Na Batida do Som: Bizz e o Jornalismo de Revista 1

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1 Na Batida do Som: Bizz e o Jornalismo de Revista 1 GUERRA, Renan Machado (graduando em Jornalismo) 2 FINARDI, Tamara (graduanda em Jornalismo) 3 RIBEIRO, Mara Regina Rodrigues (Professora Mestre) 4 Universidade Federal do Pampa/Rio Grande do Sul Resumo: Este artigo apresenta um estudo exploratório sobre a revista de música e cultura pop Bizz, que surge na segunda metade dos anos 1980, seguindo padrões estéticos internacionais e visando um novo público até então ignorado pela mídia: os jovens. A publicação tratava, além da música, de cinema, moda, vídeo, quadrinhos e tecnologia; mas as temáticas abordadas eram influenciadas pelas mudanças editoriais e pelo momento econômico do país. A partir deste contexto, o artigo trabalhará sob a tríade proposta por Manuel Chaparro: Ética, Técnica e Estética, ao longo da trajetória da revista, tanto nas suas mudanças gráficas, quanto nas problemáticas enfrentadas entre o ideário de imprensa, e a realidade de uma empresa. Demonstraremos através da análise deste veículo, o quão complexa é a produção e desenvolvimento deste meio, utilizando-se para isso dos autores Marília Scalzo, Sergio Vilas Boas e Alberto Dines. Com a pesquisa sobre a história da revista, este artigo visa propor a discussão sobre as funções de um jornalista inserido em uma realidade sustentada por interesses econômicos, reavaliando assim as expectativas da profissão. Palavras-chave: jornalismo; revista; cultura pop. Revista: forma e conteúdo A revista é o meio de comunicação que mais aderiu à idéia de segmentação, um exemplo disso é a revista Bizz, que nos anos 1980, optou por dirigir-se a um público até então esquecido: os jovens. A publicação conseguiu assim, algo que só este formato consegue: uma relação de fidelidade e intimidade com o seu leitor. Scalzo (2003, p. 11) afirma que: uma revista é um veículo de comunicação, um produto, um negócio, uma marca, um objeto, um conjunto de serviços, uma mistura de jornalismo e entretenimento. Nenhuma das definições acima está errada, mas também nenhuma delas abrange completamente o universo que envolve uma revista e seus leitores. A propósito: o editor espanhol Juan Caño define revista como uma história de amor com o leitor. Este veículo, além de sua relação íntima com o leitor, também possui características que o 1 Trabalho apresentado no GT de História da Mídia Impressa, integrante do VIII Encontro Nacional de História da Mídia, Graduando do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e integrante do Grupo de Pesquisa História da Mídia. 3 Graduanda do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) 4 Orientadora do trabalho. Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Mestre em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Doutorado em andamento em Ciências Sociais pela Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales.

2 tornam único, tanto no estilo quanto no ritmo de produção, pois possui um tempo de trabalho maior do que o jornal diário. Um ponto importante para essa singularidade é o seu visual gráfico, pois possui uma maior liberdade, podendo trabalhar com inúmeros formatos. O texto em revista é amplo, bem trabalhado, contendo informações mais apuradas, em tese, uma revista tem obrigação de acompanhar o fato e ir além dele. Tem de municiar o leitor com informações sobre o que tal fato está indicando, que tipo de mudanças e o que ele realmente significa. Não pode, por isso, dar a palavra final. Deve dar pistas ou até mesmo a interpretação dos acontecimentos. É preciso fugir da cobertura a reboque que o jornal e a TV têm que fazer, conforme Vilas Boas (1996, p. 74). A linguagem da escrita também é diferenciada, pois tem um caráter mais intimista, demonstrando conhecer o seu leitor, pois assim sabe-se exatamente o tom com que se dirigir a ele. É preciso escrever na língua do leitor ou, como diria o jornalista Eugênio Bucci, em leitorês (Scalzo, 2003, 76). Mas Vilas Boas ressalta que a suposta liberdade do texto semanal de uma revista informativa é um labirinto no qual não é suficiente apenas um novelo de lã para marcar o caminho, pois ele requer mais dedicação e criatividade. Outro aspecto marcante das revistas é o público específico ao qual elas se dirigem, pois não tentam abarcar a todos, elas optam pela segmentação. Tanto que atualmente encontra-se no mercado revistas de moda, beleza, decoração, economia, agricultura, educação, esportes, ciências, música, cinema, surf, em quadrinhos, de animais de estimação, entre outros. A Bizz Nessa linha, surgiu nos anos 1980, a Revista Bizz, que optou pelo mercado da música, mas com uma linha editorial que visava um público novo, os jovens, que até aquele momento ainda não