INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL: O Poder Brando e a política externa do governo Lula

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1 CENTRO UNIVERSITÁRIO BELAS ARTES DE SÃO PAULO CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS ALINE PAVAN DOS SANTOS INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL: O Poder Brando e a política externa do governo Lula SÃO PAULO 2009

2 ALINE PAVAN DOS SANTOS INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL: O Poder Brando e a política externa do governo Lula Monografia apresentada como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Orientador: Prof. Dr. Sidney Ferreira Leite SÃO PAULO 2009

3 O69p Santos, Aline Pavan dos Inserção Internacional do Brasil: o Poder Brando e a política externa do governo Lula / Aline Pavan dos Santos. São Paulo, p. : il.: 21,7 cm Monografia apresentada ao Centro Universitário Belas Artes de São Paulo sob a orientação do Prof. Dr. Sidney Ferreira Leite. 1. Poder Brando 2. Relações Internacionais 3. Política Externa Brasileira. I. Leite, Sidney Ferreira (orientador) II. Centro Universitário Belas Artes de São Paulo III. Título CDU : Ficha Catalográfica elaborada pela Profª MSc. Leila Rabello de Oliveira - CRB

4 INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL: O Poder Brando e a política externa do governo Lula Esta Monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais no Curso de Graduação em Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. São Paulo, 09 de dezembro de 2009 BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. SIDNEY FERREIRA LEITE Orientador Prof. Msc. ALCIR DESASSO Prof. Dr. LUIZ EDUARDO RIBEIRO SALLES

5 Dedico este trabalho à professora Maria Cristina que me ensinou a importância do pensamento crítico.

6 AGRADECIMENTOS Ao meu orientador Prof. Dr. Sidney Ferreira Leite, pelo excepcional acompanhamento, dedicação e incentivo. A FEBASP, com todo o seu quadro de professores e funcionários, pelo valor que atribuem à formação acadêmica e ao desenvolvimento das idéias. Ao Coordenador Prof. Demétrius Cesário Pereira pela atenção dispensada a todos os alunos de Relações Internacionais. Aos professores Alcir Desasso e Luiz Salles pela participação em minha banca avaliadora. Ao amigo Marcelo Reston pela boa vontade em contribuir na realização do trabalho, pelos horários de almoço lendo meus rascunhos e pelos questionamentos sempre oportunos. À professora Leila Rabello pelo apoio na formatação do trabalho, bem como a todos os funcionários da biblioteca pelo auxílio na indicação de referências bibliográficas. À minha família e ao Thiago pela paciência, carinho, incentivo e apoio durante todo o curso de graduação. Aos alunos do AN8RI pelos quatro anos bem humorados que passamos juntos, em especial a Bianca, a Camila, a Júlia, a Marina, a Vanessa e a Thábata, com quem construí as histórias da faculdade.

7 RESUMO O Poder Brando (Soft Power) é considerado como uma das fontes para projeção de interesses dos Estados no Sistema Internacional e pauta-se sobre a atração existente nos valores, nas instituições, nas políticas e na cultura. Ao destacar sua vertente política, nota-se que os governos têm papel essencial na formação da opinião externa sobre o país uma vez que formulam e implementam a política externa. Assim, explora-se o potencial explicativo dos fundamentos teóricos dessa esfera de poder e o caso brasileiro é evocado a fim de possibilitar a análise do modelo de inserção internacional da nação no período que vai de 2003 a Nesse marco temporal verifica-se se há existência do Poder Brando na política externa brasileira e pergunta-se se as principais ações em âmbito externo empreendidas pelo governo Lula possuem a finalidade não só de atender às demandas conjunturais como também de reforçar a imagem do País e aumentar sua influência no cenário internacional. Palavras Chave: Poder Brando, Política Externa Brasileira, Lula.

