A FESTA DO BATIZADO DE CAPOEIRA: fenômeno sócio-cultural brasileiro de resistência e preservação dos rituais e manifestações do povo negro

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1 A FESTA DO BATIZADO DE CAPOEIRA: fenômeno sócio-cultural brasileiro de resistência e preservação dos rituais e manifestações do povo negro Introdução Robson Carlos da Silva 1 O artigo apresenta uma imersão etnográfica no Batizado de capoeira enquanto um espaço de preservação da cultura, da identidade e da tradição das lutas de resistência do povo negro no Brasil; uma festa que envolve emoção, afeto e prazer; lugar em que o gesto assume a mesma função sócio-transmissora da voz (CASCUDO, 2003, p. 17), visto que o gesto e a oralidade se imbricam e dificilmente podem ser separados na tradição da capoeira. O estudo se fundamenta na observação participante, fruto de meus trinta e um anos de experiência, vivência, prática, ensino, pesquisa, produção acadêmica e difusão da capoeira no Brasil e no mundo, registrando e comunicando os achados dessa cultura negra brasileira. Assim sendo, podemos denominar as reflexões que fazemos no texto, dialogando com Goldenberg (2005), de notas etnográficas a respeito da capoeira, por se fundamentar em relatos produzidos a partir de uma imersão pessoal no fenômeno investigado, convivendo com as pessoas envolvidas na atividade, se apropriando dos códigos culturais dos grupos constituintes e, em nosso caso, avançando no sentido de contribuir diretamente na formação, difusão e institucionalização do grupo do qual fazemos parte, bem como da prática da capoeira de forma geral em nosso estado, em outras comunidades fora do estado e, até mesmo, no exterior 2. A Capoeira se constitui em uma simbiose de diversas manifestações, envolvendo em uma única prática arte, dança, luta, música, canto, poesia, espaços de aprendizagens, teatralidade (VASCONCELOS, 2006), história, dentre outros aspectos, numa mistura de expressões e gestos que formam uma espécie de jogo 3, de disputa marcada pela malícia, agilidade, velocidade e força cinegética dos contendores. É uma cultura, ou artefato cultural (SILVA, 2002), utilizada historicamente como instrumento 1 Professor da UESPI (Universidade Estadual do Piauí). Mestre em Educação pela UFPI (Universidade Federal do Piauí). Coordenador do Projeto de Extensão Capoeira nos Espaços universitários (UESPI). Aluno do Programa de Pós-Graduação em Educação/Doutorado (FACED/UFC). 2 No ano de 2002, participamos de um encontro de capoeira na Venezuela e em 2009 na Noruega e Itália, organizando Encontros Internacionais de capoeira, eventos que demonstram a expansão, difusão e aceitação da Capoeira, cultura eminentemente brasileira, em inúmeros países e culturas diversas pelo mundo. 3 Os praticantes da capoeira utilizam a expressão jogo para designar sua prática, variando este, de acordo com o ritmo e a cadência dada aos instrumentos que compõem a Roda de capoeira.

