Síndrome HELLP: considerações acerca de diagnóstico e conduta

Documentos relacionados
PREVENÇÃO DA ECLÂMPSIA: O USO DO SULFATO DE MAGNÉSIO

ASPECTOS LABORATORIAIS E PATOLÓGICOS DA SÍNDROME HELLP

Disciplina de Obstetrícia

CORTICOTERAPIA NA SÍNDROME DE HELLP

Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp

SÍNDROME HELLP E FÍGADO GORDUROSO AGUDO NA GESTAÇÃO

M.C.R 20 anos Casada Ensino médio completo Prendas domésticas Natural e procedente de Botucatu

DISTÚRBIOS HIPERTENSIVOS NA GRAVIDEZ. Profª Leticia Pedroso

OBSTETRÍCIA PARTE 1 D H E G E DIABETES GESTACIONAL

TRATAMENTO DE HIPERTENSÃO GESTACIONAL GRAVE NA URGÊNCIA: REVISÃO DE DIRETRIZES

CRISE HIPERTENSIVA GESTACIONAL

DOENÇA HIPERTENSIVA NA GRAVIDEZ. MSc. Roberpaulo Anacleto

ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NA SÍNDROME DE HELLP UMA REVISÃO DE LITERATURA PERFORMANCE OF NURSING IN SYNDROME HELLP A LITERATURE REVIEW

SÍNDROME HIPERTENSIVA NA GESTAÇÃO

PRÉ-ECLÂMPSIA: ESTUDO ESTATÍSTICO DA SÍNDROME HIPERTENSIVA ESPECÍFICA DA GESTAÇÃO

com pré-eclâmpsia grave

I Curso de Choque Faculdade de Medicina da UFMG INSUFICIÊNCIA DE MÚLTIPLOS ÓRGÃOS MODS

HIPERTENSÃO ARTERIAL NA GESTAÇÃO: UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA MUNDIAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE SINDROMES HIPERTENSIVAS DA GRAVIDEZ

Atenciosamente, MARCO AURÉLIO MAGALHÃES FARIA JÚNIOR Secretário Chefe de Gabinete

Síndromes Hipertensivas na Gestação - SHEG

TRABALHO DE PARTO PREMATURO

Departamento de Ginecologia e Obstetrícia Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto Universidade de São Paulo Como Evitar: Pré-eclâmpsia

Sessão Televoter Hipertensão

Junho de Orientador: Dr. Joaquim Gonçalves Licenciado em Ginecologia e Obstetrícia. Especialista em Medicina Materno-Fetal.

Profa. Dra. Larissa Gorayb F Mota

DOENÇA HIPERTENSIVA ESPECÍFICA DA GRAVIDEZ

Universidade de São Paulo Faculdade de Saúde Pública Departamento de Saúde Materno Infantil Síndromes hipertensivas na gestação O B S T E T R I Z

Data Versão/Revisões Descrição Autor 06/06/ Proposta inicial F.A.A.C; M.C.V, S.R.P.T

Manejo clínico da ascite

INDICAÇÕES PARA USO CLÍNICO DE HEMOCOMPONENTES. Concentrado de Hemácias (CH)

DESCOLAMENTO PREMATURO DE PLACENTA

CURSO: ENFERMAGEM NOITE - BH SEMESTRE: 2 ANO: 2012 C/H: 60 PLANO DE ENSINO

Resumo. Abstract. Síndrome HELLP: diagnóstico e conduta ATUALIZAÇÃO. HELLP Syndrome: Diagnosis and Management

Diretriz Assistencial. Ataque Isquêmico Transitório

SEPSE MATERNA SINAIS PRECOCES DE INFECÇÃO

Patologias Obstétricas

COMISSÃO COORDENADORA DO TRATAMENTO DAS DOENÇAS LISOSSOMAIS DE SOBRECARGA

R1CM HC UFPR Dra. Elisa D. Gaio Prof. CM HC UFPR Dr. Mauricio Carvalho

GABARITO RESIDÊNCIA MÉDICA (UERJ-FCM) 2018 PROVA DISCURSIVA PRÉ-REQUISITO R3 TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA (307)

10ª edição do Curso Continuado em Cirurgia Geral do CBCSP. Estado Atual do Tratamento da Hemorragia Digestiva Alta devida a Hipertensão Portal

1. INTRODUÇÃO. 2. OBJETIVO Os objetivos desse protocolo são:

Transfusão Em Cirurgia

Perfil Hepático FÍGADO. Indicações. Alguns termos importantes

Urgências e emergências com síndromes hipertensivas em gestantes de alto risco no contexto hospitalar nos serviços de saúde pública brasileiro

DHEG, Pré Eclâmpsia e Eclâmpsia

IMPORTÂNCIA DO MISOPROSTOL NA PREVENÇÃO DE HEMORRAGIAS PUERPERAIS.

