A APLICAÇÃO DA ISO NO SETOR PÚBLICO: PANORAMA, RESULTADOS E TENDÊNCIAS

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1 A APLICAÇÃO DA ISO NO SETOR PÚBLICO: PANORAMA, RESULTADOS E TENDÊNCIAS RESUMO Os sistemas de gestão ambiental ISO tem sido aplicado principalmente no setor privado, na maioria das vezes em indústrias, mas também em serviços. Uma pequena parte (porém expressiva e diferenciada) dos certificados refere-se a organizações do setor público, incluindo empresas de saneamento básico e de outros serviços públicos, órgãos e governos municipais, autoridades de trânsito, dentre outros. Considerando que críticas contundentes são feitas às empresas que utilizam a ISO como instrumento de marketing, e uma vez que essas instituições não buscam o lucro, acesso a mercados e não precisam atender a exigências de clientes, que tipo de benefícios buscam e quais benefícios têm sido atingidos? Até que ponto fatores tais como influência dos ciclos eleitorais e submissão a legislação específica leva a diferenças nos sistemas de gestão ambiental implantados? Por outro lado, existem também concessionários privados de serviços públicos com sistemas de gestão ambiental certificado. Existem benefícios ambientais ou busca-se somente ganhos de imagem? Por meio de levantamento bibliográfico, uma coleção de casos é analisada buscando identificar a motivação da implantação e certificação de sistemas de gestão ambiental, bem como os resultados obtidos. Entre esses estão programas de incentivo implantados nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, certificações ocorridas no Japão, no Brasil e em outros países. Discutem-se também os benefícios do uso do poder de compra do Estado para a difusão da ISO entre os seus fornecedores, como discutido no Município de São Paulo. Algumas das visões constatadas são de que o sistema de gestão ambiental agrega valor no tocante ao esclarecimento de responsabilidades, geração de histórico e demonstração de melhoria contínua do desempenho. Outras destacam a melhoria da imagem e da transparência, propiciando elementos para enfrentar questões que possam vir a público, dentro de uma tendência de gestão democrática. Destaca-se também a possibilidade de implantação de sistemas com autodeclaração ao invés de certificação, e suas implicações no contexto das organizações públicas. PALAVRAS-CHAVE Sistemas de gestão ambiental, administração pública, municípios

2 INTRODUÇÃO Os sistemas de gestão ambiental ISO tem sido aplicado principalmente no setor privado, na maioria das vezes em indústrias, mas também em serviços. Uma pequena parte (porém expressiva e diferenciada) dos certificados refere-se a organizações do setor público, incluindo empresas de saneamento básico e de outros serviços públicos, órgãos e governos municipais, autoridades de trânsito, dentre outros. Considerando que críticas contundentes são feitas às empresas que utilizam a ISO como instrumento de marketing, e uma vez que essas instituições não buscam o lucro, acesso a mercados e não precisam atender a exigências de clientes, que tipo de benefícios buscam e quais benefícios têm sido atingidos? Até que ponto fatores tais como influência dos ciclos eleitorais e submissão a legislação específica leva a diferenças nos sistemas de gestão ambiental implantados? Por outro lado, existem também concessionários privados de serviços públicos com sistemas de gestão ambiental certificado. Existem benefícios ambientais ou busca-se somente ganhos de imagem? No caso da gestão ambiental municipal, por exemplo, SILVA FILHO (1999) colocou a aplicabilidade de elementos dos sistemas de gestão ambiental ISO para os municípios. Este artigo retoma e analisa uma coleção de casos buscando identificar a motivação da implantação e certificação de sistemas de gestão ambiental, bem