2 de resistência, do povo negro africano, escravizado no Brasil, contra a política de opressão imposta pelos senhores de engenho. Segundo Silva (2009), sua origem é controversa. Alguns estudiosos e praticantes defendem que sua origem é africana, aqui trazida pelos primeiros negros escravizados como mão-de-obra escrava, em sua maioria da etnia Bantu, da região de Angola. Por outro lado, existem aqueles que defendem sua origem brasileira, sendo aqui desenvolvida pelo povo negro africano escravizado, enquanto instrumento de defesa e resistência contra o estado de opressão imposto pelo colonizador europeu. Uma luta que nasceu e se desenvolveu a partir da necessidade e da ânsia por libertação, originando-se de uma fusão de culturas, de aspectos ritualísticos, gestuais e musicais da cultura africana, se constituindo em uma cultura única, com aspectos característicos bem diversos das possíveis manifestações que lhe deram origem, daí seu acentuado caráter de prática educacional popular. Atualmente, esta é a teoria mais aceita nos estudos sobre a capoeira. Os defensores da teoria amparam-se em relatos de estudiosos e mestres de capoeira no Brasil que tiveram oportunidade de viajar ao continente africano e, lá chegando, não encontraram nenhuma manifestação igual à capoeira. Identificaram, na cultura e no jeito daquele povo, vários aspectos que poderiam ser pontuados e identificados na capoeira, como a ginga, a musicalidade e muitos tipos de gestos, porém sem a complexidade da prática da capoeira em seus princípios básicas e rituais, como por exemplo, a organização da roda, a conformação dos instrumentos, as posturas dos praticantes, os cantos, os estilos de jogo da capoeira, dentre outros. No entanto, ao largo das discordâncias sobre sua origem, um aspecto é comum a todas as pesquisas e estudos sobre a capoeira: seu desenvolvimento se deu nos meios populares, nos espaços livres existentes nas localidades rurais do Brasil Colônia, assim como nas ruas dos centros urbanos da época do Império (SOARES, 2002; SILVA, 2007), ou seja, a capoeira nasceu no meio do povo, se originou e se constituiu enquanto cultura popular 4, carregada de aspectos identitários significativos do sentimento de brasilidade. 4 Tomamos o termo popular em referência ao povo, por tratar-se de uma manifestação que nasceu e se desenvolveu no espaço público, criado pelas pessoas em suas ações cotidianas, de forma espontânea, no seio dos movimentos sociais, contrário a qualquer espécie de classificação hierárquica ou de natureza valorativa e comparativa, em oposição, por exemplo, ao sentido de cultura de massas (VIEIRA, 1995).

3 A Roda de rua: o espetáculo da arte da esquiva Ao longo dos anos, na história da capoeira, a organização do espaço de sua prática em forma de círculo, composto por praticantes e assistentes, com dois contendores jogando ao centro, marcada pela cadência de instrumentos musicais, tendo como instrumento principal o berimbau, que comanda o ritmo para a execução das cantigas (Ladainhas e Corridos), acompanhado pelo pandeiro, atabaque e agogô, em espaços públicos das cidades como praças, praias, mercados públicos, cais de portos, dentre outros, foi se transformando em uma tradição e ficou conhecida, até os dias atuais, como roda de rua, constituindo-se assim em um espaço de manifestação pública, pelo fato de que qualquer pessoa pode participar, mesmo aquele que apenas admira, queira conhecer e se divertir jogando a capoeira. (SILVA, 2010) Geralmente, a roda de rua é organizada por um mestre, professor ou aluno graduado ligado a algum grupo de capoeira ou mesmo por um capoeirista desvinculado de qualquer grupo, sendo importante o clima proporcionado, a energia que lhe garante a característica de espetáculo, de festa, do riso, da descontração, da livre expressão, em que qualquer pessoa pode participar, sem necessitar se identificar, com o uso de qualquer vestimenta, inclusive sendo este um dos aspectos mais característicos da roda de rua. É uma tradição que nasce da possibilidade do desequilíbrio, da esquiva, presentes na condição de permanente tentativa de corpos escravizados em se libertar; utiliza os artifícios da dança, da musicalidade transcendente, expressa nas palmas e nos cantos; artimanha do espírito que, usando a liberdade que lhe é peculiar e desconstruindo os limites do corpo controlado, vigiado e constantemente punido (FOUCAULT, 2002), faz da esquiva uma farsa, uma enganação, um fingimento que, se desfazendo no gingado peculiar da arte, constrói um sempre renovado ataque. No espaço das rodas de rua, os elementos simbólicos da capoeira estão presentes e circulam livremente em todos os aspectos que envolvem este tipo de evento, causando uma múltipla gama de reações nas pessoas que assistem à roda: em alguns casos estranheza; em outros perplexidade; em outros, ainda, fascínio. Uma leitura bastante interessante e significativa da capoeira enquanto arte do espetáculo, festa da esquiva, é feita por Vasconcelos, quando afirma que a capoeira se constitui em,

