TÚLIO ESPANCA E A SUA ACÇÃO PRÓ-ÉVORA - UMA VIDA DEDICADA À CIDADE

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1 TÚLIO ESPANCA E A SUA ACÇÃO PRÓ-ÉVORA - UMA VIDA DEDICADA À CIDADE Celestino Froes David stes breves apontamentos sobre a acção de Túlio Espanca como sócio e dirigente do Grupo Pro-Évora têm como finalidade dar a conhecer alguns aspectos mais relevantes^ sem uma preocupação exaustiva, da sua actividade neste âmbito e ao mesmo tempo prestar homenagem ao investigador e apaixonado por esta cidade onde viveu. Túlio Espanca foi desde o início um entusiasta pela cidade e deu os primeiros passos no seu percurso de dedicação exclusiva ao património cultural de Évora quando se inscreveu em 1939 no I Curso de Cicerones promovido pelo Grupo Pro-Evora destinado a ministrar conhecimentos sobre o valor monumental, histórico e turístico da cidade. Este Curso inicia-se em 21 de Abril e tem a seguinte programação: I a semana - Templo Romano e Sé (Dr. Celestino David) 2 a semana - Universidade, Igreja de Santo Antão (Dr. António Bartolomeu Gromicho) 3 a semana - Toponímia, Páteo de S. Miguel e Ermida de S. Miguel (Joaquim Câmara Manoel) 4 a semana - Igreja de S. Francisco. (Ten-Cor. Boaventura Aguiar) e Igreja dos Lóios (Dr. Celestino David) O exame foi realizado no dia 7 de Junho de 1939 e o curso finaliza com uma Conferência proferida pelo Dr. Alberto Mac-Bride, sendo o I o prémio entregue a Túlio Alberto da Rocha Espanca.(l) Desde então o seu interesse pelo estudo da história e da arte da cidade tornam-se a verdadeira e prioritária orientação da sua acção, apesar da sua preparação académica ser mínima (4 a Classe), prevaleceu a paixão pelo estudo e a dedicação a um trabalho sem fim que realizou sem desalento e sem esperar recompensas. O Curso de Cicerones proporciona-lhe a colocação como guia na Comissão de Turismo da Câmara Municipal de Évora e o seu empenhamento na divulgação do património cultural da cidade, não só nas visitas guiadas em que se especializou, mas na colaboração assídua em jornais, revistas e na publicação dos Guias de Évora a partir de Em 1944 Celestino David escrevia nas páginas do "Notícias de Évora" um artigo intitulado Um Novo Prometedor; Efeitos da Acção Pro-Evora sobre Túlio Espanca a propósito da publicação em separata do Boletim "A Cidade de Évora" do estudo As Pinturas da Catedral de Évora em 1537 e O Retábulo Flamengo da Capela do Esporão: Não são, nem poderiam ser de lisonja, as palavras que a oferta da separata a que me refiro me levou a escrever. As linhas que atraz deixei representam unicamente: os meus cumprimentos para o trabalho e justifique, com o tempo, a esperança, que todos nós temos, de que prossiga nos seus estudos e jamais deixe de ser o valioso elemento, que já é, na obra que a todos nós interessa: amar Évora e defendê-la sempre.

