Caso Clínico Clinical Case



Documentos relacionados
Múltiplos nódulos pulmonares, que diagnóstico?

Direcção-Geral da Saúde

DISFUNÇOES RESPIRATÓRIAS

Sessão Televoter Pneumologia Como eu trato a DPOC

Biofísica da Respiração

D.P.O.C. Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica

Trauma torácico ATLS A airway (vias aéreas pérvias) B breathing (avaliação manutenção resp e mecânica resp) C circulation D disability (avaliação esta

TRATAMENTO AMBULATORIAL DA ASMA NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Andréa da Silva Munhoz

Prof. Claudia Witzel DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA

QUESTÃO 32. A) movimentação ativa de extremidades. COMENTÁRO: LETRA A

Aspiração de corpo estranho na árvore traqueobrônquica em crianças: avaliação de seqüelas através de exame cintilográfico *

APRESENTAÇÃO DA UNIDADE CASO CLÍNICO

DOENÇAS PULMONARES PULMONARE OBSTRUTIVAS ASMA

Trauma de TóraxT. Trauma de tórax. Trauma de tórax. Anatomia. Classificação Traumas estáveis Representam 60 a 70% dos casos que adentram os hospitais

FUPAC Araguari Curso de medicina. Disciplina Saúde Coletiva II 7º período. Prof. Dr. Alex Miranda Rodrigues. A CRIANÇA COM DISPNÉIA

SISTEMA RESPIRATÓRIO PROF. JAIR

Pneumonias - Seminário. Caso 1

ENFERMAGEM DOENÇAS CRONICAS NÃO TRANMISSIVEIS. Doenças Respiratórias Parte 3. Profª. Tatiane da Silva Campos

PROTOCOLOS CLÍNICOS DA COOPERCLIM AM MANEJO DO TRATAMENTO DA CRISE DE ASMA AUTOR: MÁRIO SÉRGIO MONTEIRO FONSECA

VARIANTES DO TERMO ( apenas listar/ver + dados adiante) V1) asma brônquica integra este Glossário? ( ) SIM ( x ) NÃO V2)

HOSPITALIZAÇÕES E MORTALIDADE POR ASMA: É POSSÍVEL EVITAR? DR. GUILHERME FREIRE GARCIA ABRA MAIO DE DIA MUNDIAL DA ASMA

ENFERMAGEM DOENÇAS CRONICAS NÃO TRANMISSIVEIS. Doenças Respiratórias Parte 1. Profª. Tatiane da Silva Campos

ASMA BRÔNQUICA CONDUTA NA EMERGÊNCIA PEDIÁTRICA

Broncoscopia. Certificado pela Joint Commission International. Padrão Internacional de qualidade em atendimento médico e hospitalar.

Asma Diagnóstico e Tratamento

VMNI na Insuficiência Respiratória Hipercápnica

Como ler Espirometrias

Pneumonia Comunitária no Adulto Atualização Terapêutica

MANEJO DOS CASOS SUSPEITOS E CONFIRMADOS DE INFLUENZA NO HIAE E UNIDADES

Doença inflamatória crónica das vias aéreas de elevada prevalência. Uma patologias crónicas mais frequentes

Fisiologia Respiratória

TUDO O QUE DEVE SABER. - sobre - ASMA

É a resultante final de várias doenças caracterizadas por inflamação persistente que leva à dilatação irreversível de um

Cuidados de Enfermagem no Paciente Crítico. Prof. Enf. Fernando Ramos Gonçalves Msc Intensivista-HR

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESDADO DO RIO DE JANEIRO Hospital Universitário Gaffrée e Guinle - HUGG. André Montillo

PARADA CARDIO- RESPIRATÓRIA EM PEDIATRIA

Trabalho apresentado sob a forma de poster no IV Congresso Brasileiro de. Otorrinolaringologia Pediátrica Rio de Janeiro

Resposta imunológica aos anticoncepcionais em portadoras de asma Parte Exames radiológicos

INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA

INTUBAÇÃO TRAQUEAL. Profª Enfª Luzia Bonfim

DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA - DPOC CELSON RICARDO DE SOUSA

DISCURSIVA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO PEDIATRIA MED. ADOLESCENTE NEONATOLOGIA CARDIOLOGIA PEDIÁTRICA

