O DESENVOLVIMENTO TEM UM ROSTO

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1 O DESENVOLVIMENTO TEM UM ROSTO Reflexões sobre uma experiência Editado por Roberto Fontolan Introdução do Alberto Piatti

2 APRESENTAÇÃO Roberto Fontolan Os números, sabe-se, frequentemente são contrastantes. Consideremos a pobreza extrema no Terceiro e Quarto Mundos, aquela da renda de um dólar por dia. Alguns anos atrás foi calculado que, apesar das maciças transferências de ajuda por parte dos países ricos, em dez anos a quantidade desses pobres não diminuiu em cifras absolutas, aliás, era estimado um aumento de mais de cem milhões de pessoas, enquanto o percentual permanecia pouco inalterado por causa do crescimento demográfico. Recentemente, um estudo do Fundo Monetário pôs em relevo como em toda a África subsaariana a pobreza esteja lentamente baixando também em percentual: mais de 47% da população era registrada como pobre em 1990, em 2001 tinha passado a 41% e, calculando as várias tendências, diminuirá para 37% em Números verdadeiros, com certeza, indicam evoluções diversas, até contrastantes. Certos acontecimentos, como o percurso da miséria ao progresso, permanecem por muito tempo indecifráveis. Neste volume contamos uma história de desenvolvimento que não é feita de números. Eles também aparecem - desde as crianças ajudadas pelo Apoio a distância até as mães em dificuldade acolhidas na casa de Novosibirsk, assim como as referências ao quadro de declarações e regulamentos definido pelas instituições mundiais e no qual se reconhecem aqueles que atuam na cooperação internacional. Mas experimentamos tornar o desenvolvimento decifrável de acordo com outro código. Neste volume vocês encontrarão antes de tudo fatos. Fatos que englobam pessoas os singulares acontecimentos de singulares nomes que vivem em lugares geográficos precisos; e que traçam uma história de conjunto como um percurso único capaz de aproximar as distâncias dos continentes e das décadas. Impossível dar sentido à idéia de capital humano se dentro dela não se delineiam os rostos da doente ugandense e do estudante paraguaio. Da mesma forma, falar de desenvolvimento permanece inexoravelmente abstrato sem se fazer uma visita a Novos Alagados ou às cooperativas agrícolas libanesas. Portanto, as duas partes do presente volume não vivem uma sem a outra, aliás, podem ser realmente compreendidas somente como aprofundamento e desenvolvimento uma da outra. Lendo-as, vocês poderão visitar os lugares, encontrar os protagonistas e caminhar na companhia deles, escutar a reflexão do estudioso, compartilhar o juízo sobre temas mais decisivos para o bem comum do mundo no qual habitamos juntos. A narração inteira contém, no seu pano de fundo, um itinerário que pode ser expresso assim: pessoa, educação, desenvolvimento; assim como o tempo nas partituras musicais, esses três compassos constituem a sua arquitetura escondida. Todo o trabalho descrito nessas páginas, seja projeto em campo ou elaboração intelectual, não ficaria de pé se não se apoiasse no ritmo deles. Porque a AVSI 1 tenha adotado esse itinerário na sua ação em todo o mundo é justamente o que se descobrirá página após página. 1 As experiências citadas nesta publicação se referem à Fundação AVSI, organização não governamental nascida em 1972 e empenhada com mais de cem projetos de cooperação para o desenvolvimento em 39 países do mundo. Hoje a AVSI está presente na África, América Latina, Leste Europeu, Oriente Médio, Ásia e atua nos setores da saúde, higiene, cuidados com a infância carente, educação, formação profissional, recuperação das áreas marginais urbanas, agricultura, ambiente, microempreendedorismo, segurança alimentar, ICT e emergência humanitária.

