Equações de Klein-Gordon e Dirac
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- Diogo Canário Cordeiro
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1 Capítulo 4 Equações de Klein-Gordon e Dirac Seguimos aqui as secções 7. a 7.3 do Griffiths ] e as secções.2 a.5 de ITC 2]. 4. A equação de Klein-Gordon. Comecemos pela partícula livre. Em mecânica quântica não relativista a equação de Schrödinger é obtida da equação fundamental usando o Hamiltoniano livre não relativista que é i h ψ = Hψ (4.) t H = p2 2 m e fazendo a substituição p i h. Obtemos então (4.2) i h ψ t = h2 2m 2 ψ (4.3) A primeira ideia que surgiu para generalizar esta equação para uma partícula relativista foi usar em vez da Eq. (4.2) o Hamiltoniano relativista. Para uma partícula livre o Hamiltoniano é a sua energia e devemos ter H = E (4.4) A energia está relacionada com o momento linear através da relação onde p µ p µ = m 2 c 2 (4.5) p µ ( ) E c, p (4.6) 45
2 46 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac Temos então ou seja E 2 c 2 p p = m2 c 2 (4.7) E 2 = p 2 c 2 + m 2 c 4 (4.8) Classicamente exige-se que as energias sejam positivas por isso deveríamos ter no caso relativista H = p 2 c 2 + m 2 c 4 (4.9) Somos imediatamente confrontados com o problema de interpretar a raiz quadrada dum operador. Para evitar este problema vamos encontrar uma equação para H 2. Isto obtém-se facilmente iterando a Eq. (4.) e observando que i h t, H] =. Obtém-se então ou ainda h 2 2 t 2 ψ = ( h2 c m 2 c 4 )ψ (4.) + ( mc ) ] 2 ψ = (4.) h onde = µ µ. Agora não temos dificuldades em interpretar os operadores mas introduzimos no problema as soluções de energia negativa que também são soluções da Eq. (4.). Como veremos as soluções de energia negativa não podem deixar de existir em mecânica quântica relativista e a sua interpretação está relacionada com as antipartículas. A observação experimental de antipartículas veio a confirmar esta interpretação. Mas não foi a existência de soluções com energia negativa que levou ao abandono da Eq. (4.), chamada equação de Klein-Gordon 6 8], como equação relativista para o eletrão mas antes outro problema relacionado com a densidade de probabilidade. Partindo da Eq. (4.) e da equação complexa conjugada obtemos ou ψ + ( mc ) ] 2 ψ ψ + h onde ψ µ ψ ψ µ ψ ψ µ ψ. Temos então ( mc ) ] 2 ψ = (4.2) h = ψ ψ ψ ψ = µ (ψ µ ψ) (4.3) µ J µ = ; J µ = ψ µ ψ (4.4)
3 4.2. A equação de Dirac 47 Na identificação usual J µ = (ρc, J) pelo que a densidade será ρ = ( ψ ψ ) c 2 t ψ ψ t (4.5) Esta equação mostra que ρ não pode ser interpretado como uma densidade de probabilidade por não ser definida positiva. Finalmente uma terceira razão fez abandonar a equação da Klein-Gordon. De facto ela não conduz aos níveis de energia do átomo de hidrogénio (ver Problema 4.3). Se excetuarmos esta última razão, a Eq. (4.) foi abandonada pelas razões erradas. De facto pode-se mostrar que ela é a boa equação relativista para partículas de spin zero, razão pela qual não pode explicar os níveis do átomo de hidrogénio onde os efeitos do spin são importantes. As soluções de energia negativa serão compreendidas e a densidade ρ será re-interpretada não como uma densidade de probabilidade mas antes como uma densidade de carga. 4.2 A equação de Dirac Confrontado com os problemas anteriores Dirac propôs uma outra equação relativista para o eletrão 9, ]. Como na equação fundamental, Eq. (4.), a derivada em ordem ao tempo aparece linearmente é natural admitir num contexto relativista que o Hamiltoniano seja também linear nas derivadas em ordem às coordenadas e portanto escrevemos i h ψ t = ( i hc α + βmc 2 ) ψ Hψ (4.6) É fácil de ver que α i e β não podem ser números pois então a relação entre energia e momento duma partícula relativista não seria verificada. Também ψ não pode ser um escalar se ρ = ψ ψ é para ser interpretada como a componente temporal dum 4-vetor corrente. Assim Dirac propôs que α e β sejam matrizes hermíticas N N (para que H seja hermítico) e que ψ seja uma matriz coluna com N elementos. ψ = ψ. ψ N (4.7) A Eq. (4.6) é então interpretada como uma equação matricial. Para que ela faça sentido devemos satisfazer as condições: Deve dar a relação correta entre a energia e o momento isto é E 2 = p 2 c 2 +m 2 c 4, para uma partícula livre. Deve fornecer uma probabilidade definida positiva. Deve ser covariante para transformações de Lorentz.