8 ABSTRACT The Soft Power is considered as a source for projection of the States interests on International System and follows on attraction that is on values, institutions, policies and culture. By highlighting the political dimension, it is noted that governments have an essential role in forming public opinion about country s foreign view once that they formulate and implement foreign policy. Thus, it explores the potential impact of the theoretical underpinnings of the sphere of power and the Brazilian case is raised to enable the analysis model of international insertion of the nation in the period 2003 to In that timeframe, we verify if there is Soft Power in Brazilian foreign policy and questions whether the main actions undertaken in the external field by the Lula government have the purpose not only to meet short-term demands but also to raise the profile of the country and increase their influence in the international arena. Key Words: Soft Power, Brazilian Foreign Police, Lula.

9 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Estados preponderantes e as principais fontes de poder 16 Quadro 2 Os principais tipos de poder 20 Quadro 3 Evolução das exportações brasileiras 31 Quadro 4 Comércio brasileiro por blocos econômicos - exportação 31

10 LISTA DE SIGLAS Alba Alca BNDES BRIC Casa Caspa CPLP CSNU EUA Ibas Mercosul Minustah OMC ONU Sacu Sadc TEC Unasul Aliança Bolivariana das Américas Área de Livre Comércio das Américas Banco Nacional de Desenvolvimento Brasil, Rússia, Índia e China Comunidade Sul Americana de Nações Cúpula América do Sul Países Árabes Comunidade dos Países de Língua Portuguesa Conselho de Segurança das Nações Unidas Estados Unidos da América Fórum de diálogo Índia, Brasil e África do Sul (também chamado G-3) Mercado Comum do Sul Missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti Organização Mundial do Comércio Organização das Nações Unidas União Aduaneira da África Austral Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral Tarifa Externa Comum União Sul-Americana de nações

11 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO CAPÍTULO I PODER E POLÍTICA EXTERNA: FUNDAMENTOS TEÓRICOS O PODER NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA FONTES CONTEMPORÂNEAS DE PODER: O PODER BRANDO A POLÍTICA EXTERNA COMO FONTE DE PODER BRANDO CAPÍTULO II - EIXOS TEMÁTICOS DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA OBJETIVOS DA POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO LULA E OS PARADIGMAS DA INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS E FÓRUNS MULTILATERAIS: A BUSCA PELA RECIPROCIDADE RELAÇÕES REGIONAIS: A CONSTRUÇÃO DE UMA LIDERANÇA A DEMOCRATIZAÇÃO DAS ARENAS INTERNACIONAIS: EM BUSCA DA RELEVÂNCIA NA SEGURANÇA INTERNACIONAL CAPÍTULO III - O PODER BRANDO NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA A PROJEÇÃO DO BRASIL NO SISTEMA INTERNACIONAL A DIMENSÃO MUNDIAL DA AGENDA BRASILEIRA CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 59

12 11 1. INTRODUÇÃO Uma das principais vertentes no estudo das relações internacionais diz respeito à análise da política externa, cujo desenvolvimento requer bases teóricas adequadas e a seleção de fatos históricos para pesquisa. De modo geral, o estudo da política externa é voltado para a atuação do Estado no plano internacional, enquanto que os conceitos teóricos podem pertencer a correntes distintas. Dentre as diversas correntes teóricas que se apresentam para análise das relações internacionais as principais são a realista e a liberal. Cada uma destas correntes possui uma definição própria para o poder e a despeito da importância das premissas sobre as quais elas se apóiam as características do Sistema Internacional que emerge ao fim da guerra fria propicia novas discussões sobre essas definições. Assim, Nye (2002) apresenta uma visão conjugada dos meios necessários para o exercício de poder no Sistema Internacional e expõe uma teoria que é aplicável tanto a Estados com amplos recursos bélicos e econômicos, como aos que os tem em menor grau. Nye (2002, p.30) define poder como a capacidade de obter os resultados desejados e, se necessário, mudar o comportamento dos outros para obtê-lo e, com isso, entende-se que os recursos tradicionais, como armas e território, não perdem a importância, bem como os meios cooperativos, como instituições e acordos, também são válidos. Nessa perspectiva de conciliar idéias realistas e liberais, o autor propõe que para assegurar a representação dos interesses no mundo pós-guerra Fria é necessário conciliar a aplicação do Poder Duro (Hard Power) com o Poder Brando (Soft Power). Haja vista que o Brasil é um dos países que procura inserir-se no cenário internacional contemporâneo e que estudos sobre o seu aparato de Poder Duro constituem um tema já bastante explorado, abre-se a perspectiva de verificar a existência de fontes de Poder Brando no Estado. Segundo Nye (2004), essas fontes podem estar dispersas na cultura, nos valores e na política. Sendo a política a arena em que o Estado exerce maior influência entre as possibilidades supracitadas, e,

