POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES DE DISCUSSÕES DE CONTROVÉRSIAS SOCIOCIENTÍFICAS COM RECURSO À PLATAFORMA MOODLE PARA A PROMOÇÃO DA ARGUMENTAÇÃO

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1 POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES DE DISCUSSÕES DE CONTROVÉRSIAS SOCIOCIENTÍFICAS COM RECURSO À PLATAFORMA MOODLE PARA A PROMOÇÃO DA ARGUMENTAÇÃO José Fanica Agrupamento de escolas de Romeu Correia Pedro Rocha dos Reis Instituto de Educação da Universidade de Lisboa Resumo Esta comunicação apresenta uma experiência educativa que envolveu dezassete alunos da disciplina de Física do 12º ano na discussão de controvérsias sociocientíficas através da plataforma Moodle, com o objetivo de promover as suas capacidades de pensamento crítico e de argumentação. A turma foi organizada em quatro grupos, tendo cada um deles discutido as mesmas questões controversas (relacionadas com a produção de biodiesel e a atividade do CERN - European Organization for Nuclear Research) num fórum específico. As discussões envolveram a representação de papéis, cabendo a cada elemento do grupo recolher informação e argumentar segundo um determinado papel. As conclusões finais foram publicadas em vídeo. A análise de conteúdo das interações estabelecidas nos fóruns de discussão e das respostas a um questionário on-line permitiram aceder às conceções dos alunos acerca das potencialidades e limitações da discussão e da representação de papéis com recurso ao moodle. Os resultados evidenciaram uma variação da qualidade argumentação de acordo com vários fatores, nomeadamente o tema em discussão e a introdução na atividade de questões orientadoras da argumentação. Constatou-se, também que, os fóruns de discussão facilitam o desenvolvimento de capacidades de comunicação, argumentação e reflexão. Palavras-chave: Moodle, vídeos, controvérsias sociocientíficas, argumentação, representação de papéis. 1.1 Objetivos gerais do projeto Estudar as potencialidades da discussão (com recurso a representação de papéis) de controvérsias sociocientíficas de fóruns de discussão no moodle. Conceber e avaliar estratégias para o desenvolvimento explícito de competências argumentativas.

2 1.2 Contextualização da problemática A discussão de questões sociocientíficas (controvérsias sociais suscitadas por propostas científicas e tecnológicas) em contexto educativo permite desenvolver, simultaneamente, capacidades de raciocínio lógico e moral e uma compreensão mais profunda de aspetos importantes da natureza da ciência (Bell & Lederman, 2003; Reis, 2004, 2006). A incerteza patente nas questões sociocientíficas fornece um contexto multidisciplinar mais complexo para o desenvolvimento de capacidades de argumentação (Bell & Lederman, 2003; Sadler, 2009; Sadler, Chambers & Zeidler, 2004; Sadler & Fowler, 2006). Argumentar cientificamente, envolve propor, apoiar, criticar, avaliar e aperfeiçoar ideias, algumas das quais podem conflituar ou competir, acerca de um assunto científico, (Shin, Jonassen & McGee, 2003). 1.3 Metodologia genérica Esta experiência educativa envolveu os alunos de uma turma de Física do 12.º ano na discussão de controvérsias sociocientíficas através da plataforma Moodle, com o objetivo de promover as suas capacidades de pensamento crítico e de argumentação. A turma, constituída por 17 alunos (13 rapazes e 4 raparigas), foi organizada em 4 grupos, com quatro elementos cada, com exceção de um grupo constituído por 5 elementos. Nas atividades desenvolvidas cada um dos elementos do grupo desempenhou uma personagem diferente (atribuída por sorteio). As atividades centraram-se nas controvérsias sociocientíficas suscitadas pela produção de biodiesel ( A fábrica de biodiesel ) e pela atividade do CERN ( O CERN deverá encerrar os aceleradores? ). Para cada destes casos foi criada uma WebQuest. No caso A fábrica de biodiesel a WebQuest ficou alojada em: Esta atividade implicou quatro tarefas (cada uma com a duração de uma semana). Na primeira, os alunos pesquisaram individualmente sobre a sua personagem e publicaram os seus argumentos no fórum criado no moodle para cada grupo. Na segunda tarefa, as personagens discutiram entre si no fórum do seu grupo. Apenas os elementos do grupo e o professor tiveram acesso a esse fórum. Com base na discussão realizada, cada grupo chegou a uma conclusão. Cada

