Levantamento das Práticas e Conteúdos do Ensino de Empreendedorismo nos Cursos de Graduação em Administração na Cidade de Curitiba - Pr

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1 Levantamento das Práticas e Conteúdos do Ensino de Empreendedorismo nos Cursos de Graduação em Administração na Cidade de Curitiba - Pr Autoria: Simone Cristina Ramos, Jane Mendes Ferreira RESUMO O empreendedorismo como campo de conhecimento ainda apresenta-se em fase de construção de seus pressupostos e estudos empíricos que legitimem e validem seus conceitos são necessários (BRAZEAL e HERBERT, 1999). O ensino do empreendedorismo por conseguinte ainda é carente de maiores estudos que possam subsidiar a formação de empreendedores. Para contribuir para uma melhor compreensão deste fenômeno, foi realizado nas instituições de ensino superior de Curitiba-PR, um levantamento dos conceitos, práticas e conteúdos ministrados acerca do empreendedorismo nos cursos de graduação em administração. Os principais resultados apontam a) este ensino é largamente adotado, porém com baixa freqüência de mensuração de seus resultados; b) ele não representa necessariamente um maior contato entre as instituições de ensino superior e as micro, pequenas e médias empresas; e c) um modelo metodológico específico que possa contribuir para a formação do empreendedor se faz necessário. INTRODUÇÃO O empreendedorismo, como campo de conhecimento das ciências sociais ainda está em fase de construção de seus paradigmas, que ajudariam a organizar o processo da pesquisa e desenvolvimento desta área. Segundo Shane (2000), ainda falta um modelo conceitual que explique e preveja o conjunto de fenômenos empíricos não explicados ou previstos pelos modelos já existentes em outras áreas. Essa ausência de paradigmas faz parecer que todos os fatos sejam relevantes, dando uma aparência de aleatoriedade para quem os coleta (BRAZEAL e HERBERT 1999). Em vista disso, numerosos estudos (CARLAND et alli, 1984; SHANE, 1997; DOLABELA, 1999a e 1999b; FILION, 1999; DORNELAS, 2001; GIMENEZ, 2000; DRUCKER, 2003) têm sido feitos para melhor entender e desvendar este fenômeno multifacetado, multinível e multidisciplinar. Para a compreensão total do fenômeno se faz necessário conhecer o processo da educação de empreendedores. Muitas tentativas têm sido feitas para desvendar as suas características e, a partir daí, identificar a melhor metodologia para este tipo de educação, de forma a promover o desenvolvimento econômico e social através deste agente. Apesar dos esforços, estes estudos não se apresentam exaustivos ou conclusivos. Visto que os resultados ainda são inconclusivos e que estudos empíricos ajudam a validar um campo de conhecimento, é proposto neste artigo um levantamento dos conceitos, práticas e conteúdos vigentes nos cursos de graduação em administração das instituições de ensino superior na cidade de Curitiba-PR. O objetivo do levantamento proposto é fazer uma relação entre as práticas usadas e a teoria disponível sobre ensino do empreendedorismo permitindo apontar similaridades e discrepâncias. Após a análise são feitas algumas recomendações visando incrementar a eficácia deste tipo de ensino. Para a efetiva consecução dos objetivos deste estudo, ele foi dividido em revisão da literatura sobre o tema, englobando o empreendedorismo e seu ensino, metodologia com caracterização da pesquisa e população estudada, análise e discussão dos resultados obtidos e conclusão contendo algumas recomendações. 1

2 EMPREENDEDORISMO O empreendedorismo é um tema que tem recebido crescente atenção pelo reconhecimento de seu papel no desenvolvimento econômico das nações (GEM, 2001) em uma época em que grandes corporações estão progressivamente diminuindo sua taxa de ocupação de mão-deobra por meio de reestruturações e downsizing. As micro, pequenas e médias empresas contribuem de forma cada vez mais significativa para a ocupação deste efetivo pelo aproveitamento das oportunidades surgidas através do movimento de terceirização e de novos nichos de mercado (STANFORTH e MUSKE, 1999). No Brasil cerca de 67% dos trabalhadores atua em micros, pequenos e médios negócios e estes tipos de empresa representam 44% do PIB (RAMOS, 2001). Uma das conseqüências desta crescente atenção é um maior volume de