Anexo Versão Final do Projeto Político- Pedagógico da Escola do Povo Xipaya

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1 CAPÍTULO 2 ANDAMENTO DO PROJETO BÁSICO AMBIENTAL DO COMPONENTE INDÍGENA Anexo Versão Final do Projeto Político- Pedagógico da Escola do Povo Xipaya

2 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA DO POVO XIPAYA Terra Indígena Xipaya e Aldeia Kujubim Dezembro/2014

3 Sumário 1. Introdução Bases Legais O povo Xipaya e suas comunidades Localização geográfica Histórico das aldeias... 7 A aldeia Kujubim... 7 A aldeia Tukamã e a morada Remanso... 8 A aldeia Tukaya e morada Pitjiptjia Histórico da relação do povo Xipaya com a Escola Objetivos gerais da educação para o povo Xipaya O que a escola precisa para funcionar bem Gestão Escolar Sistema de Ensino Conteúdos e habilidades Calendário Escolar Metodologia de trabalho Sistema de Avaliação Coordenação e Administração Documentação da Escola e do aluno Conselho Escolar Considerações Finais... 29

4 1. Introdução Nós, povo Xipaya, temos hoje três aldeias e quatro escolas. Nós reunimos todas as comunidades para discutir nosso Projeto Político Pedagógico e percebemos a importância de organizarmos esse documento pela necessidade da educação diferenciada. Foi necessário passarmos por diferentes momentos ao longo das últimas gerações em termos de educação escolar para percebermos a importância de hoje termos professores indígenas e estarmos pensando a educação baseada nas nossas necessidades e na realidade do povo Xipaya. Acreditamos ser uma importante conquista a elaboração desse documento, pois garante à nós o cumprimento da legislação, garante nossos direitos. O apoio da Secretaria Municipal de Educação de Altamira e da FUNAI, além do atual momento vivenciado pelo povo Xipaya dentro do processo do licenciamento da UHE Belo Monte, permitiu a união de nossas comunidades para pensarmos um documento que direcione nossas ações para as futuras gerações, respeitando nossos costumes e tradições. Vivemos hoje em dois mundos dentro do contexto de nossas aldeias e no mundo do branco. Isso exige que nós preparemos bem as crianças e jovens para que futuramente possam defender os nossos direitos e buscar cada vez mais melhorar a qualidade da educação em nossas comunidades. Temos que usar o saber, o conhecimento dos não indígenas, como uma ferramenta para nossa vivência na sociedade nacional e também para fortalecer nossa juventude na luta em prol de nossos direitos. O momento em que nos encontramos agora, fechando esse documento, em uma roda de conversa onde todos têm voz, onde os mais velhos são ouvidos e respeitados, representa o que nós entendemos por educação. Essa é a base daquilo que queremos como educação para as futuras gerações. Esse documento representa uma união de esforços, pois pensando conjuntamente uma educação diferenciada, nós fortaleceremos o povo Xipaya. 2. Bases Legais Nesta primeira parte, trazemos os principais aspectos com relação aos direitos dos povos indígenas amparados pela lei. Com isso, esperamos facilitar o diálogo com

5 as diversas instâncias de governo e também garantir que todos os indígenas tenham um rápido acesso a estas informações, já que elas são a base do que hoje se entende por autonomia dos povos indígenas. A Constituição Federal de 1988 formaliza a existência de culturas e línguas diferentes em nosso país, afirmando que (...) são reconhecidos aos índios a sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Em 1996, o governo brasileiro cria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), cujo Artigo 32 assegura, o uso de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, garantindo assim uma educação diferenciada, de acordo com a realidade de cada povo. No Artigo 79 da LDB encontram-se os objetivos que devem orientar os programas de formação escolar indígena: 1º - fortalecer as práticas socioculturais e a língua materna de cada comunidade indígena; 2º - manter programas de formação de pessoal especializado, destinado à educação escolar nas comunidades indígenas; 3º - desenvolver currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades; 4º - elaborar e publicar sistematicamente material didático específico e diferenciado. As diferenças de carga horária, na forma de organizar o ano letivo e o calendário escolar das escolas indígenas estão garantidas por lei. Por isso o calendário próprio é permitido pela Resolução nº 3 do Conselho Nacional de Educação, de 1999, que diz: Art. 4º As escolas indígenas, respeitados os preceitos constitucionais e legais que fundamentam a sua instituição e normas específicas de funcionamento, editadas pela União e pelos estados, desenvolverão suas atividades de acordo com o proposto nos respectivos projetos pedagógicos e regimentos escolares com as seguintes prerrogativas: I organização das atividades escolares, independentemente do ano civil, respeitando o fluxo das atividades econômicas, sociais, culturais e religiosas; II duração diversificada dos períodos escolares, ajustando-as às condições e às especificidades próprias de cada comunidade.

