Inclusão da moeda chinesa no SDR não deverá alterar sua trajetória no curto prazo

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1 INFORMATIVO n.º 44 DEZEMBRO de 2015 Inclusão da moeda chinesa no SDR não deverá alterar sua trajetória no curto prazo Fabiana D Atri* Dentro do esperado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou no último dia 30 de novembro a inclusão do renmimbi (RMB) como a quinta divisa a compor o Special Drawing Rights (SDR), uma cesta de moedas de reserva, com a participação chinesa de 10,92% (sendo que o dólar, o euro, a libra esterlina e o iene contribuirão com 41,73%, 30,93%, 8,09% e 8,33%, respectivamente 1 ). Entendemos que, no curto prazo, uma possível apreciação do RMB decorrente do aumento da demanda pela moeda chinesa pelos bancos centrais, na composição de suas reservas estrangeiras, deverá ser mínima. Ao mesmo tempo, a valorização do dólar tendência observada neste ano e que poderá se intensificar ao longo do ano que vem aumenta a expectativa do mercado de uma depreciação mais expressiva do RMB. No entanto, acreditamos que o banco central da China deverá manter a moeda estável como já anunciado publicamente, ainda mais quando levamos em conta as preocupações decorrentes dos ruídos gerados em agosto quando o banco central depreciou a moeda (e depois, nos últimos meses, voltou a apreciar na tentativa de conter a saída de capitais do país). Não podemos também descartar a possibilidade de que o banco central altere a cesta de referência de moedas, com base na qual o RMB deverá variar 2, que poderá considerar a variação do euro e do iene (que deverão depreciar). Nesse cenário, a pressão para a perda de valor da divisa chinesa ficará menor, tendo em vista a tendência de depreciação do iene e do euro, frente à apreciação do dólar. De todo modo, os mercados manterão suas atenções voltadas à reação da autoridade monetária chinesa e, por ora, assumimos que o renmimbi poderá depreciar no máximo 5%, gradualmente, ao longo de A última revisão da cesta tinha acontecido em 2010 e acontece a cada 5 anos. 2 Lembrando que atualmente apenas considera o dólar, mas poderão levar em conta o euro e o iene, oriundos de importantes parceiros comerciais da China. 1

2 A decisão do FMI leva em conta a importância do país e, consequentemente, da moeda, no comércio mundial e no seu uso nas transações financeiras globais. Indubitavelmente, a participação chinesa no comércio mundial é expressiva, uma vez que hoje ocupa o papel de maior exportador global de bens. Segundo a SWIFT 3, o RMB respondeu por 2,45% de todos os pagamentos realizados no mundo em outubro de 2015, ocupando a posição da quinta moeda mais usada. No entanto, a segunda condição, que exige o livre uso da moeda, sugere que tenha total convertibilidade e flutuação livre. Em outras palavras, a moeda chinesa deveria oscilar segundo os mecanismos de mercado o que não acontece. A leitura do FMI, contudo, deve ter levado em conta um conceito mais amplo de uso, não considerando por enquanto os controles de capital e as intervenções no mercado cambial, hoje existentes. A inclusão, na prática, ocorrerá a partir de outubro de 2016 e tem um papel simbólico bastante importante, na medida em que representa mais uma etapa, de outras tantas, da internacionalização, de fato, da moeda chinesa que exigirá, por exemplo, a abertura da conta capital e o desenvolvimento de um mercado internacional de títulos do governo chinês 4. 3 Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, é uma sociedade de cooperação internacional voltada à padronização das transações financeiras globais. 4 Este mercado ainda é bem pequeno. Segundo o banco central da China, com informações reportadas em relatório do Barclays, os investidores estrangeiros detinham RMB 764,4 bilhões (US$ 120 bilhões) de títulos domésticos, em setembro de

