Faculdade de Letras UFRJ Rio de Janeiro - Brasil

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1 02 a 05 setembro 2013 Faculdade de Letras UFRJ Rio de Janeiro - Brasil SIMPÓSIO - Conhecimento linguístico, aquisição e perda de categorias funcionais

2 INDÍCE DE TRABALHOS (em ordem alfabética) A emergência dos clíticos na gramática do Espanhol Carolina Parrini Ferreira O aspecto iterativo em sentenças com a perífrase estar + gerúndio português do Brasil: uma análise por traços Anne Katheryne Estebe Maggessy Página 03 A periferia esquerda da oração no crioulo de Guiné-Bissau Pollyanna Pereira de Castro Página 05 Aquisição da ordem verbo-sujeito em interrogativas do Espanhol como L2 por falantes adultos do Português Brasileiro Samara de Souza Almeida Ruas Página 07 Déficits no processamento de tempo e aspecto na afasia de Broca Fernanda de Carvalho Rodrigues e Celso Vieira Novaes Página 08 Página 10 Um estudo longitudinal de Tempo e Aspecto na demência do tipo Alzheimer Juliana Barros Nespoli e Celso Vieira Novaes Página 11

3 A emergência dos clíticos na gramática do Espanhol Carolina Parrini Ferreira O presente trabalho tem o objetivo de estudara aquisição dos clíticos por uma criança madrilena. Costa e Lobo (2006), em um estudo sobre a complexidade e omissão dos clíticos no Português europeu, afirmam que a aquisição dos clíticos se processa de forma gradual e em termos de complexidade, sendo os clíticos reflexos adquiridos antes dos acusativos e dativos (com base na hipótese da maturação, de RADFORD, 1986).Marcilese, Corrêa e Augusto (2008) esclarecem que a complexidade do processamento dos complementos pronominais varia conforme a idade da criança e a língua em aquisição. No mesmo sentido, Lopes (2007), em seu estudo sobre a aquisição inicial da sintaxe, afirma que mesmo em línguas de clítico há comportamentos distintos, havendo estágios de omissão em umas, mas não em outras.segundo esta autora, línguas de clítico, em geral, apresentam alguns problemas para a criança que as adquirem, ou por conta de elementos de concordância (como se sabe, as crianças têm problemas inicialmente com concordância) ou por tornarem a derivação muito complexa (clíticos se movimentam para concordar com um antecedente que pode não estar próximo). Assim sendo, com base nos dados da fala do menino Juan, na faixa etária entre dois anos (2a) e dois anos e seis meses (2a6m), pretendo evidenciar a gradualidade mencionada em Costa e Lobo (2006), na gramática do Espanhol. A partir desse objetivo, os dados foram repertoriados da seguinte forma: foi feito o levantamento de todos os contextos de retomada de complementos verbais e observadas as estratégias selecionadas pelo informante para realizar as retomadas. Dessa forma, foi possível observar quatro tipos de estratégias para retomar complementos verbais: através do clítico (loquiero), pela repetição do sintagma nominal (quieroelleón), pelo uso de outros pronomes (quieroeso) e o apagamento (no Ø quiero). A análise dos dados considerou também a natureza argumentaldos complementos retomados através de cada uma das quatro estratégias. Os resultados mostram que a emergência dos clíticos,na gramática do menino Juan, se dá de forma gradual e em termos de complexidade, corroborando a afirmação de Costa e Lobo (2006). Pode ser observado que, conforme o aumento da idade, maior é a frequência de retomadas por clíticos e menor é a frequência de apagamentos.em relação ao tipo de complemento retomado, os reflexivos são os mais frequentes, seguidos dos acusativos e, por último, os dativos. A frequência de realizações dos clíticos reflexivos e acusativos aumenta com o aumento da idade, e a retomada dos dois complementos (acusativo e dativo) apresenta uma pequena expressão e só acontece na última idade analisada (2a6m). O apagamento dos clíticos reflexivos ocorre apenas na primeira idade analisada (2a). Acredito que os resultados obtidos neste estudo vão ao encontro da proposta do simpósio intitulado 3

4 conhecimento linguístico, aquisição e perda de categorias funcionais, uma vez que trata da aquisição da linguagem e evidencia informações sobre a emergência de uma categoria funcional, que são temas do referido simpósio. 4