6 Art. 5º A formulação do projeto político pedagógico próprio, por escola ou por povo indígena terá por base: I as Diretrizes Curriculares Nacionais referentes a cada etapa da Educação Básica; II as características próprias das escolas indígenas, em respeito à especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade; III as realidades sócio-linguísticas, em cada situação; IV os conteúdos curriculares especificamente indígenas e os modos próprios de constituição do saber e da cultura indígena; V a participação da respectiva comunidade ou povo indígena. 3. O povo Xipaya e suas comunidades Localização geográfica Nós Xipaya éramos um povo populoso e forte nas questões de xamanismo. Nossos antepassados enfrentaram em guerras vários outros povos, entre eles o povo Juruna, vindos da região de São Félix do Xingu. Quando notaram que falavam praticamente a mesma língua e se entendiam, assumiram seu parentesco e os Juruna conviveram com os Xipaya por algum tempo. Com a convivência e confiança, os xamãs Xipaya ensinaram um feitiço forte aos pajés dos Juruna. Em função das constantes guerras entre os povos indígenas pela ocupação dos territórios e do povo Xipaya ser considerado por muitos uma ameaça, os Juruna se voltaram novamente contra nossos antepassados e dizimaram nosso povo através desse feitiço aprendido com nossos próprios pajés. Após essa grande perda na população, nosso povo teve contato com os Kayapó e a perseguição por parte deles foi separando ainda mais os poucos Xipaya que restaram. Antes da dispersão, ocorrida por conta dos constantes ataques dos Kayapó, a maioria do povo Xipaya estava fixo em uma área de terra firme onde hoje é a TI Baú. Com os ataques, nossos antepassados se assustaram e fugiram, tornando-se um povo nômade que passou a viver em praias e não tinha uma única morada, pois estavam sempre com medo de novos ataques. Vivemos então muito tempo dispersos às margens dos rios Xingu, Iriri, Curuá e seus afluentes.

7 Assim, se fôssemos considerar toda a área ocupada tradicionalmente pelos nossos antepassados, teríamos uma terra que seria demarcada desde a TI Baú, ao longo de todo o Rio Iriri e Curuá, pegando parte do Rio Xingu, até a cidade de Altamira. Antigamente nosso povo se dividia em grupos familiares, havia muitas moradas de Xipaya ao longo dos rios Curuá, Iriri e Xingu e os parentes se reuniam sempre nas grandes festas. Hoje, a maioria dos Xipaya vive na cidade de Altamira, mas algumas famílias ainda vivem ao longo do Rio Iriri, as quais batalharam pela demarcação de seus territórios. Outros grupos familiares vivem também fora de aldeias, na condição de ribeirinhos, ao longo dos rios Iriri, Xingu e Curuá. Em Terras Indígenas, vivemos hoje em três aldeias: Kujubim, Tukamã e Tukaya. Há ainda duas moradas, a comunidade Remanso, anexo da aldeia Tukamã e a Pitjiptjia, anexa à aldeia Tukaya. Entretanto, entre 1900 e 1990, não estava estabelecido de fato uma área para nós Xipaya vivermos. Com o retorno de todos os grupos familiares que constituem as atuais aldeias aos locais onde nossos antepassados viveram nos rios Iriri e Curuá, e com o reencontro com os parentes que permaneceram no local, como a família de Maria Ceres Xipaya, nós Xipaya começamos a buscar os direitos de ocupação desses territórios. Os Xipaya então se uniram e decidiram se fixar na região onde viveram seus pais e avós e a lutar pelos seus direitos. A aldeia Kujubim, que recebeu este nome em homenagem ao pai da matriarca Yawaidu, está localizada na margem esquerda do rio Iriri, dentro da TI Cachoeira Seca, a uma distância de 180 Km da cidade de Altamira. Seu acesso por água ou por estrada. Essa aldeia possui hoje 46 moradores, distribuídos em 9 famílias. A aldeia Tukamã, cujo nome significa arco, fica à margem esquerda do Rio Iriri, perto da boca do Rio Curuá, no município de Altamira, a aproximadamente 480 Km da cidade, na TI Xipaya. O acesso à aldeia é feito por via fluvial e leva aproximadamente um dia e meio no inverno e cinco dias no verão a partir de Altamira em um motor 90 Hp. Hoje essa aldeia possui 68 moradores, distribuídos em 21 famílias, das quais duas moram no Remanso. A aldeia Tukaya, cujo nome em português é flecha, fica à margem direita do rio Curuá, próximo à sua foz, também na TI Xipaya e a uma distância de 3 Km da aldeia Tukamã, sendo o acesso à aldeia feito também por via aérea, levando aproximadamente uma hora e meia a partir de Altamira. Esta aldeia possui hoje 83 moradores, distribuídos em 17 famílias. Dentre essas famílias, quatro vivem em uma morada um pouco acima da aldeia, ainda dentro da TI Xipaya, totalizando 14 pessoas em um local conhecido por nome Pitjiptjia, que significa flechal.

