Procriação Medicamente Assistida: Presente e Futuro Questões emergentes nos contextos científico, ético, social e legal

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1 Procriação Medicamente Assistida: Presente e Futuro Questões emergentes nos contextos científico, ético, social e legal Senhor Secretário de Estado da Saúde, Dr. Leal da Costa, Senhora Secretária de Estado da Ciência, Prof.ª Dr.ª Leonor Parreira, Senhor Presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, Desembargador Eurico Reis, Senhor Director do Serviço de Saúde e Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian, Prof. Dr. Jorge Soares, Ilustres Convidados, Minhas Senhoras e Meus Senhores, Cabe-me a honrosa tarefa de representar a Assembleia da República e a sua Presidente na sessão de abertura dos trabalhos do presente colóquio sobre os desafios que se colocam à Procriação Medicamente Assistida (PMA), que reputo da maior importância. Na verdade, poucas matérias estarão, ao mesmo tempo, tão intimamente relacionadas com os mais fundamentais direitos dos seres humanos, com as mais profundas convicções filosóficas e éticas da sociedade e com a dimensão confessional de cada um nós. Acrescente-se a tudo isto a necessária mas difícil tarefa de estabelecer princípios e regras legais que balizem todo este universo e perceber-se-á que por que é tão difícil encontrar domínios tão apaixonantes como este. Tal facto é, aliás, comprovado por estarem hoje, aqui, reunidas personalidades de formações tão diversas, de tantas nacionalidades, com percursos de vida muito distintos, mas todos de igual brilhantismo e com idêntica vontade de trocar ideias e experiências sobre esta matéria, assim procurando desbravar alguns dos muitos caminhos com que, a este nível, nos deparamos no século XXI. Poucos assuntos 1

2 serão passíveis de criar tantas divisões, mas, felizmente, poucos serão também tão capazes de nos reunir num debate novo, culto e democrático. Foi já neste século que, em Portugal, definimos regras orientadoras para o acesso e uso das técnicas de procriação medicamente assistidas, muito tempo depois da maior parte dos ordenamentos jurídicos mundiais o ter feito e 26 anos após o nascimento do primeiro bebé-proveta em Portugal. Um hiato de tempo caracterizado pela ausência de legislação específica, pela falta de informação e pelo crescimento gradual do número de centros públicos e privados de tratamento, com todos os riscos daí decorrentes que urgia afastar. De facto, gorada em 1999 pelo veto presidencial a tentativa de aprovar uma lei que enquadrasse de forma aceitável as inúmeras e complexas questões que a este nível se colocam, apenas em 2005 a Assembleia da República voltou a debater o tema em profundidade, graças à apresentação de quatro Projetos de Lei (do BE, do PS, do PCP e do PSD). Os trabalhos parlamentares então levados a cabo que, para além do debate, passaram pela realização de audições e colóquios, pela consulta de especialistas e da própria sociedade civil resultaram na Lei n.º 32/2006, de 26 de Julho, que é consensualmente considerada como um marco de progresso e inovação e, ao mesmo tempo, de justo equilíbrio entre os interesses e possibilidades em consideração. Se a Lei da Procriação Medicamente Assistida não esgotou e bem as possibilidades técnicas já então ao nosso dispor, não se deixou ater a concepções sociais atávicas, incapazes de responder cabalmente a problemas de sempre, como o da quebra da natalidade, que assumem hoje proporções trágicas. Foi necessário, é certo, tomar opções, tanto no que aos destinatários respeita (assumindo desde logo um conceito de família mais próximo do tradicional) 2

