Elementos da Vida da Pequena Comunidade

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1 Raquel Oliveira Matos - Brasil A Igreja, em sua natureza mais profunda, é comunhão. Nosso Deus, que é Comunidade de amor, nos pede entrarmos nessa sintonia com Ele e com os irmãos. É essa a identidade dos seguidores de Jesus. Hoje, os Documentos da Igreja pedem insistentemente que cumpramos essa realidade, que nos alimentemos na vida fraterna e solidária que as pequenas comunidades propõem. Constata-se que nos últimos anos está crescendo a espiritualidade de comunhão e que, com diversas metodologias, não poucos esforços têm sido feitos para levar os leigos a se integrar nas pequenas comunidades eclesiais, que vão mostrando frutos abundantes. Nas pequenas comunidades eclesiais temos um meio privilegiado para a Nova Evangelização e para chegar a que os batizados vivam como autênticos discípulos e missionários de Cristo. DA 307 Aqueles que aderiram a Jesus Cristo pela fé e que se esforçam por consolidar esta fé mediante a catequese, têm necessidade de viver em comunhão com os demais que deram o mesmo passo. CT 24 A pequena comunidade é fruto do Querigma. Tendo experimentado o novo nascimento, agora é necessário crescer como um verdadeiro discípulo de Jesus. E isso não é possível sem a comunidade, como afirma o DA 278 d: Não pode existir vida cristã fora da comunidade.... Em Atos dos Apóstolos vemos claramente essa realidade que o Senhor nos convida a viver. Após a ressurreição de Jesus e Sua ascensão aos céus, os discípulos, cheios do Espírito Santo, encontraram na comunidade, o meio possível para vivenciar todos os ensinamentos aprendidos com o Mestre: o amor, o perdão, a partilha... Atos 2,42: Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações... Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum.... Esse é, para nós, o modelo. Todos somos chamados à vida em comunidade, mas uma comunidade que expressa, em seu modo de viver, aquilo que Jesus viveu e pediu aos seus discípulos viverem. A comunidade não é um elemento simplesmente estrutural ou de organização e também não é um elemento de receita de um plano, mas um elemento essencial na vida humana, cristã e eclesial. O que é uma pequena comunidade? São irmãos, que, tendo feito a experiência de encontro pessoal com Jesus Cristo, sentem a necessidade de apoiarem-se mutuamente para seguí-lo de perto e crescer na santidade, caminho proposto por Jesus a todos os seus discípulos. 1

2 Como vivem esses irmãos na pequena comunidade? Vivem a proposta do Senhor que, rezando ao Pai, pediu: Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. Jo 17,21 A comunidade não é só uma reunião, mas a vida colocada em comum em todas as dimensões. A comunidade é o estilo de vida que o Evangelho nos apresenta. E para construir esse ambiente cristão é necessário viver duas dimensões simultaneamente. A dimensão vertical envolve Deus e o homem, porém essa dimensão sozinha não gera comunidade. A dimensão horizontal envolve pessoas se relacionando entre si, porém essa dimensão sozinha não necessariamente é cristã. Para formar a comunidade cristã são necessárias as duas dimensões ao mesmo tempo. - Direção vertical: Deus através da Sua Palavra se comunica com o homem. O homem, por sua vez, se comunica com Deus através da oração, tendo como centro a Eucaristia. - Direção horizontal: os homens se comunicam entre si. Em seus relacionamentos, os cristãos são chamados a colaborarem uns com outros no crescimento dos valores espirituais, religiosos, eclesiais valores eternos. E também se relacionam por meio de aspectos materiais, econômicos, sociais aspectos temporais. Extraindo os quatro elementos frutos desse relacionamento com Deus e com os irmãos, precisamos compreender porque esses quatro elementos geram a comunidade cristã e não outros; nem também só alguns, mas todos vividos simultaneamente. Porque esses elementos não são outros senão os próprios elementos da missão da Igreja, que nasce do Tríplice Ministério de Cristo: profeta, sacerdote e rei. São eles: ORAÇÃO, PALAVRA (Catequese), EDIFICAÇÃO ESPIRITUAL e SOLIDARIEDADE SOCIAL. As pequenas comunidades são um ambiente propício para escutar a Palavra de Deus, para viver a fraternidade, para animar na oração, para aprofundar os processos de formação na fé e para fortalecer o exigente compromisso de ser apóstolo na sociedade de hoje. São lugares de experiência cristã e evangelização que, em meio a situação cultural que nos afeta, secularizada e hostil à Igreja, se fazem muito mais necessários. DA 308 Como acontece a reunião semanal da pequena comunidade? Para colocar esses elementos em prática e, serem alimentados em sua vida cristã, existe um formato básico que, a princípio, deve ser respeitado para que conheçamos bem cada elemento. Com a experiência se pode viver os elementos com mais liberdade, sem deixar nenhum de fora. A reunião da pequena comunidade acontece, semanalmente, na casa de um de seus membros. Os elementos da pequena comunidade estão distribuídos em três momentos: 1º Oração: 30 minutos; 2º Palavra (estudo e vivência da Catequese): 60 minutos; 3º Edificação Espiritual (três vezes ao mês) ou Solidariedade Social (uma vez ao mês): 90 minutos. 2

