MINISTÉRIO DO TRABALHO E DA SOLIDARIEDADE SOCIAL Gabinete do Ministro

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1 Parecer do Governo Português relativo ao Livro Verde Modernizar o direito do trabalho para enfrentar os desafios do sec. XXI Introdução O presente documento consubstancia o parecer do Governo Português relativo ao Livro Verde Modernizar o direito do trabalho para enfrentar os desafios do sec. XXI, apresentado pela Comissão Europeia Na sequência do lançamento pela Comissão Europeia do Livro Verde Modernizar o direito do trabalho para enfrentar os desafios do sec. XXI -, o Governo Português, ciente de que a União Europeia precisa de uma economia dinâmica para se afirmar como zona económica liderante à escala internacional, em que o direito do trabalho pode vir a representar uma resposta aos desafios que se colocam à Europa, de modo a permitir a conjugação da competitividade das empresas e da economia com os direitos de cidadania de quem trabalha, promoveu uma ampla discussão sobre o tema, em sede de Comissão Permanente de Concertação Social, convidando os parceiros sociais a emitirem os seus pareceres para a elaboração de uma resposta portuguesa ao Livro Verde. Assim, vem o Governo português, apresentar o seu contributo para o debate público ao nível da União Europeia sobre a modernização do direito do trabalho: I Apreciação genérica O Livro Verde apresenta-se como uma reflecção necessária sobre o papel que poderia desempenhar o direito do trabalho na promoção da flexigurança, entendido como um instrumento modernizador, capaz de se adaptar aos objectivos da Estratégia de Lisboa, e bem assim, os desafios resultantes da globalização e das exigências da competitividade. Praça de Londres, nº 2-16º Lisboa - Tel Fax

2 Tanto os empregadores como os trabalhadores querem flexibilidade. Mas a reforma das relações laborais não pode ser resumida à escolha do que seria o grau óptimo de flexibilidade da legislação laboral no plano teórico, dado que, o modelo de flexigurança a escolher, terá que ser necessariamente marcado pelo contexto económico e social do país em que se insere. Existem vários tipos de flexibilidade. Há muitas dimensões na flexibilidade, como seja a questão da organização interna as empresas, a organização dos horários de trabalho, a polivalência funcional e a formação profissional. Por isso, o debate não pode restringir-se ao direito do trabalho: não pode ser desligado da necessidade de aumentar a capacidade de modernizar a gestão e de investir na qualificação dos recursos humanos. Exige também eficácia nas políticas activas de emprego e eficácia na protecção social. A segurança para os trabalhadores é condição prévia para a flexibilidade: é preciso falar em segurança ao nível da empregabilidade e ao nível dos rendimentos. Neste contexto, o diálogo social, é fundamental para a flexigurança. A reforma das relações laborais deverá privilegiar a negociação colectiva como o grande instrumento para a flexisegurança. Temos obrigação, enquanto parceiros sociais e governos de diminuir a fractura social existente. E isso implica custos para todos. Não podemos permitir que se generalize a ideia de promoção da precariedade para diminuir os custos dos empregadores com a protecção social. Isso é inaceitável. II Apreciação do Livro Verde à luz da actual situação portuguesa 1. No que toca à modernização do direito do trabalho, em Portugal, o Programa do Governo inclui o compromisso de rever o Código do Trabalho, tendo sido elaborado e publicado um Livro Verde sobre as Relações Laborais em que se diagnostica a situação, e criada a «Comissão do Livro Branco das Relações Laborais», com a missão de reavaliar o quadro legal vigente e propor alterações com vista à promoção do emprego, à redução da segmentação do sistema de emprego, à mobilidade protegida entre os diferentes tipos de contrato de trabalho e de actividade profissional, Praça de Londres, nº 2-16º Lisboa - Tel Fax