Fluidoterapia. Vias de Administração. Fluidoterapia. Fluidoterapia. Fluidoterapia. Fluidoterapia. Enteral Via oral Via intra retal

Vanessa Maria Fenelon da Costa 2012

O Custo do Mau Controle do Diabetes para a Saúde Pública

Perfil para transtornos musculares Perfil para enfermidades ósseas Perfil funcional tireodiano

PROTOCOLO DE MANUTENÇÃO DO POTENCIAL DOADOR DE ORGÃOS

Volume 16, Número 2 ISSN João Pessoa, Artigo

InDUÇÃO DO TRABALHO DE PARTO

Distúrbios da Coagulação

AVCI NA FASE AGUDA Tratamento clínico pós-trombólise. Antonio Cezar Ribeiro Galvão Hospital Nove de Julho

HEMOSTASIA E COAGULAÇÃO. Instituto de Hematologia e Oncologia Curitiba

RELAÇÃO DE PONTOS PARA A PROVA ESCRITA E AULA PÚBLICA

BENEFIT e CHAGASICS TRIAL

INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA AGUDA EM CÃES

Enzimas no Laboratório Clínico

SERVIÇO DE CONTROLE DE INFECÇÃO HOSPITALAR PROTOCOLO DENGUE

AVALIAÇÃO DA VITALIDADE FETAL

1) Qual translocação é característica da Leucemia mielóide crônica? a) t(14;18) b) t(9,21) c) t(9;22) d) t(22,9) e) t(7;22)

Anticoagulação no ciclo. Adolfo Liao

FATORES DE RISCO ASSOCIADOS À PRÉ-ECLÂMPSIA

GRÁVIDA GESTA 1 PARA semanas IG. Mau-estar geral. Náuseas e vómitos. Dor hipocôndrio direito. Acentuado aumento de peso.

TROMBOEMBOLISMO PULMONAR EMERGÊNCIAS AÓRTICAS. Leonardo Oliveira Moura

AVALIAÇÃO DO BEM-ESTAR FETAL INTRAPARTO

Diretrizes assistenciais

Carlito Moreira Filho. Declaração de conflito de interesse

TRATAMENTO DA CRISE HIPERTENSIVA

Significado da presença de esquizócitos no sangue periférico de gestantes com pré-eclâmpsia

HEMOCENTRO RP PROCEDIMENTO OPERACIONAL

CESÁREA A PEDIDO : Administrar conflitos à luz das evidências científicas

Estabelecer os critérios para transfusão de hemocomponentes, otimizar o uso e aumentar a segurança transfusional.

SCA Estratificação de Risco Teste de exercício

ENFERMAGEM DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS. DENGUE Aula 3. Profª. Tatiane da Silva Campos

Curso de Emergências Obstétricas INTERVENÇÕES IMEDIATAS NO PARTO PREMATURO IMINENTE

ACRETISMO PLACENTÁRIO

26/08/2016. Questões UFG. Doenças Transmissíveis

Validade do uso de sulfato de magnésio visando a neuroproteção de fetos pré-termo

Transcrição:

Síndrome HELLP: considerações acerca de diagnóstico e conduta HELLP Syndrome: considerations about diagnosis and management at u a l i z a ç ã o Abstract Resumo A síndrome HELLP é uma grave complicação da pré-eclampsia, cursando com elevada morbimortalidade materna e perinatal. Controvérsias ocorrem com relação à incidência, critérios de diagnóstico e conduta nesta síndrome. As mortes perinatais estão relacionadas com o descolamento prematuro da placenta, asfixia intra-útero e prematuridade. A utilização de altas doses de corticóide no tratamento parece proporcionar melhores resultados maternos e perinatais, no entanto, são necessários estudos randomizados para sua completa e segura utilização na síndrome HELLP. O maior desafio diante desta síndrome é o diagnóstico precoce, intervenção oportuna e a prevenção das complicações. Sendo assim, as pacientes com suspeita de síndrome HELLP deverão ser encaminhadas para um serviço de assistência terciária para que sejam assistidas por uma equipe especializada, e tão logo possível, promova-se a interrupção da gestação. HELLP syndrome is a severe complication of preeclampsia and evolves with high maternal and perinatal mortalities. There are still important controversies related to the true incidence, diagnostic criteria and treatment. The perinatal mortality is related to abruption placenta, intra uterine distress and prematurity. Preliminary studies indicate that corticosteroid seems to improve the maternal and perinatal outcome, although further randomized studies are needed to determine its use in HELLP syndrome. Early diagnosis is crucial to determine the type of intervention and prevention of complications. Patients suspect of HELLP syndrome should be treated at a tertiary medical center and the pregnancy should be terminated because of the severity of this illness. Patricia Costa Fonsêca Meirelles Bezerra 1, 2 Ana Cristina Pinheiro Fernandes de Araújo 2, 3 Edailna Maria de Melo Dantas 2 Flávio Venício Marinho Pereira 2 Marcos Dias Leão 2 Selma Maria Bezerra Jerônimo 4 Técia Maria Oliveira Maranhão 3 Palavras-chave Síndrome HELLP Trombocitopenia Coagulação intravascular disseminada Keywords HELLP syndrome Thrombocytopenia Disseminated intravascular coagulopathy 1 Maternidade Escola Januário Cicco/ Universidade Federal do Rio Grande do Norte 2 Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFRN 3 Departamento de Toco-Ginecologia da UFRN 4 Departamento de Bioquímica da UFRN FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9 585

Introdução Dentre as diversas manifestações clínicas da hipertensão na gravidez, inclui-se uma entidade específica determinada síndrome HELLP, que acomete mulheres com pré-eclampsia grave e apresentam hemólise (H), elevação das enzimas hepáticas (EL) e plaquetopenia (LP) (Weinstein, 1982). A pré-eclampsia apresenta uma incidência variável de aproximadamente 1,5 a 3,8% em todas as gestações em países desenvolvidos (Ventura et al., 2000), enquanto que no Brasil atinge valores elevados como 7,5% (Gaio et al., 2001). É descrito que a síndrome HELLP pode acometer de 4 a 12% das pacientes com pré-eclampsia grave (Martin et al., 1991), podendo incorrer em elevada mortalidade materna (24%) e perinatal de até 40%, apesar da assistência ao parto, de forma oportuna, com intervenção obstétrica e cuidados intensivos, realizados por equipe capacitada (Magann & Martin, 1999; Sibai, 2004). A síndrome HELLP consiste em manifestações clínicas e laboratoriais patológicas, resultantes de ativação plaquetária e lesão endotelial microvascular (Sibai, 1990), decorrente de desordens imunológicas do binômio materno-fetal e parece ter caráter hereditário (Carr et al., 2005). Quando incide em irmãs, a síndrome determina um risco aumentado de acometimento familiar de 2.3 vezes (Carr et al., 2005) e o risco de