Dr.Januário Montone D.D. Diretor Presidente da ANS Agência Nacional de Saúde Suplementar

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1 São Paulo, 06 outubro de 2003 Aos Ilmos. Srs. Dr.Fausto Pereira dos Santos DD. Diretor do Departamento de Controle e Avaliação de Sistemas do Ministério da Saúde e Coordenador Geral do Fórum de Saúde Suplementar Dr.Januário Montone D.D. Diretor Presidente da ANS Agência Nacional de Saúde Suplementar Ref: PROGRAMA DE INCENTIVO À ADAPTAÇÃO DE CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE ANTERIORES À LEI 9.656/98 Prezados Senhores, A PRO TESTE Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, vem respeitosamente a V.Sas. apresentar suas reivindicações relativas à proposta para discussão do Programa de Incentivo à Adaptação de Contratos de Plano de Saúde Anteriores à Regulamentação e à Migração para Planos Novos, que nos foi apresenta no último dia 26 de setembro, em reunião ocorrida na Agência Nacional de Saúde Suplementar, em Brasília, onde estiveram presentes também o Procon/SP, o IDEC e o Ministério da Saúde, representado pelo Dr. Fausto Pereira do Santos. Voltamos a destacar a importância de o Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar atuarem no atual cenário, marcado por indefinições graves, decorrentes da decisão do Supremo Tribunal Federal, na Ação Direta de Inconstitucionalidade promovida pela Confederação Nacional de Saúde, contra dispositivos da Lei 9.656/98.

2 Isto porque, até a mencionada decisão judicial, os direitos considerados básicos, introduzidos com a Lei 9.656/98 vinham sendo estendidos para os consumidores que tivessem celebrado contrato de plano ou seguro saúde até dezembro de Nesse contexto, várias interpretações vêm sendo atribuídas à decisão do STF pelos agentes do setor, que variam quanto aos efeitos que a liminar pode trazer em prejuízo aos consumidores brasileiros. Considerando-se, entretanto, que as empresas privadas atuam de forma complementar com o Sistema Único de Saúde, nos termos do art. 199, da Constituição Federal, e, portanto, que se trata de serviço público essencial, que deve ser garantido pelo Poder Público, qualquer interpretação a respeito da decisão judicial deve ser a mais benéfica possível em favor do consumidor. Sendo assim, a regulamentação que está para ser editada deve também estar apoiada sobre essa premissa, bem como de acordo com os princípios instituídos pelo Código de Defesa do Consumidor, quando estabelece diretrizes ao Poder Público para a definição da Política Nacional das Relações de Consumo (art. 4 ). Nessa direção, o reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor e a coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo, devem orientar a ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor (art. 4, incs. I, VI e I). É com base nesses princípios e fundamentos que passamos a apresentar nossa contribuição para essa importante norma, para a qual a expectativa dos consumidores afetados pelo novo contexto é correspondente à importância do tema saúde. I. INTRODUÇÃO No último dia 21 de agosto, o Supremo Tribunal Federal proferiu decisão liminar em Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelas empresas de plano de saúde. Essa decisão restringiu a aplicação da Lei 9.656/98 para a solução de conflitos relativos a contratos assinados antes dessa lei.

3 Até esta decisão, vinha-se entendendo que, como os contratos de plano de saúde são de duração continuada e tratam de saúde, que é dever do Estado garantir, os direitos básicos introduzidos com a nova Lei 9.656/98 deveriam se estender para os contratos antigos. A decisão do Supremo Tribunal Federal, então, com fundamento no argumento do direito adquirido e ato jurídico perfeito, em favor das empresas, entendeu que uma lei nova não poderia retroagir e impactar contratos antigos, sob pena de se abalar a segurança jurídica das relações. É claro que a PRO TESTE, como associação de defesa de direitos que é, não pode deixar de reconhecer a importância do direito adquirido, como garantia constitucional que é. Todavia, a Constituição Federal deve ser interpretada levando-se em conta o conjunto de seus dispositivos e não se pode ignorar que, de acordo com nossa Lei Maior, as empresas privadas prestam serviço de saúde em regime complementar com o Sistema Único de Saúde e, portanto, está prestando um serviço público. Sendo assim, direitos estabelecidos como básicos, como os que passaram a existir com a Lei 9.656/98, não podem ser aplicados apenas para um número determinado de cidadãos. Esse entendimento do Supremo Tribunal Federal fere outro princípio constitucional que é o da igualdade. Ou seja, porque alguns cidadãos, relativamente a serviços públicos de saúde ainda que prestados por empresas privadas podem ficar expostos a práticas abusivas, enquanto outros cidadãos consumidores do serviço de saúde estarão protegidos contra estas práticas? A PRO TESTE entende que a decisão do STF não deve ser vista como precedente para que se perpetuem graves danos aos milhares de conveniados nesta situação, sob pena de se desrespeitar o princípio da igualdade e o Código de Defesa do Consumidor. Esse julgamento traz à tona outra discussão importante para os consumidores de planos e seguro saúde: qual é a real abrangência do poder regulatório e fiscalizatório da Agência Nacional de Saúde? A PRO TESTE entende que a ANS, e principalmente o Ministério da Saúde, podem e devem interferir na relação entre consumidores de planos anteriores à Lei 9.656/98 sempre que ocorrerem abusos, motivo pelo qual vê com ânimo a iniciativa desses órgãos de regularem a migração dos planos antigos para a nova sistemática.