13 12 sendo na política externa que efetivamente definem-se os procedimentos para a inserção internacional da nação, delimitou-se o objeto desse trabalho. O trabalho realizado parte da problemática de utilização do Poder Brando na política externa brasileira e visa identificar se elementos pertinentes a essa esfera de poder estão presentes no modelo de inserção internacional do Brasil durante o governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, dado o marco temporal que compreende o período de 2003 a A fim de confirmar ou refutar a hipótese de que as principais ações no âmbito externo empreendidas pelo governo Lula possuem a finalidade não só de atender a demandas conjunturais mas também de reforçar a imagem do País e aumentar sua influência no cenário internacional, em especial, sobre a América do Sul, constituíram-se em objetivos específicos: I. Extrair os conceitos do Poder Brando a partir de uma análise feita dos Estados Unidos; II. Identificar as principais diretrizes e ações da política externa brasileira do período destacado para estudo; III. Aplicar os fundamentos da vertente política do Poder Brando ao modelo de inserção internacional do Brasil durante o governo Lula. Para atender aos objetivos expostos foi realizada uma coleta de dados documentais que se desdobrou em duas etapas. A primeira referiu-se a um levantamento de fontes secundárias (livros e artigos de revistas impressas e eletrônicas) referentes ao Poder Brando. Esta primeira etapa da pesquisa serviu, basicamente, para a definição das características do objeto quanto às ações apresentadas pelos teóricos que levam ao aumento do aparato intangível da nação e o papel da política externa na disseminação e aumento do Poder Brando. Uma segunda etapa do aspecto documental da pesquisa envolveu a análise de artigos, documentos governamentais, discursos e relatórios produzidos sobre a temática da política externa do Brasil no governo Lula. Assim buscou-se identificar

14 13 as diretrizes adotadas pela política externa brasileira no período recortado para estudo. O presente trabalho é composto por três partes. Na primeira parte são apresentados os fundamentos teóricos e feita uma incursão sobre as abordagens contemporâneas de poder nas relações internacionais, de modo que se trabalha essencialmente com os conceitos de Poder Brando desenvolvidos por Joseph Nye Jr. O autor em questão iniciou seus estudos sobre este assunto fazendo uma análise dos Estados Unidos, porém, nesse trabalho propõe-se com base em suas contribuições, extrair conceitos mais densos e aplicáveis a qualquer Estado. Além disso, é importante ressaltar que o termo Poder Brando tem sido vulgarizado, haja vista a sua utilização ostensiva nos meios de comunicação que por vezes não condizem com os estudos acadêmicos sobre o tema, e, por isso, houve a preocupação em resgatar os fundamentos teóricos de fontes bibliográficas seguras enfatizando o uso do livro Soft Power: the means to success in world politics, que contempla o que se tem de mais profundo a esse respeito. Na segunda parte são explicitados os objetivos do Brasil no Sistema Internacional a serem obtidos por meio da política externa e, para tanto são considerados documentos oficiais do governo e discursos proferidos pelos governantes e pelo corpo diplomático do País. Em seguida são resgatados os principais acontecimentos ligados a esses objetivos, com o delineamento da posição do Brasil e a apresentação de vozes de apoio e dissonantes em relação à atuação governamental, de modo a assegurar a imparcialidade no estudo e a fornecer elementos para validar as concepções teóricas no que diz respeito a possíveis ônus arcados em função do fortalecimento da imagem externa do Estado. É, contudo, na terceira parte que se pretende analisar a aplicação dos conceitos teóricos abordados no primeiro capítulo no caso da inserção internacional do Brasil tratada no segundo capítulo. Com esses subsídios, a terceira parte se responsabiliza em definir o perfil de atuação internacional brasileira, qualificando o processo político do País em favor ou contra a valorização dos organismos internacionais, da pluralidade e da democracia.