recorrência em outra gestação pode variar de 2 a 19% (O Brien & Barton, 2005). Embora sua ocorrência seja mais freqüente no período anteparto, em 30% dos casos a síndrome HELLP pode ocorrer após o parto, variando de poucas horas até o período de sete dias, com maior prevalência dentro das primeiras 48 h pós-parto (Sibai et al., 1993). Existem inúmeras controvérsias em vários aspectos dessa entidade clínica, principalmente na conduta, que ocorrem em parte pela falta de uniformidade nos critérios para o diagnóstico da síndrome HELLP e pela carência de estudos randomizados para o seu tratamento (Sibai, 2004). É de suma importância, a discussão em torno das diversas controvérsias acerca desta síndrome, tentando adequar condutas e tratamento, visando a melhores resultados maternos e perinatais. Controvérsias no diagnóstico A maior controvérsia em relação à síndrome HELLP, no entanto, está na adoção de diferentes critérios para o seu diagnóstico, uma vez que não há sinais e sintomas característicos, e ainda sua conceituação é baseada em alterações laboratoriais (Rudge & Vasconcellos, 2004). A síndrome HELLP foi descrita, inicialmente, após avaliação de 29 pacientes com pré-eclampsia/eclampsia onde se constatou o comprometimento hepático que parecia anteceder a doença primária cerebral e renal (Weinstein, 1982). Posteriormente, foram estabelecidos critérios para o diagnóstico, baseados em cada elemento da síndrome HELLP, sendo hemólise demonstrada através de esfregaço anormal periférico, bilirrubina com valores superiores a 1,2 mg/dl ou desidrogenase lática (LDH) acima de 600 U/L; enzimas hepáticas aumentadas como aspartato aminotransferase (AST) acima de 70 U/L; e plaquetopenia definida como plaquetas abaixo de 100.000/ mm 3 (Sibai, 1990; Audibert et al., 1996). Foi descrita uma outra classificação, baseando-se na avaliação retrospectiva de 302 casos de síndrome HELLP. Utilizou como parâmetro básico o nível da plaquetopenia, mantendo as alterações laboratoriais prévias e associando, agora, ao comprometimento dos sistemas nervoso central, cardiopulmonar e renal, permitiu, assim, a definição em classes. Pacientes com nível sérico de plaquetas abaixo de 50.000/mm 3 seria classificado como classe I, classe II entre 51.000 e 100.000/mm 3 ; e classe III entre 101.000 e 150.000/ mm 3 (Martin et al., 1990; Martin et al., 1991). Dentre aqueles que aceitam que para firmar o diagnóstico da síndrome HELLP são necessários os parâmetros laboratoriais, associados aos achados característicos da pré-eclampsia, que incluem hipertensão e proteinúria (O Brien & Barton, 2005), há outros que descrevem síndrome HELLP com níveis tensionais normais (Sibai, 1990). Para o diagnóstico de síndrome HELLP, a maioria dos autores (Sibai et al., 1993; Magann et al, 1999; Sibai, 2004), descrevem serem necessários um hemograma com contagem de plaquetas, esfregaço periférico para pesquisa de esquizócitos, tempo de protrombina (TP), tempo de protrombina parcial ativado (TTP), níveis de AST, LDH, creatinina e bilirrubina. Investigações a respeito da fisiopatologia da síndrome HELLP têm revelado uma disfunção endotelial hepática seguida de ativação, agregação e consumo plaquetário, resultando em isquemia e necrose do hepatócito (Roberts & Cooper, 2001). Esse comprometimento pode afetar grande parte da vascularização hepática, determinando resultados catastróficos, traduzindo-se por alterações laboratoriais da função hepática e ainda infarto hepático e hematoma subcapsular, que podem ser visualizados através de ressonância magnética ou tomografia computadorizada (Barton & Sibai, 1996). Os exames laboratoriais da função hepática alterados parecem preceder as outras manifestações clínicas e predizer a gravidade da doença (Magann & Martin, 1999). 586 FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9