5 A periferia esquerda da oração no crioulo de Guiné-Bissau Pollyanna Pereira de Castro O propósito deste trabalho é descrever e discutir a ordem de constituintes nas construções A-barra (interrogativas, tópico e foco) da língua crioula de Guiné-Bissau (CG), à luz das propostas de Rizzi (1997, 2004) para a periferia esquerda da oração. O CG permite dois tipos de topicalização: deslocamento para a esquerda e tópico com lacuna. O tópico com resumptivo (deslocamento para a esquerda) pode ocorrer à esquerda da palavra interrogativa, como mostra o dado em (1): 1. Jon, ke ki i kume? João o que que 3SG comer O João, o que que ele comeu? O tópico com lacuna ocorre à direita da palavra interrogativa, conforme indica o exemplo em (2): 2. Kin na festa ku bu odja? Quem na festa que você ver Quem, na festa, que você viu? O fato de poder haver duas posições para tópico em CG, acima e abaixo da palavra interrogativa, nos remete à hierarquia de projeções funcionais sugerida por Rizzi. Segundo o autor, a palavra interrogativa se encontra em FocP, e há a possibilidade de ocorrência de tópico à direita (baixo) ou à esquerda (alto) dessa projeção, como em (3): 3. TopP>FocP>TopP O complementizador ku/ki ( que ) ocorre no núcleo de uma outra projeção funcional periférica. Neste caso, sugerimos que tal posição seja finitude (FinP), uma vez que a presença desse complementizador está associada às sentenças finitas. Assim, a periferia esquerda do CG é fechada pelo complementizador que marca a oração como finita. No exemplo (4), temos, então, evidências estruturais para a manifestação em CG das seguintes projeções funcionais que se conformam à hierarquia sugerida por Rizzi: TopP>FocP>TopP> FinP: 5

6 3. [TopP Abo [FocP kin [TopP na festa [FinP ku [ IP bu odja]]]]]? 2SG quem na festa que 2SG ver Você, quem, na festa, que você viu? Existem ainda outras estruturas A-barra do CG que serão observadas no presente trabalho. Essas estruturas parecem sugerir a existência de outras categorias funcionais não incluídas na hierarquia de Rizzi, mas que fazem parte da periferia esquerda da oração. Podemos concluir aqui que o CG é uma língua que corrobora a hipótese sobre a existência de vários núcleos funcionais periféricos. 6

7 Aquisição da ordem verbo-sujeito em interrogativas do Espanhol como L2 por falantes adultos do Português Brasileiro Samara de Souza Almeida As estruturas interrogativas Qu- do Espanhol e do PB apresentam diferenças no que se refere à ordem dos constituintes. Em Espanhol, nas interrogativas com Qu- deslocado para a esquerda, deve haver a inversão da ordem sujeito-verbo. Em PB, contudo, a inversão sujeito-verbo não é necessária. Quando ocorre, parece tratar-se de uma estrutura mais marcada e, muitas vezes, gera agramaticalidade. Chomsky (1995) assume que o movimento de constituintes está condicionado à força dos traços formais abstratos dos núcleos funcionais. No caso do movimento em interrogativas Qu-, o núcleo funcional C apresenta traços Q e Wh. Assumindo que esses traços sejam fortes em Espanhol, a inversão sujeitoverbo deve ocorrer para que sejam checados em sintaxe visível. Em PB, no entanto, o traço Q de C seria fraco, motivo pelo qual um item lexical não precisaria mover-se para C. A partir de dados coletados junto a falantes brasileiros aprendizes de Espanhol, o objetivo deste trabalho é mostrar os resultados obtidos por meio de experimentos e discutir as hipóteses existentes na literatura sobre o papel da L1 e da Gramática Universal (GU) no processo de aquisição da L2. Haveria transferência da L1? A GU estaria disponível em algum momento? O aprendiz chegaria a reconfigurar os valores paramétricos no que diz respeito à diferença das forças dos traços Q e Wh existentes na L1 e na L2, realizando, assim, a inversão da ordem sujeito-verbo? Os resultados apresentam evidências favoráveis às hipóteses defendidas por White (2004) e Herschensohn (1998). White defende haver tanto transferência das propriedades paramétricas dos núcleos funcionais da L1 quanto acesso à GU. Além disso, para a autora, no estágio estacionário de aquisição, pode haver convergência ou divergência (com restrição da GU) entre a gramática do nativo e a do falante de L2. Herschensohn propõe que o processo de aquisição de L2 se dá gradativamente, isto é, de construção em construção. 7