3 INTRODUÇÃO Alberto Piatti Nos últimos anos, o desenvolvimento entrou no debate quotidiano: a globalização, as migrações, o terrorismo internacional forçaram, na nossa cômoda vida de ocidentais, as questões dos Países em desenvolvimento. Desse modo, a agenda internacional adquiriu os objetivos do milênio. Com isso, o ano de 2015 é uma meta que sempre mais pessoas e instituições conhecem como meta do desenvolvimento. O G8, mais ou menos alargado, coloca entre seus temas principais o desenvolvimento da África, e milhares de iniciativas são organizadas em todo o globo para fazer frente às emergências dos mais pobres, desde os global fund aos live aid. Entre entidades de ajudas e desenvolvimento, o imaginário coletivo construiu uma relação de proporção direta. Nesse turbilhão, muitas energias são gastas para organizar de forma adequada a máquina das ajudas. Particularmente desde 2005, a partir da Conferência de Paris, o debate acerca do desenvolvimento nos países pobres concentrou-se muito na eficiência, eficácia, transparência, ownership, mensurabilidade e previsibilidade das ajudas. Até aqui, o tema visto do alto. Todavia, lendo a vitalidade que fervilha entre as linhas das experiências projetuais reunidas por Roberto Fontolan, parece emergir algum fator que não se consegue encaixar nas tradicionais medições. Existe a aventura humana da compartilha e do desejo, da liberdade e da inteligência criativa, do amor pelo outro e da redescoberta da dignidade. Seria, portanto, redutivo demais insinuar uma contraposição entre duas culturas, entre um novo humanismo e saber econômico. Ou resignar-se ao fato de que uma coisa é a experiência das iniciativas de desenvolvimento, outra coisa é a teoria do desenvolvimento; que, no fundo, a primeira pertence a uma esfera humana, de experiências boas, mas pouco incidentes na dinâmica histórica dos povos, a segunda pertence à dura realidade. Ou ainda reduzir as situações de dificuldade à academia para malhar ou distrair os ânimos, onde cabe um pouco de tudo, experimenta-se, fica-se feliz, fazem-se coisas bonitas, ânimos que depois subirão ao palco, o palco verdadeiro, no qual as regras são diferentes e, sobretudo, são as verdadeiras. Neste sentido, é particularmente interessante a leitura de Folloni e Colombo das experiências e das teorias do desenvolvimento, leitura feita por economistas que deixam penetrar na teoria econômica também os fatores de um agir que possui muitas dimensões do humano. Pois seria um erro imperdoável subtrair as questões do progresso humano da leitura científica, interpretando-a hipocritamente como insuficiente. Talvez, na realidade, este seja hoje o desafio mais interessante para quem lida com pesquisa sobre os problemas do desenvolvimento: adequar a teoria à experiência também nesse âmbito, como em todo âmbito do saber, superando lugares-comuns, modismos, ideologias e preconceitos, para entender os fatores determinantes do desenvolvimento. Expressando com termos não tradicionalmente da economia o que é o desenvolvimento, na experiência de uma organização não governamental que opera nos recantos perdidos do planeta com pessoas de carne e osso, pode-se defini-lo como o movimento de uma pessoa que, depois de ter trabalhado com você, convivido com você, enfrentado com você questões às vezes de vida ou de morte, reconhece em si mesma e na vida um valor e uma dignidade inestimáveis. Valor e dignidade que não são de modo

4 algum dependentes da situação de maior ou menor dificuldade, maio ou menor bemestar. Percebendo o valor de si mesma como algo que independe da situação históricocultural na qual se encontra, a pessoa se torna livre, e normalmente se move tomando iniciativa para melhorar a própria situação. Numa palavra, torna-se protagonista. A educação cristã que deu origem às experiências narradas neste livro é baseada na consciência, que a experiência do encontro com Cristo torna evidente, de que as necessidades do homem, assim como o seu desejo, são sempre infinitos, e que, portanto, também as respostas materiais que os projetos podem oferecer, são limitados. Quando, porém, as ações, as estruturas, os projetos nascem de um eu consciente e educado a reconhecer em cada realidade humana, até mesmo na mais degradada, um nexo com o infinito, aí então essas ações ou projetos se tornam obras, se tornam gestos, se tornam oportunidades de encontro com pessoas com as quais se inicia um caminho comum de compartilhamento, não só dos problemas ou dificuldades, mas também do sentido último da vida. É interessante como se desenvolve a dinâmica dessa descoberta radical nos projetos de cooperação. O primeiro passo é um encontro entre duas pessoas, no qual, segundo o esquema da relação de ajuda, uma tem o papel de dar, a outra, de receber. Essa relação contém em si o risco de uma ambiguidade, verdadeira no micro das intervenções de cooperação para o desenvolvimento, mas tranquilamente transponível no nível das relações institucionais internacionais e nacionais. A pessoa que recebe espera tudo do seu interlocutor, segundo a imagem que tem da própria necessidade, ao passo que aquela que dá percebe a si mesma como enviada a levar o bem para a outra, segundo a imagem que tem da necessidade da outra pessoa. Esse jogo entre as partes, dominado pela chantagem da necessidade, pode durar até o fim do projeto, projeto que pode até ter muito sucesso, alcançar