como os resultados obtidos. Entre esses estão programas de incentivo implantados nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, certificações ocorridas no Japão, no Brasil e em outros países. Discutem-se também os benefícios do uso do poder de compra do Estado para a difusão da ISO entre os seus fornecedores, como discutido no Município de São Paulo. METODOLOGIA Foram buscadas informações sobre casos, utilizando os seguintes meios nos quais as pesquisas foram feitas usando palavras-chave: a) Internet, principalmente com o buscador Google b) Bancos de dados de artigos científicos Compendex, Scielo, entre outros c) Bibliotecas pessoais dos autores Foram identificados diversos casos em que órgãos do setor público implantaram sistemas de gestão ambiental com base na ISO 14001, certificados ou não. Os relatos variam muito em sua forma e objetivos: a) relatórios finais de projetos de implantação; b) relatórios de projetos-piloto; c) notícias veiculadas pelos órgãos públicos na internet; c) artigos científicos; d) resenhas críticas; e) legislação e regulamentação. Em seguida, foram extraídas as informações-chave de cada estudo de caso, e as informações foram sistematizadas para fins de comparação e discussão.essas informações se concentraram nos objetivos da implantação, recursos utilizados, dificuldades e benefícios obtidos. Nem todos os textos tinham todas essas informações, portanto elas foram utilizadas conforme estavam disponíveis. Um grande número de referências com informações superficiais, e talvez

3 não atualizadas, foi encontrado, e por isso nem todas foram citadas ou descritas neste trabalho. Por fim, foram realizadas sessões de discussão entre os autores e a conseqüente construção das conclusões. AS BASES DO SISTEMA DE GESTÃO ISO Em 1996 foi publicada a primeira norma da série a ISO No Brasil, a norma foi editada pela ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas. No ano de 2004 a norma foi revisada, não havendo mudanças estruturais, mas principalmente esclarecimentos de texto e alinhamento com as normas de gestão da qualidade (ABNT 2004). A norma propõe um modelo de gestão que pretende ser ambientalmente responsável; comprometido com o cumprimento da legislação, com a melhoria contínua e com a prevenção da poluição; baseado no ciclo de melhoria contínua PDCA (planejar-executar-verificar-agir), e adequado a certificação por terceira parte. O motor do sistema de gestão é a política ambiental documentada (vide figura 1), que deve ser implementada e mantida, e deve incluir obrigatoriamente os compromissos com prevenção de poluição, com melhoria contínua e com a conformidade legal. A certificação dos sistemas de gestão ambiental é realizada por meio de auditorias de terceira parte, ou seja, realizada por instituições independentes, que não têm negócios com a organização certificada exceto pelo contrato de certificação propriamente dito. Essas instituições independentes são chamadas organismos certificadores. SRINIVAS (2005) cita como benefícios potenciais para a implementação de sistemas de gestão ambiental em municípios os seguintes benefícios internos: economia de recursos; diminuição de custos; comprometimento do staff, melhoria do moral. Como benefícios externos: demonstrar comprometimento ( face verde ); certificação ISO de uma cidade pode servir de modelo para outras; promover e replicar a certificação no setor privado; foco na ação local para benefícios globais. Mais a frente, na seção de discussão, serão apresentados argumentos para confirmar as expectativas de alguns benefícios, e para discordar de outros. O Quadro 1 mostra uma discussão preliminar dos possíveis benefícios obtidos com a implantação de sistemas de gestão ambiental ISO 14001, destacando aspectos do setor privado e o potencial para o setor público.