Sabe-se que a coagulação intravascular disseminada ocorre em 21% das pacientes com síndrome HELLP (O Brien & Barton, 2005), por esta razão, alguns trabalhos sugerem a realização de testes específicos, tais como dosagem de antitrombina III, fibrinopeptídeo A, monômero de fibrina, D-dímero, plasminogênio e fibronectina. Entretanto estes testes são onerosos, não sendo acessíveis à rotina clínica, na maioria dos casos, reservando-se apenas para pesquisas (Sibai, 1990). A síndrome HELLP é compreendida como completa, quando a paciente com pré-eclampsia grave apresenta anemia hemolítica microangiopática na presença de nível sérico de LDH superiores a 600 UI/L, contagem de plaquetas inferior a 100.000/mm 3, e níveis séricos de AST superior a 70 IU/L. A síndrome HELLP descrita como parcial, pode apresentar apenas um ou dois desses parâmetros alterados. As complicações maternas mais graves incidem com maior freqüência nas portadoras de síndrome HELLP completa, daí a importância de um rigoroso critério para definição desta síndrome (Magann & Martin, 1999). Diagnóstico diferencial Os níveis tensionais elevados (pressão arterial sistólica 160 mmhg e diastólica 110 mmhg), achado freqüente na pré-eclampsia grave, nem sempre está presente na síndrome HELLP, podendo-se observar pacientes com hipertensão leve (30%), ou mesmo ausência de hipertensão arterial (20%) (Sibai, 1990). A epigastralgia pode ser o primeiro sinal de alerta e anteceder as alterações laboratoriais da síndrome HELLP por algumas horas, o que pode confundir o obstetra levando-o ao diagnóstico de gastrite ou colecistite (O Brien & Barton, 2005). Algumas vezes, esta síndrome é confundida com hepatite viral, colelitíase, colecistite, refluxo esofágico, úlcera gástrica, lúpus eritematoso sistêmico, insuficiência renal aguda, síndrome hemolítica-urêmica, púrpura trombocitopênica (PTT) e esteatose hepática da gravidez (Sibai, 2004). Por outro lado, algumas hepatopatias apresentam quadro clínico semelhante à síndrome HELLP, impondo-se o diagnóstico diferencial através de exames complementares e evolução clínica. Achados como hipoglicemia, bilirrubina direta aumentada, plaquetopenia, TP e TTP prolongados podem estar associados a quadros de esteatose hepática (O Brien & Barton, 2005). Pacientes com púrpura trombocitopênica (PTT) podem exibir características comuns à síndrome HELLP, incluindo-se anemia hemolítica microangiopática, proteinúria, aumento de LDH, e possível comprometimento renal, mas não apresentando na maioria dos casos a elevação dos níveis de transaminases ou o quadro de hipertensão arterial. A síndrome hemolítica-urêmica também é caracterizada por anemia hemolítica microangiopática, hipertensão, proteinúria e falência renal, entretanto, sem apresentar disfunção hepática. A anemia hemolítica microangiopática presente nestas patologias parece afetar primeiramente o fígado na síndrome HELLP, o rim na síndrome hemolítica-urêmica e o sistema nervoso central na PTT (Magann & Martin, 1999; O Brien & Barton, 2005). Controvérsias na conduta Embora a síndrome HELLP possa simular diversos problemas clínicos e cirúrgicos não obstétricos, sabe-se que a brevidade e confirmação desse diagnóstico favorecerão o prognóstico materno e fetal, pois uma vez que o desfecho clínico de uma mulher com a síndrome HELLP é usualmente caracterizado por progressivo e rápido agravamento da condição materna. A gestante com síndrome HELLP necessita de cuidados especiais já padronizados, que incluem os cuidados gerais, a administração de sulfato de magnésio, terapia anti-hipertensiva e resolução da gestação (Sibai, 1990). Pacientes com suspeita ou confirmação de síndrome HELLP deverão ser imediatamente hospitalizadas em unidade de saúde de referência terciária. É conduta, prioritária, a estabilização clínica materna, particularmente as alterações da coagulação, concomitantemente à avaliação da vitalidade fetal. Diante do risco de vida materno elevado e gravidade do quadro, a interrupção da gravidez está indicada, fato que não deve depender da idade gestacional (Sibai, 1990). Quanto ao controle dos níveis tensionais, a hidralazina, é considerada a droga de escolha como hipotensor, de ação rápida, para os picos hipertensivos (Magann & Martin, 1999). O controle dos níveis pressóricos pode ser obtido com uma dose de 5 mg de hidralazina em bolus, podendo ser repetida a cada 20 min perfazendo um total de 20 mg por hora (Sibai, 2004). Na inexistência ou ineficiência da hidralazina, no controle dos níveis da pressão arterial, pode ser utilizada a nifedipina na dose de 10 a 20 mg via oral a cada 30 min (O Brien & Barton, 2005). Não se recomenda a administração sublingual, devido ao risco de queda abrupta da pressão arterial, determinando redução do fluxo sanguíneo úteroplacentário. Entretanto, seu uso deve ser evitado em pacientes diabéticas, hipertensas crônicas, fumantes e coronariopatas idosas. O nitroprussiato de sódio pode ser FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9 587