15 14 Por fim, são apresentadas algumas considerações a respeito das possibilidades que o Poder Brando oferece no combate a cristalização do poder no cenário internacional e se sua utilização ou falta na política externa brasileira estão ligadas apenas a conjuntura do momento eleito para estudo ou se estão relacionados a uma trajetória mais ampla, cujas prospecções de resultados contemplam o médio e o longo prazo.

16 15 2. CAPÍTULO I PODER E POLÍTICA EXTERNA: FUNDAMENTOS TEÓRICOS O cenário internacional tem passado por mudanças profundas desde a formação do Estado Moderno. Essas transformações estão ligadas, predominantemente, aos meios utilizados e aos atores que exercem poder no Sistema Internacional. Como padrão do período histórico identifica-se a presença dos Estados enquanto atores relevantes e uma relação clara entre o exercício de poder e a condução da política externa destes. 2.1 O PODER NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA O exercício do poder e da hegemonia são temas recorrentes no estudo das relações internacionais. Como propõe Lessa (2005) é com o Tratado de Vestfália em 1648 e a consolidação do Estado-nação laico na Europa que afirma-se a supremacia estatal sobre temas domésticos e internacionais. Essa afirmação também no plano externo subsidia a prática hegemônica. A despeito da importância das abordagens clássicas de poder, centradas na coesão interna do Estado e representadas emblematicamente pelas obras de Maquiavel (1969) e Hobbes (2001), o presente trabalho busca elementos de análise existentes no pensamento contemporâneo das relações internacionais. Nesse sentido, as concepções consideradas sobre o poder partem do ponto de vista específico das interações entre os Estados. Na reconstrução histórica feita por Arrighi (1996, p.28) em relação à alternância de Estados hegemônicos ao longo da história, poder é definido como uma combinação entre consentimento e coerção, em que o primeiro implica em liderança moral e o segundo indica o uso da força. Ainda para Arrighi (1996, p. 28), o conceito de hegemonia mundial permeia a capacidade de um Estado exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações soberanas. Ressalta-se ainda o caráter cíclico do exercício da hegemonia e a disposição de determinadas fontes para obtê-lo.

17 16 Convergente a esse pensamento, Nye (2000) destaca que os recursos de poder possuem importância de acordo com um determinado período histórico. As principais potências mundiais e suas fontes de poder estão sistematizadas no quadro abaixo e evidenciam a alternância na importância dos recursos de poder ao longo do tempo. Período Estado Preponderante Principais Recursos Século XVI Espanha Ouro, comércio colonial, exércitos mercenários, laços dinásticos Comércio, capital, Século XVII Holanda mercados, marinha mercante Século XVIII França População, indústria rural, administração pública, exército Século XIX Inglaterra Indústria, coesão política, finanças e crédito, normas liberais, localização insular Século XX Fonte: Nye (2000) Estados Unidos Escala econômica, liderança técnica e científica, cultura universalista, força e alianças militares, regimes internacionais liberais, eixo das comunicações transnacionais e tecnologia da informação Quadro 1 Estados preponderantes e as principais fontes de poder.