8 Déficits no processamento de tempo e aspecto na afasia de Broca Fernanda de Carvalho Rodrigues e Celso Vieira Novaes Há décadas a linguagem humana é alvo de investigação por ser uma faculdade exclusiva do homem. Entender a linguagem é, pelo menos em parte, entender o funcionamento da mente humana. Uma das maneiras de se estudar a linguagem é por meio da neuropsicologia. A pesquisa sobre os déficits oriundos de quadros patológicos resulta em dados não somente relativos a esses déficits, mas também a respeito da estrutura da mente humana. Este trabalho tem como objetivo investigar a representação mental dos traços de tempo e aspecto. Mais especificamente, busca-se uma melhor compreensão sobre o papel da área de Broca no processamento de tempo e aspecto e sobre uma possível dissociação de tempo e aspecto na representação sintática. Três hipóteses nortearam este trabalho. A primeira é de que o tempo de processamento das informações relativas a tempo é diferente do tempo de processamento das informações relativas a aspecto em indivíduos normais. A segunda hipótese é de que o tempo de processamento das informações relativas a tempo é diferente do tempo de processamento das informações relativas a aspecto em indivíduos afásicos de Broca. A última hipótese é que os tempos de processamento das informações relativas a tempo e os tempos de processamento das informações relativas a aspecto estão aumentados nos indivíduos afásicos de Broca em comparação com os tempos de processamento dessas informações nos indivíduos normais. Para atingir o objetivo, foi desenvolvido um experimento que conjuga características de um teste online e de um teste off-line, inspirado no trabalho de Caplan e Waters (2003). O primeiro consiste de um teste de audição automonitorada e o segundo de um teste de julgamento de agramaticalidade. Em relação aos resultados do teste de audição auto-monitorada, as análises revelaram diferença estatística no modo como os indivíduos lidam com a compatibilidade / incompatibilidade entre os traços aspectuais / temporais expressos na morfologia do verbo e os traços expressos no advérbio. Não houve, no entanto, um padrão de resposta no que diz respeito ao processamento desses traços. De um lado, os traços aspectuais foram os que causaram mais problemas para um dos afásicos, e por outro lado foram os traços temporais os que causaram mais problemas para o outro afásico. De uma maneira ou de outra, os indivíduos lidaram diferentemente com os traços de tempo e aspecto. Esses dados são evidências em favor da proposta de que essas categorias estão representadas em nódulos diferentes na árvore sintática. Ao analisar os resultados do teste on-lineem comparação com os obtidos no teste de julgamento de agramaticalidade não foi possível determinar se o problema dos afásicos é no âmbito processual, no âmbito estruturalou em ambos. Um dos afásicos, em algumas condições do teste, teve problema no teste off-line, mas não no teste on-line, mas nas outras condições 8

9 ele apresentou problema em ambos os testes. As hipóteses apresentadas não puderam ser refutadas. Os resultados dos testes aplicados aos pacientes nestetrabalho corroboram a ideia de que os estudos de processamento podem fornecer contribuições para um melhor entendimento da representação da estrutura sintática na mente dos indivíduos. 9