4 48 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac Vejamos os dois primeiros requisitos. Para que se obtenha a relação energia-momento correta basta que cada componente satisfaça à equação de Klein Gordon. Para isso iteramos a Eq. (4.6) h 2 2 ψ = ( i hcα i t 2 i + βmc 2) i h ψ (4.8) t = h 2 c 2 αi α j + α j α i ] i j i hmc 2 (α i β + βα i ) i + β 2 m 2 c 4 ψ 2 Para que cada componente satisfaça a equação de Klein- Gordon devemos ter α i α j + α j α i = 2δ ij α i β + βα i = (α i ) 2 = β 2 = (4.9) Temos portanto que construir 4 matrizes que anticomutem, sejam hermíticas e cujo quadrado seja a identidade. É desde logo claro que não podem ser 2 2 pois só há 3 matrizes 2 2 que anticomutam, as matrizes de Pauli. Para ver a dimensão mínima em que é possível realizá-las, observemos que sendo hermíticas os seus valores próprios são reais e iguais a ± pois α i2 = β 2 =. Das relações de anticomutação pode-se concluir que têm traço nulo. Por exemplo ou seja α i = βα i β (4.2) Tr(α i ) = Tr( βα i β) = Tr(α i ) = (4.2) Isto tem como consequência que N deve ser par para que o número de valores próprios + e seja igual. Como N = 2 está excluído devemos ter N = 4 como a dimensão mais baixa onde se realiza a Eq. (4.9). Uma representação explicita, a chamada representação de Dirac é α i = ] σi σ i onde σ i são as matrizes de Pauli: σ = ; σ 2 = ; β = i i ; σ 3 = (4.22) (4.23) É um exercício trivial verificar que a Eq. (4.22) satisfaz as condições da Eq. (4.9). Claro que a escolha não é única, mas voltaremos a este assunto mais tarde.
5 4.2. A equação de Dirac 49 Vamos agora ver a questão da corrente de probabilidade. Para isso escrevemos a equação conjugada hermítica da Eq. (4.6). Atendendo a que α i e β são hermíticas, obtemos i h ψ t = ψ (i hcα i i + βmc 2 ) (4.24) Multiplicando a Eq. (4.6) à esquerda por ψ e a Eq. (4.24) à direita por ψ e subtraindo obtemos ou ainda i h t (ψ ψ) = i hc i (ψ α i ψ) (4.25) t (ψ ψ) + (ψ c αψ) = (4.26) o que permite identificar uma densidade de probabilidade e uma corrente de probabilidade: ρ = ψ ψ (4.27) j = ψ c αψ (4.28) Integrando a Eq. (4.26) em todo o espaço obtemos d d 3 xψ ψ = (4.29) dt o que está de acordo com identificarmos ψ ψ como uma densidade de probabilidade definida positiva. A notação das Eq. (4.26) e (4.28) antecipa o facto de j ser um 3-vetor. De facto temos de mostrar isso e muito mais. Na secção seguinte demonstraremos que j µ = (cρ, j) é um 4-vetor conservado, µ j µ = e que a equação de Dirac é covariante, isto é, que mantém a mesma forma em todos os referenciais de inércia. Antes de continuar a discutir a equação de Dirac vamos introduzir uma conveniente notação 4-dimensional. Multiplicamos a Eq. (4.6) por β à esquerda e c introduzimos as matrizes Então a equação de Dirac escreve-se ou ainda γ β ; γ i βα i i =, 2, 3 (4.3) (i hγ µ µ mc)ψ = (4.3)
6 5 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac onde se introduziu a notação, devida a Feynman (i h / mc)ψ = (4.32) / γ µ µ (4.33) As matrizes γ µ, na representação de Dirac, são γ = ; γ i = ] σi σ i (4.34) É fácil de ver que as relações da Eq. (4.9) se escrevem duma forma compacta em termos das matrizes γ, isto é γ µ γ ν + γ ν γ µ = 2g µν. (4.35) 4.3 Soluções para a partícula livre 4.3. Sistema de unidades h = c = Em física de partículas é usual utilizar um sistema de unidades em que h = c =. Isto simplifica muito as expressões e os cálculos numéricos. Vamos rever aqui os conceitos fundamentais. No sistema de unidades h = c =, complementado com ǫ = µ = (notar que c = implica ǫ µ = ), só há uma unidade independente. Qual se escolhe depende da situação, umas vezes a energia, outras o tempo ou ainda a distância. A conversão faz-se usando as relações: =c = ms s = m (4.36) = hc = MeV.fermi MeV = m (4.37) = h = Js J.s = (4.38) Como exemplo, vamos escrever as várias unidades em termos da energia. Temos sucessivamente m = MeV s = MeV (4.39) J.s J.s s Kg = = = MeV. m 2 s m 2