haviam sido enxergados como um público consumidor. A revista surgiu com o enfoque na música internacional e nacional, num primeiro momento voltado ao rock, MPB e pop. A Bizz surge em meio à renovação nacional, pois na metade da década de 1980 o país passava por uma reestruturação política e social, após 21 anos de ditadura militar. Os jovens ainda não tinham meios que passassem as informações que eles buscavam, tanto do cenário cultural nacional, quanto do internacional. Alex Antunes (2010), editor-chefe das revistas Bizz e Set, no final dos anos 1980, afirmou que O que determinou a importância da Bizz nos anos 80 foi a combinação entre determinadas condições político-sociais e de mercado, que permitiram que a revista apresentasse, por assim dizer, o Brasil urbano carente de uma expressão musical condizente com a juventude da época a uma onda emergente de rock (nacional e internacional) pós-punk. A circulação de informação era precária. Não havia internet; nem todos os discos supostamente importantes eram lançados no país e a importação de vinis era cara; não havia tecnologia de reprodução doméstica de discos sem perda considerável de qualidade da cópia (fita K7, no caso); as próprias bandas brasileiras emergentes precisavam de um interlocutor na imprensa os jornais mais antenados, como a Folha de São Paulo, ainda não tinham impressão em cores e não havia MTV, então o formato revista era importante inclusive na divulgação da imagem das bandas. Ao mesmo tempo, o impacto ainda recente do punk permitia uma discussão histórica das conexões entre a sonoridade da época e as raízes do rock e, em termos de Brasil, a relação entre as bandas de pop urbano e a música

3 brasileira (questão colocada pela Tropicália e muito carente de respostas nos anos 80). (entrevista ao site Canal Comum) Outro fator que fortalece a revista é o boom do rock nacional, que tem seu grande marco no primeiro Rock in Rio, realizado em 1985, no qual inúmeras bandas hoje consagradas fizeram seus primeiros shows, como Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e os então intitulados Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens. A partir desse festival, que demonstra o quanto os jovens queriam consumir rock, a indústria fonográfica passa a valorizar artistas dessa primeira safra rock n roll do Brasil: Legião Urbana, RPM, Titãs, Blitz, Lobão, Ira!, Nenhum de Nós, Engenheiros do Hawaii, entre outros. Isso cria um mercado tão lucrativo, que estes artistas passam a fazer parte das paradas de sucesso em rádios de todo país. Outro público que o Rock in Rio revela é uma gama de jovens apaixonados pelo crescente heavy metal, sendo que shows de artistas como AC/DC, Ozzy Osbourne e Iron Maiden levaram uma platéia gigantesca ao festival. Acrescenta-se a esta cena internacional, a efervescente cena heavy metal brasileira, que iria revelar talentos como Sepultura e Ratos de Porão, bandas que também foram apoiadas pela revista Bizz. A popularização do videoclipe é mais um ponto para a criação da Bizz, pois após a inauguração da MTV norte-americana, em 1981, a música foi elevada a outro nível, porque não apenas ouvia-se música, agora assisti-se música. A maioria dos artistas pop/rock dos anos 1980 passa pela tela da MTV, e não se tendo uma sucursal no Brasil, a Bizz participa como um elo entre o fã e as produções da MTV, tanto seus videoclipes quanto suas premiações. Com todas essas condições, a revista Bizz surge como um protótipo, intitulado Bizz nº 0, em junho de 1985, que é apresentado à imprensa, ao mercado publicitário e aos artistas nacionais. Com um formato baseado em revistas internacionais como a Rolling Stone e a New Music Express (NME), ela recebeu aprovação geral, tanto que em menos de dois meses chega às bancas a primeira edição, trazendo o cantor norte-americano Bruce Springsteen na capa. Seu formato incluía uma página intitulada Showbizz, que trazia as notícias e fatos do mundo musical; a parada de vendas nacional e internacional; trazia pequenas resenhas de inúmeros lançamentos em vinil e k7 e também de alguns filmes em vídeo; também resenhava apresentações ao vivo; e possuía ainda uma página para canções traduzidas, uma para resenhar algum disco clássico, outra de cartas dos leitores e também trazia algum artista apresentando seu instrumento. A revista contava ainda com alguns correspondentes internacionais, em cidades como Los Angeles, Milão, Paris e Londres, que informavam as novidades dos músicos, seus lançamentos e shows. Ela contava ainda com uma seção intitulada Porão, onde artistas do underground nacional e internacional eram apresentados ao público, exemplo disso está na primeira edição da revista, que apresentava as bandas R.E.M. e Jesus and Mary Chain, atualmente considerados grandes nomes do rock mundial.