4 Quadro 1 Benefícios potenciais para organizações que implementam sistemas de gestão ambiental, segundo a ISO 14004:1996 BENEFÍCIOS POTENCIAIS SETOR PRIVADO (ABNT 1996) Assegurar aos clientes o Em alguns setores a certificação ISO tem se tornado um comprometimento com gestão requisito ou pelo menos um diferencial nos negócios entre ambiental demonstrável empresas. Manter boas relações com o público / Este benefício depende muito da postura da empresa, a norma comunidade em si não contribui de maneira decisiva para isso. Satisfazer os critérios dos investidores O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e e melhorar o acesso ao capital; Social), um dos principais financiadores do setor provado, é signatário do Protocolo Verde, que estabelece que a variável ambiental tem que ser considerada nas condições dos financiamentos. (BNDES 2005) Obter seguro a um custo razoável; Embora na teoria isso possa acontecer, no Brasil ainda não tem sido uma prática clara. Fortalecer a imagem e a participação Em especial em ramos de negócio mais sensíveis a questões no mercado; ambientais e em localizações geográficas ambientalmente mais frágeis a imagem pode ser melhorada com um sistema de Aprimorar o controle de custos; ; Reduzir incidentes que impliquem responsabilidade civil; Demonstrar atuação cuidadosa; Conservar matérias-primas e energia; Facilitar a obtenção de licenças e autorizações; Estimular o desenvolvimento e compartilhar soluções ambientais gestão ambiental O melhor conhecimento dos aspectos ambientais, os controles e atividades realizadas permitem uma visão mais clara dos custos. Com um sistema de gestão ambiental, as posturas preventivas diminuem o risco de acidentes e outros eventos que podem gerar a necessidade de indenizações. Em especial quando há certificação, pode-se demonstrar a partes interessadas que a gestão ambiental é feita de forma responsável. Os sistemas de gestão ambiental, por meio da melhoria contínua, proporcionam a possibilidade de mudanças nos processos de forma a se economizar matérias-primas e energia, inclusive com impactos benéficos nos custos e na competitividade. São praticamente inexistentes os exemplos de facilidades oferecidas para obtenção de licenças e autorizações, para empresas com sistemas de gestão ambiental implementado. Esse benefício depende muito da política adotada e da cultura da organização. SETOR PÚBLICO Os clientes dos órgãos públicos são a população em geral, que não está em geral informada do significado do certificado do sistema de gestão ambiental. Este benefício depende muito da postura da empresa, a norma em si não contribui de maneira decisiva para isso. Instituições multilaterais têm também critérios ambientais, aplicando os Princípios do Equador, que estabelecem critérios para avaliação e monitoramento de projetos financiados. Embora na teoria isso possa acontecer, no Brasil ainda não tem sido uma prática clara. No caso de empresas púbicas ou mistas com controle público, com função de prestação de serviços em setores sujeitos a privatização, o certificado serve também para marcar posição. O melhor conhecimento dos aspectos ambientais, os controles e atividades realizadas permitem uma visão mais clara dos custos. Com um sistema de gestão ambiental, as posturas preventivas diminuem o risco de acidentes e outros eventos que podem gerar a necessidade de indenizações. Em especial quando há certificação, pode-se demonstrar a partes interessadas que a gestão ambiental é feita de forma responsável. Da mesma forma, em organizações do setor público o desempenho ambiental pode ser melhorado, com impacto nos custos. Também não há facilidades oferecidas a instituições públicas para obtenção de licenças e autorizações. Esse benefício depende muito da política adotada e da cultura da organização.