7 4.3. Soluções para a partícula livre 5 Particularmente úteis são as relações: s = MeV barn = 24 cm 2 = MeV 2 pb = = MeV 2 (4.4) MeV 2 = pb GeV 2 = pb ev 2 = Hz Se quisermos podemos sempre re-introduzir as potencias de h e c, como no exemplo seguinte. Exemplo 4. Considere que um cálculo da secção eficaz deu o resultado σ = λ s (4.4) onde λ é um parâmetro sem dimensões e s o quadrado da energia (massa) no CM. Vamos escrever a expressão introduzindo as potências de h e c. Para isso começamos por escrever σ = λ s hα c β (4.42) Sabemos que a secção eficaz tem as dimensões duma área e que s] = M] 2. Por isso devemos ter L 2 = M 2 ( ML 2 T ) α ( LT ) β =M α 2 L 2α+β T α β (4.43) que tem como solução α = 2, β = 2. O resultado final será portanto, o que se pode comparar com a Eq. (2.3). σ = λ h2 s c 2 (4.44) Soluções da equação de Dirac no referencial próprio Tomemos a equação de Dirac para a partícula livre ( h = c = a partir de agora) A Eq. (4.45) admite como soluções ondas planas (i / m)ψ(x) = (4.45)
8 52 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac ψ(x) = w( p)e i pµxµ (4.46) desde que p µ p µ = m 2. Isto implica que (p ) 2 = E 2 = p p + m 2, e portanto temos soluções com energia positiva e negativa. Nas nossas convenções fazemos p = E/c = p 2 + m 2 > sempre, pelo que devemos ter ψ r (x) = w r ( p)e i εrpµxµ (4.47) onde ε r = ± para soluções de energia positiva e negativa, respetivamente, e o índice r explicita as diferentes soluções independentes, como veremos de seguida. Para determinar w r ( p) vamos considerar primeiro o caso da partícula em repouso. No referencial próprio a equação de Dirac reduz-se a (i γ t m ) ψ = (4.48) Usando a representação de Dirac, Eq. (4.34), é fácil de ver que a equação se escreve onde com e m ( ε r γ ) ψ r = (4.49) ε r = w () () = 2m ψ r = w r ()e i εrmt (4.5) w 3 () = 2m { + r =, 2 r = 3, 4 ; w2 () = 2m ; w4 () = 2m (4.5) (4.52) (4.53) Vemos portanto que r =, 2 são soluções da energia positiva e r = 3, 4 da energia negativa. O factor 2m da normalização foi introduzido por conveniência como será claro mais tarde (esta normalização é a nossa única diferença em relação às convenções de Bjorken e Drell). Se usarmos o operador σ Σ (4.54) σ vemos ainda que w (r) () são funções próprias de Σ 3 com valores próprios ±. Assim as soluções r =, 2 descrevem o eletrão de Schrödinger-Pauli e as soluções de energia
9 4.3. Soluções para a partícula livre 53 negativa, r = 3, 4 serão interpretadas mais tarde. Na re-interpretação de Dirac das soluções de energia negativa como as anti-partículas, a ausência de um eletrão de energia negativa com spin CP corresponde a um positrão com spin down, por isso w 3 () corresponderá a spin down enquanto que w 4 () a spin up Soluções da equação de Dirac para p Se tivéssemos visto como os spinores se transformam num transformação de Lorentz, poderíamos aqui fazer simplesmente uma mudança de referencial. Voltaremos a este assunto na secção seguinte, mas sem demonstração, pelo que aqui vamos construir as soluções para p diretamente seguindo de perto o Griffiths. Queremos soluções da forma ψ(x) = N w(k) e i k x (4.55) onde N é uma normalização a