4 Uma das seções que mais está relacionada ao momento em que o mundo do entretenimento estava é a Clip, na qual se apresentava em alguns quadros os novos lançamentos em videoclipes, fazendo-se comentários sobre a obra e apresentando curiosidades; a seção ainda era complementada pela parada de clipes da Billboard. A revista ainda era recheada de grandes entrevistas exclusivas com músicos nacionais e internacionais, utilizando-se de formatos variados, desde entrevistas simples até produções em que se acompanhava um artista durante sua turnê. Exemplo disto encontra-se na edição número 35, de 1988, na qual a cantora Sinéad O Connor, ainda em começo de carreira, foi acompanhada alguns dias pelo repórter do jornal inglês Melody Maker, Ted Mico, que fez a matéria exclusivamente para a Bizz, retratando o cotidiano de Sinéad, sua preparação para os shows e colhendo inúmeros comentários ácidos da cantora. Analisando as fases da revista A revista foi inicialmente publicada pela editora Abril, tanto que em seu primeiro número o editorial era assinado por Victor Civita, diretor e editor geral da Abril na época, que reforçava os motivos da criação da Bizz. A publicação atingiu vendagens elevadas, fazendo com que em menos de um ano a Abril criasse a editora Azul, que passa a publicar a Bizz e outras publicações segmentadas. A partir dessa troca, começa uma trajetória repleta de mudanças, onde a revista passa a seguir os caminhos delimitados pelo mercado, tanto nas questões estéticas quanto de conteúdo, fazendo da história da Bizz um rico material de análise dos caminhos do jornalismo de revista, e, por conseguinte do jornalismo cultural, onde se percebe os embates entre as aspirações de uma empresa e dos jornalistas. Optou-se por dividir em seis fases a história da revista Bizz, ressaltando-se as mudanças mais acentuadas da publicação, levando em conta os critérios-base do jornalismo, estabelecidos por Manuel Chaparro: ética, técnica e estética. Percebendo assim as inúmeras facetas de uma empresa jornalística frente às pressões do mercado e as mudanças sociais. 1ª : a fase de ouro Após o começo apoiado por uma parcela grande do meio musical e da publicidade, a revista mantém sua linha editorial, que foi apresentada anteriormente. Sob a direção editorial de Carlos Arruda e chefia de redação de José Eduardo Mendonça, a revista começa sua trajetória como a principal revista musical do país nos anos Em 1986, o país entra no Plano Cruzado, que fortalece o poder de consumo da população, fortalecendo de vez a revista, que a partir deste momento já tinha suas ramificações, que eram outras pequenas revistas ou encartes especiais. Destacam-se aí o Top Hits/Letras Traduzidas,

5 pequena revista que trazia os grandes sucessos internacionais traduzidos; Ídolos do Rock, que trazia a história de alguns artistas, através de muitas fotos, discografias e oito páginas só de adesivos; destes especiais ela ainda trazia muitas revistas-pôsteres. Com todo esse crescimento da revista, a editora Abril cria a Editora Azul, que dá vazão a estas publicações segmentadas. Toda essa euforia econômica acaba com o fracasso do Plano Cruzado, tanto que em 1987, revistas de música e cultura pop, como a Somtrês e a Roll, acabam fechando as portas. A falência das concorrentes eleva a Bizz ao posto de maior revista musical do país. Inicialmente focada em inúmeros temas, além da música, como cinema, moda e comportamento, a Bizz abre caminho a outras revistas, como a revista Set, que foca principalmente no cinema. Set e Bizz só crescem por causa do apoio da Editora Azul e de um público que quer informação cultural, abrindo-se assim caminhos novos no jornalismo nacional. A partir de 1987, com a direção de redação de José Augusto Lemos e Alex Antunes como editor, a revista fecha seu foco na música e acentua seu caráter alternativo, exemplo disso é a edição número 