18 17 Reiterando a alternância existente entre os Estados hegemônicos ao longo do tempo é possível citar os estudos de Kennedy (1989) sobre a ascensão e queda das potências e de Duroselle (2000) sobre a regularidade no nascimento e morte dos impérios. Em ambos há a identificação das principais características de um dado momento histórico e a conseqüente importância de um recurso de poder. O século XXI é caracterizado, em especial, pelo aumento das tecnologias de comunicação disponíveis e da circulação de informações em um espaço de tempo cada vez menor. Assim, os Estados não dependem apenas das fontes tradicionais de poder, enumeradas por Fernandes (2001) como: I. Extensão e situação geográfica; II. População e coesão social, política e ideológica; III. Recursos naturais; IV. PNB e desenvolvimento tecnológico; V. Força militar e capacidade estratégica. Segundo Nye (2004), o cenário internacional contemporâneo demanda a inclusão de mais uma esfera de poder que oriente as ações estatais e que está diretamente ligada ao campo político, em especial à articulação de idéias e ganho de aliados em função dos valores emanados. Tendo em vista a proposta de Nye e remetendo-nos a citação anterior do conceito de poder para Arrighi, estaríamos tratando do consentimento na arena política internacional, ou ainda, no que Carr (2001) chamou de poder sobre a opinião (Power over opinion) ao enumerar as três esferas do poder internacional como militar, econômica e poder sobre a opinião. Na mesma linha, Gramsci (2000) já se referia a manifestações de supremacia por parte de um grupo social por meio da dominação e da liderança intelectual e moral, e, mais enfaticamente Duroselle (2000) distingue a persuasão da negociação, da ameaça e do uso da violência, pois a primeira tem caráter quase pessoal entre os líderes e se dá em função de laços de confiança para que se convençam vários poderes públicos de que a sua proposta é a mais viável.

19 FONTES CONTEMPORÂNEAS DE PODER: O PODER BRANDO Em função do momento histórico eleito para estudo, cabe frisar que com o fim da Guerra Fria houve a emergência de novas abordagens no que concerne a discussão teórica em relações internacionais. A maior parte delas foi motivada pelo surgimento de novos atores no Sistema Internacional, tratados por Albuquerque (2006) como sendo os novos Estados que se desmembraram da União Soviética, as novas entidades paraestatais que desafiam a soberania dos Estados (como o crime organizado e os movimentos terroristas) e as novas organizações nãogovernamentais multinacionais (empresariais ou civis). Verificou-se uma mudança na distribuição e meios para exercício do poder, com a limitação da efetividade do poder bélico conforme exposto por Sarfati (2005, p.216): Primeiro, porque o poder nuclear revelou-se tão destrutivo quanto o alto custo de empregar tal arma, que, apenas em circunstancias extremas, se cogitaria utilizar. Em segundo lugar, há um continuo crescimento de movimentos nacionalistas, especialmente depois do colapso soviético. Em terceiro, há uma profunda mudança social no interior das grandes potências, refletido no desejo de bem-estar acima da glória da vitória em guerras. Além disso, os avanços tecnológicos permitiram a criação de múltiplos canais de comunicação o que, em última instância, tornou o poder algo menos coercitivo e menos tangível como assinalam Arquilla e Ronfeldt (1999 apud NYE, 2004, p. 20, tradução nossa) na era da informação, vantagens cooperativas serão cada vez mais importantes. Além do mais, sociedades que melhorarem suas habilidades de cooperação com amigos e aliados conseguirão obter também vantagens competitivas contra seus rivais 1. 1 In the information age, cooperative advantages will become increasingly important. Moreover, societies that improve their abilities to cooperate with friends and allies may also gain competitive advantages against rivals. (ARQUILLA; RONFELDT,1999 apud NYE, 2004, p.20)

20 19 Com a premissa de que os Estados estão inseridos em um Sistema Internacional interdependente e cuja anarquia 2 é mitigada em função da existência de regimes e instituições, para abordar o conjunto de atores e variáveis que condicionam a tomada de decisão política são válidas as formulações sobre o Poder Brando (Soft Power). De acordo com Nye (2004) poder é a capacidade de fazer o que se deseja ou mais especificamente a capacidade de influenciar o comportamento dos demais para atender seus interesses, e, a obtenção e aplicação do poder no século XXI se dão em um tabuleiro tridimensional que requer do Estado-nação recursos bélicos, recursos econômicos e também recursos intangíveis, provenientes de uma política externa bem elaborada e de uma liderança respeitada. O autor propõe conceitualmente a segmentação das fontes do poder em Poder Duro (Hard Power) e Poder Brando (Soft Power). A primeira está ligada a perspectiva de que os Estados norteiam suas ações de acordo com suas capacidades de coerção (sticks) e indução (carrots), impondo sanções diretas a seus opositores por meio da força ou de ameaças. Nessa primeira concepção enquadram-se tanto a esfera militar como a econômica. Já a segunda definição prevê que os Estados priorizam os meios de atração e estabelecimento de agendas comuns, nas quais os cursos emblemáticos de ação passam a ser as instituições, os valores, as culturas e as políticas. A diferença entre os dois espectros ao exercer o poder é vista por Pecequilo (2004) em termos de violência ou racionalidade. Desse modo, a distinção entre eles reside no fato de que o Poder Duro privilegia o uso da força e pode ser sentido com facilidade na prática, além de estar associado às formas tradicionais de poder. Em contrapartida, o Poder Brando é calcado na atração e no convencimento, é intangível e não é percebido claramente na prática. De modo ilustrativo, o quadro abaixo contempla os tipos de poder, meios de afirmação e políticas compatíveis com cada um deles: 2 A palavra anarquia neste contexto refere-se a ausência de um poder soberano sobre os Estados.