determinar no final. Substituindo na Eq. (4.45) obtemos (γ k m)w(p) = (k/ m)w(k) = (4.56) onde usámos a notação, devida a Feynman, k/ γ µ k µ γ k = γ k γ k (4.57) Comecemos por notar que a Eq. (4.56) é uma equação algébrica matricial. Na representação de Dirac temos k/ = γ k γ k k = ] k σ (4.58) k σ k pelo que escrevendo o 4-spinor w em termos de dois bi-spinores, wa w(p) = w B (4.59) obtemos k m ] k σ wa (k/ m)w = k σ k m w B (4.6) (k m)w A ] k σw B = = k σwa (k + m)w B (4.6) Estas equações conduzem às relações, w A = k m ( k σ)w B, w B = k + m ( k σ)w A, (4.62)
10 54 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac A consistência requer então que w A = Mas usando ( k σ) 2 = k 2, concluímos que deve ser (k ) 2 m 2 ( k σ) 2 w A (4.63) k 2 = (k ) 2 m 2, (k ) 2 k 2 = m 2 (4.64) Exemplo 4.2 Mostremos que ( k σ) 2 = k 2. Para isso usamos a propriedade das matrizes de Pauli, σ i σ j = δ ij + iǫ ijk σ k (4.65) para obter ( k σ) 2 = k i k j σ i σ j = k 2 (4.66) onde no último passo usámos o facto de a contração dum tensor simétrico com um anti-simétrico se anular. Portanto k µ deve ser um quadri-vetor relacionado com o 4-momento da partícula por k µ = ±p µ (4.67) correspondendo o sinal + às soluções de energia positiva, as partículas e o sinal às soluções de energia negativa, as anti-partículas. Podemos agora construir 4 soluções independentes da equação de Dirac. De facto. Escolher w A =. Então (E = p ) w A = ], w B = c p σ E + m ] (4.68) 2. Escolher w A = 3. Escolher w B =. Então w A =. Então w B =, w B =, w A = c p σ E + m c p σ E + m (4.69) (4.7)
11 4.4. Covariância da equação de Dirac Escolher w B =. Então w B = ], w A = c p σ E + m ] (4.7) Com a normalização canónica, obtemos finalmente as quatro soluções independentes, e u () = E + m p z E + m p x + ip y E + m p x ip y v () = E + m p z E + m E + m w w = 2E (4.72), u(2) = E + m, v (2) = E + m p x ip y E + m p z E + m p z E + m p x + ip y E + m (4.73) (4.74) onde usámos a notação convencional, u para as partículas e v para as anti-partículas. Notar que devido aos sinais na Eq. (4.67), as equações para u e v diferem dum sinal (ver Eq. (4.56)) (p/ m)u =, (p/ + m)v =. (4.75) 4.4 Covariância da equação de Dirac 4.4. Transformações de spinores Escrevemos a equação de Dirac na forma, (iγ µ µ m)ψ(x) = (4.76) sem nunca nos preocuparmos em que referencial estamos. A razão é que estamos implicitamente a usar o facto de que deve ter a mesma forma em todos os referenciais de inércia, isto é no referencial S deverá ser (iγ µ µ m)ψ (x ) = (4.77) Numa transformação geral entre S e S definida através das transformações, x µ = a µ νx ν (4.78)
12 56 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac um escalar fica invariante φ (x ) = φ(x), mas um vetor muda como as coordenadas, A µ = a µ νa ν. (4.79) A questão é saber como se transformam os spinores nas transformações da Eq. (4.78). Não vamos explicar esta questão aqui (ver a Ref. 2]) mas só dar o resultado. Se definirmos ψ (x ) = S(a)ψ(x) (4.8) então a equação de Dirac é covariante se S(a)γ µ S (a)a ν µ = γ ν (4.8) A forma explícita depende do tipo de transformações de Lorentz. Assim. Rotações S R = e i 2 θ Σ (4.82) onde θ é um vetor coma direção da rotação e módulo igual ao ângulo de rotação e σ Σ = (4.83) σ Notar que em cada bloco diagonal os spinores transforma-se como em mecânica quântica não relativista. 2. Transformações de Lorentz (boosts) S L = e 2 ω α (4.84) onde α são as matrizes de Dirac, e ω é um vetor na direção da velocidade relativa entre S e S tal que tanh ω = V c (4.85) 3. Inversão no espaço (Paridade) Neste caso e portanto a Eq. (4.8), dá a µ ν = (4.86) S P = γ. (4.87)