RESIDÊNCIA MÉDICA SUPLEMENTAR 2015 PRÉ-REQUISITO (R1) / CLÍNICA MÉDICA PROVA DISCURSIVA

36º Imagem da Semana: Radiografia de tórax

18/12/2007. Traqueíte Úlceras rasas Cartilagem exposta Cartilagem destruída

Sessão Televoter Pneumologia Como eu trato a DPOC

IMPLICAÇÕESCLÍNICAS DO DIAGNÓSTICOTARDIO DA FIBROSECÍSTICA NOADULTO. Dra. Mariane Canan Centro de Fibrose Cística em Adultos Complexo HC/UFPR

DISCIPLINA DE OTORRINOLARINOGOLOGIA UNESP- BOTUCATU

Int In e t rpre rpr t e a t ç a ã ç o ã da Prov Pr a ov de função funç Pulmonar (PFP ( )

Envelhecimento do Sistema Respiratório

CASO CLÍNICO. IDENTIFICAÇÃO IMCS, 19 anos, sexo masculino, raça caucasiana, residente em S. Brás Alportel.

EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DEPARTAMENTO DE FISIOTERAPIA PÓS-GRADUAÇÃO EM FISIOTERAPIA CARDIORRESPIRATORIA

Ingestão de corpo estranho

Preditores de lesão renal aguda em doentes submetidos a implantação de prótese aórtica por via percutânea

TERAPÊUTICA ANTIBIÓTICA DA PNEUMONIA NOSOCOMIAL

PATOLOGIAS CIRÚRGICAS NO RECÉM-NASCIDO

Objetivos da Respiração. Prover oxigênio aos tecidos Remover o dióxido de carbono

FISIOTERAPIA NA FIBROSE CÍSTICA

Data: 18/06/2013. NTRR 100/2013 a. Medicamento x Material Procedimento Cobertura. Solicitante: Juiza de Direito Dra. Herilene de Oliveira Andrade

Diagnóstico e tratamento da Deficiência de Alfa -1 antitripsina no Brasil

GDH CID-9-MC A CID-9-MC é um sistema de Classificação de Doenças, que se baseia na 9ª Revisão, Modificação Clínica, da Classificação Internacional de

Técnica de fisioterapia pulmonar é eficaz em UTIs

Radiografia e Tomografia Computadorizada

Prova de Título de Especialista em Fisioterapia Respiratória

Imagem da Semana: Tomografia de tórax

Lígia Maria Coscrato Junqueira Silva Fisioterapeuta HBP/SP

Asma Brônquica. Profº. Enfº Diógenes Trevizan Especialização Urgência e Emergência

Programação. Sistema Respiratório e Exercício. Unidade Funcional. Sistema Respiratório: Fisiologia. Anatomia e Fisiologia do Sistema Respiratório

OBSTRUÇÃO DAS VIAS AÉREAS POR CORPO ESTRANHO PROFª LETICIA PEDROSO

12º RELATÓRIO DO OBSERVATÓRIO NACIONAL DAS DOENÇAS RESPIRATÓRIAS RESUMO DOS DADOS

Inquérito epidemiológico *

Planificação anual de Saúde- 10ºano 2017/2018

ASMA. Curso de Operacionalização de Unidades Sentinelas Caxias do Sul /RS 09 a 11/

CONCEITO. O objetivo de uma sialografia é opacificar o ducto salivar de interesse e do tecido glandular associado para demonstrar. potenciais.

Caso Clínico Clinical Case

Protocolo de Manejo da Asma

Retirada do Suporte Ventilatório DESMAME

Transcrição:

Caso Clínico Clinical Case Miguel Guimarães 1 Bárbara Seabra 2 José Almeida 3 Piedade Amaro 4 João Moura Sá 4 Forma rara de apresentação de corpo estranho traqueobrônquico Tracheobronchial foreign body aspiration simulating asthma attack A case report Recebido para publicação/received for publication: 06.11.09 Aceite para publicação/accepted for publication: 06.12.19 Resumo O broncoespasmo é um dos sintomas clássicos de asma que pode ocorrer também em outras patologias. A aspiração de corpos estranhos traqueobrônquicos no adulto é uma dessas situações, que embora rara pode permanecer oculta por períodos de tempo prolongados. Os autores apresentam o caso clínico de um jovem asmático vítima de acidente de trabalho do qual resultou aspiração de corpo estranho pouco usual e só posteriormente reconhecido. Rev Port Pneumol 2007; XIII (2): 281-285 Palavras-chave: Asma, aspiração de corpo estranho traqueobrônquico, broncoscopia, adulto. Abstract Wheezing is a major symptom of asthma although it may be present in other pathologies. Foreign body aspiration a situation that often remains hidden for long periods of time. The authors present a case report of an asthmatic victim of workplace accident with aspiration of foreign body that was only suspected after some time. Rev Port Pneumol 2007; XIII (2): 281-285 Key-words: Asthma, tracheobronchial foreign body aspiration, bronchoscopy, adult. 1 Interno Complementar de Pneumologia (5.ºano) 2 Interna Complementar de Pneumologia (4.ºano) 3 Assistente Hospitalar de Pneumologia 4 Assistente Hospitalar Graduado de Pneumologia Unidade de Broncologia do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia (CHVNG). Responsável da Unidade Dr. João Moura Sá Directora do Serviço Dr.ª Bárbara Parente Contacto: Miguel Guimarães Unidade de Broncologia do CHVNG Rua Conceição Fernandes 4430-068 Vila Nova de Gaia. m.guimaraes@mail.telepac.pt 281

Introdução A asma é uma doença pulmonar crónica muito frequente e caracterizada por episódios agudos de exacerbações. Durante estes episódios, a broncoconstrição gerada pode originar o aparecimento de dispneia, pieira e tosse, que por sua vez mimetizam outras patologias 1. Apesar de pouco frequente, com uma incidência estimada de 0,66 casos por 100 000 (2), a aspiração de corpos estranhos traqueobrônquicos (CET) nos adultos deve ser um diagnóstico diferencial a considerar em quadros respiratórios de evolução arrastada e em episódios agudos de asfixia em circunstâncias mal esclarecidas. É necessário um elevado grau de suspeição clínica para o correcto diagnóstico desta condição. A remoção precoce do CET facilita a recuperação total, enquanto um diagnóstico tardio pode levar a uma extracção difícil, aumentando o risco de complicações e sequelas 3. Caso clínico Doente de 19 anos, sexo masculino, empregado fabril em serração, não fumador. Antecedentes de asma brônquica e rinite alérgica. Vítima de acidente de trabalho ao tentar desencravar uma peça na parte superior de um grande silo de serrim e fitas de madeira, fica suspenso pelo tornozelo direito, tendo ficado com a cabeça e parte do tórax submersos dentro do silo, só tendo sido retirado com grande dificuldade com a ajuda dos bombeiros. À chegada ao SU encontrava-se consciente e colaborante, polipneico, com sinais marcados de espasmo brônquico e tiragem, sem cianose. A radiografia do tórax evidenciava sinais de hiperinsuflação (Fig. 1), e a radiografia do membro inferior direito mostrava fractura do maléolo tibial direito. Fig. 1 Telerradiografia do tórax inicial em incidência PA com sinais de insuflação Após medicação com broncodilatadores e corticoterapia sistémica, verificou-se inicialmente melhoria clínica e gasométrica. No entanto, algumas horas após a admissão ocorre agravamento clínico com aparecimento de insuficiência respiratória global, motivo pelo qual foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos Polivalentes (UCIP) e submetido a ventilação mecânica invasiva. As horas iniciais na UCIP são caracterizadas por grande dificuldade em ventilar o doente, apresentando pressões das vias aéreas muito elevadas e hipotensão persistente sem resposta ao preenchimento vascular. Entretanto, verifica-se aparecimento de enfisema subcutâneo (hemitórax esquerdo e região cervical). Repete a radiografia do tórax, registando-se um pneumotórax à esquerda com extenso enfisema subcutâneo e cervical (Fig. 2). Decidiu-se realizar broncofibroscopia (BF) que revelou obstrução quase total do terço inferior da traqueia por material de consistência dura de natureza indeterminada e que não permitia a passagem do broncofibroscópio. 282

Fig. 2 Telerradiografia do tórax em incidência AP com pequeno pneumotórax à esquerda e enfisema subcutâneo (seta) Fig. 3 Obstrução da porção distal da traqueia por CET Face ao resultado da BF, foi extubado e efectuou broncoscopia rígida (BR) com ventilação com jacto que mostrou o lúmen do terço distal da traqueia e dos dois brônquios principais obstruídos por corpo estranho (Fig. 3), abundantes fitas de madeira muito comprimidas, que foram progressivamente retiradas da traqueia e das duas árvores brônquicas (durante cerca de 1h30) (Figs. 4 e 5). No final do procedimento, verificou-se a melhoria imediata da ventilação, com diminuição da pressão da via aérea para valores normais e regularização hemodinâmica. Fig. 4 Remoção de fragmentos do CET com pinça de biópsia. 283