3 como à própria subsidiariedade do uso das técnicas de Procriação Medicamente Assistida. Foi preciso, por outro lado, definir com rigor os limites e casos em que a investigação pode e deve ser prosseguida, não esquecendo que este é um dos aspectos que de nós exigirá sempre uma ponderação cautelosa e sensata entre os óbvios benefícios para a humanidade que se prometem e os riscos éticos com custos insuportáveis para a forma como nos encaramos enquanto espécie. O resultado final, se não mereceu apoio de todos os grupos parlamentares representados em 2006 na Assembleia da República, reuniu, pelo menos, a consideração unânime de que se deu, então, um passo em frente, colocando de forma definitiva na agenda política e legislativa as questões da infertilidade e incentivando também o debate médico e científico. Foi assim que o Parlamento desempenhou o seu inigualável papel de fórum de debate plural, representativo e democrático, em que ideias diversas à partida, contrárias e aparentemente contraditórias se conjugam para um resultado enriquecido e útil à sociedade e aos cidadãos. De facto, com a procriação medicamente assistida falamos, antes de mais, de um problema de saúde pública que atinge cerca de 15% dos casais portugueses em idade fértil e merece exige, por isso, soluções apropriadas e consequentes. Não poderia, aliás, ser de outro modo, tendo em conta as continuadas e acentuadas quebras nas taxas de natalidade (de 20,2% em 1972 para 9,5% em 2010) e de fecundidade (de 81% em 1972 para 39,8% em 2010) registadas em Portugal e na generalidade da Europa nos últimos 40 anos. A continuar assim, teremos mesmo em Portugal, dentro de quatro anos e de acordo com perspetivas recentes das Nações Unidas, o segundo pior registo de fecundidade do mundo, ficando apenas atrás da Bósnia. 3

4 O direito à descendência é, seguramente, um dos mais profundos alicerces do ser humano, tanto do ponto de vista individual, como da sociedade a que pertencemos. A descendência é o futuro e é, portanto, para além da saúde pública, o futuro que está em causa quando se discute a Procriação Medicamente Assistida. É também o direito fundamental à dignidade humana que está em causa com o recurso às técnicas de PMA, requerendo de nós um enorme cuidado na forma como tratamos questões intrincadas e complexas que se colocam quanto à identidade genética própria e pessoal e quanto aos direitos das gerações futuras, os chamados direitos fundamentais de quarta geração. A Procriação Medicamente Assistida é, para além de tudo o mais, um domínio que nos coloca questões essenciais a que temos de responder antes de avançarmos em qualquer das direcções e são muitas que estão ao nosso alcance. Na verdade, a possibilidade de o Homem poder hoje graças à tecnologia que desenvolveu desempenhar um papel próximo do de Criador não nos deve deslumbrar ou fazer esquecer todo o negro lado que encerram os episódios que a este propósito se nos suscitam na História e na Literatura. Mas também não nos pode impedir de olhar para lá do horizonte actual, procurando perceber se a fronteira que há 5 anos definimos com a lei ainda em vigor se mantém no local acertado ou se, pelo contrário, é chegado o momento de avançar as suas coordenadas jurídicas e, deste modo, procurar acompanhar uma eventual evolução dos povos e das suas convicções. Tem tido, neste aspecto, papel fundamental o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida que saúdo, na pessoa do seu Presidente e dos seus 4

5 membros aqui presentes, desempenhando as atribuições consagradas e reforçadas pela lei, suscitando importante reflexão a respeito de todas estas questões (designadamente, através do colóquio que agora se inicia) e não fugindo à interpretação, quando esta é fundamental para a sociedade (recordo, a este propósito, a Declaração interpretativa emitida por este Conselho na sequência da entrada em vigor da Lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo). E, a par do Conselho, tem tido e terá um papel único a Assembleia da República, que debaterá em Plenário na próxima quinta-feira iniciativas legislativas que pretendem garantir o acesso de todas as mulheres à procriação medicamente assistida, regular o recurso à maternidade de substituição e permitir a adopção e o apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo. Estas serão, porventura, algumas das questões mais candentes com que nos próximos tempos nos debateremos, as novas fronteiras que decidiremos quando e como traçar. Mas nós, legisladores, só poderemos decidir em consciência e definir, com segurança, como e quando chegará o futuro se contarmos com os valiosos contributos que todos os presentes alguns dos quais Deputados, em representação dos seus respectivos grupos parlamentares deixarão hoje e amanhã neste colóquio. Saber ouvir-vos é, portanto, mais do que um direito, uma obrigação a que me dedicarei a partir deste momento, agradecendo, mais uma vez, o convite e desejando o melhor sucesso para o decurso dos trabalhos. Muito obrigado. 5

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