13 4.4. Covariância da equação de Dirac Adjunto de Dirac A escolha mais simplista para formar um invariante seria ψ ψ. Contudo esta quantidade não é um escalar mas sim a componente temporal dum 4-vetor, como vimos na discussão da corrente de probabilidade. Como formar então um escalar? Para isso notemos, que S L = S L S L ψ ψ ψψ (4.88) contudo podemos mostrar que para todas as transformações de Lorentz devemos ter Por isso se definirmos o chamado adjunto de Dirac então temos e portanto S = γ S γ (4.89) ψ(x) ψ (x)γ (4.9) ψ = Sψ, ψ = ψs (4.9) ψ ψ = ψs Sψ = ψψ (4.92) e é portanto um escalar, invariante para todos os tipos de transformações de Lorentz Covariantes bilineares Tal como qualquer matriz complexa 2 2 se pode exprimir em termos de 4 matrizes linearmente independentes (por exemplo a matriz identidade mais as matrizes de Pauli) assim qualquer matriz 4 4 se pode exprimir em termos de 6 matrizes 4 4 linearmente independentes. Para introduzir estas matrizes é conveniente definir a seguinte matriz γ 5 iγ γ γ 2 γ 3 (4.93) que na representação de Dirac tem a forma γ 5 = (4.94) Da definição resultam as propriedades importantes {γ 5, γ µ } = (4.95) (γ 5 ) 2 = (4.96)
14 58 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac Estamos agora em posição de definir as 6 matrizes 4 4 Γ S = (4.97) Γ V µ = γ µ (4.98) Γ T µν = σ µν = i 2 γ µ, γ ν ] (4.99) Γ A µ γ 5γ µ (4.) Γ P = γ 5 (4.) onde os símbolos S, V, T, A e P designam respetivamente: escalar, sector, tensor, pseudo sector e pseudo-escalar e têm a ver com a maneira como os bilineares ψ Γ a ψ a = S, V, T, A e P (4.2) se transformam para transformações de Lorentz. Por exemplo ψ (x ) Γ A ψ (x ) = ψ (x )γ 5 γ µ ψ (x ) = ψ(x)s γ 5 γ µ Sψ(x) = det a a µ νψ(x)γ 5 γ ν ψ(x) (4.3) onde se usou o facto de S, γ 5 ] = para transformações de Lorentz próprias e {P, γ 5 } = para a inversão no espaço. Isto mostra que ψ(x)γ 5 γ µ ψ(x) se transforma como um sector axial ou pseudo-sector. De forma semelhante se podiam demonstrar as propriedades de transformação dos outros bilineares. 4.5 Interpretação das soluções de energia negativa Apesar de todos os sucessos da equação de Dirac descritas anteriormente o problema das soluções com energia negativa continua por resolver. Este problema não é um problema académico, pois é preciso explicar porque é que os electrões nos átomos não efectuam transição para estados de energia negativa. Por exemplo um cálculo simples dá para o electrão, no estado fundamental do hidrogénio, uma taxa de transição de 8 s para decair no intervalo mc 2, 2mc 2 ]
15 4.5. Interpretação das soluções de energia negativa 59 E mc 2 - mc 2 Buraco e - fotao ~ Mar de Dirac Figura 4.: 4.5. A teoria dos buracos de Dirac. Foi Dirac quem primeiro forneceu um tratamento consistente das soluções de energia negativa. O argumento de Dirac só funciona para fermiões pois faz uso do Princípio de Exclusão de Pauli. Assim para Dirac o vácuo da teoria é constituído por todos os estados de energia negativa preenchidas. Devido ao princípio de exclusão de Pauli um electrão com energia E > não pode então efectuar uma transição para um estado de energia negativa, explicando a estabilidade dos átomos. Claro que o vácuo tem energia e momento infinitos mas fisicamente só medimos diferenças em relação ao vácuo e essas serão finitas. A principal consequência desta interpretação é a existência de antipartículas, neste caso o positrão. Consideremos que o vácuo tem