produção teóricoempírica tentando explicar o fenômeno e uma evidência disto é a sua inclusão como eixo temático do Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Administração (ENANPAD). Como todo novo campo, em que práticas e teorias concorrem por maior legitimidade (BOURDIEU, 1983), não há ainda consenso em suas definições e metodologias (SHANE E VENKATARAMAN, 2000). Neste caso, diferentes contribuições podem ser destacadas, tais como o trabalho seminal de Schumpeter (1985) que associa empreendedorismo à inovação pois ao investigar suas fontes, se surpreendeu ao encontrá-la fortemente associada a novos e pequenos negócios. Tal associação contradisse a idéia vigente de que a experiência e os recursos acumulados das grandes organizações as tornaria mais inovadoras. McClleland (1961), numa linha comportamental, associou o empreendedorismo aos atos e atitudes de indivíduos com alta necessidade de realização e tolerância a riscos. Apesar de não haver consenso nas definições sobre empreendedorismo, pode-se notar correntes diversas. Alguns autores focam o processo de formação de novos negócios (SHANE, 1997; DOLABELA, 1999a e 1999b; FILION, 1999; DORNELAS, 2001) seguindo a linha proposta pela escola de negócios da Harvard, que acredita que o plano de negócios é uma ferramenta capaz de nortear o processo empreendedor e o objeto de estudo é a organização (planejamento, gestão e controle). Outra corrente ocupa-se em elucidar as características e comportamentos do empreendedor (CARLAND et alii, 1984; GIMENEZ, 2000; DRUCKER, 2003). Há ainda aqueles que ligam o fenômeno a fatores culturais (GEORGE e ZAHRA, 2002). A fragmentação do campo pode estar ligada às diferentes áreas de origem de seus pesquisadores que abordam o fenômeno a partir de pressupostos diversos (INÁCIO JR., 2002). Para o escopo deste trabalho tenta-se definir o fenômeno empreendedorismo de maneira a distingui-lo de seu agente e de seu produto (empreendedor e organização) pois esta ligação implica em um reducionismo. O fenômeno extrapola esta relação e pode se associar a formas de pensamento e, conseqüentemente, culturas. Parece então, mais adequado para subsidiar a discussão proposta neste estudo explicar o fenômeno de maneira mais ampla. A definição elaborada remete a teoria dos sistemas (BERTALANFFY, 1976). Entendendo empreendedorismo como sistema aberto cuja finalidade é promover melhor aproveitamento dos recursos sociais, materiais e cognitivos. Os inputs seriam os recursos e insatisfação, o processo é a transformação dos recursos e o output é a inovação revestida de valor econômico. A articulação destes elementos pode ser verificada na figura 01 e são entendidos como: a) Recursos: seriam todos os recursos físicos e cognitivos compreendendo desde os monetários, tecnológicos, estruturais e materiais até os estilos cognitivos, modelos de tomada 2

3 de decisão, percepção de oportunidades e demais habilidades envolvidas na combinação dos recursos; b) Insatisfação: elemento comportamental ligado à percepção de que a configuração atual não apresenta resultados ideais. Neste sentido, a insatisfação é o que leva à busca de um desequilíbrio provisório para a promoção de um arranjo mais eficaz dos recursos. c) Agente: detentor da insatisfação e promotor do comportamento empreendedor. Pode ser um indivíduo, organização ou sociedade. d) Processo: o processamento compreende as etapas de promoção do desequilíbrio da combinação vigente, construção do novo arranjo em ciclos constantes de equilíbriodesequilíbrio, tendo como resultado uma inovação revestida de valor econômico. e) Inovação revestida de valor econômico: inovação entendida não necessariamente como um ineditismo, mas como um novo arranjo de recursos que permita um melhor aproveitamento dos mesmos, tanto no sentido de troca econômica, quanto de melhor utilização cognitiva e social. f) Feed back: retroalimentação do sistema com informações, regulando o processo e permitindo a melhoria da performance. O EMPREENDEDORISMO COMO SISTEMA ABERTO Recursos Insatisfação Agente Processo Transformação dos recursos Inovação revestida de valor econômico Feed back FIGURA 01 Após esta breve explanação inicial a respeito do fenômeno, será discutido um de seus desdobramentos, que é o ensino do empreendedorismo. ENSINO DO EMPREENDEDORISMO Os cursos de administração no Brasil são ainda recentes se comparados com os europeus e americanos sendo um reflexo da industrialização tardia que, mesmo ocupando 43% da mãode-obra nacional em 1943, somente apresentou um rápido crescimento a partir da década de 50 do século passado (GORENDER, 1988). Naquela década, com a abertura do Brasil ao capital estrangeiro acentuou-se a necessidade de mão-de-obra especializada e, conseqüentemente, a profissionalização do ensino de administração. Dutra et alli (2001) informam que nos anos 1990 pôde-se notar uma grande expansão dos cursos de 3