usado em casos especiais, quando a crise hipertensiva não responde a essas outras drogas, com uso restrito em ambiente de UTI, pois o risco de hipotensão é elevado, assim como intoxicação fetal (Magann & Martin, 1999). A associação entre eclâmpsia e síndrome HELLP pode ocorrer numa freqüência de 10 a 34,6% (Sibai et al., 1993; Vigil-De Gracia, 2001). Portanto, recomenda-se que todas as pacientes com síndrome HELLP recebam infusão endovenosa com dose de ataque de 4 a 6 g de sulfato de magnésio, seguido de uma dose de manutenção de 1 a 2 g por hora em solução endovenosa contínua (Duley et al., 2006). Tal droga deve ser iniciada no momento do diagnóstico, mantido durante o parto, e por no mínimo 24 h pós-parto (Sibai, 2004). O monitoramento clínico é realizado através de avaliação periódica dos reflexos patelares e diurese horária, não sendo necessário o monitoramento da magnesemia (Magann & Martin, 1999; Duley et al., 2006). Diante de vasoespasmo e lesão endotelial presentes, devem-se manter uma infusão líquida endovenosa média de 100 ml/h (ringer simples e/ou soro glicosado a 5%), não ultrapassando 150 ml/h, a fim de manter uma diurese horária de no mínimo 20 ml/h (Magann & Martin, 1999). A hipovolemia por uma infusão reduzida de líquido pode desencadear uma lesão renal, assim como seu excesso, pode predispor ao edema agudo de pulmão e ascite, e ainda outras conseqüências adversas (Magann & Martin, 1999). Na ausência de evidência clínica e/ou laboratorial de coagulação intravascular disseminada e gestações entre 24 a 34 semanas, pode ser utilizada a corticoindução da maturidade pulmonar fetal, sendo recomendável a resolução do parto no período de tempo de no máximo 48 h, sempre se avaliando rigorosamente o grau de comprometimento materno, fator decisório na interrupção da gestação (Tompkins & Thiagarajah, 1999; Sibai, 2004). Uso de corticóide na Síndrome HELLP Os benefícios maternos do uso do corticóide em mulheres com síndrome HELLP foram primeiramente relatados em pacientes na indução da maturidade pulmonar fetal (Thiagarajah et al., 1984), desde então, sugere-se a administração de corticóide como uma droga que possa ser segura e efetiva para melhorar os resultados maternos e perinatais (Magann et al., 1994a; Magann et al., 1994b, Tompkins & Thiagarajah, 1999). Os benefícios pioneiros incluem melhora nos valores laboratoriais, diurese horária, pressão arterial, menor permanência hospitalar e maior segurança para a anestesia regional (Magann et al., 1994a; Magann et al., 1994b). No entanto, uma recente revisão sistemática concluiu ainda não haver evidência suficiente da redução da morbidade materna como resultado do uso do corticóide na síndrome HELLP (Matchaba & Moodley, 2004) e sugere estudos randomizados para sua completa e segura utilização na síndrome HELLP. A literatura diverge muito em relação à dose ideal da dexametasona. Estudo pioneiro randomizado duplo-cego (Fonseca et al., 2005), utilizando dexametasona na dose de 10 mg a cada 12 h até o parto e para as puérperas 3 doses com intervalos de 12 h mostrou diminuição no tempo de hospitalização das pacientes que usaram a dexametasona, entretanto, não foi observado melhora nos parâmetros laboratoriais e nas complicações. Os dados publicados sugerem a necessidade de observações no sentido de avaliar os efeitos benéficos da corticoterapia sobre o binômio materno-fetal na síndrome HELLP. Transfusão sangüínea Deve-se restringir a administração de plasma fresco congelado aos distúrbios de coagulação clinicamente evidentes, que apresentam tempo de protombina (TP) e/ou tempo de tromboplastina parcial ativado (TTP) superiores a 1,5 vezes o valor normal, ou aqueles quadros hemorrágicos maciços em que não há tempo para avaliação laboratorial minuciosa (Ministério da Saúde, 2000). O uso do crioprecipitado é infrequente, sendo seu uso restrito aos casos de coagulação intravascular disseminada (CIVD), com o objetivo de aumentar o nível sérico do fibrinogênio (Ministério da Saúde, 2000). O uso da plasmaferese, por ser uma conduta invasiva, dispendiosa e de potencial risco para doença infecciosa, não está recomendada (Sibai, 1990). A transfusão de plaquetas está indicada, antes ou após o parto apenas nas pacientes acometidas da síndrome HELLP que apresentem importante sangramento nos locais de punção, na cicatriz cirúrgica, na presença de hemorragia intraperitoneal, extensivas equimoses e/ou em todas as pacientes com plaquetas abaixo de 20.000/mm 3 (O Brien & Barton, 2005). Recomenda-se correção da trombocitopenia com 10 unidades de plaquetas antes da realização de uma cesárea, principalmente diante de plaquetopenia inferior a 50.000/mm 3 (Sibai, 1990). Entretanto, a sua repetição não se faz necessário, devido o consumo ocorrer rapidamente e o seu efeito ser transitório. O uso da dexametasona nas portadoras de síndrome HELLP com plaquetas abaixo de 100.000/mm 3 reduz consideravelmente a necessidade de 588 FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9