35, de 1988, já citada aqui, que traz em sua capa a cantora Sinéad O Connor, que na época lançava seu primeiro disco e ainda fazia turnês pequenas pela Europa. Mesmo assim, a revista não abandona seu caráter pop, tanto que uma das capas emblemáticas desta fase é que traz o cantor Michael Jackson, num close, apenas com alguns nomes de artistas no canto esquerdo inferior, demonstrando a simplicidade da capa e a força da revista, que não necessitava de uma publicidade exacerbada. Uma das marcas da Bizz desde seu lançamento foi o trailer-disc, que vinha de brinde na revista. Era um compacto com trechos de músicas pop-rock que ainda não haviam sido lançadas. Mais tarde foi substituído por flexidisc, aqueles disquinhos do tamanho de compactos, só que de plástico e dobráveis. (Alzer & Claudino, 2004, p.95) Outra característica que se fará presente pela trajetória da revista é o fato dos jornalistas assinarem suas matérias, não apenas as resenhas, mas reportagens sobre turnês ou produção de discos também eram assinadas. Mas é importante ressaltar, que mesmo com sua identidade jovem e inovadora, os textos eram, em sua maioria, informativos, leves e interessantes, não se utilizando de uma linguagem pobre, apenas simples. Fortalecida pelo boom do rock nacional, pela influência mundial da MTV americana e por um momento de ajustes na economia nacional, a Bizz conseguiu produzir jornalismo cultural e ainda conquistou um grande público, pois como defende a jornalista Marília Scalzo (2003), a relação do leitor com sua revista é uma relação que entra no espaço privado, na intimidade, na casa dos leitores. A publicação marca assim uma época, tanto na vida de seus leitores, quanto na história do jornalismo segmentado nacional. 2ª : Caminhos mutantes Com sua força sedimentada, a Bizz dá seus primeiros passos de mudança, tentando

6 acompanhar as transformações do país: opta por um novo projeto gráfico e muda seu logotipo. Mudanças visuais à parte, a revista mantém seu foco na música, tanto internacional quanto nacional, mas o país não era mais o mesmo. Iniciam-se os anos 90 e o cenário nacional está completamente diferente: o rock nacional já não vende como antes, poucas bandas ainda estão nas paradas, como Titãs, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso; os campeões de venda tornaram-se as duplas sertanejas, como Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, e os ritmos da lambada de Sarajane e Beto Barbosa. Em 1990, é criada a MTV Brasil, que chama a atenção do público para muitos artistas internacionais de pop rock, ajudando as vendas da Bizz. Acrescenta-se aí a segunda edição do Rock in Rio, realizada em janeiro de 1991, que trazia artistas como Guns N Roses, Faith No More, Judas Priest e Megadeth. Esses dois acontecimentos dão um apoio rápido à manutenção da Bizz, mas o momento era de incertezas, pois o cenário musical estava em mudança e a revista queria acompanhá-lo. Já em 1993, a revista muda novamente seu visual, alterando seu logotipo pela terceira vez e redirecionando seu projeto editorial. Logo de início, a revista já demonstra seu interesse na música nacional, apoiando artistas como Carlinhos Brown, Skank, Okotô, entre outros. Mesmo assim, a revista fica um pouco perdida em relação aos caminhos a seguir. Pedro Só, jornalista da revista na época, afirma não é segredo que a revista viveu fase crítica em termos de vendas e de orientação editorial exatamente entre 1994 e Com isso, só restam mudanças pela frente. 