Formulação Covariante do Eletromagnetismo
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- Joana Avelar Brás
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1 Capítulo 12 Formulação Covariante do Eletromagnetismo O objetivo deste capítulo é expressar as equações do Eletromagnetismo em forma manifestamente covariante, i.e. invariante por transformações de Lorentz e, portanto, consistente com o princípio de invariância da Relatividade Especial Equações Eletromagnéticas Vamos primeiro fazer uma breve revisão das equações eletromagnéticas Equações de Maxwell As equações de Maxwell descrevem a produção e propagação de campos E&M. Na forma diferencial são dadas por E = ρ ǫ 0 Lei de Gauss 12.1 B = 0 Inexistência de Monopólos Magnéticos 12.2 E = B B = µ 0 j + µ 0 ǫ 0 E Lei de indução de Faraday 12.3 Lei de Ampere 12.4 onde ρ é a densidade de carga elétrica, j é a densidade de corrente elétrica Conservação de Carga Tomando o divergente da Lei de Ampere: B d = µ 0 j + µ 0 ǫ E 0 dt dρ/ǫ 0 = µ 0 j + µ 0 ǫ 0 dt = µ 0 j + dρ dt
2 110 CAPÍTULO 12. FORMULAÇÃO COVARIANTE DO ELETROMAGNETISMO Portanto, cargas são conservadas pela equação da continuidade dρ dt + j = Potenciais Eletromagnéticos É conveniente definir potenciais eletromagnéticos pelas Eqs. de Maxwell sem fontes. Primeiramente, como B = 0 B = A 12.7 Usando essa expressão na Lei de Faraday, temos E = A = A E + A = e o termo entre parênteses deve ser o gradiente de um campo escalar φ. O potencial elétrico φ e o potencial vetor magnético A são portanto definidos por E = φ A 12.9 B = A Transformação de Calibre: Invariância Se φ e A sao soluções das Eqs. de Maxwell, os potenciais φ e A definidos por φ = φ f A = A + f para uma função fx, t qualquer tambem são, pois E = φ A = φ + f A f B = A = A + f = B = φ A = E Portanto, temos a liberdade de escolher a função f convenientemente sem alterar os campos. A escolha de f implica a determinação de um calibre. O calibre usado nas soluções de ondas eletromagnéticas é o calibre de Lorentz A + µ 0 ǫ 0 φ = 0 Calibre de Lorentz 12.14
3 12.2. RELATIVIDADE ESPECIAL Ondas Eletromagnéticas Inserindo os potenciais nas Eqs. de Maxwell, temos e E = φ A = A 2 φ = ρ ǫ 0 Essas duas equações implicam: B = A = A 2 A E = µ 0 j + µ 0 ǫ 0 = µ 0j + µ 0 ǫ 0 φ = µ 0 j µ 0 ǫ 0 φ A µ 0 ǫ 0 2 A A φ + 2 A 2 A µ0 ǫ 0 2 = ρ ǫ 0 = µ 0 j + A φ + µ 0 ǫ Escolhendo o calibre de Lorentz as equações se tornam A + µ 0 ǫ 0 φ = φ = 1 c 2 2 φ φ = ρ ǫ A = 1 c 2 2 A A = µ0 j i.e., os potenciais se propagam de acordo com a equação de ondas clássica não-homogêneas com velocidade constante e igual à velocidade da luz c 2 = 1/µ 0 ǫ 0. Unificação: E&M Óptica Força de Lorentz Dados os campos E&M, partículas sofrem forças E&M dadas por: F = q E + v B Relatividade Especial As equações de ondas E&M tem uma velocidade de propagação constante. Questões: 1: Com relação a que referencial se mede c? 2: Como explicar o desaparecimento de forças magnéticas em um sistema de referência que se move com a carga?
4 112 CAPÍTULO 12. FORMULAÇÃO COVARIANTE DO ELETROMAGNETISMO Essas questões motivaram o desenvolvimento da relatividade especial, que soluciona esses problemas e muda a concepção clássica de espaço e tempo, requerendo apenas dois postulados na verdade apenas um: Postulado 1: As leis da Física são as mesmas em todos os referenciais inerciais. Postulado 2: A velocidade da luz c é a mesma em todos os referenciais inerciais. A constância de c segue do postulado 1, pois o E&M é um conjunto de leis da Física onde c=const Coordenadas e métrica Definindo coordenadas contravariantes O elemento de linha ds x µ = x 0, x 1, x 2, x 4 = ct, x,y, z ds 2 = dx 2 + dy 2 + dz 2 c 2 dt 2 = dx dx dx dx 3 2 define a métrica n µν = η µν dx ν dx µ η µν = Coordenadas covariantes x µ são definidas Similarmente, Transformações de Lorentz x µ = n µν x ν = ct, x,y, z x µ = η µν x ν, η µν = η µν Considere um referencial K em repouso e outro K que se move com relacao a K com velocidade v na direção x. Para ambos c é mesma, portanto considerando a trajetória de um raio de luz s 2 = x 2 + y 2 + z 2 c 2 t 2 = 0 = x 2 + y 2 + z 2 c 2 t 2 = s A transformação de Lorentz relaciona coordenadas x µ e x µ, mantendo s 2 invariante e, no caso da luz, nulo. Considerando-se e.g. uma partícula em repouso em K, mostra-se que a transformação é dada por x 0 = γx 0 βx x 1 = γx 1 βx x 1 = x x 3 = x
5 12.2. RELATIVIDADE ESPECIAL 113 onde ou β = v c < γ = 1 1 β 2 > com Λ µ ν = x µ = xµ x ν xν = Λ µ νx ν γ βγ 0 0 βγ γ Note que detλ µ ν = γ 2 β 2 γ 2 = 1 β 2 γ 2 = Escalares, Quadri-vetores, Tensores Um escalar S, é definido por ser invariante sob uma transformação de Lorentz: S = S Um quadri-vetor contravariante V µ é definido pela propriedade de se transformar exatamente como as coordenadas x µ sob uma transformação de Lorentz Um tensor de rank 2 matrix, T µν é definido por se transformar Tensores de mais altos ranks similarmente. Exemplos V µ = Λ µ νv ν T µν = Λ µ αλ ν β T αβ A velocidade da luz c e a carga q de partículas são escalares. O tempo próprio τ é definido em um referencial K onde dt = dτ e dx = 0. No referencial K, tem-se dx = vdt e pela invariância do elemento de linha ds 2 = c 2 dt 2 + dx 2 = c 2 dt 2 1 β 2 = c 2 dτ 2 = ds Portanto, dτ = dt/γ é um escalar invariante de Lorentz. Como dx µ é um quadri-vetor e dτ é um escalar, a quadri-velocidade U µ definida U µ = dxµ dx 0 dτ = dτ, dx cdt = dτ dτ, γdx = γc,γv = γc, v dt também é um quadrivetor, bem como o quadri-momento P µ = mu µ = E/c, p e a quadriforça F µ = dp µ /dτ.