2 Colaborador incansável nas actividades que o Grupo promove, participa em 1941 na organização do I o Centenário do Liceu Nacional de Évora e no II Curso de Cicerones que se realiza também nesse ano. O Grupo Pro-Évora propõe em 1941 a classificação dos seguintes monumentos : Igrejas de S. Mamede, do Salvador e da Misericórdia e Túlio Espanca é encarregado de proceder à inventariação fotográfica dos motivos e elementos artísticos dispersos pela cidade, por sugestão do Grupo e a cargo da Comissão Municipal de Turismo, da qual era funcionário, guia-intérprete. Entretanto a polémica sobre a homenagem pública a Florbela Espanca que prosseguia desde 1930, com a insistência do Grupo Pro-Évora na colocação do busto realizado por Diogo de Macedo no Jardim Público, vai provocar também a intervenção de Túlio Espanca que escreve no jornal A Defesa um artigo intitulado Ainda Florbela Espanca em 30 de Dezembro de Defendendo essa homenagem contra a campanha anti- Florbela que ainda se fazia ouvir e que vingou até 18 de Junho de 1949, data da colocação do busto no Jardim Público de Évora. A partir de 1942 inicia-se a publicação deste Boletim A Cidade de Évora que tem como director o Dr. António Bartolomeu Gromicho, Presidente da Comissão Municipal de Turismo, Vereador das Obras Públicas e Turismo e então Presidente da Direcção do Grupo Pro-Évora e como editor Túlio Espanca que viria a ser o grande continuador desta publicação, na qual começam a aparecer os seus estudos logo a partir do segundo número, editado em Março de A qualidade deste Boletim atesta bem o cuidado e o interesse que os estudos históricos, artísticos e etnográficos relacionados com a cidade mereceram ao seu editor, fruto de um empenhamento que não abandonou até ao fim da sua vida. Exposições É a partir dos anos cinquenta que Túlio Espanca tem uma participação importante, e em alguns casos decisiva, numa série de exposições que o Grupo organiza : Organização da exposição de Pintura de Temas Eborenses no Paláciò de D.Manuel Colaboração na organização da Missão Internacional de Arte Exposição Barristas do Alentejo Exposição de Imaginária Medieval Exposição de Cristos Populares Exposição de Lâminas Religiosas Exposição de Escultura de Marfim Exposição de Desenhos de Vieira Lusitano existentes no Museu de Évora Exposição de Metais Trabalhados Exposição Iconográfica dos Santos Populares Exposição de Tecidos e Bordados Artísticos Antigos Exposição Iconográfica e Artística do Menino Jesus

3 Destas exposições é justo destacar a recolha de elementos e investigação que lhe estão na origem como o demonstram alguns catálogos que incluem estudos sobre os temas tratados. Como é fácil verificar todas estas actividades marcaram a vida cultural da nossa cidade durante décadas e isso só foi possível devido à dedicação demonstrada por grandes impulsionadores do Grupo, entre os quais Túlio Espanca tem um lugar destacado. As exposições e as actividades de dinamização cultural são desde o início do Grupo uma forma privilegiada de sensibilizar a população para os valores patrimoniais da sua cidade e essa estratégia deu frutos que hoje conhecemos bem. / Conferências no Grupo Pro-Evora As conferências que o Grupo Pro-Évora organizou a partir de 1979 tiveram uma participação quase contínua de Túlio Espanca que as proferia manifestando sempre o seu agrado em falar de temas de História e de História da Arte relacionados com a cidade, dando a conhecer o seu saber e o produto das suas investigações. A facilidade comunicativa e o interesse de quem expunha o objecto dos seus estudos tornaram as suas conferências uma fonte de conhecimentos enciclopédicos sobre a cidade de Évora que não encontram hoje nenhuma possível continuidade. E verdade que a historiografia e a investigação histórica exigem hoje uma grande especialização. Essa riqueza globalizante de vivências que tomavam Túlio Espanca um repositório vivo das memórias da cidade já não a encontramos com facilidade. Dessas conferências realizadas na sede do Grupo Pro-Evora anotamos : Os Castelos de Évora - Evolução e História - 5 de Junho O Templo Romano de Évora - sua evolução através dos tempos - 3 de Junho O Aqueduto da Agua da Prata - 24 de Março. - História dos Paços do Concelho de Évora - sua evolução desde o séc. XVI - 29 de Dezembro A Pintura Antiga em Évora - sua originalidade no contexto artístico nacional - 11 de Maio. - O Convento de S. Francisco de Évora (evocação histórica no VIII Centenário do nascimento do fundador da Ordem: S. Francisco de Assis) - 28 de Dezembro A Catedral de Évora, relicário de sete séculos de história da arte - 3 de Maio Evocação dos Desaparecidos Conventos de Évora - S. Domingos, Paraíso, Sta. Catarina, Sta. Mónica e Salvador - 20 de Março. - A Praça do Geraldo na história da cidade - 16 de Novembro Viajantes-Escritores estrangeiros e a cidade de Évora (séc. XV-XVII) - 11 de Março.

