Comentários ao relatório Uma década para Portugal promovido pelo PS

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1 Comentários ao relatório Uma década para Portugal promovido pelo PS Ao definir uma estratégia de crescimento económico sustentado, centrada em propostas políticas concretas, o relatório Uma década para Portugal, apresentado pelo PS, veio abrir um saudável debate no espaço público do qual a CIP não se pode alhear. A CIP tem defendido que o grande desafio da política orçamental nos próximos anos consiste em conciliar a consolidação das finanças públicas, por forma a possibilitar a redução gradual da dívida pública para níveis mais sustentáveis, com o estímulo ao crescimento económico, nomeadamente através da redução da carga fiscal, de medidas de fomento do investimento privado e da retoma do investimento público reprodutivo. Para conciliar estes objetivos é indispensável que, do lado da despesa corrente primária, sejam tomadas medidas para substituir as medidas de consolidação temporárias que foram adotadas durante o período do programa de ajustamento por medidas estruturais, com um impacto significativo na despesa pública. Tal implica avançar decisivamente na Reforma do Estado, que deverá constituir um elemento central da estratégia de crescimento sustentado. Sem a concretizar não será possível passar de uma lógica de cortes transversais e potencialmente reversíveis a uma lógica coerente de redução estrutural da despesa corrente. Este documento prevê um vasto conjunto de medidas de relançamento do crescimento económico, com a reversão rápida das medidas de consolidação temporárias e outras medidas que pretendem sobretudo estimular o rendimento das famílias e o consumo, sendo completamente omisso relativamente a uma estratégia de redução estrutural da despesa pública corrente. Não se compreende, com as medidas propostas, como é que se alcançará a redução da despesa pública corrente prevista no cenário final apresentado neste relatório. Pag.1

2 O principal risco deste caminho é o de que o aumento do crescimento económico centrado no estímulo ao rendimento e não tanto à competitividade conduza ao agravamento dos desequilíbrios, tanto em termos do défice público como das contas externas. Lembramos que o Conselho Superior das Finanças Públicas, num cenário de políticas invariantes e com a reposição da redução remuneratória dos funcionários públicos e a não consideração da receita da sobretaxa sobre o IRS a partir de 2016, concluiu por um forte estímulo ao rendimento disponível dos particulares e consequentemente à procura interna, através do consumo privado, mas com a consequência do aumento do défice público em 2016 para 3.3% do PIB, fixando-se em 3.2% a partir de A estratégia de crescimento em apreço centra-se, sobretudo, no estímulo ao consumo (por via do aumento do rendimento disponível das famílias) e não tanto no estímulo ao investimento empresarial (apesar deste ser frequentemente invocado), esperando que aquele recupere sobretudo por via da melhoria das expectativas de aumento da procura. A este respeito, um dos pontos mais negativos destas propostas é a eliminação da redução do IRC prevista na Reforma do respetivo Código. Trata-se de uma medida inconsistente com a afirmação, que consta do documento, de que um dos princípios fiscais mais relevantes para o crescimento e o investimento é o da estabilidade e previsibilidade fiscal. A CIP não pode, também, aceitar o retrocesso que representaria a reintrodução do imposto sucessório, que aliás teria um impacto modesto na receita pública. Esta medida teria efeitos particularmente nocivos no caso da transmissão das empresas por morte do seu proprietário, agravando ainda mais o problema da falta de capitalização das empresas. Pag.2