4 Todavia, entendemos que a atuação do Poder Público deve se dar de forma democrática, contando e considerando efetivamente com a participação da sociedade, no caso as entidades de defesa do consumidor, a fim de regular o setor harmonizando os interesses de todos os agentes que nele atuam. É nessa direção que a PRO TESTE passa a apresentar sua contribuição para a proposta do Programa de Incentivo à Adaptação de Contratos de Planos de Saúde Anteriores à Regulamentação e à Migração para Planos Novos. II CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA NOVA PROPOSTA A) A nova proposta apresentada na reunião do dia 26 de setembro introduz a idéia de se apresentar aos consumidores três alternativas, quais sejam: a) manutenção das mesmas condições contratuais iniciais; b) adaptação do contrato já existente à sistemática da Lei 9.656/98 e c) migração do contrato antigo para um novo contrato. B) À Pro Teste parece que as duas últimas alternativas poderão confundir muito o consumidor, no caso de as cartas a serem enviadas não forem extremamente didáticas e claras quanto às repercussões de cada uma das opções. C) É necessário ficar mais claro com a proposta que a partir da edição da nova Lei e respectiva regulamentação, todos os planos estarão sujeitos às competências regulatórias da ANS, inclusive e especialmente os contratos anteriores a 02 de janeiro de D) A nova proposta não evoluiu com relação à previsão de carência. Discordamos frontalmente desta posição, na medida em que se a proposta prevê um índice de aumento para a adaptação, não pode ao mesmo tempo falar em carência para as novas coberturas. Isto porque a carência só encontraria respaldo caso o consumidor não passasse a pagar por coberturas mais abrangentes. Admitir aumento para a adaptação e carência é desconsiderar o fato de que esses contratos possuem pelo menos cinco anos e, portanto, o consumidor estaria perdendo benefícios decorrentes do tempo que vem pagando o convênio médico.

5 E) A proposta oferece dois cenários. Porém nenhum deles leva em consideração para estipular critérios de valor para a adaptação o tempo de contratação e o nível de cobertura dos contratos chamados de antigos. F) Quanto ao Cenário I: i) É positivo o fato de as operadoras terem de passar a aglutinar os planos componentes de sua carteira de usuários anteriores à regulamentação, como está previsto na alínea i) do item 1) do Cenário I. Todavia deve ficar estabelecido que a operadora tem a obrigação de divulgar amplamente esses dados, tanto para o Ministério da Saúde e ANS, quanto para o público em geral, a fim de que se possa controlar os índices técnicos de ajuste das mensalidades; ii) Concordamos com índices técnicos distintos para cada grupo tipo de contratos, desde que se leve em conta o tempo de contrato e o nível de cobertura; iii) A possibilidade de variar o percentual a ser fixado para a adaptação geral em 2,5 é indiscutivelmente abusiva, pois haverá casos em que um grupo de consumidores passará a ter um aumento real de mais de 20%. Este fato se agrava quando se leva em conta que no mesmo ano o consumidor arcará também com o reajuste anual do preço do contrato, o que poderá significar correção superior a 25% num mesmo ano; iv) Concordamos com a proposta, no sentido de que os valores pretendidos pelas operadoras devem ser objeto de análise prévia pela ANS; v) A idéia de se dissolver o índice técnico ao longo de seis meses é boa, pois dessa forma o consumidor poderá adaptar seus orçamentos à nova realidade; vi) A Pro Teste concorda com a possibilidade de co-participação no caso dos planos coletivos. Isto porque, nos casos em que as empresas não concordem em pagar o total do aumento proposto pela operadora, os consumidores poderiam negociar com o empregador e a operadora, com o objetivo de se ampliar o nível de cobertura, com a divisão dos montantes relativos aos índices técnicos homologados pela ANS. Propomos, entretanto, que a ANS fixe um percentual máximo de co-participação a ser pago pelo empregado, sob pena de se criarem impasses, inclusive de natureza trabalhista, já que o pagamento pela empresa de plano de saúde é considerado salário.