8 Nossas principais atividades de subsistência são a roça e a pesca. Outras atividades que variam conforme a época do ano e que também são importantes são a extração da castanha do Pará e a extração de frutos regionais, como açaí, bacaba e cacau. Algumas comunidades também trabalham com extração de óleo de coco de babaçu e possuem projetos para melhorar a produção. Nós também criamos alguns animais, como porcos e aves. Essas diversas atividades, a facilidade na obtenção de recursos da floresta e dos rios e nossa farta produção têm nos permitido negociar com a prefeitura de Altamira para fornecer parte da merenda escolar. Esse fornecimento será realizado via associações e iniciará em Histórico das aldeias A aldeia Kujubim Maria Yawaidu Chipaia nasceu na TI Baú, mas por conta dos ataques constantes dos Kayapó, mudaram-se e vieram fazendo morada ao longo do Rio Iriri, até estabelecer sua morada fixa na praia da Maloca (Tarupa-tepá), ilha localizada na frente da aldeia Kujubim, onde moravam seus parentes Xipaya quando ainda era criança. Até se mudarem para a Morada Velha, que fica um pouco abaixo no Rio Iriri da atual área da aldeia Kujubim, ainda não tinham contato com não indígenas. Yawaidu se casou e seus dois filhos aprenderam tudo com sua família, pois mantinham seus costumes tradicionais de transmissão de conhecimentos ao longo das gerações. Depois de ficar viúva, ela conheceu seu segundo marido, que era um índio Kuruaya, em uma das grandes festas em que os Xipaya reuniam os parentes. Nessas festas, parentes da etnia Kuruaya também participavam, porque eram vizinhos ao longo dos rios Iriri e Curuá, fugindo também dos Kayapó. Após o casamento, nosso avô trabalhou como gateiro e seringueiro na região. Através do contato de nosso avô com os brancos para os quais trabalhava, ele começou a frequentar a cidade e levou Yawaidu para morar com ele em Altamira. Yawaidu teve um irmão mais novo, Durikare Xipaya, conhecido por tio Bené, o qual foi o morador fixo da área onde hoje fica a aldeia Kujubim. Quando nasceu, o tio Bené foi enterrado vivo pela nossa bisavó, Kiripú Kuruaya, e Yawaidu resgatou seu irmão, retirou ele do buraco. Quando nossa avó casou-se pela segunda vez e mudou para a cidade, o tio Bené permaneceu no local, na morada antiga da família às margens