3 ao desenvolvimento da adaptabilidade dos trabalhadores e das empresas à mudança económica e social e ao fomento da contratualidade. Para esse efeito, à Comissão do Livro Branco das Relações Laborais, cabe, nomeadamente: a) Propor a redefinição das relações entre a lei, as convenções colectivas de trabalho e os contratos individuais de trabalho; b) Propor alterações com vista à promoção da flexibilidade interna das empresas e à melhoria das possibilidades de conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar de todos os que trabalham para a empresa, bem como à promoção da igualdade de género; c) Propor medidas de desburocratização e simplificação do relacionamento entre as empresas e os trabalhadores, e de uns e de outros com a Administração Pública; d) Propor a definição do objectivo e do conteúdo dos instrumentos legislativos necessários à execução das medidas propostas; e) Caracterizar os instrumentos necessários à monitorização e ao controlo da execução das medidas propostas. O Governo português considera que a missão da Comissão do Livro Branco das Relações Laborais é uma tarefa da maior importância, já que é indispensável que Portugal disponha de uma legislação laboral que compatibilize, actualizada e adequadamente, os direitos e os deveres no mundo do trabalho com os imperativos da cidadania plena dos trabalhadores e com as exigências da competitividade empresarial. 2. A legislação do trabalho portuguesa é frequentemente caracterizada como um sistema formalmente muito rígido, que dificultaria a adaptação das empresas aos ciclos económicos, que beneficiaria algumas formas de emprego em detrimento de outras e que, consequentemente, criaria obstáculos desnecessários à inovação empresarial e social. De facto, a avaliação da legislação laboral que vem sendo regularmente publicada por organizações internacionais como a OCDE e o Banco Mundial coloca Portugal numa posição extrema quanto à rigidez das normas legais sobre contratação e despedimento de trabalhadores, bem como sobre gestão do tempo de trabalho. Praça de Londres, nº 2-16º Lisboa - Tel Fax

4 Porém, embora esse facto seja frequentemente negligenciado quando se avalia o grau de rigidez do quadro legal vigente, existe uma distinção significativa entre o formalismo do edifício legislativo e os comportamentos sociais face a esse formalismo. Acresce que quer os níveis de emprego e de desemprego quer a composição estrutural do emprego e do desemprego ao longo dos ciclos económicos mostram que a sociedade portuguesa dispõe de capacidades de adaptação que, muito embora tenham efeitos perversos conhecidos, seriam dificilmente explicáveis se as relações laborais não fossem, de facto, menos rígidas do que o que decorreria da leitura simplista dos indicadores acima mencionados. 3. Com o crescimento dos tipos de contrato de trabalho e com o recurso crescente das empresas a novas formas de emprego e de trabalho, diminui a clareza da fronteira que, tradicionalmente, separava o emprego subordinado por conta de um só empregador do trabalho independente e economicamente autónomo. É um facto que existe, e que está a aprofundar-se, o dualismo no mercado de trabalho. A realidade apontada no Livro Verde da Comissão Europeia quanto aos insiders/ outsiders verifica-se em Portugal, com a existência de múltiplas situações de trabalho sem qualquer tipo de protecção. Esse aspecto é preocupante, também do ponto de vista social, pois é um problema que afecta as famílias, é um problema geracional. 4. A flexibilidade interna das empresas é uma dimensão da flexigurança que pode ter aplicação em Portugal. Temos níveis elevados de rigidez quanto à flexibilidade interna, particularmente no que respeita à organização do tempo de trabalho, categorias profissionais. A prática mostra que esta matéria pode ser desbloqueada, pela via do diálogo social. Esta é uma modalidade essencial da flexigurança, que pode e deve ser analisada, e permite uma maior concretização ao nível nacional desse conceito teórico. 5. Esse processo tem de passar pelo diálogo social e pela negociação colectiva, quer em Portugal quer ao nível europeu. A legislação laboral deve, no quadro de um Estado de Direito e de um Estado social, deixar às partes, no âmbito da negociação colectiva, uma margem significativa para Praça de Londres, nº 2-16º Lisboa - Tel Fax

5 estabelecer as condições que favoreçam a adaptação das pessoas e das empresas às exigências da economia e das mudanças sociais. 7. Em Portugal, destacam-se as reformas recentemente levadas a efeito no âmbito da protecção no desemprego e no regime da segurança social, que resultaram do envolvimento e do diálogo com os parceiros sociais no âmbito da Comissão Permanente de Concertação Social, do Conselho Económico e Social, designadamente: a) No âmbito do regime jurídico de protecção no desemprego, as alterações foram de modo a reflectir positivamente a alteração dos paradigmas de funcionamento dos sistemas económicos e os desafios que são colocados aos sistemas de protecção social. b) No âmbito da reforma da Segurança Social, a opção estratégica assumida pelo Governo e Parceiros Sociais vão no sentido do reforço da sustentabilidade do sistema de segurança social, através da sua adequação aos riscos emergentes, tendo igualmente em conta a situação económica e social do País, sem pôr em causa a arquitectura fundamental do sistema pré-existente, por se considerar que o actual arquétipo é um pilar fundamental do modelo social português, que não deve, portanto, ser posto em causa /MTSS/Portugal Todos os parceiros sociais com assento na Comissão Permanente de Concertação Social apresentaram o seu contributo para a apreciação do Livro Verde da Comissão Europeia. Praça de Londres, nº 2-16º Lisboa - Tel Fax

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