4 Arte da esquiva. Possibilidade de ataque desfeito e refeito pela circularidade de novo movimento que encontra o tempo correto para ser encaixado no ventre do adversário. [...] Ataca, demonstra sua habilidade e resolve não acertar. Sabe que pode bater e não faz porque não quer. A simulação e teatralização da luta é parte de uma dança. [...] Um jogo que dança na malícia da roda. É o entusiasmo e o êxtase do Deus do teatro que no contexto da capoeiragem é capaz de dançar. É Dionísio quem comanda a roda e o cenário de uma embriaguez vigilante e atenta aos mínimos movimentos e intenções do outro. (VASCONCELOS, 2006, p. 120). O cenário de festa e de alegria na capoeira é explicitado, ainda, de forma mais efetiva por Vasconcelos, que segue comentando: O cenário marcado pela alegria de uma embriagante paixão. Imiscuída na preparação de articulações poéticas que entoam o canto da tradição afrodescendente. [...] É provável que essa mnemônica poética explique a arte de criar movimentos bailados no cenário da brincadeira e deslocados pela eficiência da potência [...]. (VASCONCELOS, 2006, p. 121). As formas encontradas pelos capoeiristas para enfrentar suas agruras, superar suas dificuldades e extrema situação de discriminação e perseguição, foi a festa, espaço apropriado para a dança, a comemoração, a inventabilidade, a celebração e a manifestação ritualística, forma criativa e poética de se posicionar eticamente diante dos desafios impostos a sua condição existencial historicamente instituída no Brasil. Assim sendo, o capoeirista cria sua festa mais significativa e mais representativa da rica simbologia da capoeira: o Batizado de capoeira. Festa, ritual e jogo de identidade: o batizado de capoeira enquanto espaço de vivência cultural O significado da festa em nosso imaginário pode ser apreendido de forma condizente pela leitura de DaMatta. Vejamos como ele se expressa: Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, corpo e alma, coisas dos homens e assuntos dos deuses, períodos ordinários onde a vida transcorre sem problemas e as festas, os rituais, as comemorações, os milagres e as ocasiões extraordinárias, onde tudo pode ser iluminado e visto por novo prisma, posição, perspectiva, ângulo... (DAMATTA, 2000, p. 67). No sentido abordado por DaMatta (2000), as festas se situam em nosso imaginário, enquanto um momento de ocorrência fora do comum, sendo que, quando

5 nos envolvemos ou participamos de uma festa, estamos passando das experiências e vivências no rotineiro, de nossa vida cotidiana, para momentos de ocasiões extraordinárias. As festas estão na base de nossa possibilidade de desconstruir os tempos e espaços usuais, recriando novos tempos e novos espaços, refletindo de forma efetiva nas relações sociais, visto que, na festa, os papéis sociais podem ser investidos, pois quem desempenha uma função ou ocupa uma posição social considerada inferior, pode desempenhar a função de um rei ou de uma rainha, ser detentor do título de mestre, ser considerado um excelente cantador, realizar as mais extraordinárias piruetas e receber elogios e reconhecimento, assim como tantos outros exemplos. Entendo que se trata de uma passagem que realizamos constantemente entre o rotineiro, nossas atribuições e atribulações diárias, que tendem a ser enfadonhas, repetitivas e burocratizadas, e o extraordinário, a alternância entre duas racionalidades distintas, uma técnica e racional e outra imaginária e criativa. Nessa segunda racionalidade, a criativa, se situam as expressões das manifestações festivas, que utilizamos para equilibrar nosso modo de vida, promovendo uma alternância entre o que vivenciamos enquanto habitual e o que experienciamos como fruto de nossa criação e invenção, e da qual temos plena consciência, conforme evidencia DaMatta Na nossa sociedade, temos grande consciência dessa alternância, de tal modo que a vida, para a maioria de nós, se define sempre pela oscilação entre rotinas e festas, trabalho e feriado, despreocupações e chateações, dias felizes e momentos dolorosos, vida e morte, os dias de dureza e trabalho duro do mundo real e os dias de alegria e fantasia desse outro lado da vida constituído pela festa [...]. Realmente, na festa, comemos, rimos e vivemos o mito ou utopia da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico [...] na construção da festa, a música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia é algo absolutamente fundamental no caso brasileiro. (DAMATTA, 200, p. 69). Todas as culturas se utilizam de uma variedade e riqueza de modos para organizar suas festas, formando uma memória social que serve de fundamento para a criação e recriação de suas tradições e identidades, sendo necessário um mergulho aprofundado na constituição interna de cada cultura para que se desenvolva uma compreensão de como são definidos e estabelecidos os tempos, espaços e duração de suas festas. Vejamos o caso da capoeira que se apropria dos elementos, características e possibilidades do jogo para estabelecer seus fundamentos e desenvolver suas festas.