4 - Conversas sobre a Cidade - Palestra/Debate com Túlio Espanca (História), Cónego Dr. José Augusto Alegria (Música) e Alexandre Passos (Teatro) - 9 de Dezembro O Brasão de Évora, história e evolução iconográfíca - 16 de Maio. 0 homem, a obra e a cidade A obra de Túlio Espanca é vasta e dela não podemos deixar de citar os Cadernos de História e Arte Eborense que se iniciam em 1944 e sobretudo o Inventário Artístico de Portugal - Distrito de Évora e Distrito de Beja. Estas obras, que representam um levantamento pormenorizado do património artístico desta região, só possível devido à dedicação sem limites de que o seu autor deu provas, são e serão referências fundamentais para qualquer investigação, em domínios muito diversos, que incida sobre o conhecimento do nosso património cultural. Aqui devemos acentuar a verdadeira acepção do cultural, ou seja, das práticas que, como é o caso, não têm só um significado social (o que é importante) mas que tenham um significado para aquele que as efectua, que constituam uma realização de cidadania no sentido de favorecerem o conhecimento que todos devemos ter de nós próprios, do nosso passado colectivo e da nossa cidade e região. É verdade que estas actividadades culturais no seu sentido mais rico são muitas vezes silenciosas e pouco reconhecidas. (2) Numa sociedade em que o cultural se institui como espectáculo, acompanha o imediatismo e se constitui em objectos de comercialização económico-política, o exemplo de Túlio Espanca bem nos pode alertar para um outro sentido que é necessário recuperar da cultura : a verdadeira capacidade de fornecer significado às acções humanas, de produzir pensamento e criatividade. A acção que efectuou potência muitas outras investigações, abre-lhes espaço, campo de desenvolvimento. As acções culturais são isso mesmo, disseminações, expansionismo de gestos e produções que se multiplicam e divergem nos seus significados, naturalmente opostos da instauração da unidade e do totalitarismo. A necessidade de pensar a cidade, de a compreender ainda hoje como lugar de convivência, de entendimento da natureza social e humana, modo de conjugar a praxis com a poiesis, defesa dos valores da urbanidade, todos estes pressupostos contribuem para a afirmação de uma obra que em Túlio Espanca encontra uma vida para lhe dar corpo. Em 1981 a Fundação F.S.V. de Hamburgo distinguiu-o com o Prémio Europeu para a Defesa dos Monumentos Históricos que lhe é entregue em 29 de Maio de Na altura referiu o Prof. Doutor Alois Machatschek do Institut fur Baukunst de Viena (Áustria) : Todos sabemos que a principal origem deste interesse pela beleza sempre crescente da cidade ou de um monumento é a existência de um carinho pelas tradições. Pelo menos aprendemos da história que a continuidade da tradição tem sido sempre uma base para uma atitude positiva em relação aos monumentos. O estudo e a compreensão do monumento é pré-condição para a sua preservação. (3)

5 Foi este estudo e descrição do património artístico desta região que enriquecem a sua compreensão e contribuem decisivamente para a sua preservação, a grande tarefa deste homem que importa evocar aqui. Outras homenagens lhe prestaram também a Academia Nacional de Belas-Artes elegendo-o académico honorário, em Outubro de 1982, a Câmara Municipal de Évora atribuindo-lhe a Medalha de Ouro da Cidade, em Novembro de 1982, a Universidade de Évora no Doutoramento Honoris Causa em NOTAS BIBLIOGRÁFICAS (1) - Cf. Celestino David. O Grupo Pro-Évora, páginas comemorativas do 25 aniversário, separata do Boletim A Cidade de Évora, n s 7,8,12, (2) - Cf. Michel de Certeau, La Culture au Pluriel. ed. Christian Bourgois, Paris, (3) - Discurso do Prof. Doutor Alois Machatschek na entrega do Prémio da F.V.S. de Hamburgo a Túlio Espanca em 29 de Maio de 1982.

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