9 do Rio Iriri, próximo à Maloca. As mães dos atuais moradores da nossa aldeia também nasceram na beira do Rio Iriri, em uma localidade onde hoje está demarcada como TI Arara, em um lugar que chamávamos de Alecrim. Até alguns anos atrás, a maioria da família de nossa matriarca Maria Yawaidu Xipaya, que ocupa essa região do rio Iriri desde o início do século passado, encontravase espalhada na cidade de Altamira em função do histórico de guerras da região e do preconceito com os indígenas. Apenas a morada do tio Bené Xipaya existia próximo ao local que hoje encontra-se a aldeia Kujubim. Com o reconhecimento da população indígena Xipaya, um novo movimento dos representantes dessa família começou, resultando no retorno de alguns para as margens do rio Iriri por volta do ano Logo em seguida, a Funai reconheceu a morada desse povo como Comunidade Cupy e os Xipaya que lá viviam começaram a estruturar o local, a fim de atrair o restante da família. Com a chegada da Usina Hidrelétrica de Belo Monte na região de Altamira, nossas lideranças se articularam e começaram a batalhar pelo reconhecimento em Brasília da Comunidade Cupy como aldeia. Por volta de 2010, nossa morada foi reconhecida como aldeia e ganhou o nome de Kujubim. Durante o período do Plano Emergencial, entre 2011 e 2012, a aldeia foi reestruturada. Hoje nossa aldeia possui 14 casas, um posto de saúde, uma escola e 46 moradores. A aldeia Tukamã e a morada Remanso Na mesma época em que Maria Yawaidu estava com sua família pelas localidades próximas ao Kujubim, no Rio Iriri, a família de Aricafu Curuaia e Miudiã Xipaya, pais da matriarca da aldeia Tukamã, desceram da TI Baú para a cidade de Altamira. Logo em seguida, Miudiã faleceu e as filhas do casal ficaram trabalhando em casas de não indígenas na cidade. A única filha de Aricafu que quis sair de Altamira e retornar para o rio Curuá foi a matriarca da aldeia Tukamã, Teresa (Ajumã) Xipaya. Ela e seu marido Antonio Batista de Carvalho moraram por dois anos na aldeia Cajueiro, atual aldeia Curuá, pertencente ao povo Kuruaya. Na descida da aldeia Cajueiro, a família de Ajumã Xipaya estabeleceu, em 1993, sua morada onde hoje é o Remanso. O Remanso é hoje a morada de Vilson Xipaya, um dos filhos do casal. Em 1994, Vilson Xipaya permaneceu na morada do Remanso e o restante da família seguiu com o patriarca, chegando ao porto do local onde hoje é a aldeia Tukamã,

10 indicado por dois antigos moradores do local; este local havia sido ocupação antiga do povo Xipaya. Um desses homens era João Rogério, casado com a indígena Mariazinha Curuaia. O local indicado era utilizado pelos não indígenas para coletar castanha e era chamado de João Martins. A aldeia Tukaya e morada Pitjiptjia Na época em que os antigos da aldeia Tukamã estavam se deslocando entre a TI Baú, Altamira e o retorno ao rio Curuá, os pais da matriarca da aldeia Tukaya, Maria Ceres Xipaya, permaneciam morando em uma região próxima à Terra Indígena Xipaya, em um local chamado Suvaco. Quando se fez a demarcação da TI Xipaya, esse local acabou ficando de fora devido à ocupação ribeirinha na região e à falta de força deste grupo familiar frente às questões políticas na região. No período em que viveram no Suvaco, a região era dominada por gateiros e seringueiros e havia um barracão de comercialização de alimentos na localidade chamada Entre Rios (desembocadura do rio Curuá no rio Iriri). Nesse local, Maria Ceres Xipaya conheceu um seringueiro chamado Salvador Constantino e se casou, mudando para a localidade onde hoje é a aldeia Tukaya. Há um outro morador antigo da região, Dyka Xipaya, que é o patriarca da localidade Pitjiptjia. Ele conta que quando sua família vivia junto, moravam em um local chamado Igarapé Preto e que nessa época o pai dele era um guerreiro e chefe de um grupo que seguia, enfrentava e matava os Kayapó para defender o grupo Xipaya. No Igarapé Preto existiam três ou quatro malocas, com várias famílias vivendo juntas. Moravam em ilhas porque em terra firme eram muito perseguidos pelos Kayapó. Os Xipaya também foram muito perseguidos por outros povos, como os Ikpeng, os Yudjá e os Arupai. Quando saíram dessa região, formaram uma aldeia grande, acima da localidade onde hoje é a aldeia Curuá. Este local se chamava Pitjiptjia, pois era uma localidade onde havia um grande flechal. Dessa aldeia grande, tiveram que fugir por conta de diversos ataques de outros povos e ficavam mudando sempre de morada. Quando estavam próximo ao local onde é hoje a aldeia Tukaya, o velho Kaidjiã Xipaya, junto com sua esposa Djaã Xipaya, pais de Dyka Xipaya, faleceram. Nessa época, Dorico Xipaya, o último pajé do povo, se tornou a liderança. Após sua morte, Manoelzinho Xipaya assumiu a liderança e mudaram-se então para uma localidade chamada Igarapé São Miguel. Ele foi o responsável pelo contato dos Xipaya com o