3ª : Showbizz e os caminhos turvos Define-se essa fase em uma afirmação do jornalista Alberto Dines (ano, p.: infelizmente, o perigo que ameaça a grande empresa jornalística moderna não é a ênfase no jornalismo (grifo do autor), mas ao contrário: a predominância da tecnocracia e da burocracia. Demonstram-se aqui os caminhos que a revista escolhe, optando por definir sua linha editorial através das vendagens, esquecendo-se de seu papel de formadora de opinião e transmissora de informações. A revista muda seu nome para Showbizz e opta por focar em um público juvenil, para isso utiliza uma linguagem adolescente, prioriza as imagens em detrimento do texto, é veiculada em um formato maior e traz ensaios sensuais. Esse formato acaba atraindo a publicidade e faz com que nos primeiros meses as vendagens subam consideravelmente. Assim, a revista confirma sua relação de dependência total da publicidade, ação que difere de sua atitude nos anos 80, que é exposta por Alex Antunes (2010): O prestígio da Bizz nos anos 80 permitia total autonomia entre a redação e a área comercial. Houve caso de um álbum ser massacrado na seção de crítica, e ter um anúncio de página inteira ao lado. Aconteceu com o Jean-Michel Jarre, por exemplo. Claro que o anunciante não gostava, e podia até mandar reclamações sobre o mau-humor da redação em determinadas críticas como aconteceu com o Gilberto Gil, que considerou uma resenha particularmente ofensiva. Mas nada disso abalava a

7 percepção do anunciante de que estar na revista era imprescindível. (entrevista no site Canal Comum) Alberto Dines novamente corrobora a quão é errada a atitude de depender dos lucros para guiar o caminho editorial de uma publicação, pois o jornalismo é a atividade-fim da empresa jornalística. Administração e comercialização são atividades-meio para assegurar-lhe todas as facilidades para um bom desempenho. Isso fica claro no momento em que a revista foi bem no quesito vendas, mas a resposta do público as mudanças é negativa. Pedro Só (2010, anexo 1), editor da revista na época, mostra as problemáticas enfrentadas: Eu lembro que muito me desiludi com isso [mudanças editoriais], porque fui trabalhar na Bizz convencido de que a mudança seria em outra direção: na época, a revista Vox era a referência que me interessava seguir. Infelizmente, a editora Azul, com supervisão da Abril, queria algo nos moldes da reforma feita pela Placar na mesma época: menos texto e mais ênfase em fotos produzidas em estúdio, uma certa infantilização da linguagem (tentativa vã de falar com o adolescente e o pré-adolescente), superficialidade etc. Nessas circunstâncias, a reforma editorial, com mudança de nome para Showbizz (outubro de 95), apesar de infeliz em vários aspectos, coincidiu com investimentos em divulgação que melhoraram a situação da Bizz como negócio. A revista passou a vender mais. O editorial teve a maior parte de seus pecados e erros de orientação atenuados e corrigidos em processo interno, extra-oficial. Para isso, contei com ótima ajuda de Sérgio Martins, à época também editor (fui promovido a editor-chefe em 1996). O retorno dado pelos leitores - e, claro, também pelas vendas em banca - nos ajudou a embasar nossas decisões e a derrubar algumas sandices impostas pelo projeto original. Assim, em 1998, com a compra da Editora Azul pela editora Abril, a revista, então, Showbizz volta a apostar no texto jornalístico, e abre o foco para a música nacional, caminho trazido por Pedro Só, desde sua chegada na revista, em 1990, mas só aderida com o apoio da editora Abril. A revista não se restringe a MPB, fala também de samba, forró, entre outros. A partir daqui, a publicação fez uma limpeza total, retirando, por exemplo, os ensaios sensuais de seu projeto. Sobre essa fase, Pedro Só ressalta: Sempre trabalhei sob supervisão de outros profissionais, seguindo projetos editoriais, orientações com as quais nem sempre concordei. Por mais pessoal que seja um trabalho jornalístico, nessas circunstâncias, como redator-chefe, a Bizz/Showbizz jamais expressou o que eu realmente gostaria de fazer como revista de música. Apesar disso e de eventuais frustrações, avalio a experiência como muito prazerosa. Foi possível exercitar a criatividade, praticar boa reportagem e - mais importante - influenciar e de certa forma, transformar algumas visões culturais vigentes na geração jovem dos anos 90. 