6 Assim como em algumas culturas negras, para se entender a capoeira, para se compreender os significados de seus movimentos, o diálogo corporal e gestual presente no jogo, faz-se necessário que se desprenda da lógica do pensamento ocidental que orienta nossa forma de se relacionar com e na sociedade atual. Na capoeira não podemos apreender os significados de forma direta e pragmática, faz-se necessário ver além do material, do visual, além do que nossa visão pode enxergar e tentar ver com os olhos do espírito, do não material. Alguns dos elementos da cultura africana, trazidos pelos vários povos escravizados, podem ser identificados claramente no jogo da capoeira, notadamente na roda de capoeira e, mais especificamente, na festa do batizado de capoeira. O universo, na concepção do africano, é composto por tudo o que se manifesta ou oculta, não podendo ser compreendido enquanto simples relação entre o visível e o invisível, o subjetivo e o objetivo, visto que a realidade encontra-se para além das aparências, numa visão unificada que tende a harmonizar o mundo natural e o mundo social, num todo que envolve a tudo e a todos, interligando todas as coisas (OLIVEIRA, 2003). Esta concepção está presente na tradição da capoeira e se evidencia na postura de seus praticantes, na decifração e atendimento de seus códigos, quando tentam explicar em que se constitui o jogo e não encontram elementos para significar essa prática. Pois a capoeira, a partir da compreensão africana de universo, envolve uma dinâmica de totalidade, de todo, de completude, ou seja, quem não entende a compreende, tende a querer explicá-la por meio de alguma de suas características isoladas, daí as várias denominações reducionistas atribuídas à capoeira, quando se pretende dar conta de sua complexidade por conceituações simplistas, tais como dança, luta, brincadeira, dentre outras. Ao contrário capoeira vai além de cada conceito atribuído isoladamente; capoeira é um todo, organizado por meio de uma complexa dinâmica que, pela afirmação e negação, se deixa apreender em cada conceito e, por meio de alguma farsa, nega, se rebela, recria, retoma, inventa formas de ser, sem nunca ser; como diriam os mestres antigos capoeira é capoeira. Assim sendo, no universo da capoeira foi desenvolvida uma forma de festividade singular, com elementos constituintes que lhe garantem sentido e significado, tornando-se uma tradição de significativa riqueza e representatividade cultural, além de contribuir para a preservação de traços culturais de nossos antepassados. Trata-se do Batizado de capoeira, festa elaborada como uma espécie de ritual de iniciação e de passagem, pois realiza a iniciação dos novos capoeiristas e promove a ascensão hierárquica dos componentes iniciados; possui caráter interativo, visto que reúne

7 capoeiristas, familiares, pessoas da comunidade próxima e distante, curiosos, elementos dos diversos grupos de capoeira, convidados, dentre muitos outros; envolve numa mesma celebração, na mesma festa, manifestações diversas, tais como jogo, danças 5, ritmos, músicas. O Batizado de capoeira se constitui em uma festa de manifestação cultural da arte capoeira, de tradição popular e forte conotação identitária social e cultural brasileira, assim como da preservação do sentimento cultural afrodescendente. Posso afirmar, a partir de minhas vivências experienciais no universo da capoeira, ancorado nas ideias de Almeida (1994), que o Batizado teve suas primeiras manifestações na academia de Mestre Bimba 6 em Salvador-BA, que colocava os iniciantes para jogar pela primeira vez numa roda com um aluno formado (como denominava os iniciados), acompanhado do berimbau que executava o seu famoso toque de São Bento Grande. Ao aluno formado cabia somente acompanhar o calouro, deixando-o livre para