar os procedimentos utilizados para buscar captar algumas das significações que conformam as relações professores alunos nas duas

2 escolas investigadas. E pretendo concluir levantando algumas perspectivas de análise das falas dos professores e alunos que participaram como sujeitos pesquisados. Um pressuposto teórico básico é o de que a relação professor aluno é central ao exercício da docência. Como argumenta em seu artigo a pesquisadora Inês de Castro Teixeira (2007), a condição docente, entendida como o que funda a docência em sua realização, é uma relação. Trata-se da relação entre professores e alunos. Sendo assim o trabalho docente ou o exercício da docência se constitui em uma relação com o discente. Estudar a relação professor aluno tem sido minha intenção como pesquisadora, pois esta relação não contém apenas a reprodução, o instituído, a mesmice, como também pode ser composta por elementos inéditos, instituintes e diversificados. A relação professor aluno pode ser entendida como uma relação humana, social, cultural e histórica, uma relação que contém múltiplas dimensões, todas relacionadas entre si, que assumem tanto características genéricas quanto particularizadas. Posso dizer que esta é uma relação complexa, no sentido que aponta Edgar Morin sobre a complexidade que envolve o humano: O homem da racionalidade é também da afetividade, do mito e do delírio. O homem do trabalho é também o homem do jogo. O homem empírico é também o homem imaginário. O homem da economia é também o do consumismo. O homem prosaico é também o da poesia, isto é, do fervor, da participação, do amor, do êxtase (2000, p. 58).

3 Seria também a relação professor aluno uma relação humana complexa, onde o elemento da racionalidade é predominante, mas da qual faz parte também a dimensão afetiva e até a mítica. A relação entre docentes e discentes é assim marcada por encontros e desencontros, trocas e conflitos, solidariedade e disputas. Uma relação que pode, eventualmente, assumir um caráter desumano de violência entre as partes, por exemplo, é em geral, da ordem do humano, da troca, da reciprocidade. A relação entre professores e alunos pode ser olhada como uma relação social, pois se originou a partir de determinado contexto histórico e varia de acordo com as mudanças nos contextos históricos onde se insere. A particularidade desta relação social em relação a outras tantas é envolver os sujeitos a partir da troca de conhecimento e saberes.trata-se uma relação pertencente aos processos educativos típicos das sociedades modernas. Para além do ensino dos conteúdos disciplinares, diversos saberes ali circulam, são ensinados e aprendidos. Professores e alunos são sujeitos sócio - culturais diversificados de acordo com sua inserção em variados universos culturais e sociais como os geracionais, de gênero, étnicos, regionais e de classe. Esta interação entre sujeitos diversos e suas diversas formas de relação com os conhecimentos pode dar lugar a aproximação e ou ao distanciamento entre eles. A relação professor aluno é exercida concretamente no espaço da sala de aula por excelência, é, portanto, definida pela forma escolar. Entendida a

4 escola como instituição social composta de uma dimensão organizacional burocrática (formada pelas normas e regras oficiais) e uma dimensão simbólica constituída pelos significados reproduzidos e produzidos nas interações entre os sujeitos professores, alunos e funcionários cotidianamente. Minha pesquisa sobre a relação professor aluno teve como universo empírico duas escolas de um município de médio porte do interior do Rio Grande do Sul, uma da rede estadual, outra da rede privada de ensino. A partir das falas de professores e alunos do Ensino Médio, tentamos apreender suas percepções sobre a relação professor aluno, a escola e o ensino médio. As falas dos professores foram coletadas a partir de entrevistas escritas e orais e dos alunos através de grupos focais. Faço aqui uma breve caracterização dos professores participantes da pesquisa e uma análise inicial do resultado das entrevistas escritas respondidas por eles. Lendo e relendo o que escreveram os professores, procuro saber o que suas palavras me dizem sobre a relação professores e alunos vividas por eles no ensino médio. Ou melhor, qual a leitura que sou, neste momento, capaz de realizar de suas palavras. O fascínio e também a dificuldade do trabalho de pesquisa está na chance de poder encontrar, na realidade vivida por indivíduos, grupos e organizações, as brechas que mostram e/ou escondem suas infinitas possibilidades de tecer significados sobre si, os outros e o mundo. Da escola (A) 9 professores devolveram o questionário respondido e da outra escola (B) foram 12