6 114 CAPÍTULO 12. FORMULAÇÃO COVARIANTE DO ELETROMAGNETISMO Produto de dois quadrivetores A µ B ν é um tensor de rank 2. Contração de um tensor de rank 3, e.g. T ν µν, é um quadrivetor. A derivada com respeito à coordenada contravariante é um quadrivetor covariante enquanto o Laplaciano é um escalar xβ = x α x α x β = α α = 1 c Covariância Relativística do Eletromagnetismo Pelo postulado da Relatividade Especial, as equações do E&M devem ter a mesma forma serem invariantes sob transformações de Lorentz. Portanto devem ser escritas em forma tensorial, já que tensores, por definição, se transformam com as regras específicas mencionadas nas seções anteriores. Desta forma, a validade das equações em um referencial implicam a validade das mesmas equações em referenciais obtidos por transformações de Lorentz, pois a forma das equações se mantém. A velocidade da luz c, por hipótese, é escalar invariante de Lorentz. É um fato empírico que a carga q de uma partícula também é, i.e. ela não muda com o movimento relativo. Se ρ é a densidade de carga, temos dq = ρd 3 x é um invariante de Lorentz. Mas o volume dx 0 d 3 x é um invariante, pois o Jacobiano da transformação de x µ x µ é detλ µ ν=1. Portanto, ρ deve se transformar como a componente 0 de um quadrivetor j µ. Definindo essa quadri-corrente: j µ = cρ, j Temos que a equação escalar implica a conservação da carga Definindo o quadri-potencial j µ x µ = dρ dt + j = A α = φ/c, A, e usando o fato de que o Laplaciano é um escalar, podemos escrever a equação covariante quadri-vetorial que implica as equações de onda obtidas anteriormente: A α = µ 0 j α φ = ρ ǫ A = µ0 j 12.51
7 12.3. COVARIÂNCIA RELATIVÍSTICA DO ELETROMAGNETISMO 115 enquanto a equação escalar A α x α = descreve o calibre de Lorentz: A + 1 c 2 φ = Sabemos que os campos E e B tem 6 componentes no total, e pela relação com os potenciais, eles devem ser derivadas primeiras de A α. Como um tensor de rank 2 anti-simétrico tem exatamente 6 componentes independentes, podemos definir o tensor de campo F µν : F µν = Aν x µ Aµ x ν Avaliação explícita das componentes 01 por exemplo nos dá F 01 = A1 A0 = A x x 0 x 1 ct φ/c = 1 A x c φ = E x c x Procedendo, podemos obter todas as componentes de F µν F µν = 0 E x /c E y /c E z /c E x /c 0 B z B y E y /c B z 0 B x E z /c B y B x ou F µν = η µα F αγ η γν = 0 E x /c E y /c E z /c E x /c 0 B z B y E y /c B z 0 B x E z /c B y B x As Eqs. de Maxwell com fontes podem então ser escritas na forma invariante como F µν x ν = µ 0 j µ e delas segue também a conservação da carga que já vimos, pois F µν é anti-simétrico: F µν x µ x ν = 1 F µν F νµ 2 x µ + xν x ν x µ = 1 2 x µ x ν F µν + F νµ = 0 jµ x µ = Já as Eqs. de Maxwell sem fonte podem ser escritas como F µν x σ + F σµ x ν + F νσ x µ =
8 116 CAPÍTULO 12. FORMULAÇÃO COVARIANTE DO ELETROMAGNETISMO Com e.g. µ = 0, ν = 1, σ = 2 temos: F 01 x 2 + F 20 x 1 + F 12 x 0 = E x/c + E y/c + B z y x ct = E + B z = e similarmente para todas as outras componentes obtemos E = B B = Finalmente, definindo a quadri-força para o caso E&M com a combinação F µ = dp µ dτ F µ = qf µν U ν segue que a força de Lorentz é obtida: Note que, sendo F µν um tensor de rank 2, ele se transforma F = d p dt = q E + v B F µν = Λ µ αλ ν β F αβ e campos elétricos e/ou magnéticos podem surgir em um referencial mesmo sem existir em outro. Por isso o termo campo eletromagnético: eles não só se propagam juntos numa onda, mas são diferentes projeções de um mesmo ente físico. Similar à uma função de onda quântica ψx = x ψ que é uma projeção de um estado quântico ψ abstrato em uma representação específica na base x de autovetores do operador posiçào X.
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