4 administração, existindo no final de 2000 mais de 1940 cursos com 110 habilitações, representando cerca de 10% do total de alunos de graduação do Brasil. Uma das conseqüências possíveis desse significativo aumento é a maior discussão sobre empreendedorismo, que era entendido como uma sub-área da administração e vem sendo estruturado como um campo específico do conhecimento, porém ainda em construção dos seus conceitos.(shane e VENKATARAMAN, 2000; BRAZEAL e HERBERT, 1999). O fenômeno da educação empreendedora tem sido objeto de estudo de diversos pesquisadores (VESPER, 1987; GIBB, 1993 e 1996; CARLAND e CARLAND, 1997; GORMAN, HANLON e KING, 1997; BIZOTTO E DALFOVO, 2001; DUTRA e BASSAN, 2001; ANDRADE e TORKOMIAN, 2001; CARVALHO e ZUANAZZI, 2003; PETERMAN e KENNEDY, 2003; GUIMARÃES, 2003; FERREIRA e MATTOS, 2003) e seus resultados formam um conhecimento parcial sobre sua relevância, métodos e conseqüências, sem, no entanto, constituir um referencial delimitado sobre a melhor maneira de formar empreendedores. Destaca-se a seguir algumas contribuições para o campo. Em seu clássico trabalho sobre o ensino do empreendedorismo, Vesper (1987), aponta que tal prática é ubíqua e atraente, mas que apresenta poucos resultados tangíveis. O autor propõe novos modelos conceituais englobando a) incluir o agir como experiência didática, além do falar, ler e escrever; b) incentivar o contato com empreendedores; c) ter medições de resultados ligados a projetos que resultem em novos negócios; d) criar uma escola empreendedora; e) não limitar as experiências empreendedoras ao calendário escolar; f) ao avaliar a instituição de ensino contemplar a produção em projetos e sub-projetos de criação de empresas. Gibb (1993), estudando a relação entre cultura empreendedora e educação, critica o ensino por estudos de caso, pois ele não possibilita a vivência em reais condições de incerteza. Aponta ainda a necessidade de aprimoramento dos professores em todos os níveis da educação, visando a construção de um ambiente empreendedor. Em outro estudo Gibb (1996), indica que o tratamento dado a pequenas e médias empresas pelas escolas de negócio reforça o desinteresse por elas. O que pode resultar em uma deficiência na formação dos alunos que dificultaria sua atuação perante os desafios do século XXI. Diversos estudos tentam propor ou avaliar práticas adequadas para este tipo de educação. Nesta linha, pode-se destacar o trabalho de Gorman, Hanlon e King (1997) que, ao fazerem uma revisão da literatura, notam necessidade de distinção entre educação empreendedora, empresa e gestão de pequenos negócios e diferenciá-los da abordagem tradicional. Também destacam a falta de multidisciplinaridade nestes cursos. Já para Bizzotto e Dalfovo (2001) a disciplina de empreendedorismo em informática dos cursos desta graduação é uma fornecedora de matéria-prima para instituições que apóiam o empreendedorismo e descrevem sua prática que tenta reproduzir a competitividade do mercado por simulações e feiras interativas em uma abordagem vivencial baseada nos pressupostos cognitivistas. Dutra e Peixoto (2001), ao levantarem as práticas vigentes na região de Londrina-PR, concluíram que o ensino de empreendedorismo é uma tendência, e que seus principais conteúdos são plano de negócio e marketing. Ao pesquisarem os fatores de influência na estruturação destes programas em instituições de ensino superior (IES) Andrade e Torkomian (2001) enfatizam a necessidade de criação de um modelo brasileiro que contemple valores culturais, sociais, políticos e econômicos do país. Investigando as possíveis alterações da percepção sobre empreendedorismo em adolescentes submetidos a um programa de educação empreendedora, 4

