PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA FEDERAL DE SEGUNDA INSTÂNCIA SEÇÃO JUDICIÁRIA DE SERGIPE



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PODER JUDICIÁRIO JUSTIÇA FEDERAL DE SEGUNDA INSTÂNCIA SEÇÃO JUDICIÁRIA DE SERGIPE Nr. do Processo 0506343-33.2013.4.05.8500 Autor MARCIO OLIVEIRA CAMPOS Réu CAIXA ECONÔMICA FEDERAL - CEF CIVIL E CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE CIVIL. CONTRATO DE FINANCIAMENTO. PAGAMENTO INDEVIDO. DEMORA NA DEVOLUÇÃO DE VALORES PAGOS A MAIOR. REPETIÇÃO EM DOBRO. POSSIBILIDADE. ART. 42, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CDC. INOCORRÊNCIA DE ENGANO JUSTIFICÁVEL APTO A ESCUSAR A RÉ DA COMINAÇÃO LEGAL. MORA DA RÉ POR TEMPO DESARRAZOADO QUANTO À DEVOLUÇÃO DOS VALORES SUFICIENTE PARA IMPINGIR À PARTE AUTORA CONSTRAGIMENTO PASSÍVEL DE REPARAÇÃO POR DANO IMATERIAL. ELEVAÇÃO DO QUANTUM A FIM DE QUE SE AMOLDE ÀS PRECISAS CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO CONCRETO, SOB A ÓTICA DO QUE VEM DECIDINDO ESTE COLEGIADO EM CASOS ASSEMELHADOS. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Nos contratos de financiamento bancário, os quais são tutelados pelo direito consumeirista, o pagamento indevido realizado pelo consumidor é passível de ser repetido em dobro. Inteligência do art. 42, parágrafo único, do CDC. 2. No tocante à aferição de má-fé, em se caracterizando as condutas no mercado de consumo como massivas e impessoais, a caracterização da má-fé deve ocorrer a partir das circunstâncias exteriores da conduta, observando-se a conduta razoavelmente esperada no caso concreto, e não sob a ótima de um agir subjetivo interno da instituição ou de seus prepostos. 3. Ocorrendo o pagamento a maior, incumbe à instituição financeira promover a devida regularização, inclusive afastando qualquer cobrança decorrente da falha (juros remuneratórios, multa etc.), com a devolução dos valores descontados dentro de um prazo razoável, independente da necessidade de qualquer reclamação por parte do consumidor. Em se verificando a adoção de tal diligência, não se pode punir o fornecedor caso seja reparado o erro, uma vez que o comportamento estaria imbuído de boa-fé. A contrario sensu, a demora na reparação do erro por prazo desarrazoado indica um agir do fornecedor no mínimo culposo, atraindo a incidência do art. 42 do CDC. 4. Caso em que as circunstâncias fático-jurídicas conduzem a que não restou caracterizada a excludente de responsabilidade da parte final do parágrafo único do art. 42 do Código do Consumidor consubstanciada na ocorrência de engano justificável. 5. Repetição em dobro que se afigura cabível. 6. Dano moral cujo quantum condenatório aqui se eleva a fim de que se amolde às peculiaridades do caso concreto em cotejo com os patamares que esta Turma Recursal vem adotando em casos

assemelhados. 7. Recurso parcialmente provido. VOTO-VISTA A parte autora pretende uma indenização por danos morais em razão de inscrição indevida e a devolução dos valores em dobro dos valores descontados de sua conta-corrente. O Juiz julgou parcialmente procedente o pedido para condenar em uma indenização por danos morais de R$ 5.000,00. Rejeitou o pedido de devolução em dobro sob o fundamento de ausência de má-fé. Inconformada, a parte autora interpôs recurso inominado contra a sentença visando a majoração dos danos morais e a devolução em dobro, repisando os fundamentos da petição inicial. Em seu voto, o Juiz Relator deu provimento ao recurso para majorar a indenizar em danos morais no importe de R$ 10.000,00 e rejeitou a pretensão de devolução em dobro. O recurso se divide em dois pontos: 1) devolução em dobro; 2) majoração dos danos morais. Da devolução em dobro O art. 42, parágrafo único, do CDC, dispõe que: Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável. Com base na cláusula final "salvo hipótese de engano justificável.", a jurisprudência pacífica do STJ entende que para a configuração do direito à repetição do indébito em dobro por parte do consumidor, é necessário o preenchimento de três requisitos, dois de natureza objetiva e um subjetiva: 1) objetivos: a) cobrança indevida; b) pagamento