5 PANORAMA CASOS RELATADOS O resumo das informações dos casos identificados de sistemas de gestão ambiental ISO implantados no setor público está colocado de duas formas: uma parte em forma de texto, a outra na Tabela 2. A seguir, são resumidas as informações por países. a) Estados Unidos Programa piloto de implantação de sistemas de gestão ambiental para operações de governos locais foi fomentado pela agência ambiental americana, acompanhando sua crescente consciência e interesse na adoção voluntária de sistemas de gestão ambiental (GETF 2000). A agência ambiental queria saber se os elementos propostos pelo modelo ISO eram relevantes para as operações das municipalidades. O programa piloto foi executado por meio de apoio técnico, treinamento, orientação e fornecimento de ferramentas de gestão. Não houve apoio financeiro direto, nem flexibilização regulatória para os participantes. Os participantes eram nove departamentos ou áreas operacionais bem definidas, em diferentes municipalidades, variando de 15 a 1500 funcionários. Entre as atividades envolvidas estavam departamentos de serviços e obras, serviços de tratamento de esgotos, uma unidade de energia, uma autoridade de trânsito, uma prisão e um departamento de serviços financeiros. Segundo os autores, as expectativas dos municípios estavam em poder tratar questões tais como responsabilidades ambientais, assegurar a eficácia da gestão, fatores organizacionais, preocupações com a imagem pública, melhoria de relacionamento com entidades regulatórias, questões de privatização, gerenciamento do crescimento e papel das municipalidades como líderes. Os principais custos de implantação estiveram relacionados com o tempo dos funcionários envolvidos. As chaves do sucesso Comprometimento e apoio gerencial Usar processos e procedimentos existentes é melhor que criar novos elementos o time de implementação Conscientização, compreensão e envolvimento dos empregados sobre o SGA por toda a organização, com o reconhecimento como uma prioridade Segundo PINERO e GARVEY (2004), mais de 200 organizações do setor público já têm sistemas de gestão ambiental ISO implantados, dos quais 20 certificados. A ordem executiva presidencial 13148, que determina que os órgãos da administração pública devem cumprir com toda a legislação ambiental aplicável (SOKYA e MARSHALL 2005), parece estar contribuindo para o aumento do número de sistemas de gestão implantados

6 Quadro 2 - Resumo de alguns casos relatados em bibliografia, da implantação de sistemas de gestão ambiental no setor público CASO / CONJUNTO OBJETIVOS VANTAGENS / ASPECTOS POSITIVOS / BENEFÍCIOS Estados Unidos Programa piloto para serviços municipais Verificar se os elementos propostos pelo sistema de gestão ISO eram relevantes para as administrações municipais Efeito positivo na conformidade e no desempenho Aumento da conscientização, envolvimento e competência em toda a organização Melhor comunicação interna e externa Melhor contato com agências reguladoras Redução de custos, maior eficiência Japão Não declarados Quantificação de benefícios Custos evitados com multas e indenizações Melhor imagem e potencial para atração de turistas (não medido resultado efetivo) Cesana (abrange gestão municipal) Melhorar a imagem ambiental da cidade Melhor gestão dos processos Melhor comprometimento dos funcionários Manningham (Austrália) Não consta nas referências (Certificado em dezembro de 1998, num projeto de dezoito meses. Abrange o total das atividades) Ethekwini, África do Sul (desde 1994) (Abrange a gesão municipal) Projeto POMAR (Secretaria do Meio Ambiente Estado de São Paulo) Department of Environement, Heritage and Local Government Custom House (Irlanda) Municipalidade de Hamilton- Wentworth autoridade ambiental Forte apoio do conselho local Maior consistência global nos procedimentos da administração municipal Metas ambientais ambiciosas, encorajando ir além do mínimo Certificação obtida Interação com processo Agenda 21 Atender a legislação Atender a compromissos assumidos (Agenda 21) Atender os requisitos do auditor geral (ISO 14001) a recuperação ambiental e revegetação das margens do rio Pinheiros entre o canal de Guarapiranga e a região do Jaguaré Garantir os compromissos estratégicos Não consta nas referências assumidos na direção do desenvolvimento sustentável Demonstrar o cumprimento das estratégias Contribuir para estabelecer a instituição como agência líder na proteção do meio ambiente Forte envolvimento e apoio de programas de instituições internacionais para elaboração de relatórios e troca de informações. Parcerias com empresas, como