Risco na medida certa O mercado sinaliza a necessidade de estruturas mais robustas de gerenciamento dos fatores que André Coutinho, sócio da KPMG no Brasil na área de Risk & Compliance podem ameaçar a estratégia das corporações Guilherme Dultra, gerente sênior da KPMG no Brasil na área de Enterprise Risk Management Assim como abre janelas de oportunidades, o desenvolvimento também potencializa riscos para as corporações, tanto do ponto de vista do crescimento orgânico dos negócios como pela entrada de capital estrangeiro no Brasil. Esse não é um tema novo no ambiente corporativo brasileiro, mas o dinamismo da economia nacional e o grau de interdependência dos mercados globalizados acentuam a relevância de uma abordagem mais complexa e integrada da gestão de riscos, que posicione essa prática como um dos pilares da estratégia da empresa. Os novos desafios do cenário nacional enfatizam a percepção de que o gerenciamento adequado dos riscos confere uma vantagem competitiva, à medida que preserva a geração de valor e contribui para a concretização dos objetivos da corporação, opina André Coutinho, sócio da KPMG no Brasil na área de Risk & Compliance. Essa transição de modelos de gestão de riscos 32 Gestão
é apoiada pelos resultados da recente pesquisa Enterprise Risk Management, realizada pela KPMG no Brasil. O estudo indica uma maior demanda dos conselhos de administração e comitês de auditoria para que o gerenciamento evolua para uma condição além do compliance. Isso não significa menor preocupação com o compliance, mas, sim, a adoção de uma filosofia que compreenda a gestão de riscos de maneira integral e integrada, de modo a cobrir todas as frentes de exposição da corporação operacionais, de crédito, de mercado ou legal. No Brasil, a partir da Lei Sarbanes- Oxley, que foi promulgada nos EUA em 2002, houve uma mudança de rota na forma como as corporações vêem o gerenciamento de riscos. O compliance assumiu um papel de muito destaque, em detrimento de outros pontos de atenção, que agora voltam à agenda das empresas, analisa Guilherme Dultra, gerente sênior da KPMG no Brasil na área de Enterprise Risk Management. O compliance é muito importante, mas as corporações devem voltar a entendê-lo como uma das ferramentas de apoio da gestão de riscos como um todo. O gerenciamento de riscos deve ser um instrumento de controle de toda a organização, de modo que o administrador tenha a visão geral do ambiente de negócios ao planejar sua estratégia e possa dosar corretamente Gestão 33
o quanto a corporação pode se expor. As corporações devem fazer uma associação mais clara entre planejamento estratégico e gestão de risco corporativo, acrescenta Coutinho. Em transição Os resultados da pesquisa Enterprise Risk Management indicam que os executivos ouvidos têm a gestão de riscos na conta de uma prática muito importante, mesmo admitindo que sua corporação ainda não desenvolveu processos nem implantou mecanismos, normas e procedimentos específicos para esse gerenciamento integral. Ainda assim, na maioria das empresas (54%), ou o gerenciamento de riscos não foi implementado (16%) ou a empresa adota apenas ações isoladas sobre riscos (38%). Quanto à eficácia do ambiente de controles internos, os entrevistados avaliam que ainda há espaço para algumas (38%) ou muitas (47%) melhorias. Os três itens considerados mais importantes para o sucesso do gerenciamento de riscos nas empresas são cultura forte e sensibilização de riscos em toda a organização (23%), apoio da alta administração (17%) e alinhamento da gestão de riscos com o planejamento e a execução da estratégia corporativa (). Outro dado relevante enfatiza a falta de gerenciamento contínuo das exposições: 69% dos entrevistados avaliam que a alta administração não demonstra preocupação contínua com o gerenciamento de riscos corporativos (20%) ou ainda deixa margens para melhorias (49%). Isso quer dizer que, de alguma forma, alguém na corporação se preocupa com o tema, mas não se trata de uma ação estruturada. Não existem Com qual efetividade você considera que sua empresa gerencia os seguintes aspectos de riscos? 50% 45% 40% 35% 30% 25% 20% 10% 5% 0% Estratégicos Riscos de crédito Mercado Imagem/ reputacionais Políticos Regulatórios TI Operacionais Fiscais Meio ambiente Trabalhistas Muito alta Alta Média Baixa Muito baixa Não aplicável/não sabe 34 Gestão