transfusão de plaquetas, concentrados de hemácias e plasma fresco congelado (Magann & Martin, 1999). No entanto, diante de coagulopatia severa o uso desses hemoderivados se faz necessário. Controvérsias quanto à via de parto para resolução da gestação As mulheres portadoras de síndrome HELLP possuem maiores risco de desenvolver hemorragia pós-parto, hematoma vaginal, e ainda hematoma de parede abdominal com conseqüente infecção (O Brien & Barton, 2005). A síndrome HELLP, por si só, não é indicativa de cesárea, pois diante de condições maternas e fetais favoráveis, o parto vaginal pode ocorrer em gestações acima de 32 semanas (Sibai, 1990). A decisão entre parto via vaginal e cesárea deverá ser estabelecida após avaliação dos parâmetros materno-fetais. Para indução do parto, devem ser avaliadas as condições cervicais e vitalidade fetal. Diante de prematuridade, restrição de crescimento e centralização fetal pode-se fazer opção pela cesárea (Bush et al., 2001). Anestesia epidural pode ser realizada com segurança em pacientes sem hemorragias, naquelas em que o número de plaquetas exceda 100.000/mm 3 e sem seqüelas neurológicas (Magann & Martin, 1999). Embora a anestesia geral seja indicada nas pacientes com alterações da coagulação, a função hepática comprometida pode alterar o metabolismo das drogas anestésicas (Magann & Martin, 1999). Controvérsias na conduta do hematoma subcapsular A complicação mais dramática do comprometimento hepático na pré-eclampsia é o desenvolvimento de infarto hepático, hemorragia parenquimal extensa ou hematoma subcapsular (O Brien & Barton, 2005). De grande importância é fazer o diagnóstico diferencial da rotura do hematoma subcapsular com esteatose hepática, descolamento de placenta associado à coagulação intravascular disseminada, rotura uterina ou sepsis. Para tanto, deverão ser submetidas a um exame ultra-sonográfico ou tomografia computadorizada do fígado para pesquisar a presença de hematoma subcapsular e hemorragia intraperitoneal, as pacientes que frequentemente apresentam dor epigástrica, choque e evidência de ascite (Barton & Sibai, 1996). Na presença de hematoma hepático com choque hipovolêmico, faz-se necessária transfusão sanguínea, correção da coagulopatia com plasma fresco congelado e plaquetas, além de imediata laparotomia, incluindo tamponamento, drenagem, ligadura cirúrgica do segmento hepático, lobectomia ou embolização da artéria hepática (O Brien & Barton, 2005). Mesmo diante de conduta apropriada para a rotura hepática, a mortalidade materna em pacientes com síndrome HELLP pode atingir de 10% (Araújo et al., 2006) a 50% das pacientes (O Brien & Barton, 2005). Considerações finais As gestações complicadas com síndrome HELLP geralmente apresentam resultados desfavoráveis para o binômio maternofetal. A maioria dos sinais, sintomas e alterações laboratoriais que ocorre na síndrome HELLP pode fazer parte do quadro de outras patologias, muitas vezes confundindo o obstetra, e, desta forma retardando o diagnóstico e o estabelecimento de tratamento adequado. Essa situação agrava-se quando a síndrome ocorre em gestações antes do termo. A utilização de altas doses de corticóide no tratamento destas pacientes tem proporcionado melhores resultados maternos e perinatais, porém os resultados ainda são controversos, sendo necessário maior número de observações e estudos multicêntricos para melhor esclarecimento. O que parece bem claro até o momento é que as alterações clínicas e laboratoriais regridem após a interrupção da gestação. O sucesso do acompanhamento de uma gestação com síndrome HELLP está no reconhecimento precoce do diagnóstico e na instalação da terapêutica adequada, realizada por equipe de profissionais capacitados. FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9 589