a empresa de transmissão de energia, empreiteiras, fabricantes de fertilizantes,etc. Ciclo de melhoria contínua Conscientização dos funcionários Inúmeras melhorias simples e rápidas nos procedimentos. DESVANTAGENS / FRUSTRAÇÕES / BARREIRAS Gerenciamento de mudanças Falta de envolvimento e visibilidade da alta administração Questões organizacionais (tempo) Falta de compreensão e de demanda do SGA pelos cidadãos. Instabilidade política (mudança de governo) Custos de análise ambiental inicial, planejamento e serviços técnicos para o projeto, certificação, treinamento e horashomem de pessoal Não consta nas referências Não consta nas referências Falta de informação nas etapas iniciais Desafios devido a estar emergindo de um regime de apartheid Não consta nas referências Não consta nas referências Estabelecer prioridades nos aspectos ambientais Interrupção do projeto em outras unidades onde estava sendo implementado

7 b) Certificações no Japão Aproximadamente um ano após a publicação da ISO 14001, foi registrada a primeira certificação de um governo local no Japão. No final de 2001 eram cerca de 300 certificações e em 2002 o setor público contava com 3,2 % dos certificados (MIZUNO 2002). Segundo MIZUNO, as certificações foram motivadas pelo aumento da consciência ambiental e pela conferência de Kioto ocorrida em 1997 no Japão. Levando em conta os vários tipos de unidades administrativas japonesas (prefeituras, cidades, etc.), 6,1 % das unidades administrativas têm certificado ISO 14001, o que corresponde a 200 unidades. Desde pequenas localidades e vilas, que têm em média habitantes, até grandes centros como Tóquio, com 12 milhões de habitantes. Além disso, 95 organizações afiliadas, tais como escritórios remotos, serviços de água, transporte, saúde e bem-estar são também certificadas. c) Brasil No Brasil não foram localizados órgãos da administração direta que tenham implementado sistemas de gestão ambiental ISO O caso mais próximo seria o do projeto POMAR< implementado pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em parceria com empresas privadas. Existem, no entanto, inúmeros exemplos de empresas controladas pelo poder público que têm sistemas de gestão ambiental certificado. O principal deles é a PETROBRAS, empresa de capital misto, com controle acionário do governo, que tem todas as suas refinarias com certificação Também empresas das áreas de saneamento, tais como a SANEPAR, no município de Foz do Iguaçu (SANEPAR 2005), e a SABESP, na unidade de tratamento de esgotos das cabeceiras em Salesópolis (SABESP 2005), e a Estação de Tratamento de Água de Santo Antonio de Jesus da EMBASA (EMBASA 2005) obtiveram a certificação. Existe também regulamentação para implantação de sistemas de gestão ambiental baseados na ISO editada pela Diretoria de Portos e Costas da Marinha (MARINHA 2002). Canadá Consulado do Canadá- citado como certificado por QSP (2005), provavelmente como parte do sistema de gestão ambiental do Ministério de Assuntos Exteriores deste país (CANADA 2005) que tem um sistema de Gestão Ambiental construído de acordo com a norma ISO Os assuntos tratados incluem áreas contaminadas; tanques de combustível; substâncias que destróem a camada de ozônio; compras; edificações sustentáveis; uso do solo; água e esgotos; eficiência energética; resíduos sólidos; emergências ambientais; materiais perigosos; veículos; semana do meio ambiente, entre outros. A cidade de Toronto e outras cidades (SRINIVAS 2005, BEKKERING E MCCALLUM 1999) também implementaram ações. A implantação do sistema de gestão ambiental em vários desses municípios se deu num contexto de visão de longo prazo. Na municipalidade de Hamilton-Wentworth o projeto se baseava na visão 2020 (BEKKERING E MCCALLUM 1999) e) Outros casos de interesse

8 SRINIVAS faz referência a inúmeras experiências que incluem diversos países tais como China, Austrália, Canadá, India, México, Dinamarca, Suécia, Egito, entre outros. As entidades certificadas incluem serviços de tratamento de resíduos, escritórios, pelo menos uma universidade, e uma municipalidade. O Município de Cesana, na Itália, será uma das sedes dos jogos inverno de BELTRANO E PANDOLFI comentam os benefícios da certificação (veja também Quadro 2) DISCUSSÃO Nota-se que na maioria dos casos, os sistemas de gestão ambiental são implantados nos níveis locais de governo ou em serviços limitados a áreas e comunidades específicas. É neste nível de governo que os benefícios devem ser mais sentidos, pois as questões ambientais são mais diretas e o porte das organizações permite um melhor gerenciamento. Note-se que