4ª : O abandono Em 2000, a editora Símbolo faz uma parceria com a editora Abril e passa a publicar a revista Showbizz, que volta a se chamar Bizz. Nessa fase, a publicação perde, internamente, em muitos sentidos, pois a nova editora não dá o suporte necessário à publicação, pagando baixos salários, não investindo na publicação, fazendo com que essa fase dure menos de dois anos. Nesse curto espaço de tempo, a linha editorial abriu-se para ritmos como a música eletrônica e deu um enfoque especial ao pop nacional. Os editores deste novo projeto eram Emerson Gasperin e José Flávio Jr., que mesmo com o pouco apoio, tentaram reestruturar a revista, trazendo um novo caminho: o da publicação de grandes especiais, que contavam a história de algum grande astro ou banda.

8 Mesmo assim, em 2001, depois de 16 anos na ativa, a revista Bizz fecha suas portas, por que o contrato entre a editora Abril e a editora Símbolo acabou, e a primeira não se interessou em manter o título. 5º : Ideais jornalísticos Entre 2001 e 2005, a revista ainda manteve-se viva em algumas edições especiais, como uma forma de manter e utilizar a marca. Já em 2005, Adriano Silva, que coordenava o Núcleo Jovem da Editora Abril, juntamente com Ricardo Alexandre, que colaborava com a revista Bizz, desde o início dos anos 90, começam a trabalhar na reedição da revista mensal. De uma forma natural, após as edições especiais, a revista mensal volta a ser comercializada, composta no mesmo formato das revistas anteriores, com grandes reportagens, resenhas e lançamentos. Porém, o retorno da revista as bancas foi um projeto independente da editora Abril, pois no momento específico, a editora optava por não investir em novos projetos, com isso os dois jornalistas, Adriano Silva e Ricardo Alexandre, encontram outros caminhos para a publicação. Ricardo Alexandre (em entrevista por telefone, 2010) conta que para a publicação da revista, ele e Adriano Silva fizeram propostas surreais de patrocínio da revista. Tipo porque 1/8 do que você pagaria normalmente e tenha tudo que você quiser e mais um pouco só para poder patrocinar a existência da revista Bizz. [...] A gente fez um acordo com a Claro de patrocínio completo da revista. [...] Era um tipo de patrocínio exclusivo da revista, algo que eu nunca vi na minha vida ser praticado, mas a gente fez. Com esse diferencial publicitário, a revista é lançada sem chamar a atenção, com vendagens modestas, mas optando por um jornalismo sério, onde o importante era informar e discutir música, sem limitar-se em razão da publicidade. Alexandre também conta que a revista teve apoio de alguns entusiastas da Bizz, como a banda Skank, o cantor Nando Reis e os Mutantes, mas que a revista tornou-se algo pequeno, que não chamou a atenção nacional. Isso pode ser visto nas vendagens da revista, que foram baixas para um produto da editora Abril. Sobre os lucros, Alexandre ressalta que a revista não dava um centavo de lucro e a nossa idéia era que a gente fosse atrás de patrocínios pelo menos para manter a revista viva, e o fato de a gente ter acordos publicitários estabelecidos também inibia a Editora Abril de extinguir o título. [...] Durante esse tempo todo, a revista existiu nesse esquema, que a gente chamava de esquema apinéia, a gente tomava um fôlego e mergulhava de novo. Dessa forma, a revista conseguiu manter-se ativa até julho de 2007, quando sai a última edição mensal, tendo na capa a banda Los Hermanos, falando sobre sua última turnê. Esta matéria foi assinada por Ricardo Alexandre, que ressalta que aprendeu muito com o tempo em que trabalhou na revista, pois trabalhava em condições péssimas, fazendo com que aprendesse a lidar com todo esse trânsito entre publicidade e editorial, ou como fazer edição, direção de equipe, de gestão, essas coisas todas surgiram ali. 6ª : Especiais