11 seringalista Chico Meireles. Após a morte de Manoelzinho, a família se dispersou e somente Dyka Xipaya permaneceu na região, morando por muito tempo com os Kuruaya. Suas filhas se criaram nessas localidades, mas mudaram novamente, ficando muito tempo morando em um local chamado Mundo Novo, próximo de onde hoje é a aldeia Kujubim. Em seguida, passaram vários anos viajando entre Altamira e o rio Curuá, vindo a se estabelecer de fato na localidade Pitjiptjia, acima da aldeia Tukaya, por volta Histórico da relação do povo Xipaya com a Escola Antigamente, falaram que o povo Xipaya foi extinto, mas essa informação era falsa, pois, na verdade, nós vivíamos fugindo do povo Kayapó e acabamos nos misturando entre os brancos para sobreviver, inclusive ao preconceito dos não indígenas. Assim, nossos antepassados foram deixando de falar a língua com o passar do tempo e, consequentemente, perdendo seus costumes. Já fomos um povo muito forte em relação à nossa cultura, que era transmitida ao longo das gerações pelos mais velhos. Hoje em dia, estamos reavivando nossa língua e nossa cultura e sentimos muito orgulho disso. Até poucos anos atrás, tínhamos vergonha de dançar e hoje fazemos muitas festas, dançamos, apresentamos para os visitantes a nossa cultura viva em nossas aldeias. Os mais velhos contam que povo Xipaya possuía antigamente uma estreita ligação com os espíritos e muitos dos ensinamentos aos jovens eram repassados pelos xamãs. Todos aprendiam, por exemplo, a enganar a cobra grande quando saiam para as pescarias. Os espíritos protegiam os Xipaya, que faziam cerimônias para fazer uma oferenda em agradecimento. Ainda hoje os espíritos protegem os Xipaya, mas de uma forma diferente, pois não possuímos mais pajés. Hoje, Yawaidu, que mora na aldeia Kujubim, nos conta que nossos antepassados aparecem em sonhos para ela e falam na língua Xipaya, para orientar os moradores da aldeia com relação aos perigos da floresta e dos rios. Yawaidu aprendeu com seu pai, Bitatá Xipaya, as orientações necessárias para ser pajé, mas não quis se envolver com isso; nossa matriarca nos ensinou também esses

12 conhecimentos dos mais antigos, mas hoje temos um certo receio com relação aos espíritos, por isso, não exercemos mais as atividades de pajé. Yawaidu e Dyka Xipaya, nossos dois velhos, falantes fluentes de nossa língua, nos contaram que na época em que nasceram não havia escola e não tinham convivência com não indígenas. O ensinamento era dado através dos mais velhos apenas. Yawaidu conta, por exemplo, que aprendeu a fazer rede com sua mãe: enrolava o algodão para transformá-lo em fio e para trançar a rede, amarrava os fios em pontas diferentes do pé de açaí. O algodão era um cultivo tradicional dos Xipaya, que além de redes e roupas, utilizavam essa linha também para amarrar as pontas das flechas. Em seu segundo casamento, Yawaidu teve seis filhos, os quais já tiveram estudos na escola regular, pois moravam na cidade. Ela lembra que, quando foi para Belém, sentiu falta dos estudos, porque não conseguia acompanhar todas as discussões que foram feitas na universidade na época em que participou de um estudo com uma linguista, por isso, considera a escola muito importante para a atual realidade do povo Xipaya. Como a aldeia Kujubim é nova e seus moradores vieram da cidade (filhos, netos e outros parentes de Yawaidu), a primeira construção erguida pelos indígenas foi a escola, juntamente com o posto de saúde, pois já sentiam a necessidade desta instituição de educação. Hoje temos uma professora indígena na aldeia Kujubim e a escola possui 10 alunos entre 6 e 13 anos de idade. A professora recebe salário como funcionária da rede pública do município de Altamira. Quando a escola foi construída em 2010, as aulas eram ministradas por uma professora não indígena. Segundo a professora Charliane Xipaya, nesse tempo havia mais alunos - por volta de 15 pessoas. A professora não indígena ficou na aldeia entre 2010 e Em 2013, a professora indígena Charliane Xipaya, neta de Yawaidu, assumiu a sala de aula. Na época da outra professora, o foco era a língua portuguesa e o ensino seguia os moldes da escola na cidade; hoje nossa professora indígena ensina a língua Xipaya, ensina cantos e danças, além das matérias comuns à escola na cidade. Antigamente, a escola era uma casinha de palha; hoje, com o auxílio na parte de infraestrutura que recebemos da Norte Energia entre 2011 e 2012, construímos uma escola de madeira, com piso de alvenaria, para ficar um espaço melhor para os alunos. No caso das outras duas aldeias, Tukamã e Tukaya, nossa história com as questões referentes à escola, nos moldes como a conhecemos hoje, apresenta-se em duas situações. Em um primeiro momento, não tínhamos a necessidade da escola, porque todos os conhecimentos necessários para a formação dos jovens eram