não houve nenhum caso identificado de um estado ou país certificado, e as organizações de nível federal certificam unidades individuais primeiro para depois expandir o escopo da certificação para outras unidades. Os benefícios da certificação A maioria dos relatos reforça as melhorias internas, tais como: melhor conhecimento dos processos, engajamento dos funcionários, mudanças de atitude. Um número menor de relatos cita benefícios quantificáveis, tais como economia de água e energia. Isso pode ocorrer tanto porque no caso de implantação em escritórios as questões ambientais não são tão quantitativamente tão importantes, tanto por falta de monitoramento anterior do tamanho dos impactos ambientais das atividades. No caso de empresas controladas pelo governo que prestam serviços de interesse público, há diferentes realidades. Os interesses que movem a PETROBRAS a buscar a certificação são diferentes dos que moveram as empresas de saneamento. Suas questões ambientais são diferentes. A PETROBRAS manipula quantidades grandes de petróleo e seus derivados, e por isso está sujeita a enfrentar questões tais como poluição do solo devido aos seus resíduos e manuseio de seus produtos, poluição das águas devido a suas atividades produtivas e a acidentes, e poluição do ar por enxofre, emissão de gases diversos e efeito estufa. Além disso, apesar de ser controlada pelo governo, ela está nitidamente inserida no mercado global, sofrendo as pressões da concorrência e da opinião pública mundial. Já as empresas de saneamento não têm pressão específica para buscar a certificação. Seriam os interesses políticos, para ganhar a confiança da população? Provavelmente não, uma vez que o grande público ainda não tem acesso a informação sobre a certificação. Seriam interesses políticos internos? Talvez, para demonstrar a eficiência da administração pública, num ambiente em que as pressões pela privatização são cada vez maiores. A certificação, neste caso, serviria tanto para aqueles que defendem a manutenção dos serviços de saneamento nas mãos do poder público, quanto para valorizar a empresa no momento da privatização. A certificação é uma forma, neste caso, de demonstrar aos potenciais compradores a segurança quanto ao gerenciamento de possíveis passivos ambientais. Dificuldades de implantação Pode-se imaginar, por exemplo, as limitações para criação ou modificação de procedimentos estabelecidos por lei. Isto pode levar a uma necessidade de envolvimento do poder legislativo, com necessidade de tempo e habilidade política para serem resolvidos. Além disso, todo tipo

9 de pressão orçamentária pode surgir. Portanto o sistema deveria ser implantado tendo como escopo um núcleo de atividades suficientemente autônomo para governar seus próprios destinos, preferencialmente. Quanto à mudança de cultura e de hábitos, isso já costuma ser uma dificuldade nas empresas privadas que implantam os sistemas de gestão, no poder público a dificuldade é previsivelmente maior. Por outro lado, os benefícios potenciais também são maiores, na medida em que a cultura da eficiência, da eficácia e da integração de sistemas e equipes seja implantada juntamente com o sistema de gestão. Outra dificuldade importante é a instabilidade política, que pode se revelar na mudança do governante ou de dirigentes, que mudando as prioridades poderiam diminuir ou cessar o fluxo de recursos e a priorização da gestão ambiental, com o argumento de ser este um projeto do governo anterior. Para garantir a continuidade, é importante manter uma interação forte com a população, de modo que quando houver mudanças de governo, a própria população atue como elemento de pressão para continuação do sistema de gestão. A utilização de sistemáticas participativas tais como a Agenda 21 Local pode ser extremamente importante para se consolidar o sistema de gestão ambiental.experiências como a de Ethekwini (DURBAN 2005) Ao contrário da maioria das empresas privadas, que preferem manter o seu sistema de gestão ambiental focado na comunicação reativa com a comunidade, é mais importante para os sistemas implantados no setor público reforçar a comunicação externa, de forma a demonstrar para a população os benefícios de qualidade de vida, para tê-la como parceira. O outro lado - Poder de compra do governo Além de terem seus próprios sistemas de gestão ambiental, os governos e seus órgãos podem atuar como consumidores conscientes. De fato, esta é uma forma eficaz de pressão e estímulo a implantação de soluções voltadas ao desenvolvimento sustentável. Como exemplo existe o programa de compras de materiais com maior