Fig. 5 Fitas de madeira retiradas por BR Evolução clínica posterior: boa evolução respiratória, tendo sido extubado dez dias após admissão na UCIP. Na data de alta, clinicamente bem e sem alterações radiológicas. Reavalição broncoscópica aos 15 dias com alguns sinais inflamatórios e pequenos granulomas na vertente anterior da carena (Fig. 6). Actualmente sem queixas. Discussão A aspiração de CET é uma condição mais frequente na criança e pouco comum no adulto. Tende a aumentar a partir da 4.ª década de vida, com um pico pela 7.ª década 4. Idade avançada, perda de consciência, o uso de sedativos ou álcool, atraso mental, alterações neurológicas e procedimentos dentários estão descritos como factores predisponentes para a aspiração de CET 5. O quadro clínico é variável, podendo surgir como episódio agudo de asfixia, ou no caso de CET retidos durante longos períodos de tempo através das suas complicações 6. O episódio de aspiração nem sempre é identificado. A radiografia do tórax permite a visualização de corpos estranhos radiopacos, mas cerca de 75% dos corpos estranhos não são radiopacos 4,7. Ainda assim, existem sinais indirectos que nos sugerem a possibilidade de CET, como a atelectasia ou pneumonite pós-obstrutiva, e a hiperinsuflação unilateral na radiografia em Fig. 6 Granuloma na carena removido com a pinça de biópsia do BR 284

expiração forçada traduzindo mecanismo valvular expiratório 7. A BF é fundamental no diagnóstico, sendo superior à BR em situações específicas em que o CET se encontra em localização periférica e em doentes ventilados ou traumatizados cervicais e maxilo-faciais. As desvantagens da BF na extracção de CET residem, por um lado, no facto de o corpo estranho ter de ser retirado em bloco com o aparelho, podendo levar à sua perda durante a manobra, com a possibilidade de originar uma situação de asfixia, e, por outro lado, na frequente necessidade de várias manobras para a extracção do CET quando existem vários fragmentos 4. Na realidade, a BR e a BF são também nesta situação técnicas complementares. O tipo de acidente descrito, com submersão da cabeça e parte do tórax, justifica a aspiração repetida de grande quantidade de fitas de madeira mascarada pelos antecedentes de asma do doente. Como resultado da obstrução mecânica, desenvolveu-se barotrauma por hiperpressão das vias aéreas. Tratando-se da aspiração de um corpo estranho vegetal, e apesar de um intervalo de tempo curto entre o episódio de aspiração e a remoção do CET, é natural que a mistura com secreções brônquicas o tornassem mais compacto, favorecendo o aparecimento posterior de algum tecido de granulação, que no entanto foi facilmente removido. Neste caso, salienta-se a importância da BR como método de eleição para o tratamento desta situação dada a natureza e quantidade do corpo estranho envolvido. Bibliografia 1. Rodrigo G, Rodrigo M, Hall J. Acute asthma in adults a review. Chest 2004; 125:1081-102. 2. Jimenez J. Controversy, Bronchoscopic approach to tracheobronchial foreign bodies in adults, Pro-rigid bronchoscopy. J Bronchology 1997; 4:168. 3. Nakhosteen J. Tracheobronchial foreign bodies, editorial. Eur Respir J 1994; 7:429-30. 4. Moura Sá J, Oliveira A, Caiado A, Neves S, Barroso A et al. Corpos estranhos traqueobrônquicos no adulto experiência da unidade de broncologia do CHVNG. Rev Port Pneumol 2006; XII (1):31-43. 5. Limper A, Prakash U. Tracheobronchial foreign bodies in adults. Ann Intern Med 1990; 112:604. 6. Marquette C. Airways foreign bodies. In: UpToDate, Rose B (ed.), UpToDate, Wellesley M, 2005. 7. Mu L, Sun D, He P. Radiological diagnosis of aspirated foreign bodies in children: review of 343 cases. J Laryngol Otol 1990; 104:778-82. 285