Concílio Ecumênico Vaticano II UM DEBATE A SER FEITO. Mons. Brunero Gherardini

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3 Concílio Ecumênico Vaticano II UM DEBATE A SER FEITO Mons. Brunero Gherardini 1ª edição Brasília DF 2011

4 2011 Editora Pinus Todos os direitos reservados. Título Original: Concilio Ecumenico Vaticano II: um discorso da fare. Tradução: Fernanda Silva Rando Capa e diagramação: rosalis.com.br Gherardini, Brunero. Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito / Mons. Brunero Gherardini; tradutora : Fernanda Silva Rando. 1. ed. Brasília : Ed. Pinus, p. Tradução de: Concilio Ecumenico Vaticano II: un discorso da fare. ISBN Igreja Católica Concílios. I. Rando, Fernanda Silva. III. Título. CDU 272/ VATII CDU 272/ /1965

5 Lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual recebestes, e no qual perseverais, pelo qual sois também salvos, se o conservais como eu vo-lo preguei. (1Cor 15, 1,1)

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7 ÍNDICE I II III IV V VI VII VIII IX Prefácio O Concílio Ecumênico Vaticano II Uma rajada de ar fresco; O aggiornamento; O espírito do aggiornamento. Valor e limites do Vaticano II O que o Vaticano II disse de si; Os apelos à Sagrada Escritura, aos Concílios, à Tradição; O Vaticano II, um Concílio pastoral. Para uma hermenêutica do Vaticano II Os critérios imanentistas; A hermenêutica teológica; A hermenêutica da continuidade. Avaliação global A tirania do relativo; No sentido do parcial e do experimental;e o ecumenismo? A tradição no Vaticano II A tradição; A Tradição no Vaticano II; A Tradição, autoridade dogmático-normativa do Vaticano II? Vaticano II e Liturgia Os princípios da reforma; Verdadeiramente inexplicável?; A reforma litúgica. O grande problema da liberdade religiosa A declaração conciliar Dignatis humanæ ; E antes?; E agora? Ecumenismo ou sincretismo? A UR e seu conteúdo; O ecumenismo no contexto do Vaticano II; Continuidade ou ruptura? A Igreja da Constituição dogmática LG O documento; A importância da LG no conjuntodo Vaticano II; Latet anguis in herba. Epílogo Súplica ao Santo Padre

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9 Rev. mo e caro Professor, Em um ato de grande cortesia, o senhor quis que eu lesse o conteúdo de sua elaborada meditação teológica sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II antes mesmo de ser publicada pela editora Casa Mariana Editrice, com o título Un Discorso da Fare ( Um debate a ser feito ). Eu a li com a mesma atenção com que recebi até o momento muitas de suas publicações, seus vários livros e artigos. O fio condutor de todos os seus escritos é sempre aquele que, liga por um enlace lógico e diria mesmo férreo, a Verdade revelada e a verdade meditada pelo intelecto humano iluminado pela fé, amparado pela Teologia dos Padres da Igreja, que foi sistematizada pela grande Teologia escolástica, transmitida ao longo dos séculos; sustentado pelo Ensinamento do Magistério da Igreja, que nunca pode estar em contradição consigo próprio, que só pode ter um desenvolvimento homogêneo para nunca dizer nova (doutrinas novas), mas no máximo nove (de uma maneira nova) (segundo a terminologia do Commonitorium de São Vicente de Lérins). Dou-me conta de que com essas expressões me refiro a uma concepção filosófica e, por conseguinte, também teológica (na medida em que se dá atenção à Verdade revelada) que reconhece ao intelecto humano seu verdadeiro valor e sua verdadeira natureza, de forma a considerá-lo capaz de entender e aderir a uma verdade que é imutável, como imutável é o ser de todas as coisas, porque é do Ser Absoluto, daquele que É, que provem, por criação, a sua natureza. Porém, o intelecto não cria a verdade, já que não cria o ser: o intelecto conhece a verdade a partir do momento que conhece a essência (o quid est) das coisas. Fora desse ponto de vista e dessa Filosofia, qualquer discussão sobre a imutabilidade da verdade e sobre a continuidade da adesão do intelecto à mesma idêntica verdade não poderia mais ser sustentada. A única opção seria aceitar uma mutabilidade contínua do que o intelecto elabora, exprime e cria. Até mesmo um debate sobre o desenvolvimento homogêneo do dogma, ou do ensinamento da Igreja através dos séculos, no fluir do tempo e da história, não poderia mais ser realizado com a possibilidade de ser compreendido, proposto e aceito. Seria necessário submeter