3 A reunião semanal da pequena comunidade dura três horas. Para quem não conhece comunidade, três horas de reunião é muito tempo, mas para quem conhece comunidade, três horas é pouco tempo. O que é difícil, muitas vezes, de compreender é que a reunião de comunidade acontece no nível do SER e não do FAZER. E no nível do ser, três horas de reunião é pouco tempo. 1º) Oração: oração de louvor, que abra o coração de cada um para um diálogo de amor e de confiança com o Senhor, reconhecendo Suas maravilhas e preparando o coração de todos para a vivência desse momento de crescimento e partilha que é a pequena comunidade. É importante que todos participem. Pode-se ter momentos de cantos, invocar o Espírito Santo, abrir-se à Sua graça e dar-lhe lugar para operar Sua obra em cada um. Unir-se às orações dos irmãos para que, comunitariamente, aconteça o encontro com o Senhor. É muito importante ser dócil ao Espírito Santo, para que o momento de oração não se transforme em rotina, ou em uma oração mecânica onde não se coloca o coração. 2º) Catequese: o estudo da Catequese é o momento onde se vai buscar aprofundar o conteúdo da doutrina que se está recebendo, ou o nível de catequese que se está estudando. Cada tema da Catequese deve ser abordado em dois encontros: no primeiro o estudo e no segundo, a vivência. Numa semana, esse momento será para compreender o tema, aprofundar seu sentido, cada palavra, conceito, ideias. Na próxima semana, continuaremos no mesmo tema, mas procurando partilhar de forma prática, a vivência: como estou vivendo no meu cotidiano o que aprendi? Os ensinamentos da catequese estão repercutindo em minha vida, na família, no trabalho, no meu compromisso na Igreja? Isso é muito importante: garantir que a Catequese seja levada à vida, pois não basta compreender os ensinamentos do Senhor, mas vivê-los. A Catequese na pequena comunidade, como uma catequese permanente, não está em vista de um sacramento, mas tem como finalidade, formar o cristão para que ele esteja apto para: crescer na vida nova como discípulo de Jesus e atuar na missão da Igreja como apóstolo do Senhor, sendo testemunha dele. O DA 226 c afirma: Nesse caminho, acentuadamente vivencial e comunitário, a formação doutrinal não se experimenta como conhecimento teórico e frio, mas como ferramenta fundamental e necessária no crescimento espiritual, pessoal e comunitário. E as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil ( ) no nº 65 também diz: A Palavra de Deus ilumina o compromisso com a rede de comunidades e faz pulsar a vida do Espírito nas artérias da Igreja e em meio ao mundo. 3º) Edificação Espiritual: é o compromisso de fazer crescer o irmão para Deus. Edificar é construir, edificarmo-nos uns aos outros já que o Senhor nos pede: Vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual.... 1Pe 2,5. Na Edificação Espiritual são partilhados aspectos que nos ajudam nesse crescimento ou que revisem a vida cristã: a Testemunho: cada pessoa na comunidade é chamada a reconhecer a obra de Deus que se realiza continuamente em seu favor. O que Deus tem feito em mim? O que Deus tem feito através de mim? O que Deus tem feito diante de mim? 3