5 Peterman e Kennedy (2003), encontraram evidências de que a experiência pregressa dos participantes exerceu influência sobre seu desejo em abrir novos negócios. Para Carvalho e Zuanazzi (2003), o planejamento das práticas deve levar em consideração as características e expectativas dos alunos. Em um estudo baseado na estruturação didático-pedagógica de IES norte americanas, Guimarães (2003), aponta que o estabelecimento de objetivos claros e a mensuração de seus resultados estão ligados diretamente ao sucesso do curso. O estudo dirigido por Ferreira e Mattos (2003), discriminou que as atividades que mais estimulam o empreendedorismo são aquelas que simulam práticas empreendedoras e as que menos estimulam são as de transmissão pura e simples do conhecimento. Buscando uma abordagem integradora, Carland e Carland (1997), discutem a questão da elaboração do curriculum e apontam que o mais comum é uma preocupação fortemente ligada ao produto final desejado após o programa de aprendizado. Na visão dos autores, o curriculum é um sistema dinâmico, e como tal dotado de entradas e saídas. Levando em conta esta abordagem e o conceito do empreendedorismo como um sistema aberto exposto anteriormente, entende-se educação para o empreendedorismo como um processo de transmissão/aquisição do conhecimento sobre o ambiente e sobre o próprio indivíduo que visa contribuir para o desencadeamento de habilidades, atitudes e comportamentos para a prospecção e exploração de oportunidades visando transformar o meio em que vive pelo desenvolvimento econômico, social e cultural. Pode-se representar o conceito proposto como um sistema (Fig. 02) onde as entradas seriam o repertório comportamental e cognitivo do aluno incluindo suas experiências anteriores, habilidades já desenvolvidas e expectativas, o processo como o conjunto de atividades didático-pedagógicas e vivenciais oferecidas pelo programa de formação e as saídas como indivíduos com habilidades, atitudes e comportamentos que possibilitem a prospecção e exploração de oportunidades revestidas de valor econômico. O feed back seria o resultado das avaliações que englobariam resultados tangíveis como número de empreendimentos e alteração do perfil do aluno. EDUCAÇÃO PARA O EMPREENDEDORISMO Aluno (histórico, cognição e expectativas) Processo Atividades didático-pedagógicas e vivenciais Profissional empreendedor Feed back FIGURA 02 Após esta rápida revisão é possível perceber que o conhecimento sobre o tema é fragmentado e necessita de grande quantidade de estudos empíricos para culminar em uma perspectiva unificadora que embase as futuras pesquisas e que subsidiem o planejamento e a prática da educação para o empreendedorismo. A partir deste entendimento foi realizado um estudo sobre o tema que será descrito a seguir. 5

6 METODOLOGIA Usando os critérios de classificação desenvolvidos por Cooper e Schindler (1998), podemos classificar esta pesquisa como exploratória (propósito imediato de exploração e subsidiar a formulação de hipóteses ou questionamentos para pesquisas futuras); seu método de coleta de dados como interrogação/comunicação utilizando entrevista estruturada; em relação ao controle de variáveis ela é ex post facto pela impossibilidade de manipulação destes elementos; quanto ao propósito da pesquisa pode-se enquadrá-la como de levantamento tendo-se em vista que o propósito estabelecido foi conhecer o objeto sem buscar relações causais; no quesito dimensão de tempo o trabalho realizado representa um corte transversal e no item ambiente é uma pesquisa de campo. A população escolhida para prover os dados necessários foi os cursos de graduação em administração da cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, por se tratar de um importante centro de formação profissional e ter relevante atividade econômica no contexto estadual. O levantamento dos elementos foi efetuado através de consulta aos endereços eletrônicos da Associação Nacional dos Cursos de Graduação (ANGRAD) e do Conselho Regional de Administração (CRA), além de consulta à lista telefônica da cidade. Foram identificadas 21 IES e, dado ao reduzido tamanho da população, optou-se pelo censo ao invés da utilização de técnicas de amostragem. Em relação à unidade de análise optou-se