3 um dos grupos efetuou um pequeno vídeo com os argumentos concisos sustentados pelo grupo. Os vídeos só podiam ter a duração máxima de 120 segundos (disponíveis em Na terceira tarefa, os grupos apresentaram os vídeos à turma. Os argumentos presentes em cada vídeo foram discutidos durante dois dias, num outro fórum no moodle acessível a todos os alunos da turma e ao professor. Posteriormente, na quarta tarefa, os alunos da turma reformularam os seus argumentos e construíram em conjunto um vídeo com a duração de 9 minutos com a posição consensual alcançada (disponível em No caso O CERN deverá encerrar os aceleradores? a WebQuest ficou alojada no moodle. Esta atividade foi dividida em três tarefas. A metodologia seguida foi idêntica à da primeira, mas sem a produção de vídeos. Depois de concluídas as duas atividades os alunos responderam a um questionário no google docs ( com o qual se pretendeu aceder às suas conceções acerca das potencialidades educativas destas atividades, inventariando aspetos positivos e negativos e as principais dificuldades sentidas durante a realização deste tipo de atividades de discussão com recurso ao moodle. O contributo das atividades na capacidade de argumentação dos alunos foi avaliada através da análise de conteúdo das interações estabelecidas nos fóruns de discussão. 1.4 Principais resultados Ao contrário do que acontece durante a discussão tradicional em sala de aula, os fóruns de discussão no moodle permitem manter um registo das interações efetuadas para posterior análise. A discussão estabelecida entre os alunos nos fóruns originou, por atividade, uma média de 15 páginas de interações por grupo e cerca de 50 páginas na discussão alargada a toda a turma. A análise destes registos permitiu detectar impactos das atividades realizadas na capacidade de argumentação dos alunos, principalmente quando a argumentação é orientada pelos seguintes tópicos: Qual é a tua decisão? Que dados/evidências apoiam a tua decisão? Como é que os dados/evidências que selecionaste apoiam a tua decisão? Baseados nos mesmos dados/evidências, os teus colegas poderão chegar a uma decisão diferente.

4 Qual achas que poderá ser essa decisão? Como é que poderás convencer os teus colegas de que a tua decisão é mais razoável? A análise de conteúdo das respostas dos alunos ao questionário on-line permitiu constatar que os alunos se sentiram interessados pelo aspecto inovador das atividades e valorizaram, especialmente, o contacto com opiniões diferentes das suas e a possibilidade de realizarem as atividades em espaços e tempos que não se limitam aos períodos de aulas: É uma maneira mais interessante de fazer um trabalho de pesquisa. (Aluno X, questionário); Pode ser feito 24 horas por dia e tem a capacidade de ficar guardada a conversa. (Aluno Y, questionário); Analisar as questões de determinada perspetiva que não necessariamente a minha. (Aluno Z, questionário). A interação através dos fóruns de discussão permitiu ultrapassar as dificuldades de alguns alunos em participarem nas atividades presenciais de sala de aula. Os fóruns foram vividos como uma mais-valia para as aulas de Física, facilitando a construção de novos conhecimentos e o desenvolvimento de capacidades de argumentação, comunicação e pesquisa: Tive a oportunidade de representar um papel sobre o qual não tinha conhecimentos, o que me obrigou a pesquisar e tentar perceber este ao máximo. (Aluno A, questionário); Desenvolvimento das capacidades de argumentação, de comunicação e das competências ao nível da pesquisa. (Aluno X, questionário). A produção dos vídeos de curta duração, como síntese dos argumentos utilizados nos fóruns, também teve impacto na construção de conhecimento e na motivação dos alunos: Os vídeos são uma boa maneira de transmitir aos outros a opinião de cada grupo. (Aluno Z, questionário) As principais dificuldades relatadas pelos alunos neste tipo de atividades relacionaram-se com (a) a complexidade em assumirem o papel de uma personagem que defende ideias diferentes das suas, (b) a capacidade em encontrarem informação relevante para a fundamentarem os seus argumentos, (c) problemas técnicos pontuais na plataforma da escola, e (d) alguns aspectos inerentes ao carácter assíncrono dos fóruns: O tempo de resposta dos meus colegas, basicamente é uma coisa que leva o seu tempo, não se trata de uma discussão instantânea. (Aluno B, questionário); Na pesquisa de informação relevante. (Aluno Y, questionário)

5 REFERÊNCIAS Bell, R. & Lederman, N. (2003). Understanding the nature of science and decision making on science and technology based issues. Science Education 87(3), Reis, P. (2004). Controvérsias sócio-científicas: discutir ou não discutir? Percursos de aprendizagem na disciplina de ciências da terra e da vida. Lisboa: DEFCUL Reis, P. (2006). Uma iniciativa de desenvolvimento profissional para a discussão de controvérsias sociocientíficas em sala de aula. Revista Interacções, 2(4), Sadler, T. D. (2009). Situated learning in science education: socio-scientific issues as context for practice. Studies in science Education, 45(1), 1-42 Sadler, T. D., Chambers, F. W., & Zeidler, D. L. (2004). Student conceptualization of the nature science in reponse to socioscientific issues. International Journal of Science Education, 26(4) Sadler, T. D. & Fowler, S. R., (2006). A threshold model of content knowledge transfer for socioscientific argumentation. Science Education, 90(6), 986 Shin, N. Jonassen, D & McGee, S. (2003). Predictors of well-structured and ill-structured problem solving in an astronomy simulation. Journal of Research in Science Teaching, 40(1), 6-33.

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