10 O Concílio Ecumênico Vaticano II a um continuum fieri no plano de uma verdade não mais conhecida e reconhecida pelo intelecto, mas sim por ele elaborada com base no que parece e não no que é. É claro que esse discurso não é dirigido ao senhor; mas tendo lido sua meditação teológica da qual se emerge a necessidade de uma verdadeira hermenêutica da continuidade no que diz respeito ao ensinamento do Vaticano II, não pude ficar sem expressar e compartilhar o meu pensamento. Sua publicação mostra, com grande clareza de pensamento, que lhe é habitual, em virtude de sua perspicácia intelectual e também de sua longa experiência como Docente, que na Igreja não pode existir senão a continuidade. O mero pensamento de que pudesse existir uma revolução, mudança radical, mutação substancial quanto ao plano da verdade e da vida sobrenatural da Igreja já se distancia do são raciocínio teológico, visto que, como eu observei anteriormente, distancia-se também do são raciocínio filosófico. Não abala somente a fé, mas também a razão. Fala-se necessariamente de continuidade in substantialibus, não in accidentalibus, de continuidade de tudo que in sua materia a Igreja sempre acreditou, professou, ensinou e viveu em sua verdadeira realidade no decorrer dos séculos, desde seu início que é divino e não humano, e que pode ser acolhido somente por um intelecto iluminado pela fé, sustentado por uma vontade movida pela Graça divina. Seu debate, caro Professor, permite fazer uma profunda análise sobre o Vaticano II e sobre seu ensinamento, formulado em seus Documentos, de tal maneira a levar a uma compreensão que mesmo em lugares onde a linguagem poderia conduzir a um pensamento sobre uma descontinuidade com o conteúdo teológico que se encontra em toda a bagagem doutrinal da Igreja, só pode existir um dizer nove, e não nova. E, portanto, não se pode submeter a bagagem doutrinal da Igreja a esta linguagem, mas ela deve ser interpretada de uma maneira que não se possa dizer nova a respeito da Tradição da Igreja. Contudo, dada a natureza do Concílio e a diversidade de natureza de seus Documentos, penso que se possa sustentar o fato de que se de uma hermenêutica teológica Católica emergisse que algumas passagens, ou algumas declarações ou asserções do Concílio, não dizem apenas nove, mas também nova, a respeito da Tradição perene da Igreja, não se estaria diante de um desenvolvimento homogêneo 10

11 Mons. Brunero Gherardini do Magistério: neste caso haveria um ensinamento que não é irreformável e, certamente, não infalível. Conforta-me muito ter lido recentemente o discurso do Santo Padre à Plenária da Congregação para o Clero 1. Ao falar sobre a formação dos Sacerdotes, ele afirma: A missão tem suas raízes, de maneira especial, em uma boa formação, desenvolvida em comunhão com a ininterrupta Tradição eclesial, sem rupturas nem tentações de descontinuidade. Nesse sentido, é importante incentivar os Sacerdotes, principalmente as jovens gerações, a receberem corretamente os textos do Concílio Ecumênico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja. Diante de tal pensamento do Santo Padre, é cômodo pensar que ele considerará positivamente a Súplica que, na conclusão de sua meditação teológica sobre o Vaticano II, o seu ânimo de devoto filho da Igreja quis formular ao Sucessor de Pedro, ao pedir do nível mais alto do Magistério um grande e possivelmente definitivo esclarecimento sobre o último Concílio em todos os seus aspectos e conteúdos, que trate da sua verdadeira natureza, que indique o que significa que ele tenha desejado se propor como um Concílio pastoral. Qual é, então, seu valor dogmático? Todos os seus documentos têm o mesmo valor, ou não? Todas as expressões apresentadas neles têm a mesma força ou não? Seu ensinamento é inteiramente irreformável? É verdade que algumas das respostas a essas questões podem já ser deduzidas por meio de seu trabalho e deveriam poder ser esclarecidas com base nos constantes critérios de juízo teológico que sempre foram seguidos pela Igreja; porém, ninguém pode negar que em muitas produções teológicas pós-conciliares a confusão a esse respeito seja frequente e grande, como enorme é a incerteza doutrinal e pastoral. Por isso, permita-me, caro Professor e que me permita principalmente o Santo Padre, unir-me toto corde a essa Súplica, enquanto formulo o auspício de que sua publicação suscite muita atenção e reflexão dentro da Igreja, onde quer que se queira fazer uma verdadeira teologia, e que seja acolhida com o respeito devido a um trabalho 1 Disponível em: speeches/2009/march/documents/hf_ben-xvi_spe_ _ plenaria-clero_po.html. Acesso em 17/10/11. 11