conteúdo reciclado do governo norte-americano, que exige, por exemplo, que o papel para imprimir e escrever adquirido tenha pelo menos 30% de conteúdo reciclado (GPP 2005). No município de São Paulo, uma licitação na área de transportes incluiu como requisito a certificação ambiental ISO num prazo de cinco anos (SÃO PAULO 2005). Nos casos em que os governos escolhem implantar o sistema de gestão ambiental ISO 14001, torna-se uma obrigação estabelecer requisitos para produtos e serviços adquiridos que tenham aspectos ambientais significativos. (ABNT 2004), e isso pode ter conseqüências na sua relação com a legislação de licitações. Não será aprofundado esse ponto. Dando o exemplo e dando apoio Em relação à possibilidade de os governos e seus órgãos atuarem como exemplos na implementação de sistemas de gestão ambiental, não parece que esta atuação seria eficaz, uma vez que os governos não gozam prestígio suficiente para isso. MIZUNO (2002) cita novos programas de incentivo a pequenas e médias empresas para implantar a certificação, organizando seminários, mão-de-obra de especialistas, financiamento e subsídios para certas despesas. Isso poderia levar empresas a uma atuação mais responsável,

10 minimamente comprometida com o cumprimento da legislação, e que poderia trazer ganhos de competitividade. Um outro ganho possível, especificamente aplicável aos órgãos ambientais, seria o fato de que com os sistemas de gestão ambiental certificáveis as agências ambientais passam a contar com o que funciona praticamente como um sistema de fiscalização privatizada, uma vez que os auditores de certificação verificam, mesmo que de maneira amostral, se a empresa está cumprindo a legislação e se, caso esteja em não-conformidade, existem ações corretivas. CONCLUSÕES. Embora não tenha sido desenhado especificamente para o setor público, o sistema de gestão ambiental ISO pode trazer benefícios para a administração de atividades do setor público tais como administração de parques, departamentos de obras e serviços, saneamento, entre outros. Esse modelo já é uma ferramenta de gestão consolidada para cidades. As cidades com gestão mais pró-ativa estão investindo nele como ferramenta para melhoria da qualidade de vida de sua população. Entre esses benefícios destacam-se alguns muito difíceis de quantificar, tais como o maior compromisso dos funcionários, o melhor conhecimento dos processos gerenciais, a motivação e a mudança de cultura. Ganhos de imagem e cumprimento efetivo da legislação também são ganhos freqüentemente citados nos casos estudados. Em alguns casos benefícios quantificáveis relativos a eficiência energética, economia de recursos e outros também foram relatados. Na maioria dos casos, os sistemas de gestão ambiental implantados em órgãos da administração pública está ligada a órgãos municipais ou seu equivalente como governo local. O contato esses órgãos têm com questões ambientais concretas e mais gerenciáveis pelo seu porte mais localizado torna maior a chance de os sistemas de gestão ambiental implementados nesse nível de governo darem certo. No caso de serviços que do ponto de vista operacional podem ser prestados tanto por órgãos públicos como pelo setor privado, tais como energia, saneamento e sistema viário, já são inúmeros os exemplos de empresas públicas que implantaram sistemas de gestão e estão certificados. Quanto a possível influência da certificação em processos de privatização desses serviços, essa influência não parece ser decisiva, ou seja, o possível comprador não definirá sua compra ou preço baseado na existência ou não de um certificado de gestão ambiental. Resultados práticos e avaliações de passivos são mais importantes, nestes casos. A implantação de sistemas de gestão ambiental nas atividades de serviços públicos pode trazer benefícios importantes tais como redução de resíduos, redução de consumo de materiais, cumprimento de legislação, etc. e de energia, incluindo seus benefícios econômicos. No entanto, a obtenção prática desses benefícios tem que estar atrelada a uma estratégia claramente definida e que tenha continuidade. Essa é uma das principais dificuldades, uma vez que a administração pública está fortemente influenciada por pressões políticas que podem, de uma hora para outra, mudar as prioridades do governo e interromper projetos em andamento. Nesse sentido poderia apoiar a implantação de diretrizes estabelecidas nas agendas 21 locais, quando essas são implementadas incluindo participação da comunidade. Deste modo, os cidadãos tenderiam a cobrar a implantação e manutenção do sistema no longo prazo.