9 A partir de 2007, apenas para a manutenção da marca Bizz e em momentos específicos, a Abril lança especiais, que trazem grandes matérias sobre a carreira de determinados artistas. Exemplo deste formato é a edição especial sobre o cantor Michael Jackson, que foi lançada logo após seu falecimento, aproveitando um momento em que o mercado queria consumir produtos relacionados ao músico. Os especiais servem como uma saída para determinadas produções da editora que não possuem um veículo específico e que acabam mantendo a marca Bizz viva. Outro exemplo deste novo rumo da publicação, é o especial sobre a cantora pop americana Lady GaGa, que foi publicado em 2010, num momento em que a cantora está no auge de seu sucesso. Considerações finais Após a percepção da história da revista Bizz, compreende-se que o jornalismo cultural no Brasil é um caminho difícil, onde o foco do jornalismo, que é a informação, é distorcido, em função do mercado publicitário. Entende-se que o trabalho jornalístico deve ser buscado paralelamente as projeções financeiras. Dines ressalta que a empresa deve servir de base à instituição pública que é a atuação jornalística. Quanto mais bem feita, mais independente e influente, melhor servirá à empresa jornalística visa a sistematizar o talento e não sufocá-lo. O jornalista é também o leitor dentro da redação. Anexos 1 Entrevista via com o jornalista Pedro Só: Eu comecei a colaborar para a revista em 1990/91 e fui contratado como editor em julho de Peguei um bonde andando, é verdade: cheguei quando já havia o projeto de reforma editorial. Eu lembro que muito me desiludi com isso, porque fui trabalhar na Bizz convencido de que a mudança seria em outra direção: na época, a revista Vox, inglesa, era a referência (um pouco como a Mojo, porém mais pop e ligada na atualidade) que me interessava seguir. Infelizmente, a editora Azul, com supervisão da Abril, queria algo nos moldes da reforma feita pela Placar na mesma época: menos texto e mais ênfase em fotos produzidas em estúdio, uma certa infantilização da linguagem (tentativa vã de falar com o adolescente e o pré-adolescente), superficialidade etc. Não sei exatamente o que você define como degradação: de qualquer modo, não é segredo que a revista viveu fase crítica em termos de vendas e de orientação editorial exatamente entre 1994 e Nessas circunstâncias, a reforma editorial, com mudança de nome para Showbizz (outubro de 95), apesar de infeliz em vários aspectos, coincidiu com investimentos em divulgação que melhoraram a situação da Bizz como negócio. A revista passou a vender mais. O editorial teve a maior parte de seus pecados e erros de orientação atenuados e corrigidos em processo interno, extra-oficial. Para isso, contei com ótima ajuda de Sérgio Martins, à época também editor (fui promovido a editor-chefe em 1996). O retorno dado pelos leitores - e, claro, também pelas vendas em banca - nos ajudou a embasar nossas decisões e a derrubar algumas sandices impostas pelo projeto original. Em 1998, a revista voltou a ser publicada pela Ed. Abril (que já era sócia da Azul, mas comprou a parte restante) e houve maior valorização do conteúdo jornalístico. A orientação para a música brasileira (não gosto de restringir à MPB, porque samba, forró e outros gêneros populares também entraram na receita editorial) era uma ideia