aplicar os golpes aprendidos e executar corretamente as esquivas, bases de seu método. Findo o jogo, Mestre Bimba colocava o iniciante (chamado de calouro) no centro da roda e pedia que um formado lhe desse um apelido (nome de guerra) ou ele mesmo escolhia esse apelido, atentando às características físicas ou da maneira de se expressar no jogo. Depois desse ritual de escolha do novo nome, todos batiam palmas e o aluno era considerado batizado, iniciando a festa, seguindo bem as tradições africanas, com muito samba de roda e manifestação de suas baianas. Dessa forma, o batizado de capoeira pode ser entendido como uma festa com características tradicionais de um ritual cultural que representa o momento em que os novos capoeiristas receberão a sua primeira graduação pelo mestre de capoeira, se inserindo oficialmente como elemento componente do grupo. Numa representação bem próxima da Cosmovisão Africana (OLIVEIRA, 2003), a festa do batizado de capoeira é impregnada de elementos de mudança (iniciantes deixam de serem pagãos; iniciados são promovidos). Sabendo que Na cosmovisão africana a mudança é para a inclusão e não para a exclusão. (OLIVEIRA, 2003, p. 109), pautada na pluralidade e não na unidade e que estes elementos estão presentes 5 É comum nos Batizados de capoeira a organização de manifestações, folguedos, danças, lutas, exibições artísticas bastante singulares, das quais podemos destacar o Maculelê, o Samba de roda, a Puxada de rede, o Xaxado, o congo, o Jongo, o Côco etc. Dependendo da região em que se realiza são identificadas ainda outras manifestações, como por exemplo, o Carimbó (Pará), a Catira (Goiás), Bateria de Escolas de Samba (Rio de Janeiro), o Maracatu e o Frevo (Pernambuco), dentre outros. 6 Manuel dos Reis Machado, um dos mais conhecidos mestres de capoeira do Brasil, tendo pensado e elaborado um método pedagógico de ensino e prática da capoeira, que ficou conhecido como Capoeira Regional. É considerado por seus discípulos como o pai da capoeira moderna.

8 na dinâmica da festa do batizado, situados em sua razão de ser. Podemos perceber facilmente, nessa festa, a capacidade de reunir para celebrar a vida dos velhos mestres perpetuados na memória coletiva da capoeira, o movimento, as artes e artimanhas do corpo e suas esquivas criadoras e continuadoras, comemorar passagens e festejar em comunidade, o que permite e dá condição da manifestação e expressão das pluralidades, assim como da mudança enquanto inclusão. Outro aspecto relevante na festa do batizado é o apelido que os capoeiristas recebem, numa forma de revisitar a memória da capoeira, reinterpretando uma prática comum quando a capoeira era perseguida e proibida de ser manifestada, nos idos de 1840, devendo o praticante dos exercícios de capoeiragem ser detido, preso e até deportado do Brasil. Numa ação criativa para burlar essa prática, pois o capoeirista preso era fichado nas delegacias de polícia e tinha seu nome destacado para possíveis casos de reincidência, foi desenvolvida a prática do emprego dos apelidos, prática essa que virou tradição e ficou registrada na memória coletiva dessa cultura. Assim os capoeiristas tinham sua identidade resguardada, desaparecendo as identidades comuns e surgindo os lendários capoeiristas: Besouro, Bimba, Manduca da Praia, Querido de Deus, Maria Doze Homens etc. O Batizado de capoeira reinventa essa tradição, mantendo o costume de se atribuir apelidos para os novos capoeiristas, numa festa em que são apresentados à comunidade da capoeira do entorno social envolvido, próximo ou distante. O ritual é realizado com o capoeirista sendo chamado individualmente, apresentado à comunidade, para jogar com outros capoeiristas, um professor ou mestre convidado e, assim, desfrutar da oportunidade de conhecer novos professores, mestres