por entrevistar os coordenadores de curso dado o entendimento de que a visão destes influencia o planejamento e a execução das atividades didático-pedagógicas das IES. O contato com os coordenadores foi primeiramente por telefone para verificação do interesse de participação e agendamento da entrevista (única) que foram realizadas no período de fevereiro a abril de A entrevista estruturada foi elaborada em acordo com a revisão de literatura sobre o tema e contemplava o levantamento do conceito de empreendedorismo vigente na IES, a relevância atribuída ao fenômeno, e check list para verificação das principais práticas e conteúdos ministrados. As limitações deste estudo não permitem sua extrapolação para outras populações, pois dado o tamanho reduzido da população, não possibilita análises estatísticas mais refinadas. O tratamento dos dados ficou restrito ao levantamento de freqüências e interpretações à luz da literatura prévia acerca do tema. A utilização de check list também pode ser entendida como uma limitação. Em trabalhos futuros as práticas poderiam ser levantadas por pergunta aberta, o que talvez resultasse em maior discriminação delas. Como outra limitação pode ser apontado o respondente único pois não permite o confronto com outras percepções acerca do mesmo fenômeno. Uma recomendação para futuros estudos é a triangulação entre as visões do coordenador, professor e aluno, além de análise documental (planos de ensino, curricula, ementas). APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Distribuídos entre as 21 IES pesquisadas os cursos de graduação em administração (CGA) possuem em torno de alunos. Do total de IES, 19 aceitaram participar da pesquisa e duas, mesmo depois de repetidos contatos telefônicos, não demonstraram interesse/disponibilidade. Das IES participantes, duas não promovem o ensino de empreendedorismo, uma por não ter interesse e outra reconhece a relevância e alega possuir projeto pedagógico a ser implantado contemplando-o. Como o objetivo deste estudo é 6

7 levantar dados sobre ensino de empreendedorismo estas duas IES não tiveram seus dados analisados. Pela freqüência (17) e baixo tempo médio desde a implantação (média de três anos, indo de um a oito anos), pode-se especular que o ensino do empreendedorismo é uma tendência. Esta idéia também é reforçada pelo relato das demandas externa (empresas, governo e sociedade em geral) e interna (alunos, professores e direção) percebidas por 13 coordenadores. As respostas referentes ao conceito de empreendedorismo vigente foram agrupadas em cinco eixos. Os dados coletados apontaram diversidade no entendimento do fenômeno, predominando uma visão generalista (representada por sete IES) que engloba aspectos de criação de novos negócios, gestão de empresas, características individuais e inovações. As visões específicas são representadas pelos seguintes resultados: três IES ligam o fenômeno à criação de novos negócios, três à gestão de negócios, duas à promoção da inovação e duas à características individuais. São falas que refletem estas compreensões: (...) empreendedorismo é uma noção geral da administração mais habilidades para montar ou continuar negócios.. (...) é a disposição para iniciar uma atividade econômica. (...) é a sistematização das atividades através do business plan. (...) é a busca do novo, da inovação. (...) é um conjunto de características ligadas ao scanning do ambiente e habilidade de identificar oportunidades. Esta diversidade é coerente com a literatura da área, também variada, e reflete o estágio de amadurecimento do campo. Ao questionar a relevância do fenômeno toda a população apontou para sua relevância, tanto pela possibilidade de geração de emprego e renda, quanto pelo papel de fomentar inovações. A respeito disto, pode-se conjecturar que há compreensão da literatura e correlação com o cenário brasileiro, e ainda que iniciativas de promoção do fenômeno pelas agências de fomento foram bem sucedidas. Contudo, apesar desta compreensão, ao estabelecer convênios, apenas seis IES incluem pequenas e micro empresas no rol de conveniadas. As demais têm uma clara preferência por grandes empresas. A justificativa relatada remete ao desejo de maior atratividade de seus cursos frente à sociedade. Este dado condiz com autores (GIBB, 1996; CARLAND e CARLAND, 1997; TOMIO e HOELTGEBAUM, 2001) que afirmam que o curso de administração ainda forma profissionais para atuar em grandes corporações e reflete a percepção de professores e alunos de que elas são mais complexas e interessantes (CARLAND e CARLAND, 1997). Quando perguntados se a graduação em administração tem relação com a formação de empreendedores, e se características individuais dos alunos podem ser influenciadas pela educação formal, toda a população respondeu afirmativamente, muito embora três respondentes tenham afirmado que o empreendedor nasce com este dom. A visão inatista encontrada, embora pouco freqüente, foi ainda assim uma surpresa pois parece contraditória com o investimento na formação de empreendedores através da educação e por ela ter sido duramente questionada pelos behavioristas e construtivistas (ANDRADE E TORKOMIAN, 2001; BIZZOTTO E DALFOVO, 2001). O item planejamento foi dividido em três subitens: objetivos claros, recursos delimitados e metodologia definida. Os resultados apontados demonstram fragilidade das atividades de planejamento com apenas 13 IES tendo objetivos claros, dez apresentando recursos 7

8 delimitados e nove contando com metodologia definida. Novamente pode-se constatar o reflexo do estágio de maturidade do campo, que não dispõe de eixos pedagógicos unificadores (FERREIRA E MATTOS, 2003). Outra possibilidade de interpretação é que os resultados encontrados sejam reflexo do estágio de desenvolvimento dos próprios programas de ensino, com idade média de apenas três anos. Segundo Andrade e Torkomian (2001) a educação empreendedora segue diferentes estágios que refletem a abrangência desse tipo de ensino na instituição. Para os limites deste trabalho são propostos os seguintes estágios: centro de empreendedorismo (elevado grau de estímulo a atividade empreendedora), conjunto de disciplinas específicas (diversas disciplinas dentro de uma estratégia de formação empreendedora), disciplina específica (formalização pela presença de uma disciplina na grade curricular) e atividades isoladas (geralmente informais demandadas por alunos ou estimuladas por professores). Todos os estágios descritos foram encontrados na população estudada e sua freqüência indica uma tendência à formalização das atividades e à interdisciplinaridade. As respostas obtidas estão demonstradas no gráfico abaixo: GRÁFICO 01 - Nº de IES por estágio de 1 desenvolvimento 3 4 Centro de empreendedorismo Conjunto de disciplinas Disciplina específica Atividade isolada 9 As práticas pesquisadas foram agrupadas em quatro eixos: teóricas (aulas expositivas, trabalhos teóricos individuais e em grupo, exigência de ficha de leitura e provas dissertativas), práticas (estudos de caso e trabalhos práticos individuais e em grupo), incentivo a rede de relacionamentos (seminários com executivos e empresários, visitas a empresas, tarefa extraclasse que exige visita a empresa) e de simulação de atividades empreendedoras (desenvolvimento de produto ou empresa fictícia, elaboração de plano de negócio). Toda população apresentou práticas que contemplam os quatro eixos, o que pode refletir uma preocupação com a formação integral do aluno-empreendedor. As práticas menos utilizadas são adoção de livro texto e exigência de ficha de leitura, com nove e quatro IES respectivamente, o que é compatível com a visão de que estas atividades não são práticas adequadas ao incentivo do empreendedorismo (FERREIRA E MATTOS, 2003). Outras práticas menos freqüentes são as atividades individuais tanto teóricas quanto práticas, ambas sendo utilizadas por 11 IES, o que sugere o favorecimento das atividades em grupo. O trabalho em grupo pode estar sendo privilegiado por favorecer o aprimoramento de habilidades normalmente ligadas ao empreendedorismo como liderança (INÁCIO Jr., 2002) e network (BRUSH, GREENE e HART, 2002). Outra possibilidade é o elevado número de 8