todos os objetivos e resultados. Mas o desenvolvimento é algo mais, não é só tecnicidade. Existe algo que acontece quando uma pessoa ajuda outra, primeiro, a entender que ela não coincide com o seu estado de necessidade, de um lado, nem com a ajuda que oferece, de outro. A necessidade, a doença, a pobreza podem colocá-lo em xeque se você não percebê-las como uma contingência que não consegue penetrar na substância da sua pessoa. E, de outro lado, a ilusão de poder fazer os outros felizes fecha você num árido balanço entre delírio de onipotência e decepção. O que acontece é que a necessidade deixa de ser a essência do relacionamento. A pessoa percebe gradualmente o seu próprio valor, a própria consistência para além da circunstância, e por isso começa a confiar no outro, a amar o outro, no sentido de compartilhar a aventura da vida. Mas o que rompe esse círculo vicioso que engaiola a pessoa num esquema de papéis, um de dar e o outro de receber? Um gesto de solidariedade que abraça a realidade integral das pessoas em direção às quais se vai. E justamente essa experiência ensina a quem desempenha o papel de ajudar que, se é verdade que a necessidade é enorme, é mais verdadeiro ainda que nenhuma solução, nenhuma ajuda, casas novas, trabalho, ou serviços, podem satisfazê-las completamente, pois a verdadeira necessidade daquelas pessoas é a necessidade de um significado. «Trata-se da descoberta do fato de que, justamente

5 porque nós os amamos, não é a nossa ação que os torna felizes; de fato, nem mesmo a mais perfeita sociedade, ou a organização mais forte e sábia, nem a maior riqueza do mundo ou a saúde mais perfeita, nem mesmo a beleza mais pura ou a civilização mais aprimorada poderá torná-los felizes. Somente um Outro poderá torná-los felizes» 2. Portanto, o método mais realista da cooperação entre os povos parece ser o da compartilha, que permite um processo muito semelhante ao que Edith Stein chama de empatia, um compreender, um agarrar, isto é, um entender o valor da pessoa. A proximidade afetiva permite ler a necessidade parcial expressa pelas pessoas em vista da totalidade do ser humano. Cada necessidade, ainda que fosse só material ou limitada, remete sempre a um desejo que a supera e que, com a compartilha, pode ser escutado e dilatado em outras direções para uma utilização sua mais edificante no plano do crescimento individual e social. Uma presença externa, amigável e com autoridade, portanto educativa, possui uma função essencial 3, determinante para que o outro se torne sujeito protagonista. Então, é fundamental para a ajuda ao desenvolvimento um relacionamento humano baseado na consciência de que todas as pessoas têm algo em comum: o mesmo coração 4 e o mesmo desejo de felicidade. Encontrar o outro com esse olhar quer dizer ser presente como sujeito ativo, com uma humanidade total, feita de coração, de razão. Essa verdadeira experiência de alargamento da razão permite depois encontrar os meios operacionais e projetuais adequados para responder às necessidades que pouco a pouco se manifestam. Nas histórias narradas, vai-se das creches familiares às escolas profissionalizantes, dos centros de inserção no mercado de trabalho de pessoas marginalizadas à criação de lugares de agregação para mulheres doentes de AIDS. Nesse sentido, é impressionante a capacidade operativa e criativa que se lê nas linhas das experiências narradas, a inteligência de encontrar soluções para os problemas mais complexos, muitas vezes lançando mão daquela mochila de patrimônio de saberes que cada pessoa recebeu de quem a educou. No relacionamento com o outro, abre-se um positivo, um patrimônio que cada um carrega consigo e que através de uma recíproca responsabilidade se desenvolve de forma surpreendente. As energias que alimentam o desenvolvimento fazem parte da bagagem da pessoa e da comunidade, e o processo educativo que se instaura numa saudável relação de ajuda permite ativar esse patrimônio, valorizando a tradição à qual a pessoa e a comunidade pertencem. A intervenção externa pode acrescentar tecnicidade, instrumentos, competências. Este é um outro fator fundamental de ajuda para o desenvolvimento: o investimento em capital humano, focado por Lovaglio como elemento essencial para dotar a pessoa, ciente e consciente do próprio valor, de instrumentos e conhecimentos úteis para interagir eficazmente com a realidade. Isto é o 2 Giussani, L. O sentido da caritativa, em Litterae Communionis, n. 68, março/abril 1999, p A primeira condição da compreensão observa Hans Urs von Balthasar é a aceitação do dado assim como se dá a nós. A primeira coisa de que temos necessidade para ver objetivamente é deixar ser o que se mostra. A primeira coisa não é apropriar-se, através das categorias do sujeito, do material pronto para a percepção, mas colocar-se a serviço do objeto, adorar...a imponência da realidade não deixa indiferente a razão... a realidade age sobre a razão como um convite a descobrir o significado, cit. in Carròn, J., L urgenza della ragione, in Allargare la Ragione. Milano: Vita e Pensiero, 2006, p A exigência da verdade, do amor, da justiça, da felicidade: estas perguntas constituem o coração do homem, constituem a essência da razão, isto é, da consciência que o homem tem da realidade segundo a totalidade dos fatores, Giussani, L., O eu, o poder, as obras. São Paulo: Cidade Nova, 2001, p. 40.