4 b Exortação mútua: com o desejo de que todos cresçam numa resposta de maior fidelidade ao Senhor. c Correção fraterna: usando os critérios do Evangelho para corrigir um irmão que está fraco, voltando à vida morna, dando passos para trás no compromisso que assumiu com o Senhor. d Revisão de vida: oportunidade de rever-se à luz de Deus e de Sua Palavra: - vida espiritual (Palavra, Oração, Sacramento da Eucaristia, Sacramento da Reconciliação) e meios de crescimento; - estado de vida: família, trabalho, sociedade coerência e testemunho. e Busca da vontade de Deus: com os irmãos, fazer um discernimento espiritual para cumprir, não a própria vontade, nos diversos aspectos da vida, mas a vontade de Deus: - compartilhar problemas; - consultar decisões. f Impulso ao compromisso apostólico e social: perceber os frutos do seu apostolado em sua própria vida e na vida das pessoas que são diretamente atingidas por esse trabalho. Nesse momento da reunião, escolhe-se um desses aspectos e todos partilham sobre ele, cada um falando de si e de sua experiência e ouvindo os irmãos que podem enriquecê-lo e ajudá-lo com sua partilha. 4º) Solidariedade Social: uma vez por mês, os irmãos, na pequena comunidade, buscam olhar para os aspectos materiais e sociais da comunidade. Sempre se deve partir da realidade de algum membro da própria pequena comunidade que pode estar passando alguma dificuldade nesse campo. Caso não haja nenhuma necessidade na própria pequena comunidade, vai-se ampliando ao bairro, setor, paróquia. É útil usar o método VER JULGAR AGIR: olhar com os olhos de Deus, analisar os fatos e propor ações práticas para chegar a uma solução efetiva. Para a Solidariedade Social na pequena comunidade é importante estudar conteúdos da Doutrina Social da Igreja, para que todas as decisões estejam de acordo com os ensinamentos da Igreja. Esse é um aspecto importante que aparece como resultado do crescimento espiritual e do comprometimento de todos com a causa do Reino que também atinge cada homem e o homem completo: corpo, alma e espírito. As Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil ( ) no nº 56 diz: Ao mesmo tempo em que se constata, nesta mudança de época, uma forte tendência ao individualismo, percebe-se igualmente a busca por vida comunitária. Esta busca nos recorda como é importante a vida em fraternidade. Mostra também que o Espírito Santo acompanha a humanidade suscitando, em meio as transformações da história, a sede por união e solidariedade. Se uma Paróquia está estruturada assim, com pequenas comunidades fazendo essa experiência, cresce muito mais a consciência de pertença a uma família que é a Igreja. O amor fraterno partilhado entre todos, renova os corações, dá oportunidade para as pessoas se abrirem, serem escutadas e valorizadas, num mundo que hoje já não cultiva esses valores. 4

5 Precisamos de novas Paróquias, mas isso só acontece a partir de corações novos, unidos e empenhados nessa luta em comunhão com o Senhor. As Diretrizes anteriores afirmavam: concretamente, para a maioria dos nossos fiéis, a relação com a Igreja se restringe aos chamados serviços paroquiais. É aí que a maioria das pessoas se relacionam com a Igreja. DGAE ( ) nº 57 Essa realidade precisa mudar. Os vínculos que a Igreja precisa propor são aqueles alimentados no coração, unidos pelo ser e não pelo fazer. O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de fazer por fazer. Há que resistir a esta tentação, procurando o ser acima do fazer. NMI 15 Por isso é bom compreendermos que: comunidade é diferente de equipe. A comunidade acontece na dimensão do SER, enquanto a equipe está na dimensão do FAZER. A comunidade é o lugar de ser cristão, irmão, discípulo, tem um fim nela mesma. A equipe é funcional, formada por indivíduos que podem ser substituídos por outros. Na comunidade cada membro é pessoa, aceita em todas as dimensões de sua vida, única e, por isso, insubstituível. A evangelização do continente, dizia o papa João Paulo II, não pode realizar-se hoje sem a colaboração dos fiéis leigos... Isso exige maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o SER e o FAZER do leigo na Igreja que por seu batismo e confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo. Em outras palavras, é necessário que o leigo seja levado em consideração com o espírito de comunhão (ser) e participação (fazer). DA 213 A renovação das paróquias no início do Terceiro Milênio, exige a reformulação de suas estruturas, para que seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão. DA 172 5

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