12 O Concílio Ecumênico Vaticano II conduzido com tal rigor e certamente com grande amor pela Igreja, por sua Tradição perene, por seu Magistério, para o fiel conhecimento e transmissão do qual o senhor trabalhou durante a sua longa atividade como Docente da Sagrada Teologia. Albenga, 19 de março de Solenidade de São José, Patrono da Igreja Universal Mario Oliveri, Bispo. 12

13 Premissa ao volume do Prof. Mons. Brunero Gherardini Desejo antes de tudo exprimir minha apreciação com relação à articulação temática que caracteriza esse estudo de Mons. Brunero Gherardini sobre os textos do Concílio Vaticano II. Essa iniciativa ganha um grande valor especialmente no contexto hodierno, marcado por um debate sobre o significado dos ensinamentos conciliares, principalmente à luz da chave hermenêutica proposta e valorizada pelo Papa Bento XVI, a da continuidade de tais ensinamentos dentro da Tradição eclesial. Basta rememorar aqui uma passagem do célebre discurso do Papa na Cúria Romana no dia 22 de dezembro de 2005: Por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou - como diríamos hoje - da sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas de recepção derivaram do fato de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente, mas de modo cada vez mais visível, produziu frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir hermenêutica da descontinuidade e da ruptura ; não raro, ela pode valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade do único sujeito-igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo, porém, sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A história da Igreja é profundamente marcada por vinte e um Concílios. Por essa razão o Vaticano II deve ser visto como parte dessa história e não como algo totalmente novo. E temos total consciência de que cada um desses Concílios procurou interpretar, guiado pelo Espírito Santo, a doutrina e o ensinamento moral e disciplinar da Igreja em vários contextos, levando assim ao âmago da Tradição eclesial um rico patrimônio teológico-espiritual. Cremos que por meio deles o Senhor, arquiteto da história, continua a inspirar a vida humana em um processo de diálogo entre a sua palavra revelada e os contextos político-sociais, mutáveis ao longo do tempo, provocando uma série

14 O Concílio Ecumênico Vaticano II de novos desafios e respostas que tornam dinâmica e rica a própria revelação divina. Por isso, todos os Concílios se tornam um momento de pausa e de reflexão com base na rica herança doutrinal da Igreja e na abertura de novas vias de expressão das verdades reveladas. Esse processo interpretativo é uma impagável riqueza, especialmente em relação às leituras limitadas ou parciais, como por exemplo, a consideração da revelação divina em uma perspectiva que leva em conta só a Escritura. Aliás, alguns teólogos protestantes apreciaram essa visão católica da revelação de Deus como uma posição que não limita a liberdade de ação do Senhor e que reverencia o processo de contínua encarnação divina na vida humana. Por esse motivo o Concílio Vaticano II se torna um ponto de chegada e também de partida, sem necessariamente considerá-lo como uma ruptura com a tradição precedente. Avaliar a história dos Concílios e sua contribuição ao processo de revelação contínua do Senhor à Igreja se trata de um inegável enriquecimento para nós. Por isso todas as reflexões aprofundadas sobre os documentos do Vaticano II são de suma utilidade e importância. Apesar de todas as críticas, não há dúvidas de que o Vaticano II tenha sido uma verdadeira graça para toda a Igreja. Da mesma maneira que é natural que após cada Concílio atual ou antigo haja abalos mais ou menos fortes, assim como não permaneçam inalterados todos os seus resultados, é normal também que tais abalos estejam destinados a, posteriormente, acalmarem-se por meio de um olhar mais pacífico e sereno em relação ao que aconteceu. Agora estamos vivenciando essa fase de ajuste em relação à recepção do Vaticano II. E somos, por isso, verdadeiramente gratos ao Papa Bento XVI pela contribuição que ele oferece com a finalidade de ler com um olhar objetivo os grandes ensinamentos desse último Concílio. Quero congratular o Autor dessa obra. Desejo que seja uma contribuição que favoreça a serena apreciação desse evento tão significativo para nós, à luz de tudo que constitui a herança da Igreja nos dois milênios de sua história. Albert Malcolm Ranjith. Arcebispo Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. 14