9 alunos por turma dificultando a atenção individualizada. As freqüências das demais práticas podem ser verificadas na tabela 01. Outra prática comum nas IES pesquisadas é a manutenção de empresa e consultoria júnior, onde os alunos são envolvidos em projetos para atender demandas externas, tendo a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos e habilidades adquiridas. Esta estrutura que alia momentos de aquisição do conhecimento com momentos de utilização do novo repertório é reconhecida como uma metodologia adequada para o ensino do empreendedorismo (DOLABELA, 1999; GUIMARÃES, 2002) por ser orientada para a ação, baseada na experiência e de caráter vivencial. Outras atividades que, dado seu caráter multidisciplinar e vivencial, podem ser propícias a este tipo de ensino são pesquisas e estágios voltados ao tema, que foram encontrados em sete e três IES, respectivamente. A conjunção destas práticas com a estrutura curricular pode subsidiar uma cultura empreendedora, tornando o ambiente propício à formação de empreendedores (CARVALHO E ZUANAZZI, 2003). É comum na literatura encontrar indicações de que o ensino do empreendedorismo deve ter conteúdos que contemplem o desenvolvimento de comportamentos e habilidades necessárias para o reconhecimento e exploração de oportunidades e, ainda, o gerenciamento de novos negócios (GIBB, 1996; DOLABELA, 1999; DORNELAS, 2001). Foi verificado junto a população estudada quais dos conteúdos indicados pela literatura são contemplados pelas práticas já citadas e os resultados apontam que o menos freqüente (12 IES) é a habilidade para levantar recursos. Percebe-se uma contradição, pois enquanto o discurso dos respondentes aponta a falta de recursos como uma das principais dificuldades para a abertura de novos negócios, em sua prática estas IES não privilegiam este conteúdo. Recursos são entendidos como fundamentais para a gênese de novos empreendimentos (BRUSH, GREENE e HART, 2002) e o desenvolvimento da habilidade para levantá-los poderia ter um papel de alavancagem de startups. As freqüências de todos os conteúdos investigados estão demonstradas na tabela 01. Tabela 01 Freqüência das práticas e conteúdos levantados PRÁTICAS Freqüência CONTEÚDOS Freqüência Estudos de caso 17 Práticas de negociação 17 Visitas a empresas 17 Práticas de liderança 17 Plano de negócios 17 Habilidade de detectar oportunidades 17 Aulas expositivas 15 Planejamento de um novo negócio 17 Trabalhos teóricos em grupo 15 Papel da vantagem competitiva 17 Trabalhos práticos em grupo 15 Pensamento criativo 16 Seminários com executivos e empresários 15 Exposição à inovação tecnológica 15 Tarefa que exige visita a empresa 15 Habilidade para combinar recursos 15 Criação de empresa 15 Habilidade para explorar oportunidades 14 Aplicação de provas dissertativas 14 Desenvolvimento de novos produtos 14 Atendimento individualizado 13 Formação de rede de relacionamento 14 Criação de produto 12 Habilidade para levantar recursos 12 Trabalhos teóricos individuais 11 Outros 06 9

10 Trabalhos práticos individuais 11 Adoção de livro texto 09 Exigência de ficha de leitura 04 Das IES estudadas, duas possuem sistemas de mensuração em relação às características individuais e interesse dos alunos. Dentre as que adotam esta prática, os resultados apontam para grande interesse (75% em duas IES) e baixa freqüência das características associadas ao perfil empreendedor (20% em uma IES). Apenas uma IES mede formalmente o resultado em função do número de novos negócios gerados e pôde constatar a abertura de cerca de quatro empresas por ano, o que representa aproximadamente 10% dos projetos apresentados. Como em qualquer prática pedagógica a proposição de objetivos e a mensuração de resultados alcançados é uma importante fonte de informações, capaz de retroalimentar o sistema e promover sua melhoria (HINDLE e CUTTING, 2002; GUIMARÃES, 2003). A falta desta medição pode dificultar o êxito deste tipo de ensino pois conforme Carvalho e Zuanazzi (2003), conhecer o aluno e suas expectativas é um pré-requisito para sua efetividade. Outra conseqüência possível seria a não legitimação deste tipo de ensino pela falta de evidências de seu papel na promoção do desenvolvimento de empreendedores. Sem demonstração de sua efetividade ele corre o risco de ser entendido como um modismo e ter dificuldade de alavancar recursos internos e externos para sua continuidade. Os resultados desta prática poderiam ser profícua fonte de validação dos conceitos e teoria sobre o fenômeno. Uma justificativa possível para a ainda incipiente medição de resultados seria a falta de turmas formadas que permitam o acompanhamento dos