6 que comumente se chama de capacity building dos atores locais: encontro entre pessoas e contaminação entre tradições e crescimento dos saberes. O que acende o pavio desse combustível é a liberdade do sujeito, a pessoa, que busca e usa recursos para enfrentar uma necessidade que não é mais uma condenação, mas uma situação que pode ser superada. Ou seja, o ponto principal do desenvolvimento não é o ator externo, não são os recursos, não são as regras. É a consciência de um sujeito que, justamente por amor a si e à vida, busca e constrói. Na creche de Novos Alagados, em Salvador (Brasil), dedicado ao Papa João Paulo II, construída em 1993, primeira ação de uma presença nessa área que gerou hoje obras, projetos e programas de desenvolvimento, está escrita com grandes letras uma frase de Luigi Giussani que lembra a sua origem: O coração do homem é sede de infinito. Por isso educamos, trabalhamos, construímos. O empowerment mais eficaz, para usar uma linguagem de especialistas, parte do reconhecimento de si como criatura única e irrepetível. Pela leitura que os pesquisadores desenvolvem na primeira parte do livro sobre as experiências descritas por Fontolan, quatro fatores aparecem como essenciais na ajuda para o desenvolvimento: a dignidade da pessoa, a educação como processo que a torna protagonista, o desejo como tensão à realização de si mesma, o capital humano como bagagem de equipamentos e saberes para concretizar um caminho de desenvolvimento. Nessa altura, surgem as perguntas típicas dos agentes desse setor. É possível realmente dizer que esses fatores geram processos de desenvolvimento, ou são condições específicas não replicáveis? O que eles sugerem à eficácia, eficiência, transparência, mensurabilidade tão fundamentais em todos os documentos sobre ajuda para o desenvolvimento? As políticas de ajuda para o desenvolvimento podem encontrar nesses elementos indicações claras? Vemos novos desafios aparecerem no horizonte e para enfrentá-los não podemos mais só ficar marcando passo, como europeus empalhados 5. Antes de tudo, temos a necessidade de investir numa nova geração de pessoas que colha o desafio desses fatores como algo real. Isto significa investir numa geração de jovens, quer dos chamados países em desenvolvimento, quer dos chamados países desenvolvidos. Por isso é necessário pensar em instrumentos legislativos, relacionais, projetuais flexíveis, a longo prazo, colocados no real. Pode parecer uma banalidade, mas o alcance cultural dessa virada é decisiva e radical. Significa superar o niilismo que se insinua e assume a fisionomia da religião humanitária, das regras, do dinheiro como elemento resolutivo dos problemas da humanidade. É necessária uma geração de pessoas que retome o sentido do desenvolvimento como progresso (palavra que hoje perdeu a sua origem, progredior, corro para frente), ou como tensão para frente, rumo a uma meta que possui uma estrada, mas à qual jamais se chega definitivamente, como diz São Bernardo: A nossa perfeição consiste em jamais nos iludirmos de ter chegado, mas em estarmos sempre voltados para frente. É necessária uma geração de pessoas educadas a reconhecer no ser humano um valor e um potencial infinito, enquanto criaturas à imagem e semelhança de Deus. 5 Cf. T.S. Eliot, Gli uomini vuoti, in ID., Poesie, Milano: Oscar Mondadori, 1971, p. 249.