21 20 Comportamentos Meios primários Políticas Governamentais Poder Militar Coerção Dissuasão Proteção Ameaças Força Diplomacia coercitiva Guerra Alianças Poder Econômico Indução Coerção Pagamentos Sanções Ajuda Suborno Sanções Valores Diplomacia pública Poder Brando Atração Agendas compatíveis Cultura Políticas Diplomacia bilateral e Instituições multilateral Fonte: Nye (2004) Quadro 2 Os três tipos de poder. A definição de Poder Brando é explicitada por Nye (2004, p. X, tradução nossa) do seguinte modo: A habilidade de conseguir o que você quer através da atração ao invés de coerções ou pagamentos. Isso emerge da atratividade da cultura do país, dos ideais políticos e das políticas. Quando nossas políticas são vistas como legitimas aos olhos dos outros, nosso poder brando está estabelecido. 3 3 Is the ability to get what you want through attraction rather than coercion or payments. It arises from the attractiveness of a country`s culture, political ideals, and policies. When our policies are seen as legitimate in the eyes of others, our soft Power is enhanced. (NYE, 2004, p.x)

22 21 Diferente da influência, persuasão ou argumentação, o Poder Brando também pode ser denominado como Poder Atrativo (Attractive Power) já que considera a existência de uma atração intangível que nos persuade a apoiar alguém mesmo sem uma ameaça explicita ou recebimento de algo em troca. Desse modo, a liderança é exercida no momento em que os demais mudam de preferência e as políticas instauradas possuem autoridade moral. A importância do Poder Brando é relativamente maior quando disperso em outro país e exerce influência sobre as distintas esferas democráticas (parlamento e opinião pública). O Poder Brando por sua vez possui três vertentes: os valores políticos, a política externa e a cultura. Os valores políticos convertem-se em atrativos quando a ideologia que suporta o discurso é verificável em fatores como: economia próspera, robustez das empresas transnacionais e bons indicadores sociais. Para o governo, indicadores positivos de propagação de Poder Brando se concentram na confiança estabelecida pelo eleitorado, no apoio a atividades de Organizações Não-Governamentais e na capacidade de mobilizar indivíduos em torno de ações voluntárias. Em relação à política externa, a obtenção de Poder Brando depende de sua forma e conteúdo. Tanto o modo utilizado para obter vantagens no sistema internacional como o grau de igualdade de benefícios e abstenções nas negociações com os demais Estados influenciam no grau de Poder Brando da nação. Apesar de auxiliar na disseminação do Poder Brando, a cultura popular nem sempre produz os efeitos que o governo gostaria por não estar diretamente subordinada a ele. No entanto, a atração exercida pela cultura mobiliza as novas gerações e propõe uma mudança de longo prazo, atuando como catalisador. Com isso, o ato de convencer alguém a combater algo com o qual se tem uma identificação torna-se mais custoso e os reais efeitos do Poder Brando emanam da influência exercida sobre os principais envolvidos no processo decisório. Do mesmo modo as diferenças culturais e a recepção de demonstrações de Poder Brando estão sujeitas às interpretações dos receptores, que podem não