5 professores os respondentes. Do grupo de professores da escola A, 6 são do sexo feminino e 3 do masculino. Já da escola B, 9 são professoras e 3 são professores. A faixa etária dos professores da escola A está entre 30 e 49 anos e da escola B oscila dos 27 aos 58 anos de idade. A intenção das questões escritas entregue aos professores era ter uma idéia inicial e geral de como vêem a docência, o discente e a relação entre eles. Sendo assim, a questão número 5 perguntava diretamente: como você descreveria a relação que estabelece com seu aluno na sala de aula? Boa parte das respostas (55%) inicia caracterizando a relação como boa, tranqüila, muito boa, agradável. Para em seguida descrevê-la como uma relação dialógica, de conversa, entre iguais, interativa (50%). Outro descritor da relação é o afeto, carinho, respeito (45%). Uma terceira forma de descrever tal relação é como: exigente, reflexiva, despertar o desejo pela informação, mediadora de conhecimentos, de quem ensina e aprende, troca de conhecimentos. Junto a esses aspectos gerais comuns às respostas dos dois grupos de docentes, notei uma diferença nos argumentos utilizados para explicitar seu ponto de vista sobre esta questão. Sendo que, os docentes da escola A, junto às características positivas da relação apontaram para a dimensão da suas dificuldades (6 entre os 9 professores). Dificuldade trazer os alunos para participar, indignação quando não se comprometem, poucos alunos respondem, no noturno é quase impossível encaminhar atividade, quando necessário sou autoritário.

6 Penso que é possível entender estas respostas apenas em relação às outras respostas dadas. Por exemplo, em relação à questão 3: Como você descreveria o aluno do Ensino Médio desta escola? Na escola A, com exceção de dois docentes os outros 7, descreveram o aluno pela suas faltas em primeiro lugar: poucos limites, não tem muita perspectiva de futuro, descomprometido, desmotivado, desinteressado, pouco interesse na busca do conhecimento, alguns não demonstram menor vontade estar na escola. Já na escola B, o aluno é caracterizado pelo professor por suas qualificações, apenas 3 dos 12 levantam junto as qualidades as faltas que vêem em seus alunos. Assim as respostas dizem de um aluno: participante, crítico, acreditam na proposta da escola, comprometido, criativo, envolvido, desejo de conhecer, aberto, leitor, líderes, amigos. A questão número 4: Na sua percepção, qual a visão que os alunos tem de seus professores? Os professores da escola A responderam: Faz de conta que constrói conhecimento, fornecedor de notas, desinteressado pelo aluno, estressados, trabalham o que não lhes interessa. Já na escola B as respostas versaram sobre um professor: profissional crítico, exigente, reconhecido, em quem confiar, quem conhece mais. A partir do cruzamento das respostas as questões 3), 4) e 5), podemos dizer que as imagens que atravessam as relações professores alunos são múltiplas e estão relacionadas com as imagens que os professores

7 tem sobre seus alunos e que os alunos tem do seus professores. Um pensamento de Arroyo (2009, p.174) foi para mim inspirador deste trabalho de interpretar as interpretações. Vemos e revemos nosso magistério no espelho do(a)s aluno(a)s (...) Quando os alunos mudam o primeiro a mudar é o trabalho e a imagem coletiva de trabalhadores em educação. E continua expondo seu ponto de vista ao afirmar que: Quando a imagem dos alunos(as) se altera, o principal efeito talvez seja que a imagem docente é reconstruída. Pode-se perceber que na escola A os professores tem uma visão mais negativa do aluno, ressaltando o que ele não tem e que provavelmente no imaginário docente deveria ou poderia ter. Nesta escola os professores acham que seus alunos têm deles também uma visão negativa. Já na escola B os professores caracterizam positivamente seus alunos e desta forma, muitos adjetivos utilizados para caracterizar o aluno são também usados para descrever como pensam que os alunos lhes vêem. Uma relação mais ou menos harmônica entre professores e alunos influencia a dinâmica de todo processo escolar. Assim se expressa Castro: Está colocado um problema no coração da docência, pois as representações e imagens dos docentes sobre os discentes dão significado e sentido às condutas pedagógicas, dão significado e perspectivas às suas relações com seus alunos. Quando a dificuldade do professor está no aluno e em suas relações com ele, estamos diante um problema fundante, um desafio incomensurável (2007,p.440).

8 Mas ainda é preciso explicar porque imagens diferenciadas circulam entre duas escolas de ensino médio do mesmo município e de bairros vizinhos. Estaria a explicação na condição social e no universo cultural diferente e desigual no qual os alunos se localizam, já que a escola A é pública e se localiza em um bairro pobre e a escola B é particular localizada em um bairro de classe média? Arroyo (2009) lembra a presença no nosso imaginário social de uma visão bastante negativa em relação aos grupos populares. A visão de uma espécie de inferioridade cognitiva e até moral não é nova (p.59). A idéia de que os grupos populares são carentes, não só de meios materiais, mas carentes da inteligência e dos valores supostamente necessários para obterem o desejado sucesso escolar é representação recorrente, inclusive entre os docentes. ARROYO, Miguel. Imagens Quebradas. Petrópolis, RJ: Vozes, CASTRO, Ines Teixeira de. Da Condição Docente. Educação e Sociedade. Vol. 28, n. 99, p , maioago MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000.

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