7 A EDUCAÇÃO É O MOTOR DO DESENVOLVIMENTO Gabriella Berloffa, Giuseppe Folloni Departamento de Economia, Universidade de Trento Diferentes trajetórias No início do terceiro milênio, 34 países desenvolvidos, compreendendo 14% da população mundial, produziam mais da metade do PIB mundial (53%) 1. Um segundo grupo de países (China, Hong Kong, Cingapura, Taiwan, Índia em particular) experimentou nas últimas décadas um forte crescimento, mesmo que o nível médio do PIB per capta ainda seja baixo. Esse grupo de países representa 51% da população mundial e produz ¼ do PIB mundial. Nas outras regiões do mundo, o crescimento nos últimos 30 anos foi muito baixo: na América Latina, menos de 1% ao ano; nos outros países asiáticos, 0,5% ao ano. O crescimento foi negativo nas economias em transição, que ainda estão pagando a forte diminuição do PIB dos anos 90; substancialmente nenhum crescimento foi verificado nos países da África Subsaariana (0,01% ao ano). A falta de crescimento em várias regiões acendeu um forte debate acerca dos determinantes do crescimento e colocou dúvidas sobre a eficácia das ajudas internacionais. Países que receberam a cada ano ajudas internacionais iguais a diversos pontos percentuais do PIB não cresceram. Por quê? É interessante repercorrer esse debate, as conclusões a que ele chegou e as perguntas que ainda estão abertas e sem resposta convincente. Financiar o investimento em capital físico? As duas grandes idéias que dominaram por décadas o uso dos recursos internacionais para a ajuda ao desenvolvimento podem ser sintetizadas da seguinte forma: 1. o desenvolvimento pressupõe o crescimento econômico. O que venha a ser desenvolvimento ainda é algo a ser esclarecido (melhores condições de vida, um sistema político democrático, maior liberdade, instituições capazes de envolver grande parte da população em processos de mudança), entretanto, a idéia era que o crescimento econômico teria arrastado consigo o desenvolvimento; 2. o crescimento econômico é guiado pelo investimento em capital físico e humano. O investimento, por sua vez, depende da capacidade de poupança de um país. Se falta essa capacidade, a ajuda internacional pode suprir até que, iniciado o crescimento, aumente a capacidade de poupança e o país seja capaz de caminhar com suas próprias pernas. A verificação empírica da relação entre as dimensões indicadas - ajuda, investimento e crescimento apresenta resultados ambíguos e não conclusivos; frequentemente a relação entre ajudas e crescimento é nula (ou até negativa). Por quê? As razões são diversas. Muitas vezes as ajudas desnorteiam a economia (governos e administrações, sabendo que receberão ajuda, aumentam as despesas correntes e com isso diminui a 1 Dados relativos a A referência é Maddison (2001).

8 quota economizada do PIB ao líquido das ajudas): não é dito, portanto, que a maiores ajudas correspondam maiores poupanças e investimentos. As ajudas passam para os governos e as administrações, cujos comportamentos são decisivos para a sua eficácia, e frequentemente esses comportamentos não são apropriados (corrupção, burocracia ineficiente, sistema institucional inadequado). A falta de eficácia pode derivar de outras causas: a polarização social ou o fracionamento étnico por vezes geram comportamentos redistributivos para manter o equilíbrio entre os diversos componentes, mas isso impede o crescimento. Ou então quem está no poder distribui de forma desigual os recursos das ajudas, acentuando a polarização social e as formas de conflito. O efeito negativo de semelhantes comportamentos não se detém nas consequências diretas. Se uma classe burocrática é corrupta, os outros atores podem ser induzidos a fazer escolhas ineficientes para evitar a espoliação. Por exemplo, a passagem a cultivos orientados para o mercado (mais rentáveis) pode deixar os camponeses nas mãos dos burocratas; eles então escolherão uma agricultura de autoconsumo, não interessante para quem busca rendimentos, imobilizando as áreas rurais a condições de marginalidade e pobreza. Comportamentos desleais difundidos podem anular a eficácia de projetos ou políticas. Uma vez garantidos os recursos para o projeto, os atores podem tender a minimizar os esforços ou as possibilidades de serem sancionados. Administrações e ONGs, por exemplo, podem contentar-se em responder aos objetivos formais do projeto, importantes para um bom relacionamento com os financiadores, sem o esforço ulterior de encontrar realmente as pessoas e acompanhá-las