10 O aspecto iterativo em sentenças com a perífrase estar + gerúndio no português do Brasil: uma análise por traços Anne Katheryne Estebe Maggessy Levando em consideração a versão mais nova da Teoria Gerativa, o Programa Minimalista (PM), entendemos a língua como sistema mental, consideramos a categoria funcional de aspecto como um nódulo na árvore sintática, e adotamos o princípio da universalidade dos traços, segundo o qual se advoga que todas as línguas possuem os mesmos traços e os falantes têm acesso a todos eles. Além disso, assim como Comrie (1976), consideramos que há apenas dois aspectos básicos na língua, os aspectos perfectivo e o imperfectivo. E propomos que o aspecto iterativo é um aspecto imperfectivo cujo evento é escalonado, ou seja, que apresenta repetição. Neste trabalho, serão apresentados os resultados obtidos na pesquisa desenvolvida no mestrado. Nossa metodologia é formada pela análise de sentenças com a perífrase estar + gerúndio (EG), estando o auxiliar no presente do indicativo, provenientes de um corpus oral formado por 8 entrevistas sociolinguísticas das amostras do português falado na cidade do Rio de Janeiro na década de 90 do Projeto NURC-RJ. Para tal análise, utilizamos o software WordSmith Tools (versão 5) e o pacote computacional de regra variável Goldvarb X. Consideramos, para a perífrase estar + gerúndio, a expressão dos traços aspectuais [+ durativo] e [+ iterativo], e também propomos a existência de uma interseção desses traços. Pois, se uma mesma perífrase expressa ambos os aspectos, é porque há traços que se entrecruzam. O traço que parece diferenciá-los é o traço de [± quantidade], conforme propõe Wachowicz (2003). O aspecto durativo teria o traço de [- quantidade] e o iterativo o traço de [+ quantidade]. Isso foi evidenciado ao percebermos que o que levaria uma sentença com EG a expressar o aspecto iterativo seria um argumento interno plural, um adjunto adverbial de quantidade ou de frequência e tipos de verbo com o traço de [+ dinamicidade], como os de processo culminado e os de atividade. Além do traço de [+ quantidade], o iterativo parece apresentar os traços de [+ determinação] e [+ repetição] quando comparado ao aspecto habitual. E quando comparado ao aspecto perfeito, o iterativo parece apresentar o traço de [+ continuidade]. Ou seja, enquanto o traço de [+ determinação] parece diferenciar o iterativo do habitual, o traço de [+ continuidade] parece aproximar o iterativo do perfeito. Todos esses traços parecem estar inseridos também no aspecto imperfectivo, que consideramos, neste trabalho, o aspecto maior entre todos esses aspectos citados e que, ao mesmo tempo, os contém. Com isso, podemos dizer que este trabalho se enquadra no tema Conhecimento linguístico de categorias funcionais por tratar de um estudo sobre a categoria do aspecto. Nossa contribuição está justamente na ampliação dos estudos sobre esta categoria dentro dos estudos linguísticos, principalmente com a ampliação do conhecimento sobre o aspecto iterativo, a partir de uma análise de traços. 10

11 Um estudo longitudinal de Tempo e Aspecto na demência do tipo Alzheimer Juliana Barros Nespoli e Celso Vieira Novaes A demência do tipo Alzheimer (ou DTA) é caracterizada por um comprometimento cognitivo progressivo comum às síndromes demenciais. Dentre as funções cognitivas comprometidas na DTA, a memória parece ser primeiramente afetada. Tal comprometimento pode se estender com o tempo ao sistema de conceitos e ao sistema da linguagem. Em decorrência desses comprometimentos, surgem prejuízos na expressão linguística de pacientes portadores dessa demência, que têm sido frequentemente relatados na literatura. No tocante aos problemas na expressão linguística de pacientes portadores da DTA, esses poderiam decorrer de um comprometimento em sistemas cognitivos não linguísticos, como no sistema dos conceitos, por exemplo, ou de um comprometimento no sistema da linguagem, tendo em vista o panorama de múltiplos impedimentos cognitivos da DTA. Assim sendo, o objetivo deste trabalho é o de contribuir para o entendimento acerca da origem de eventuais problemas na expressão linguística de pacientes portadores da DTA, mais especificamente na produção das categorias sintáticas de Tempo e Aspecto. Partiu-se da hipótese de que os problemas na expressão linguística de Tempo e Aspecto de pacientes com a DTA são decorrentes de um comprometimento em módulos cognitivos não linguísticos.a fim de alcançar o objetivo proposto, optou-se por desenvolver um estudo de caso de caráter longitudinal. Dessa forma, foi selecionada uma paciente diagnosticada como provável portadora da DTA, que foi submetida a quatro aplicações de duas avaliações de naturezas distintas: uma avaliação neuropsicológica e uma avaliação linguística. A avaliação neuropsicológica foi composta pelo Mini-Exame do Estado Mental e por um teste de sequência lógica. Já a avaliação linguística foi composta por um teste de produção de preenchimento de lacuna. Em relação aos resultados obtidos por meio da avaliação neuropsicológica, detectou-se um declínio até a terceira aplicação dos testes e uma estabilidade na quarta aplicação. Em relação aos resultados obtidos por meio da avaliação linguística, foi detectado um comprometimento cada vez maior na expressão linguística de Tempo e Aspecto até a quarta aplicação. A análise desses resultados sugere que as alterações na expressão linguística de Tempo e Aspecto, detectadas até a terceira aplicação dos testes, podem decorrer de um comprometimento no sistema linguístico ou em sistemas não linguísticos. Já o declínio na expressão linguística de Tempo e Aspecto, detectado na quarta aplicação, parece decorrer de um comprometimento no sistema linguístico. Foi refutada, portanto, a hipótese de que as alterações na produção de Tempo e Aspecto na DTA são decorrentes exclusivamente de um comprometimento cognitivo em sistemas não linguísticos. 11

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