pelo consumidor do valor indevidamente cobrado; 2) subjetivo: ausência de má-fé do fornecedor. Sobre o tema, destaco o julgado abaixo: 2. O STJ tem decidido que basta a configuração de culpa para o cabimento da devolução em dobro dos valores pagos indevidamente pelo consumidor, porque "o engano é justificável exatamente quando não decorre de dolo ou de culpa (Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto, 9ª ed., Rio de janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 408) (AgRg no AgRg no Ag 1.255.232/RJ, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 16/3/2011) (AgRg no AREsp 402.148/RJ, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 20/03/2014, DJe 28/03/2014) Por sua vez, a jurisprudência afasta o seu cabimento quando a cobrança é fundada em lei ou contrato que veio posteriormente a ser declarado ilegal. Quanto a necessidade de má-fé impõe-se uma observação. As condutas no mercado de consumo são massivas e impessoais, logo a caracterização da má-fé deve ocorrer a partir das

circunstâncias exteriores da conduta, observando a conduta razoavelmente esperada no caso concreto e não sob a ótima de um agir subjetivo interno da instituição ou de seus empregados que atuam em seu nome. Em outras palavras, a má-fé deve ficar caracterizada quando o comportamento em si não encontra amparo na ordem jurídica. Havendo impugnação por parte do consumidor de um desconto efetuado em sua conta-corrente, incumbe a instituição financeira justificar o seu motivo, considerando que ela quem possui a guarda dos valores. A circunstância de o consumidor/correntista sofrer um desconto maior do que devido em sua conta-corrente não significa automaticamente o dever de devolução em dobro, já que pode ocorrer uma situação de erro justificável a excluir a referida penalidade, assim entendido como aquele facilmente constatável e imediatamente corrigível sem maiores tergiversações. Partindo destas premissas, examino o caso concreto. Inicialmente, é mister esclarecer que a parte autora possui dois financiamentos imobiliários com vencimento das prestações nos dias 04 e 14 de cada mês, a primeira no valor aproximado de R$ 1.300,00 e a segunda de aproximadamente R$ 3.500,00. No caso em exame, a parte autora impugna os lançamentos ocorridos no mês 08/2013. Em sua inicial, a parte autora alegou que: Frise-se Excelência, que no mês de Julho de 2013 A Caixa Econômica deveria debitar da conta do requerente um montante de R$ 4.766,00 (Quatro mil setecentos e sessenta e seis reais), o qual totaliza o somatório as duas prestações (R$ 1.142,55 + 3.623,97). Ocorre que devido a um erro no sistema, apesar de existir saldo suficiente na conta do requerente, o Banco ora requerido, de forma indevida, só debitou R$ 4.296,83 ( Quatro mil duzentos e noventa e seis reais e oitenta e três centavos), em um único débito realizado no dia 15 / 08 / 2013. Não obstante o erro acima apontado, no dia 13/08/2013, a Caixa Econômica Federal debitou novamente de forma indevida o montante de R$ 9.630,20 (Nove mil seiscentos e trinta reais e vinte centavos), ou seja, debitou em duplicidade as prestações dos meses de Agosto de 2013 ( R$ 3.623,97 x 2 e R$ 1.092,00 x 2). No dia 15/08/2013 a requerida, novamente, realizou outro débito no valor de R$ 1.197,45 (Um mil cento e noventa e sete reais e quarenta e cinco centavos). A fim de facilitar a cronologia dos fatos apresento a tabela abaixo: Conta Data de Pagamento* Histórico Valor em R$/Data de vencimento 1 987-2 04.06.2013 PREST HAB 1.092,04 (anexo 36) 2 987-2 14.06.2013 PREST HAB 3.641,48 (anexo 36) 3 Não houve débito em conta no dia 04.07.2013, o que gerou a restrição do anexo 10. O autor tinha saldo em conta para suportar a prestação. Não trouxe qualquer justificativa para não efetuar o desconto. Este valor foi pago posteriormente conforme 1089,85 (anexo 36) 04.07.2013