10 que eu trouxe para a revista desde o começo, mas que foi abraçada pela direção da Abril - creio que depois ela até errou na mão no direcionamento para esse lado. Entre 1998, houve outros ajustes, uma troca de direção editorial na Abril (saiu Celso Pucci, ficou Matinas Suzuki) e a volta de um diretor de redação, Felipe Zobaran. Lembro vocês que em todo esse tempo trabalhei sob supervisão de outros profissionais, seguindo projetos editoriais, orientações com as quais nem sempre concordei. Por mais pessoal que seja um trabalho jornalístico, nessas circunstâncias, como redator-chefe, a Bizz/Showbizz jamais expressou o que eu realmente gostaria de fazer como revista de música. Apesar disso e de eventuais frustrações, avalio a experiência como muito prazerosa. Foi possível exercitar a criatividade, praticar boa reportagem e - mais importante - influenciar e de certa forma, transformar algumas visões culturais vigentes na geração jovem dos anos 90. Não acho presunçoso dizer, porque já ouvi da boca de vários artistas e jornalistas, que a Bizz/Showbizz ajudou a mudar a música que se faz no Brasil. Tem um pouquinho de culpa no cartório. Pessoalmente, foi uma bênção poder trabalhar com cultura em estrutura jornalística de bom nível sem estar atrelado às noções empobrecedoras das revistas semanais. Posso dizer também que me diverti bastante ao longo desses cinco anos. Saí, em 2000, porque tinha proposta de trabalho mais vantajosa. A Bizz foi para uma editora menor e me perguntaram se eu toparia continuar no cargo ganhando menos - proposta indecorosa. Na ed. Símbolo, ela não teve a atenção nem a estrutura que merecia. Voltou a ser Bizz, mas durou creio que apenas um ano. De qualquer modo, continuei colaborando - até porque os editores que tocaram o projeto eram meus amigos, companheiros que eu tinha trazido para a Redação, alguns anos antes: Emerson Gasperin e José Flavio Jr. Quando a Bizz voltou, depois de um hiato, editada novamente pela Abril, o editor também era um profissional que eu tinha contratado para a empresa (eu continuava lá, então como redador-chefe da Vip). Ricardo Alexandre foi meu subordinado por dois anos durante o tempo em que trabalhei como diretor de conteúdo da Usina do Som e dos sites da Abril Jovem (entre 2000 e 2002, mais ou menos). Então, na verdade, eu jamais me afastei da revista. Escrevi reportagens e entrevistas, assinei resenhas e seções (Discoteca Básica) até bem perto da interrupção da publicação da Bizz. Não iria abandonar meus chapas, nem mesmo quando o pagamento pelas colaborações ficou inferior ao praticado pelo mercado. Atualmente, em 2010, não se passam dois meses sem que alguém me procure para falar da Bizz, lembre dos meus textos na revista etc. O fato de vocês hoje estarem escrevendo este trabalho atesta a importância dela. Entre 1985 e 2000 a Bizz foi fonte valiosa de informação para várias gerações, trazendo textos com personalidade e inovadores. E sendo, de certa forma, um oásis de reportagens importantes sobre música em um país onde isso sempre foi pouco valorizado. Sem falar nos artistas que ela lançou, os ídolos a quem deu voz, as reputações e gêneros musicais que reabilitou ou divulgou. Depois de 2000, ela ainda recuperou certa mística, mas, em um cenário em que a informação está muito mais disseminada e pulverizada, creio que teve repercussão bem mais reduzida. Apesar disso, o trabalho jornalístico desenvolvido nessa fase é de primeira qualidade - o que, de certa forma, talvez ajude a explicar também o seu fracasso num tempo em que o jornalismo de revista vai se refugiando cada vez mais em fórmulas e superficialidade. A inovação e a ousadia que a Bizz tinha, me parece, estão hoje muito mais na web ou em documentários musicais (alguns inspirados por pautas da revista, outros dirigidos ou roteirizados por ex-leitores...).

11 Referências ALZER, Luiz André & CLAUDINO, Mariana. Almanaque Anos 80. Rio de Janeiro: Ediouro, BOAS, Sergio Vilas. O Estilo Magazine: o texto em revista. São Paulo: Summus Editorial, CHAPARRO, Manuel. Pragmático do Jornalismo. São Paulo: Summus Editorial, DINES, Alberto. O papel do jornal, uma releitura. São Paulo: Summus Editorial, SCALZO, Marilia. Jornalismo de Revista. São Paulo: Editora Contexto, (acessado em 21/10/2010) (acessado em 21/10/2010) (acessado em 21/10/2010)

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