15 Concílio Ecumênico Vaticano II UM DEBATE A SER FEITO Prefácio Sim, um debate a ser feito, pois ainda não o foi. Ou não completamente. Falou-se muito e mesmo demais sobre o último Concílio. Mas não, ou pelo menos não sempre nem principalmente, de forma correta. Até hoje deu-se vida somente a uma grandiosa e ininterrupta celebração de tal acontecimento. Desde aquela realizada nos postos avançados e nas retaguardas do ministério apostólico, àquela, solene, pomposa e revestida de caráter oficial, das cátedras universitárias ou, em determinadas ocasiões, das comemorações, dos encontros, das mesas-redondas e das publicações prestigiosas. Não podia faltar a voz dos repetidores: a magna comitante caterva de quem ressoa sempre, acompanha sempre, conforma-se sempre. De fato, a Santa Sé e o Episcopado católico nunca se cansaram de reportar-se aos documentos conciliares tanto em circunstâncias de particular relevância, quanto na cotidianidade do serviço pastoral, com uma insistência tal que legitima a impressão, aliás a suspeita, de uma intenção exclusivista. Pôr o Concílio em prática foi e é a palavra de ordem. Em certos momentos pareceu efetivamente que tudo tivesse tido início com o Vaticano II e que os mais de vinte séculos anteriores da história eclesiástica tivessem sido extintos. Sendo, no entanto, impossível desprezar os monumentos inelimináveis de uma história mais que bimilenária, reservava-se a eles o direito apenas de uma menção passageira, como se isso fosse suficiente para admitir a constante e perene atualidade da Igreja. Quase nunca eles foram intencionalmente destacados; quase nunca as discussões e as análises sobre o assunto evidenciaram a base que o Magistério Eclesiástico precedente deu ao Vaticano II. Encontro uma louvável exceção no ensaio do Ex. mo e Rev. mo Mons. Agostino Marchetto (Chiesa e Papato nella storia

16 O Concílio Ecumênico Vaticano II e nel diritto. 25 anni di studi critici, Libreria Editrice Vaticana 2002; e principalmente Il Concilio Ecumenico Vaticano II. Contrappunto per la sua storia, Libreria Editrice Vaticana 2005): rara, aliás, rarissima avis, especialmente porque não se compara a nenhuma das poucas obras que, com características e enfoques diferentes, haviam-no precedido. Refiro- -me particularmente ao Getsemani (Roma 1980) do Em. mo Card. Giuseppe Siri, ao conhecido Jota unum (Nápoles 1985) de Romano Amerio e também às obras de um teólogo e filólogo de reconhecido valor, Johannes Dörmann, que fazem mais alusão a João Paulo II que propriamente ao último Concílio Ecumênico. Na realidade, sobre o Magistério anterior, com uma espantosa superficialidade, foi estendido um véu e por vezes um manto funerário que impede o observador de evidenciar o passado e identificar nele a Tradição que é constitutiva da Igreja e que é a linha mestra do Cristianismo. Existia devia existir somente o Concílio Ecumênico Vaticano II. E apenas uma maneira prática (mesmo se não formalmente determinada) de analisá-lo, o que retirava do panorama qualquer outro ponto de referência. Essa não foi gostaria de dizer obviamente, mas me limito aos discursos e talvez também aos propósitos a conclusão do Encontro Internacional para A Atualização do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado no Vaticano no início de 2000, o qual considerou decididamente equivocada a concepção de que o Concílio quisesse romper os vínculos com o passado ao invés de dedicar-se à Fé de sempre. Mas também nesse caso, não se foi além de uma declamação puramente teórica. A intelligentia católica deu e está dando um certificado de credibilidade à ininterrupta celebração em relação à cotidianidade pastoral. As Universidades e os centros acadêmicos dirigidos por Autoridades eclesiásticas ou inspirados nos seus preceitos, a imprensa católica em toda a sua extensão operativa, as publicações oficiais, as iniciativas dos tipos mais variados, que podem ser tanto interdependentes e interligadas, quanto sem ligação entre si, todo, enfim, o complexo mundo católico, todas as suas legítimas estruturas têm favorecido uma celebração sem pausa e sem fim do Vaticano II. Surgiu uma vulgata interpretativa que, privada muitas vezes de uma elaboração crítica, deu e impôs o tom à interpretação vigente. 16

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