11 Outras dificuldades importantes a vencer incluem a mudança de postura dos funcionários, as mudanças que podem ser necessárias na legislação e regulamentação, uma vez que os órgãos e serviços públicos estão sujeitos a extensa regulamentação para sua atuação. A regulamentação pode ser limitadora de posturas mais pró-ativas e ágeis, por isso uma adequada estrutura institucional deve ser prevista durante a implantação do sistema de gestão. Também a mudança de postura dos funcionários da administração pública pode ser um benefício, em contraposição à cultura de líderes e heróis, podendo dar ênfase a integração entre áreas e trabalho em equipe. Mas isso depende de como o sistema é implantado, existem formas menos integradoras de fazê-lo. Em relação à possibilidade de as instituições governamentais darem o exemplo por meio de sua própria certificação, esse não parece ser um benefício procurado e é pouco provável que trouxesse frutos nesse sentido, uma vez que a administração pública em geral não goza de prestígio para tanto. Por outro lado, as instituições públicas podem influenciar o setor privado por meio de seu poder de compra, incluindo o sistema de gestão ambiental como requisito para suas compras. A inclusão de certificação ISO nos contratos como requisito ou como meta a ser atendida pelo fornecedor pode ser a principal forma de pressionar as empresas privadas a melhorar sua gestão ambiental. Por fim, o sistema de gestão ambiental pode estar inserido num contexto mais amplo de sistema de gestão de sustentabilidade, como fizeram algumas cidades, e neste ponto os ganhos econômicos por redução de custos advindos da implantação do sistema de gestão são menos importantes que o resultado global de qualidade de vida. BIBLIOGRAFIA [ABNT] Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO Sistemas de Gestão Ambiental - Especificações. Rio de Janeiro: ABNT/ISO; [ABNT] Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO Sistemas de Gestão Ambiental Diretrizes gerais sobre princípios, sistemas e técnicas de apoio. Rio de Janeiro: ABNT/ISO; AGUIAR, A.O. Sistemas de Gestão Ambiental na Indústria Química: Avaliação, desempenho e benefícios Tese (Doutorado em Saúde Pública) Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo [Anônimo] A framework for financial institutions to manage environmental and social issues in financing. Disponível em: <http://www.equator-principles.com/>. Acesso em 6 Jul BELTRAMO, R.; PANDOLFI, E. Environmental Certification of the Municipality of Cesana: a cost/benefit analysis. Disponível em: <web.econ.unito.it/cresta/ convegni/file/cesana_maribor.pdf>. Acesso em 06 Jul [BNDES] BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL. O BNDES e o Meio Ambiente. Disponível em: < Acesso em 09 Jul BEKKERING M., McCALLUM D. ISO 14001: A Tool for Municipal Government to Achieve Sustainability. Greener Management International, Winter 1999 p103. Disponível em:< >. Acesso em: 8 Jul 2005.

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