uma lacuna ou buraco. Isto quer dizer a ausência dum electrão de energia E e carga e. Mas isto pode ser igualmente interpretado como presença duma partícula de carga + e a energia positiva +E, isto é, o positrão. Assim a produção dum par electrão-positrão é explicada esquematicamente na Figura4. Isto é, um electrão é excitado dum estado de energia negativa deixando atrás de si uma lacuna no mar de Dirac. Como esta lacuna corresponde a um positrão ficou criado um par e + e. Igualmente a aniquilação electrão-positrão pode ser interpretada como um electrão com E > que faz uma transição para um estado com E < que estava livre (positrão ) desaparecendo portanto o electrão e o positrão, conforme indicado na Figura4.2 Com a teoria dos buracos abandonamos a interpretação em termos de funções de onda de uma partícula para passar a ser uma explicação em termo de muitas partículas. Só o formalismo da segunda quantificação, com os seus operadores de criação e destruição permitirá fazer uma descrição consistente desta teoria de muitas partículas. Essa explicação, como veremos, também se aplicará aos bosões, o que a este nível não é possível de explicar por não satisfazerem ao princípio de exclusão de Pauli. Contudo a interpretação de Dirac teve um papel determinante no desen-
16 6 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac E mc 2 - mc 2 Buraco e - fotao ~ Mar de Dirac Figura 4.2: volvimento da teoria e a descoberta experimental das anti-partículas foi um grande sucesso. 4.6 Conjugação de carga Da teoria dos buracos emerge assim numa nova simetria de natureza: para cada partícula existe uma anti-partícula. Esta simetria designa-se por conjugação de carga. Vejamos como a podemos definir. De acordo com a teoria dos buracos devemos ter uma correspondência unívoca entre as soluções de energia negativa da equação de Dirac para os electrões (i / ea/ m)ψ = (4.4) e as soluções de energia positiva da equação de Dirac para os positrões, (i / + ea/ m)ψ c = (4.5) onde ψ c é a função de onda para o positrão. Para encontrar a relação observemos que o sinal relativo entre i / e ea/ é o contrário nas duas equações. Isso leva-nos a considerar o complexo conjugado da Eq. (4.4). Obtemos ( iγ µ µ eγ µ A µ m)ψ = (4.6) Usando agora γ T ψ = ψ T e γ T γ µ γ T = γ µt obtemos γ µt (+i µ + ea µ ) m ] ψ T = (4.7) Se encontrarmos uma matriz C, não singular, tal que Cγ µt C = γ µ (4.8)
17 4.6. Conjugação de carga 6 podemos então identificar (a menos duma fase que tomamos igual a ) ψ c Cψ T (4.9) Que existe uma matriz C verificando a Eq. (4.8) pode ser demonstrado construindo um exemplo específico. Na representação de Dirac é C = iγ 2 γ = C = C = C T (4.) ou mais explicitamente ( ) iσ 2 C = iσ 2 = (4.) É instrutivo ver como é que a Eq. (4.9) relaciona as soluções de energia negativa com as funções de onda do positrão. Consideremos um electrão de energia negativa em repouso com spin para baixo. Então ψ = N eimt (4.2) onde N é uma renormalização. Aplicando a Eq. (4.9) obtemos ψ c = N e imt (4.3) isto é, um positrão de energia positiva e spin para cima. Portanto a ausência dum electrão de spin e energia negativa corresponde à presença dum positrão de energia positiva e spin. Foi este facto que nos levou a identificar v (p, ) com w 4 ( p) e v (p, ) com w 3 ( p). A conjugação de carga, forma conjuntamente com a paridade e a inversão no tempo, um conjunto de simetrias discretas muito importantes para a caracterização das partículas e suas interacções. Para um estudo mais aprofundado em teoria quântica dos campos ver ].