resultados. CONCLUSÃO Entendendo o empreendedorismo como um sistema aberto, faz sentido entender o curriculum da educação empreendedora também como sistema e como tal interligado com a realidade ao seu redor. Neste estudo de levantamento sobre a educação empreendedora na cidade de Curitiba- PR é possível discutir alguns aspectos deste ensino e apontar direções para o seu desenvolvimento. O ensino do empreendedorismo nas IES vem se consolidando como uma prática recorrente na formação do profissional de administração. A tendência verificada neste estudo pode ser explicada pela valorização do papel das pequenas e médias empresas e o reconhecimento de sua relevância no panorama econômico-social pelo qual passa o país. Tal prática pode ser reforçada por uma maior integração das instituições de ensino com este tipo de empresa. Pelos resultados apurados, esta ligação apresenta-se ainda incipiente. Um dos impactos desta maior integração seria a promoção de pesquisa e extensão, papel característico das IES, permitindo uma atuação direta junto aos agentes econômicos circundantes. Outra integração adequada a este tipo de ensino é com as agências de fomento que possibilitaria ao aluno acesso a recursos para a consecução de seus objetivos empreendedores. A mensuração das expectativas dos alunos e dos resultados alcançados por este tipo de ensino, mostrou-se ainda pouco freqüente. Sua adoção pelas IES pode resultar em adequação e legitimação dos programas na medida em que possibilitem o atendimento das expectativas dos alunos e forneçam evidências de sua efetividade. O discernimento das necessidades e expectativas da sociedade também é fundamental para que os resultados obtidos sejam 10

11 condizentes com os almejados.neste sentido, este estudo está condizente com o trabalho de Dutra et alii (2001), ao afirmar que a estruturação dos cursos de administração deve atender às demandas da sociedade. A mensuração ainda pode contribuir para consolidação do campo de conhecimento pela verificação de seus conceitos. As práticas e conteúdos pesquisados neste estudo mostram a preocupação com a formação integral do aluno, porém nota-se ainda que há falta de metodologias que permitam a integração entre o saber e o fazer. Para sua plena realização, talvez seja necessário o desenvolvimento de metodologias específicas o que corrobora os resultados alcançados no estudo de Guimarães (2003). O ensino do empreendedorismo deve então, respeitando as potencialidades dos indivíduos, integrar o ser e o fazer numa atitude pró-ativa diante do aprendizado, transformando pessoas em agentes propulsores de desenvolvimento econômico e social. As principais contribuições deste estudo são a construção de um conceito de empreendedorismo para além de sua relação com o agente e o produto através de seu entendimento como um sistema aberto e, conseqüentemente, a educação empreendedora como um processo dinâmico dotado de entradas (demanda dos alunos e sociedade) e saídas (profissional empreendedor). Além disto, este levantamento corrobora estudos anteriores sobre o tema (GUIMARAES, 2003; DUTRA et alli, 2001) indicando a necessidade de desenvolvimento de uma metodologia baseada na experimentação e com monitoração de resultados. REFERÊNCIAS ANDRADE, R. F.; TORKOMIAN, A. L. V. Fatores de Influência na Estruturação de Programas de Educação Empreendedora em Instituições de Ensino Superior. Anais do II Encontro de Estudos Sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, Londrina ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS CURSOS DE GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO. Listagem dos Associados. Disponível:< Acesso em 12 de Fevereiro de BERTALANFFY, L. Von. Teoria dos sistemas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, BIZZOTTO, C. E. N.; DALFOVO, O. Ensino de Empreendedorismo: Uma Abordagem Vivencial. Anais do II Encontro de Estudos Sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, Londrina BRAZEAL, D. V.; HERBERT, T. T. The Genesis of Entrepreneurship. Entrepreneurship: Theory & Practice, v. 23, n.3, p , BRUSH, C.G.; GREENE P. G.; HART, M. M. Empreendedorismo e Construção da Base de Recursos. RAE Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v. 42, n. 1, p ,

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