3 As medidas apresentadas no capítulo Uma fiscalidade promotora da criação de emprego e dos investimentos em capital humano só vagamente são coerentes com o objetivo constante no dito título. Quanto à necessidade de capitalização das empresas e desbloqueamento do financiamento aos bons projetos, as medidas propostas vão no sentido correto, mas são, no nosso entender, pouco ambiciosas e não contemplam, por exemplo, a necessidade de um quadro fiscal mais favorável ao reforço de capitais próprios das empresas pelos seus proprietários ou por terceiros, ou à consolidação dos suprimentos já constituídos, bem como das prestações acessórias de capital, com o objetivo de não penalizar o recurso ao capital próprio face ao capital alheio. Reconhecemos, contudo, algumas medidas positivas para o relançamento do investimento, como o reforço excecional e simplificação do crédito fiscal ao investimento, a intenção de acelerar a execução do acordo de parceria, a aposta na reabilitação urbana, as medidas no quadro de uma maior ligação Universidadeempresa e a preocupação pela redução da burocracia, sobretudo na área do licenciamento. A redução do IVA da restauração de 23% para 13% merece, também, o apoio da CIP, que partilha o entendimento expresso no relatório de que se trata de uma forma de promover a recuperação da economia e do emprego. No entanto, consideramos que o documento é omisso em questões de grande importância para as empresas. Em primeiro lugar, nada é referido em relação ao problema das dívidas das entidades públicas às empresas, que é urgente resolver definitivamente, proporcionando uma importante entrada imediata de liquidez na economia. A necessidade de atuar sobre os elevados custos da energia elétrica e do gás natural é completamente esquecida. Pag.3

4 A política transversal de PME e Empreendedorismo está praticamente ausente deste relatório, bem como a necessidade de proceder a avaliações de impacto das propostas legislativas, incluindo testes de competitividade e PME, com o objetivo de assegurar um enquadramento legislativo e regulatório mais favorável à atividade empresarial. Poderemos mesmo dizer que as empresas são o parente pobre deste documento, no qual as instituições públicas (e nunca as associações empresariais) assumem particular protagonismo. Quanto à redução da TSU para as empresas, os contornos desta medida não são muito claros no que respeita a diferenciação da taxa a pagar entre as empresas segundo o rácio entre os custos com o subsídio de desemprego de ex-trabalhadores de cada empresa e o total de contribuições da empresa para o sistema de apoio ao desemprego. A intenção de responsabilizar as empresas pelos custos sociais do desemprego é, em si mesma, perversa, na medida em que parece culpabilizar as empresas pelos elevados níveis de desemprego que enfrentamos, penalizando afinal as empresas mais afetadas pela crise. A CIP continua a defender uma redução mais expressiva mas seletiva da TSU (apenas para setores de bens e serviços transacionáveis) como a que melhor serve uma estratégia de desenvolvimento baseada na promoção da competitividade internacional da economia portuguesa. No domínio sócio laboral, duas propostas ganham particular ênfase, uma pelo seu carácter impreciso, mesmo enigmático, outra pelo seu irrealismo e clara nocividade face aos objetivos que, na presente conjuntura, se torna imperioso prosseguir. A primeira, respeita ao regime conciliatório da cessação do contrato de trabalho que, não apresentando contornos bem definidos, não permite a compreensão das situações que intenta abarcar, não deixando, por isso, explícito o seu efetivo interesse Pag.4

5 e impacto face a outros institutos em vigor, como a revogação do contrato de trabalho por mútuo acordo. Ao invés, bem explícita mas credora de frontal rejeição é a proposta de limitar a admissibilidade legal da contratação a termo à substituição de trabalhadores, eliminando do leque de fundamentos que podem legitimar essa forma de contratação outras motivações, designadamente as relacionadas com a volubilidade dos mercados, a sazonalidade e os inerentes picos de atividade nas empresas. Ora, dificultar respostas atempadas e ajustadas às oscilações verificáveis, particularmente num quadro de elevado nível de desemprego e de aguerrida concorrência como aquele que a globalização impõe, não é certamente a orientação esperada de uma política de estímulo à competitividade e ao emprego. A única consequência que advirá de um tal quadro restritivo será o desperdiçar de oportunidades de negócio por parte das empresas e de emprego por parte dos desempregados. Finalmente, no que respeita ao investimento público, prevê-se a sua aceleração, mas sem qualquer preocupação em definir quais as prioridades que lhe estarão subjacentes. No entender da CIP a prioridade deverá ser colocada nas infraestruturas para a competitividade, nomeadamente ao nível dos transportes e logística, com vista a uma melhoria da conectividade internacional. É o caso da melhoria das condições dos portos existentes e da ampliação do Porto de Sines, das linhas ferroviárias interoperáveis de transporte de mercadorias que os vão ligar à Europa (a saber, os corredores Aveiro Salamanca Irún e Sines Caia Madrid), das plataformas logísticas e das redes de transporte de energia. CIP Confederação Empresarial de Portugal Pag.5

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