descrição no item 7. 4 1725-1 Ao invés de ser debitado na conta 987-2, foi debitado na conta da empresa INFOMC Tecnologia Ltda ME, da qual a parte autora é sócio. 15.07.2013 PREST HAB 4.296,83 15.07.2013 Conforme o demonstrativo de pagamento (anexo 6 extrato bancário e 5 demonstrativo de pagamento), o valor correto seria R$ 3635,08, contudo foi debitado o valor acima na conta da empresa. Este valor somente foi considerado para este financiamento com vencimento no dia 14 de cada mês. O valor não era suficiente para quitar os dois financiamentos que o autor possui. 5 987-2 13.08.2013 PREST HAB 9.630,20 (anexo 43) 04.08.2013 Esta prestação se refere a com vencimento em 04.08.2013. Conforme planilha da CEF (anexo 37), o valor correto da prestação seria R$ 1.173,64, contudo foi descontado o valor acima. Foi cobrado um excesso de R$ 8.456,56 6 22685-7. Não há extrato bancário desta conta, mas o anexo 1 revela uma transferência da conta 1725-1 para a 22685-7. 27.08.2013 R$ 3650,00 14.08.2013 Ressalte-se que o anexo 5 (demonstrativo de pagamento) aponta o não pagamento da prestação do mês 08. 7 987-2 15.08.2013 R$ 1.197,45 (anexo 43 e anexo 36) 04.07.2013 A data do débito é 04.07.2013, contudo somente foi paga em 15.08.2013 8 987-2 04.09.2013 PREST HAB 1.142,55 9 22685-7 Mudou a conta de débito da prestação 14.09.2013 3.627,93 11 0987-2 14.11.2013 CRED. AUTOR 9.630,20 (*) A data de pagamento pode coincidir ou não com a de vencimento - A CEF devolveu o valor descontado em 13.08.2013 (item 7) no dia 14.11.2013. A versão da parte autora não coincide integralmente com os fatos. Senão vejamos.

A prestação paga no valor de R$ 4.296,83, descontada em 15/07/2013, não era suficiente para pagar ambos os financiamentos (Vide item 4). A prestação no valor de 1.197,45 (anexo 43) é com vencimento em 04/07/2013, contudo somente foi paga em 15/08/2013. Ao contrário do alegado, o desconto de R$ 9.630,20 não se refere a prestação dos financiamentos diversos, mas de um mesmo financiamento. Em relação ao valor de R$ 9.630,20 (anexo 37), o valor foi contabilizado como sendo a prestação com vencimento em 04/08/2013. O valor correto da prestação seria R$ 1.173,64, contudo foi descontado o valor a maior de R$ 9.630,20, gerando um excesso de R$ 8.456,56. De fato, a prestação cobrada é muito superior a que o consumidor estava obrigado a pagar, contudo, ao apresentar a sua versão, a CEF não traz qualquer justificativa plausível para a sucessão de lançamentos acima e mudanças de conta, limitando-se a afirmar que: Consoante planilha de evolução do financiamento em anexo, constata-se que a prestação com vencimento em 04/07/2013 só foi adimplida no dia 13/08/2013. Quanto à justificativa acima da CEF, não pode ser aceita. Ainda que a parte autora estivesse em débito relativo à prestação do mês 07/2013, o valor cobrado R$ 9.630,20 foi muito superior ao que era devido, já que a prestação da parte autora girava em torno de R$ 1.300,00. Pois bem. Nos financiamentos imobiliários "atuais" (sistema SAC), salvo eventual desequilíbrio financeiro, as prestações decrescem com o passar do tempo. Nestes contratos, em regra, o consumidor-devedor não possui conhecimentos técnicos da feitura dos cálculos ao passo que o fornecedor-credor é o responsável por calcular a prestação e cobrá-la do devedor. Ressalte-se que a prestação é calculada automaticamente pelo sistema com base no saldo devedor atualizado. A prestação paga por boleto/débito em conta não é contabilizada imediatamente pelo sistema, demorando alguns para ser feito o ajuste. Ocorrendo o pagamento a maior, incumbe à instituição financeira regularizar o saldo bancário, inclusive afastando qualquer cobrança dai decorrente (juros remuneratórios, multa e etc), com a imediata devolução dos valores descontados dentro de um prazo razoável, independente da necessidade de qualquer reclamação/ajuizamento de demanda por parte do consumidor, após a prestação ser contabilizada no sistema. Nesta situação, observo que o prazo de 10 dias é mais do razoável para a devolução dos valores descontados indevidamente. Assim, apesar do equívoco, não se pode punir o fornecedor caso seja feita a devolução imediata, uma vez que o comportamento está imbuído de boa-fé. A contrario sensu, ao demorar em devolver um valor pago a maior, age no mínimo culposamente, atraindo a incidência do art. 42 do CDC. Com efeito, o tempo decorrido afasta qualquer situação de erro