3 Ainda em termos práticos, a inclusão do RMB tem impacto global reduzido e incide principalmente sobre instituições financeiras internacionais (como as reservas administradas pelo Banco Internacional de Compensações, os países que tomam empréstimos do FMI e os bancos centrais que alocam uma parte de suas reservas em SDR 5 ), não influenciando necessariamente as transações financeiras em si. Ou seja, entendemos que, no curto prazo, uma possível apreciação decorrente do aumento da demanda do RMB pelos bancos centrais, na composição de suas reservas estrangeiras, deverá ser mínima. Assumindo que 11% das reservas em SDR sejam alocadas em RMB, a demanda pela moeda chinesa chegaria a um montante no máximo de US$ 30 bilhões. Cabe lembrar, contudo, que os bancos centrais já detêm, no agregado global, um pouco menos de US$ 100 bilhões de suas reservas alocadas em RMB. Isso significa dizer que o influxo obrigatório em decorrência do SDR, talvez seja muito pequeno. Esse montante, por sua vez, também é muito pequeno perto do total de reservas globais, que chegam a US$ 11,5 trilhões ou quase US$ 8 trilhões, excluindo a China 6. 5 Estima-se que os bancos centrais alocam cerca de 3% em SDR do total de suas reservas, o que representa algo próximo a US$ 280 bilhões. 6 Como referência aos dados, sugerimos, conforme consulta em 02/12/2015: o site do FMI e a pesquisa SURVEY ON THE HOLDINGS OF CURRENCIES IN OFFICIAL FOREIGN CURRENCY ASSETS 2015, também conduzida pelo FMI 3

4 O impacto mais relevante, na nossa visão, deverá se consolidar à medida que as reformas internas no país avancem na direção de liberalização e flexibilização dos mercados cambial e de títulos do governo. Aí, o RMB poderá adotar o caráter de uma moeda de reserva, de fato, com demanda internacional para alocações de reservas e de fundos soberanos. A exposição de investidores institucionais, por sua vez, levará mais tempo, demandando alterações das regras de fluxo de capital chinês, bem como das condições da própria economia e das perspectivas para a moeda. Desde 2007, o governo chinês vem avançando em iniciativas para internacionalizar sua moeda. Inicialmente, foram criados os chamados dim sum bonds e o mercado offshore para os títulos denominados em moeda local, em Hong Kong. A outra frente, de internacionalização, que começou em 2008, vem das relações comerciais negociadas exclusivamente na moeda chinesa, que chegaram a 22% de todo volume comercializado pela China em Além disso, o aumento do uso do RMB no mercado global será uma tendência crescente, acentuada pelos diversos acordos de swap cambial assinados com diversos países 7 desde Mais voltado ao mercado de capitais, desde 2010, há a possibilidade de investidores estrangeiros investirem no mercado chinês e, com a criação da Zona de Livre Comércio de Shanghai em 2013, esses pilotos vêm crescendo rapidamente. Ao mesmo tempo, a pressão para a apreciação do dólar tendência que poderá se intensificar ao longo do ano que vem aumenta a expectativa de uma depreciação mais expressiva do RMB, respondendo ao ganho de valor da moeda norte-americana. Ainda que parte do mercado acredite que, uma vez tomada a decisão do FMI, o banco central chinês permitirá que o renmimbi deprecie, temos uma visão mais cautelosa. Entendemos que após o evento, no mínimo confuso, do início de agosto (quando a moeda depreciou bastante em poucos dias), a autoridade monetária do país será mais cuidadosa nos seus próximos movimentos. A preocupação principal recai sobre o fluxo de capital. Quando, há alguns meses, a sinalização foi na direção de ajuste do RMB, a saída de recursos da China foi muito expressiva e rápida haja vista a queda das reservas, elevando, assim o custo 7 Como Argentina, Brasil, Canadá, Coreia, Singapura, União Europeia, Reino Unido, Hong Kong, Indonésia, Tailândia. 4

5 de estancar essa tendência. Com isso, nosso cenário central é de que o RMB (i) deverá ficar estável no restante deste ano e (ii) depreciará gradualmente com alguma volatilidade em relação ao dólar, chegando ao máximo de 5% ao final de * Fabiana D Atri é atualmente economista coordenadora do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco e Diretora de Economia do CEBC. 5

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