18 62 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac Problemas Capítulo 4 4. Mostre que a construção usual da corrente de probabilidade aplicada à equação de Schrödinger conduz à densidade de probabilidade usual ψ 2 definida positiva. Compare com a Eq. (4.2) e discuta a origem da diferença entre os dois casos. 4.2 Considere o tensor do campo eletromagnético F µν = µ A ν ν A µ. A partir deste tensor define-se o chamado tensor dual F µν = 2 ǫµνρσ F ρσ. a) Mostre que as equações de Maxwell são µ F µν = J ν e que estas reproduzem as leis de Gauss e Ampère (incluindo a corrente de deslocamento introduzida por Maxwell). b) Mostre que se tem µ F µν = Verifique que esta equação contém as chamadas equações de Maxwell homogéneas, isto é, B =, e E = B/ t. Verifique que aquela relação é equivalente à forma mais usual (identidade de Bianchi) µ F νρ + ν F ρµ + ρ F µν = c) Exprima os invariantes F µν F µν, F µν F µν e F µν F µν em termos dos campos E e B. d) Mostre que se E e B são perpendiculares num dado referencial, então são perpendiculares em todos os referenciais de inércia. e) Considere um referencial S onde se tem E e B =. será possível encontrar um referencial S onde E = e B? Justifique.
19 Problemas Capítulo Introduza na equação de Klein-Gordon o acoplamento mínimo i µ i µ ea µ e considere as soluções estacionárias do átomo de hidrogénio, isto é ( h = c = ) ψ( r, t) = φ( r) e iet ; A = e 4πr a) Mostre que a equação de Klein-Gordon se escreve ( 2 + m 2 E + α ) ] 2 φ( r) = r b) Mostre que esta equação se pode resolver exatamente pelos métodos usuais dando as energias onde E nl = m ; + α2 (n ε l ) 2 { n =, 2, l =,,, n ) 2 α 2 ] /2 ε l = l + 2 ( l + 2 c) Expandindo em potências de α compare com os resultados da teoria de Schrödinger incluindo correções relativistas. 4.4 Utilize as expressões explícitas S R = cos θ 2 + iˆθ Σ sin θ 2 S L = cosh ω 2 ˆω α sinh ω 2 para verificar que para transformações finitas também temos 4.5 Mostre as relações seguintes: (Γ a ) 2 = ± Tr (Γ a ) =, a s S γ µ S = a µ νγ ν γ µ γ µ = 4 ; γ µ γ ν γ µ = 2γ ν ; γ µ γ ν γ ρ γ µ = 4g νρ γ µ γ ν γ ρ = g µν γ ρ g µρ γ ν + g νρ γ µ + iε µνρα γ α γ 5
20 64 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac 4.6 Prove a decomposição de Gordon: u(p, s )γ µ u(p 2, s 2 ) = 2m u(p, s ) (p + p 2 ) µ + iσ µν (p p 2 ) ν ] u(p 2, s 2 ) Sugestão: Use a identidade a/b/ = a µ b µ ia µ b ν σ µν 4.7 Considere um eletrão incidente da região I com energia E conforme indicado na Figura 4.3. Admita que a partícula incidente tem a função de onda ψ inc = a e ik z k E+m E k V Figura 4.3: Paradoxo de Klein a) Calcule a onda deflectida e a onda transmitida. b) Mostre que a corrente deflectida e transmitida obedecem a J trans J inc = 4r ( + r) 2 ; J refl ( r)2 = J inc ( + r) 2 isto é, aparentemente tudo bem pois contudo J inc = J trans + J refl Portanto r = k 2 k E + m E V + m e se V > E + m então r <
21 Problemas Capítulo 4 65 Comente este resultado. J ref > J inc 4.8 Demonstre as relações de Ehrenfest d dt r op = i H, r op ] = c α d dt π op = i H, π op ] + ( t π op = e E + vop B) onde 4.9 π op = i e A H = i α + βm e α A + ea a) Construa o Hamiltoniano H da equação de Dirac para partículas livres no espaço dos momentos. b) Calcule o comutador H, L ], onde L = r p é o momento angular orbital. c) Calcule o comutador spin. d) Use os resultados anteriores para calcular H, S, onde S = Σ é o momento angular intrínseco ou 2 H, J ], onde J = L + S. Comente. 4. Considere um eletrão descrito pela equação de Dirac. a) Mostre que no caso do eletrão livre se tem, d( Σ p) dt = onde ( ) σ Σ = σ Qual o significado desta lei de conservação?
22 66 Capítulo 4. Equações de Klein-Gordon e Dirac b) Considere agora que o eletrão está num campo eletromagnético exterior A µ, independente do tempo. Calcule agora d( Σ π) dt onde π = p e A é o momento canónico. c) Em que condições d( Σ π) =? dt Qual o interesse prático deste resultado? Sugestão: Para um operador O que não dependa do tempo tem-se do dt = i H, O onde H é o Hamiltoniano do sistema. Não esquecer que H é diferente nas alíneas a) e b).
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