6 As negociações devem se dar por intermédio das instâncias deliberativas, nos casos de entidades de classe, ou por mecanismo a ser instituído por Lei, para que todos os participantes decidam de forma coletiva, como assembléias, ou a criação de órgãos específicos de deliberação instituídos especifica e unicamente para esta finalidade, quando se tratar de empresas. G) Quanto ao Cenário II: i) A definição de um índice técnico para cada plano das carteiras de contratos das operadoras, anteriores a 2 de janeiro de 1999, também é razoável, tendo em vista que, segundo entendemos da proposta, serão considerados o tempo e o nível de cobertura dos contratos já existentes, na medida em que determina que se leve em conta a amplitude da cobertura adicional ao contrato original. H) Carência: Não há sustentabilidade jurídica e nem técnica para a imposição de carência, tendo em vista que o consumidor passará a pagar mais pelo contrato e já terá pago pelo menos 5 anos. I) Data Base para Reajuste Anual: O ideal seria que a aplicação do índice técnico para a adaptação e a data base de reajuste não coincidissem, pois a incidência dos dois na mesma data pode levar sérias dificuldades para que o consumidor consiga manter a contratação. Todavia, entendemos que o mais importante é deixar claro para o consumidor que o índice técnico e o reajuste são instrumentos distintos. J) Aumento por Faixa Etária: A previsão de um intervalo de um ano para a imposição de aumento de faixa etária para os consumidores que se decidirem pela adaptação nos parece benéfica. Nos preocupa, todavia, o fato de a proposta não se referir às duas outras alternativas, quais sejam: a manutenção do contrato na sistemática antiga ou a migração. Entendemos que as normas relativas a aumentos por faixa etária, em qualquer das hipóteses, deve estar regulado pela ANS. Caso contrário, estar-se-á admitindo grave desrespeito ao Código de Defesa do Consumidor, pois estarão permitidos aumentos que significarão a expulsão dos consumidores mais velhos, depois de longos anos de contratação.

7 K) Usuários com 60 anos ou mais e mais de cinco anos de plano: É importante que esses consumidores com essas características não tenham mais aumento por faixa etária. Entendemos que esse é um direito não só dos consumidores que optarem pela adaptação, mas também daqueles que permanecerem no contrato anterior ou migrarem. Para viabilizar esses direitos será necessário que a Lei a ser editada assim estabeleça expressamente, pois, do contrário o problema ocorrido com o STF com relação ao art. 35 da Lei 9.656/98 se repetirá. L) A regulamentação da ANS deve alcançar todas as espécies de contratos: os denominados antigos ; os adaptados assim como os novos contratos relativos aos consumidores que optarem pela migração. Entendemos que a Lei da ANS já permite essa conclusão. Ainda que os contratos antigos tenham sido celebrados antes da instituição da Agência, o Poder Público tem o dever de regular e fiscalizar serviços essenciais, como é o caso da saúde. As ponderações expendidas nos itens acima expressam nossa posição a respeito dessa nova proposta e reiteramos nossas considerações finais, já apresentadas no primeiro documento elaborado com base na proposta anterior, nos seguintes termos. A atuação dos órgãos públicos de saúde na atual conjuntura mostra-se fundamental tendo em vista a situação dos serviços de saúde pública no Brasil, prestados pelo SUS e o enorme número de consumidores que se vêm obrigados a dirigir parcela significativa de seus orçamentos para o pagamento de planos e seguros saúde, indicando que a situação deve ser tratada com muita responsabilidade. A importância da saúde na vida dos brasileiros e as atuais circunstâncias indicam para que as medidas que vierem a ser adotadas devem ter como principal preocupação não só a sustentabilidade do setor de saúde privada, já que a saúde pública está longe de poder suportar a real demanda dos brasileiros, mas também e principalmente a preocupação com o respeito ao ordenamento jurídico brasileiro, que traz os fundamentos e princípios da atividade econômica, assim como ao Código de Defesa do Consumidor.

8 Não há dúvida, portanto, de que o momento é de unir esforços no sentido de continuar avançando na direção de garantir efetividade a direitos já existentes no sistema de proteção e defesa do consumidor, o que é plenamente viável, principalmente se a sociedade puder contar com a atuação dos órgãos governamentais competentes para regular e fiscalizar o setor. Destacando que nossas propostas são feitas com apoio nos arts. 4 e 5, do Código de Defesa do Consumidor e arts 2, 8 e 5 do Decreto 2.181, de 20 de março de 1997, a PRO TESTE, como entidade que participa do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, vê-se obrigada a, ciente do importante papel da regulamentação a ser editada e das importantes repercussões que certamente afetarão os consumidores, cumprindo suas atribuições estatutárias, vem apresentar seu pedido de que as propostas acima sejam consideradas e aceitas, a fim de evitar danos ao consumidor brasileiro, parte vulnerável e hipossuficiente no mercado de assistência suplementar à saúde. Colocamo-nos à disposição para qualquer esclarecimento necessário. Atenciosamente PRO TESTE ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DEFESA DO CONSUMIDOR

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