e capoeiristas de outros grupos, de outros locais e tempos diferentes do seu. No dia da festa os iniciantes, quando anunciados, deverão entrar no espaço da festa percorrendo a roda, fazer uma reverência ao berimbau, que estará localizado numa posição central à roda, com os ritmistas à frente, agachando-se e continuando a percorrer a extensão da roda, até que todos tenham feito o mesmo ritual. Nesse momento deverão sentar à roda, formando o círculo, sendo convidados por um mestre ou professor convidado para jogar a capoeira, findo o qual estará batizado na capoeira. Em alguns espaços é comum a presença da madrinha, que, antes do início do jogo de batismo do aluno iniciante, é convidada por ele a entrar na roda, amarrar a corda de iniciante em sua cintura e lhe entregar um buquê de flores. Este ritual perdeu sentido e força na atualidade, devido ao número grande de capoeiristas que são

9 iniciados, o que demandava muito tempo para a realização da festa e acabava cansando as pessoas que vieram participar e prestigiar o batizado. A música é outro importante fundamento do batizado de capoeira, tendo a função de transcender o espírito dos capoeiristas, estimulando-os a jogar com sentimento, provocar sensações, despertar a criatividade e transmitir mensagens, notadamente aos novos capoeiristas. A roda de capoeira desempenha papel essencial na festa do batizado, visto ser o espaço e tempo de manifestação do capoeirista, onde se confirma sua natureza, sua identidade em harmonia com o seu Mestre e os demais convidados, marcando sua inserção no universo das rodas de capoeira. A festa do batizado se constitui, também, no momento de mudança de graduação do capoeirista iniciado, ou veterano, de formatura de novos professores e mestres, da entrega de corda para os que demonstraram compromisso na prática e aprimoramento de suas habilidades. Os capoeiristas iniciados recebem sua graduação de acordo com o seu desenvolvimento integral na prática na capoeira, que são avaliados de maneira bastante subjetiva por cada mestre ou professor, mas que contém aspectos que são comuns a todos e essenciais no mundo da capoeira, dentre os quais podemos destacar: os conhecimentos que demonstra ter adquirido por meio dos saberes que, transmitidos pelos mestres, foi capaz de se apropriar e os tornar real em sua prática, dentro e fora da capoeira; a evolução nos movimentos demonstrada por sua capacidade de leitura, de criação e de reinvenção desses movimentos; a forma peculiar, própria e associada a sua capacidade de dialogar com o seu corpo em interação com os demais corpos no jogo da capoeira; sua percepção musical, notadamente na forma com que identifica e descobre a malícia e a maldade escondidas nas letras das cantigas; sua capacidade criativa e poética na composição das músicas e na capacidade de contar as histórias da capoeira para os novos alunos e outras pessoas, contribuindo na manutenção e na perpetuação da memória coletiva da capoeira e dos saberes dos mestres; o conhecimento e a prática no uso dos instrumentos da capoeira, em especial o berimbau, do qual deve saber armar e executar os toques fundamentais da capoeira, sabendo os ensinar; dentre muitos outros que a extensão e os propósitos deste artigo não me permite aprofundar. São realizadas diversas manifestações artístico-culturais, com a execução de danças, jogos, teatro, músicas, poesias, enfim, o encontro de uma riqueza de culturas com a capoeira, expressando e fortalecendo o espírito plural e inclusivo dessa festa da cultura brasileira afrodescendente, forma apropriada de demonstrar todos os valores