justificável, já que a prestação já foi contabilizada pelo sistema, sendo facilmente verificável o equívoco, conforme tabela acima. No caso em exame, não obstante a planilha da CEF (anexo) apontar um excesso, observo que a CEF não efetuou a devolução imediata dos valores, somente o fazendo no curso da lide. O desconto foi efetuado em 13/08/2013, sendo que a parte autora ajuizou a demanda em 12/09/2013 e o valor foi devolvido a conta da parte autora em 14/11/2013. Em outras palavras, a CEF somente fez a devolução voluntária após 3 meses do desconto indevido e 2 meses do ajuizamento da demanda, ultrapassando em muito o prazo razoável de devolução imediata de 10 (dez) dias de desconto indevido. Não há como afirmar que agiu de boa-fé, pois, se houve desconto de prestação paga em duplicidade/a maior, caberia a devolução imediata dentro do prazo razoável. sem qualquer necessidade de ajuizamento de uma demanda judicial

Não se trata de discussão de valor controvertido, mas de valor que foi descontado sem justificativa e não restituído imediatamente. Sobre o tema, destaco os precedentes abaixo: DIREITO CIVIL. INSTITUIÇÃO BANCÁRIA. LEI 8.078/90 (CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR). SÚMULA 297 DO STJ. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA. CONTRATO DE FINANCIAMENTO. DESCONTO EM FOLHA. COBRANÇA INDEVIDA. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. DANO MORAL CONFIGURADO. OBRIGAÇÃO DE INDENIZAR. 1 - A Lei n. 8.072/90 inclui a atividade bancária no conceito de serviço (art. 3º, 2º), estabelecendo como objetiva a responsabilidade contratual do banco (art. 14), que fica configurada na presença dos seguintes pressupostos: fato, dano e nexo de causalidade, e nos termos da Súmula n. 297 do STJ, O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras. 2 - A atividade bancária se funda na teoria do risco do empreendimento, segundo a qual todo aquele que se dispõe a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços, tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento independentemente de culpa, sendo cabível a indenização dos seus clientes. 3 - Nos termos do CDC, o consumidor é a parte mais fraca na relação jurídica de consumo (art. 4º), prevalecendo o direito subjetivo à inversão do ônus da prova a seu favor (art. 6º, VIII), cabendo ao banco, para elidir sua responsabilidade civil, comprovar que o fato alegado derivou da culpa do cliente ou da força maior ou caso fortuito (art. 14, 3º). 4 - In casu, a Autora firmou em 03/04/2002 com a CEF um Contrato de Empréstimo Consignação Azul, mediante o qual se comprometeu a restituir a quantia emprestada de R$ 8.500,00 (oito mil e quinhentos reais) em 24 parcelas fixas de R$ 418,02 (quatrocentos e dezoito reais e dois centavos), as quais foram regularmente quitadas. 5 - Embora quitado o contrato, ainda foram descontados da folha salarial da Autora mais doze parcelas, no montante de R$ 5.016,24, o que demonstra o erro e a negligência da instituição bancária em verificar a exatidão da cobrança nos termos do contrato, acarretando a quebra da segurança na relação contratual entre o banco e o cliente, bem como caracterizando a falha na prestação do serviço por parte do banco, que tem o dever de zelar pela perfeita concretização das operações financeiras realizadas pelo seu cliente. 6 - A fixação do valor indenizatório pelo dano moral deve levar em conta as circunstâncias da causa, bem como a condição sócio-econômica do ofendido e do ofensor, de modo que o valor a ser pago não constitua enriquecimento sem causa da vítima, e sirva também para coibir que as atitudes negligentes e lesivas venham a se repetir, mostrando-se razoável a redução do valor da indenização de R$ 17.500,00 para R$ 5.000,00 (cinco mil reais), posto que em consonância com a jurisprudência deste Tribunal em casos análogos. 7 - Apelação da Autora conhecida e improvida; Apelação da CEF conhecida e provida, para reduzir o quantum indenizatório para R$ 5.000,00 (cinco mil reais). (AC 200551010145389, Desembargador Federal GUILHERME CALMON NOGUEIRA DA GAMA, TRF2 - SEXTA TURMA ESPECIALIZADA, DJU - Data::13/03/2009 - Página::165.)