23 22 sentirem-se atraídos, mais sim repugnar o modo de vida ou sentirem-se ameaçados com o fortalecimento de outro Estado. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, os receptores não possuem um ódio explícito sobre determinados valores emanados, e, é na ambivalência que a vertente política do Poder Brando deve atuar com o intuito de consolidar uma visão positiva sobre a nação. Por tratar-se de um recurso de poder cujas fontes são dispersas, o governo não é capaz de estabelecer pleno controle sobre elas. Assim, grande parte dos meios mencionados são capazes de exportar costumes e parâmetros de organização social em situações cotidianas, em que a mensagem política é passada de modo subliminar e transmite o valor e a identidade de um país agregados a uma marca ou costume. Logo, a formação da imagem externa do país depende do modo como o Poder Brando é recebido pelos estrangeiros, além de ter um caráter de fixação progressivo com possibilidade de variações drásticas de acordo com a época e o local. As limitações do Poder Brando se dão no fato dele ser abstrato e, portanto, não propiciar uma contrapartida imediata como ocorre em relação às negociações coercitivas ou indutivas. Além disso, os governos precisam constantemente adotar medidas impopulares, o que em um primeiro momento minimiza seu Poder Brando, podendo esse ser restabelecido se a medida mostrar-se adequada posteriormente. Apesar dos espectros não serem excludentes, estando inclusive intimamente ligados no que seria o aparato de poder de um Estado como um todo, é possível dizer que a aplicação do Poder Brando é mais eficaz e menos custosa do que a do Poder Duro, uma vez que: Quando os países tornam seu poder legitimado aos olhos dos demais, eles enfrentam menos resistência a seus desejos. Se a cultura e ideologia de um país são atrativas, muitos outros o seguirão prontamente. Se um país pode moldar as regras internacionais de modo consistente a seus interesses e valores, suas ações parecerão mais legitimas aos demais. Se ele usar as instituições e seguir as regras para encorajar os outros países a interligarem-se ou limitar suas atividades do modo que ele preferir, não serão necessárias tantas e custosas coerções e induções 4 (NYE, 2004, p.10, tradução nossa). 4 When countries make their power legitimate in the eyes of others, they encounter less resistance to their wishes. If a country`s culture and ideology are attractive, others more willingly follow. If a country can shape

24 23 Do mesmo modo Nye (2004, p.14, tradução nossa) assinala que a atração e a obtenção de aliados se darão com: Os valores vencedores de um governo em seu comportamento interno (por exemplo, democracia), nas instituições internacionais (trabalhando com os demais) e na política externa (promovendo a paz e os direitos humanos), afetarão fortemente as preferências dos demais A POLÍTICA EXTERNA COMO FONTE DE PODER BRANDO O cenário internacional do século XXI faz com que os Estados busquem novas formas de representatividade no plano externo, extrapolando a utilização das figuras emblemáticas do diplomata e do soldado, sem, no entanto, negligenciá-las. Sob essa óptica, o conjunto de interações promovidas para a consolidação da política externa é um meio de fornecer respostas adequadas às novas realidades. Como argumenta Wight (2002, p. 107), a diplomacia é o sistema e a arte da comunicação entre os Estados. O sistema diplomático é a instituição mestra das relações internacionais. A política externa, por sua vez, envolve aspectos mais específicos dentro do conjunto das relações internacionais, enfocando a orientação governamental de determinado Estado a propósito de certos governos, ou ainda regiões, situações e estruturas em dadas conjunturas. De acordo com Souto Maior (2003), a política externa do Estado é condicionada pelo contexto internacional em que se desenvolve, pela posição que ele ocupa ou deseja no Sistema Internacional e os meios de que dispõe para galgar seus objetivos. international rules that are consistent with its interests and values, its actions will more likely appear legitimate in the eyes of others. If it uses institutions and follows rules that encourage other countries to channel or limit their activities in ways it prefers, it will not need as many costly carrots and sticks. (NYE, 2004, p.10) 5 The values a government champions in its behavior at home (for example, democracy) in international institutions (working with others), and in foreign policy (promoting peace and human rights) strongly affect the preferences of others. (NYE, 2004, p.14)

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