processos operacionais estabelecidos. O tema pode ser mencionado em uma reunião de diretoria ou do conselho de administração, mas a corporação não tem uma rotina de gerenciamento, explica Coutinho. A gestão de riscos só deixará de ser segmentada e descentralizada com a implantação de processos, formatação de relatórios e adoção de uma cultura organizacional específica, preferencialmente com um executivo exclusivo ou muito dedicado ao tema. Geração de valor A transição nos modelos de gestão de riscos também é percebida na forma como os executivos avaliam as múltiplas finalidades desta prática. Para a maioria dos entrevistados, o gerenciamento das ameaças potenciais é, principalmente, um elemento capaz de proteger e reforçar a capacidade de geração de valor da organização (19%), para apoiar o alcance dos objetivos estratégicos da corporação (17%) e prevenir perdas (16%). Há uma clara mudança da percepção. Os executivos entendem que gerenciar riscos auxilia na prevenção de perdas. Mas, acima de tudo, começam a perceber que o mapeamento e o controle de ameaças contribuem para a execução da estratégia organizacional, analisa Guilherme Dultra. Apesar de a governança corporativa no Brasil estar estruturada de maneira diferente do que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, a transição de modelos em gestão de riscos acompanha o que predomina em O que sua empresa considera serem os objetivos e benefícios mais importantes do gerenciamento de riscos? Escolha até três itens: 9% 5% 4% 2% 19% Proteger e reforçar a capacidade de geração de valor da organização Apoiar a organização no atingimento de seus objetivos estratégicos Prevenção a perdas Assegurar conformidade com questões regulatórias 13% 17% Proteger e reforçar a reputação da organização Assegurar alocação eficiente de recursos e capital Transparência e relatórios claros aos investidores 16% Maximizar a lucratividade das unidades de negócio Minimizar a volatilidade dos ganhos Gestão 35
mercados mais maduros. As grandes corporações brasileiras ainda têm, em sua maioria, um grupo controlador, muitas vezes familiar. Cada vez mais estes grupos percebem a importância de ampliar o debate sobre os riscos do negócio, tanto interna quanto externamente, aumentando assim o nível de confiabilidade de sua gestão e a transparência do processo. As corporações precisam relatar seus riscos para o mercado e para os acionistas, complementa André Coutinho. O progressivo aumento nos processos de abertura de capitais das empresas brasileiras em Bolsa também eleva a demanda por maiores níveis de proteção e reforço da capacidade da organização em gerar valor, por conta de conselheiros e membros de comitês de auditoria. A pesquisa mostra que esses profissionais estão sintonizados com o novo momento da gestão de riscos: 38% dos respondentes informaram que há mais de dois integrantes do conselho de administração com conhecimento prático de gerenciamento de riscos; 12% relataram a existência de dois integrantes e 23%, de um membro. Eles estão em cargos de supervisão, sabem se o risco está sendo bem administrado na corporação e entendem que desempenharão melhor suas atribuições se puderem contar com processos estabelecidos para isso. O maior interesse dos conselheiros, da alta administração e dos executivos das corporações também está direcionando as expectativas de investimentos em gestão de riscos, com ênfase no desenvolvimento de processos, implantação de normas e procedimentos, e estruturação de relatórios e formas de monitoramento. A pesquisa Enterprise Risk Management, realizada pela KPMG no Brasil, contou com a participação de executivos seniores de empresas e membros de conselhos de administração e de comitês de auditoria. A íntegra do estudo pode ser acessada em www.kpmg.com.br. Com qual sucesso você considera que a avaliação de riscos em sua organização adiciona valor aos seguintes itens? 50% 45% 40% 35% 30% 25% 20% 10% 5% 0% relacionamento com órgãos regulatórios e agências de ratings Melhora a relação com os investidores Aumenta o valor para os acionistas Melhora a rentabilidade das unidades de negócios Melhora a reputação corporativa Reduz a volatilidade de ganhos processo de tomada de decisões estratégicas relacionamento com clientes Muito alta Alta Média Baixa Muito baixa Não aplicável/não sabe 36 Gestão