RESPONSABILIDADE CIVIL. CEF. RETIRADA INDEVIDA DE VALORES DA CONTA corrente. DANOS MORAIS. I. O conceito de serviço previsto no art. 3º, 2º, do CDC alcança a atividade bancária. II. In casu, tem-se que os documentos acostados pela Autora-Apelante às fls. 18/22 demonstram a existência de pagamento oriundo de contrato de empréstimo no valor de R$ 17.000,00, o qual, segundo a mesma, nunca teria sido realizado. A CEF, ao contestar a presente demanda, em nenhum instante comprova a existência de contrato de empréstimo de tal valor firmado com a Autora ou a origem da dívida afirmada pela Autora em sua inicial. III. Pode-se concluir, desta maneira, que não se desincumbiu a CEF de seu ônus probatório. De fato, embora a r. Sentença de fls. 97/101 disponha que em nenhum momento fora requerido pela Autora a documentação referente ao contrato de empréstimo, mister se faz a inversão do ônus da prova, ainda que de ofício pelo magistrado. IV. Necessidade de devolução, em dobro, dos valores indevidamente retirados da conta da Parte Autora, na forma do art. 42, parágrafo único, do CDC. V. O dever de indenizar prescinde da demonstração objetiva do abalo moral sofrido, exigindo-se como prova apenas o fato ensejador do dano, ou seja, os saques indevidos por culpa da instituição financeira. VI. A fixação do valor da indenização por dano moral não deve contrariar o bom senso, mostrando-se manifestamente exagerado ou irrisório. VII. Fixação dos danos morais em R$ 3.000,00 (três mil reais), valor que se demonstra compatível com as circunstâncias observadas no caso em concreto. VIII. Apelação da Parte Autora provida. (AC 201251080000642, Desembargador Federal REIS FRIEDE, TRF2 - SÉTIMA TURMA ESPECIALIZADA, E-DJF2R - Data::12/11/2013.) Como houve um excesso de R$ 8.456,56, impõe-se a devolução em dobro, abatendo-se o valor pago em R$ 9.630,20 (14/11/2013). Da elevação do quantum indenizatório: Em relação aos danos morais, entendo que devem ser majorados em razão da sucessão de equívocos e a imposição de restrição por uma dívida já paga. Discordo parcialmente quanto ao montante fixado pelo que elevo o valor a R$ 8.000,00 (oito mil reais) em razão de entendê-lo condizente com as circunstâncias acima explicitadas. DISPOSITIVO Ante o exposto, dou PROVIMENTO PARCIAL ao recurso para: 1) determinar a devolução em dobro do valor pago a maior, ou seja, R$ 8.456,56 x 2, que corresponde a R$ 16.913,12, valor este que, após deduzidos os valores já repetidos pela Ré (R$ 9.630,00), resulta no montante de R$ 7.282,92, quantum este que deverá ser acrescido de correção monetária desde o pagamento indevido e de

juros de mora de 1% (um por cento) ao mês a partir da citação válida; 2) Majorar o valor da condenação a título de danos morais para R$ 8.000,00 (oito mil reais), valor este que já se considera atualizado até a presente data, atualizando-se a partir daqui nos termos do manual de cálculos da Justiça Federal. É como voto. Fábio Cordeiro de Lima Juiz Federal da 2ª Relatoria da TRSE ACÓRDÃO: A Turma Recursal dos JEF s da Seção Judiciária do Estado de Sergipe, por unanimidade, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso, nos termos do voto do relatório e da ementa constantes dos autos, que ficaram fazendo parte integrante do presente julgado. Sem custas e sem honorários em face da sucumbência recíproca. Participaram do julgamento: Edmilson da Silva Pimenta, Fábio Cordeiro de Lima (Relator), Marcos Antonio Garapa de Carvalho. Fábio Cordeiro de Lima Juiz Federal da 2ª Relatoria da TRSE