13 repassados pela família ou no dia-a-dia da comunidade. Em um segundo momento, a partir de 1997, os moradores mais velhos das atuais aldeias começaram a sentir a necessidade do letramento dos filhos na língua portuguesa, devido às dificuldades que aquela geração enfrentou. Nessa época, tentávamos lutar por nossos direitos de indígenas junto aos órgãos responsáveis pela educação e à FUNAI, mas éramos considerados, por esses órgãos, ribeirinhos e não tínhamos o apoio de ninguém. Quem nos atendeu primeiramente foi o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que deu suporte para levar as lideranças até à secretaria de educação de Altamira para conseguir materiais didáticos para a aldeia Tukamã. Os moradores não indígenas da aldeia se tornaram então os primeiros professores com esses materiais, mas sem receber nenhum salário para tal. Nessa época, a Tukaya possuía apenas uma família, de Maria Ceres Xipaya, que conseguiam materiais didáticos com os regatões e o patriarca Salvador Constantino ensinava seus filhos os conhecimentos do dia-a-dia e dos livros. Passamos então alguns anos lutando pelo nosso reconhecimento como povo indígena, entre 1991 e 1997, e isso direcionou nossos esforços. Por mais que estivéssemos próximos aos velhos de nossas aldeias, às nossas matriarcas e patriarcas, não tínhamos tanto contato com eles e o conhecimento tradicional foi deixado em segundo plano devido à necessidade do aprendizado da língua portuguesa e todos os ensinamentos acabaram voltando-se somente para os conhecimentos de não indígenas. Teve uma época em que algumas pessoas de nossas atuais aldeias começaram a se preocupar em repassar aos mais novos alguns costumes do povo Xipaya, como as danças, cantos, pinturas e outros valores, como a valorização dos mais velhos. Esse movimento se fortaleceu ao longo dos anos, mas nem todos os parentes próximos de nossas famílias se envolveram nesse reavivamento da cultura. Muitos Xipaya vivem na cidade em meios aos costumes dos não indígenas, sem se preocupar com os ensinamentos e a luta do nosso povo. Nossos avós também estavam acostumados com outra realidade quando retornaram para o local das moradas antigas; tinham o pensamento da vida em aldeia, mas já possuíam outros costumes, como uma alimentação baseada em itens industrializados e a dependência da energia elétrica. Isso acabou facilitando a entrada de regatões nas aldeias, que ofereciam as condições e produtos que os velhos se acostumaram na cidade. Por isso nós passamos muitos anos trabalhando para os regatões.

14 Afora isso, o casamento com não indígenas também levou muitos desses costumes de brancos para as aldeias; antigamente, nossos avós não impunham a necessidade do não indígena se adequar aos costumes das comunidades e a cultura do branco acabava prevalecendo. Há poucos anos que começamos a retomar as atividades tradicionais de nosso povo e a organizar nossas comunidades baseadas nos recursos que a floresta nos oferece. Somado à esse esforço de retomar a nossa forma de viver dos antigos, começamos a reaprender nossa língua materna e nossos costumes tradicionais. Isso motivou todos nós que vivemos nas aldeias e fortaleceu nossa identidade como povo indígena Xipaya. 5. Objetivos gerais da educação para o povo Xipaya Revendo nosso histórico com relação à escola, temos hoje uma nova proposta para nosso povo, com a preocupação do ensino da língua materna e das tradições dos antigos Xipaya. Não deixaremos de lado o aprendizado da língua portuguesa e de outros conhecimentos dos não indígenas, porque são necessários para que possamos viver na atual sociedade brasileira, mas nosso maior foco será em cima dos conhecimentos e modos de vida tradicionais. Temos vivos ainda dois velhos que falam fluentemente a língua materna e temos um grupo de estudos da língua Xipaya, que tem buscado aprender a língua e a cultura do povo Xipaya com esses velhos. Nosso objetivo com esse grupo é valorizar os conhecimentos dos velhos e repassar aos demais. No mundo do branco, os museus guardam as histórias; para nós, esses museus são nossos velhos e temos que aproveitar para entender e aprender os costumes de nossos antepassados, para que esse conhecimento não se perca no tempo. Eles próprios tem seus costumes antigos já misturados com os costumes de brancos e boa parte do tempo eles estão na cidade, não ficam direto conosco em nossas aldeias. Isso exige que o grupo se adeque à essa realidade e marque encontros com esses velhos para fazer rodas de conversa, gravações e registre o conhecimento dos mais antigos. Queremos que nossa escola incentive os jovens a valorizar o conhecimento dos mais velhos e valorizar as riquezas do território. A escola do branco abre nossos olhos para a questão financeira e direciona a formação em busca de empregos; queremos