Leituras suplementares 1. Araújo AC, Leão MD, Nóbrega MH et al. Characteristics and treatment of hepatic rupture caused by HELLP syndrome. Am J Obstet Gynecol 2006; March 28. 2. Audibert F, Friedman SA, Frangieh AY et al. Clinical utility of strict diagnostic criteria for the HELLP (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets) syndrome. Am J Obstet Gynecol 1996; 175: 460-4. 3. Barton JR, Sibai BM. Hepatic imaging in HELLP syndrome (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelet count). Am J Obstet Gynecol 1996; 174: 1820-7. 4. Bush K, O Brien JM, Milligan DA et al. The utility of umbilical artery Doppler in women with the HELLP (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets) syndrome. Am J Obstet Gynecol 2001; 184: 1087-9. 5. Carr DB, Epplein M, Johnson CO et al. A sister s risk: family history as a predictor of preeclampsia. Am J Obstet Gynecol 2005; 193: 965-72. 6. Duley L, Gülmezoglu AM, Henderson-Smart DJ. Magnesium sulphate and other anticonvulsants for women with preeclampsia (Cochrane Review). In: The Cochrane Library, Issue 1, 2006. Oxford: Update Software. 7. Gaio DS, Schmidt MI, Duncan BB et al. Hypertensive disorders in pregnancy: frequency and associated factors in a cohort Brazilian women. Hypertens Pregnancy 2001; 20: 269-81. 8. Fonseca JE, Mendez F, Catano C, Arias F. Dexamethasone treatment does not improve the outcome of women with HELLP syndrome: a double blind, placebo controlled-randomized clinical trial. Am J Obstet Gynecol 2005; 193: 1591-8. 9. Magann EF, Bass D, Chauhan SP et al. Antepartum corticosteroids disease stabilization in patients with the syndrome of hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets (HELLP). Am J Obstet Gynecol, 1994; 171: 1148-53. (a) 10. Magann EF, Perry KO Jr, Meydrech EF et al. Postpartum cortiscosteroid accelerated recovery from the syndrome of hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets (HELLP). Am J Obstet Gynecol, 1994; 171: 1154-8. (b) 11. Magann EF, Martin JN. Twelve steps to optimal management of HELLP syndrome. Clin Obstet Gynecol 1999; 42: 532-56. 12. Martin JN, Blake PG, Lowry SL et al. Pregnancy complicated by preeclampsia- eclampsia with the syndrome of hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelet count: how rapid is postpartum recovery. Obstet Gynecol 1990; 76: 737-74. 13. Martin JN, Blake PG, Perry KG et al. The natural history of HELLP syndrome: patterns of disease progression and regression. Am J Obstet Gynecol 1991; 164: 1500-13. 14. Matchaba P, Moodley J. Corticosteroids for HELLP syndrome in pregnancy. Cochrane Database Syst Rev 2004: CD002076. 15. Ministério da Saúde. Urgências e emergências maternas Guia prático para diagnóstico e conduta em situações de risco de morte materna. Febrasgo, 2000. 16. O Brien JM, Barton JR. Controversies with the diagnosis and management of HELLP syndrome. Clinical Obstet Gynecol 2005; 48: 460-77. 17. Roberts JM, Cooper DW. Pathogenesis and genetics of preeclampsia. Lancet 2001; 357: 53-6. 18. Rudge MVC, Vasconcellos MJA. Diabete e hipertensão na gravidez Manual de orientação. Febrasgo 2004; p. 93 19. Sibai BM. The HELLP syndrome (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets): Much ado about nothing? Am J Obstet Gynecol 1990; 162: 311-6. 20. Sibai BM. Diagnosis, controversies, and management of the syndrome of hemolysis, elevated enzymes, and low platelet count. Obstet Gynecol 2004; 103: 981-91. 21. Sibai BM, Ramadan MK, Usta I et al. Maternal morbidity and mortality in 442 pregnancies with hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets (HELLP syndrome). Am J Obstet Gynecol 1993; 169: 1000-6. 22. Thiagarajah S, Bourgeois FJ, Harbert GM, Caudle MR. Thrombocytopenia in preeclampsia: associated abnormalities and management principles. Am J Obstet Gynecol 1984; 150: 1-7. 23. Tompkins MJ, Thiagarajah S. HELLP (hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelets count) syndrome: the benefit of corticosteroids. Am J Obstet Gynecol 1999; 181: 304-9. 24. Ventura SJ, Martin JA, Cortin SG et al. Births: final data for 1998. National Vital Statistics Reports 2000; 48. 25. Vigil-De Gracia P. Pregnancy complicated by pre-eclampsiaeclampsia with HELLP syndrome. Inter J of Gynecol & Obstet 2001; 72: 17-23. 26. Weinstein L. Syndrome of hemolysis, elevated liver enzymes, and low platelet count: A severe consequence of hypertension in pregnancy. Am J Obstet Gynecol 1982; 142: 159-67. 590 FEMINA Setembro 2007 vol 35 nº 9