10 que traz a capoeira dentro de seu conjunto, suas peculiaridades, seus princípios e fundamentos, forma apropriada de expressão da tradição e rituais da cultura negra no Brasil. Considerações finais O Batizado na capoeira é uma festa de integração, celebração, comemoração e afirmação, criada e transformada em tradição para marcar a entrada de novos capoeiristas no mundo da capoeira, momento em que recebe um apelido que lhe conferirá sua identidade neste universo cultural, festa que se presta, ainda, em apresentar para a comunidade os novos alunos formados, professores e mestres da arte capoeira. Atualmente se constitui em lugar de festa e preservação das tradições de nossa cultura, festa das festas mais significativas da cultura negra no Brasil, visto ser realizado em vários recantos, lugares, espaços e tempos, além de envolver pessoas das mais variadas culturas no Brasil e pelo mundo afora. Após as reflexões propostas neste artigo, sabido de sua brevidade, espero contribuir para a abertura de novos espaços para se discutir e conhecer um pouco mais sobre a capoeira, seus aspectos fundamentais, suas festas e suas possibilidades, enquanto cultura que, diante de toda espécie de perseguição e discriminação, soube resistir e continuar viva, conseguindo se afirmar enquanto fenômeno sócio-cultural brasileiro, de acentuada ascendência africana e espaço vivo e dinâmico de preservação da memória dos saberes dos mestres, enquanto patrimônio imaterial brasileiro e, acima de tudo, pedagogia da esquiva e da malandragem. Concluo reiterando que a Capoeira, em nosso entendimento, envolve em sua prática elementos de arte, dança, luta, música, canto, poesia, história, dentre outros aspectos, numa mistura de expressões que formam uma espécie de jogo, de disputa marcada pela malícia, pela ludicidade e agilidade plástica, um bailado fortemente marcado pela expressão caracteristicamente cultural e identitária negra, expressão essa representada e significativamente presente nos cenários sócio-urbanos brasileiros, marcada pela presença de elementos simbólicos que circulam livremente, uma arte do espetáculo, do riso, da descontração e da livre expressão; forma encontrada pelos negros para enfrentar suas agruras, superar suas dificuldades e extrema situação de discriminação e perseguição, transformada em festa, em espaço apropriado para a dança, a comemoração, a inventabilidade, a celebração e a manifestação ritualística, criativa e poética.

11 Referências Bibliográficas ALMEIDA, Raimundo César Alves. A Saga do Mestre Bimba. Salvador: Ginga Associação de Capoeira, CASCUDO, Luís da Câmara. História dos nossos gestos. São Paulo: Edições Loyola, São Paulo, Global, DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 11. ed. Rio de Janeiro: Rocco, FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 26. ed. São Paulo: Vozes, GOLDENBERG, Mirian. De perto ninguém é normal: estudos sobre corpo, sexualidade e, gênero e desvio na cultura brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, OLIVEIRA, Eduardo. A Cosmovisão africana no Brasil: elementos para uma filosofia afro-descendente. Fortaleza-CE: J.C.R, SILVA, Robson Carlos da. Capoeira: o preconceito ainda existe? Teresina-PI: Armazém Digital, Roda de rua: notas etnográficas a respeito do jogo da capoeira como fenômeno sociocultural urbano. IN: BONFIM, Maria do Carmo Alves (org.). Educação e diversidade cultural. Fortaleza, Edições UFC, p (Coleção Diálogos Intempestivo, v. 87). SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Capoeira Escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro ( ). 2 ed. Campinas-SP: Editora da UNICAMP, VASCONCELOS, José Gerardo. A Dança do bêbado: embriaguez e teatralidade na arte da capoeiragem. In: VASCONCELOS, José Gerardo; SALES, José Albio Moreira. (orgs.). Pensando com arte. Fortaleza: Edições UFC, p VIEIRA, Luiz Renato. O Jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. Rio de Janeiro: Sprint, 1995.

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