15 que nossa escola abra os olhos de nossos jovens para que valorizem os recursos que temos em nossos territórios e os conhecimentos dos mais velhos, para preservar nossa terra. Esperamos que eles despertem o interesse pelas nossas crenças e costumes e que a escola incentive o jovem a enxergar as alternativas de geração de renda que valorize os costumes e os conhecimentos tradicionais. Esperamos formar na escola Xipaya jovens que sejam atentos às leis e que sejam atuantes nas comunidades, bem como sejam multiplicadores de conhecimento e se envolvam cada vez mais com as questões da educação. Para tanto, nossa escola deve: - Ensinar a língua materna - Resgatar a cultura Xipaya que foi esquecida - Ensinar as crianças desde pequenas os costumes e a forma de viver do povo Xipaya - Ensinar as crianças e jovens a respeitar os mais velhos - Ensinar a forma de organização da comunidade - Ensinar a importância da preservação da cultura e da terra - Reforçar a identidade do Povo Xipaya - Produzir metodologias de ensino diferenciadas - Produzir materiais didáticos adequados à realidade do povo Xipaya - Ensinar sobre legislação, para conhecermos nossos direitos e as ameaças e saber lutar contra elas - Ensinar a história do povo Xipaya - Ensinar a história dos povos indígenas no Brasil, sob o olhar indígena - Ensinar a língua portuguesa e os conhecimentos dos não indígenas - Aprimorar o ensino em cada aldeia, de acordo com a realidade das comunidades 6. O que a escola precisa para funcionar bem Para atingir nossos objetivos, nós consideramos que a escola Xipaya precisa:

16 * estar regularizada como escola indígena (com o próprio nome indígena da escola); * ser autônoma do ponto de vista pedagógico e administrativo; * ter professores indígenas qualificados; * ter escolas construídas e professores indígenas em número suficiente para atender todas as aldeias; * ter formação continuada e cursos complementares para professores indígenas; * ter acompanhamento pedagógico para os professores indígenas; * ter e organizar materiais didáticos e para-didáticos específicos e de qualidade; * ter materiais escolares para todos os alunos e para suporte do trabalho do professor; * possuir um calendário escolar adequado ao calendário tradicional do povo; * possuir um prédio escolar adequado, de acordo com as necessidades da aldeia; * ter merenda escolar específica e de qualidade (regionalizada); * ter equipamentos necessários para as práticas pedagógicas: computadores, internet, filmadoras, gravadores, televisão, DVD, data-show, tela de projeção, impressora, móveis (mesas, cadeiras, arquivos, armários, etc.), energia própria (sistema de energia solar e manutenção), geladeira, freezer, materiais de secretaria (grampeador, perfurador, guilhotina, etc.), rádio de comunicação próprio; * transporte escolar adaptado às necessidades de cada povo (barco, carro, etc.) e combustível (para alunos e professores no cotidiano e para professores nas formações, reuniões, etc.) * transporte dos materiais didáticos e merendas; * os professores precisam ter carteira assinada e uma remuneração condizente com sua categoria (concurso da prefeitura com edital específico para os professores indígenas); * para que o trabalho do professor possa sempre melhorar, inclusive como pesquisador indígena, é necessário apoio dos sabedores e especialistas de cada povo, e também de assessoria de especialistas não indígenas (antropólogos, linguistas, pedagogos, arqueólogos, matemáticos, etc.). * gestão escolar indígena (coordenadores pedagógicos, diretores, etc.)

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