no percurso que o projeto pode encaminhar. As pessoas se movem pela esperança suscitada por um encontro: se esse encontro não existe, constroem-se paredes ou ruas, mas a posição delas não muda: ficam facilmente numa posição reivindicatória; pedem (e a lista das necessidades é potencialmente infinita) ou pretendem, mas não se colocam em movimento. Investir em capital humano Ao lado do investimento em capital físico, a outra grande política ligada às ajudas foi investir em capital humano, por meio da escolarização. O capital humano não coincide com a escolarização: o contexto familiar e social no qual se cresce, a experiência laboral, são todos canais que contribuem para definir o relacionamento com a realidade social nos seus aspectos economicamente relevantes (a concepção do trabalho, as relações sociais). Entretanto, na literatura, comumente se identifica o capital humano com o nível de estudos alcançado (em quantidade) e com a sua qualidade. Nós comentaremos a relação entre capital humano e crescimento de acordo com essa redutiva definição de capital humano. A instrução é considerada relevante para o crescimento porque aumenta as habilidades individuais, a produtividade do trabalho e isso se reflete no crescimento do país; além do mais, elevados e difundidos níveis de instrução favorecem a capacidade inovadora de uma economia no seu conjunto. A instrução certamente é um fator importante: não existe país desenvolvido sem um bom nível médio de instrução. Todavia, os investimentos na escolarização de muitos países pobres, graças a ajudas internacionais, deram resultados controversos e não parecem ter incidido eficazmente nas dinâmicas de crescimento. A África, um dos continentes onde foi maior o esforço de escolarização nos últimos 30 anos, obteve taxas de crescimento nulas.

9 Os resultados das pesquisas empíricas só parcialmente confirmam as hipóteses avançadas sobre a relação entre nível de instrução e crescimento. Em âmbito individual, existe a evidência de uma relação positiva entre nível de instrução e remuneração dos trabalhadores: ir à escola normalmente compensa para quem vai. Se, ao contrário, analisa-se a relação macroeconômica entre nível médio de instrução da força de trabalho e dinâmicas de crescimento do país, a esperada relação positiva não aparece de forma clara. As razões são várias (Prithett, 2001): 1. está sob acusação a qualidade da instrução, que pode ser tão baixa a ponto de não incrementar realmente as habilidades e a produtividade do indivíduo. Gastou-se mais na construção de prédios escolares e na admissão de professores para se alcançar os níveis de participação escolar requeridos pelos doadores, mas negligenciou-se o trabalho muito menos visível de crescimento da qualidade escolar: a manutenção e a formação dos professores estão a cargo dos esforços locais, muitas vezes intermitentes e de baixa qualidade. Ir à escola resta só um sinal de pertencer a uma determinada classe social ou de um temperamento individual mais decidido e determinado (indivíduos capazes investem mais em instrução), sem efeitos sobre as habilidades das pessoas. 2. O mercado de trabalho de um país bloqueado e subtraído aos estímulos do progresso técnico e da inovação não tem necessidade de mão-de-obra instruída e com maiores capacidades. Se o mercado de trabalho não valoriza o investimento em instrução, desencoraja-a. Em Lima, por exemplo, engenheiros e literatos trabalham como taxistas com remunerações baixíssimas: evidentemente eles não estarão propensos a investir em escola para os filhos. Por isso a política de financiar novas escolas não é o bastante. É necessário também que quem arrisca investir em instrução encontre oportunidades interessantes. 3. A instrução pode ser usada para finalidades redistributivas e não produtivas. Aplicar as habilidades adquiridas com a instrução para atividades redistributivas (lobbying) torna positivos os rendimentos privados dos lobistas, mas nulo o impacto sobre o crescimento do país 2. A eficácia para o crescimento da acumulação de capital humano, também no significativo parcial de maior escolarização, depende de diversos elementos, põe em jogo uma pluralidade de atores e o modo como estes se põem frente à educação dos mais jovens. A escola é de qualidade se as famílias e os professores são motivados a ajudar os mais jovens a viverem a aventura escolar. A eficácia, que depende das oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho, requer uma classe empresarial capaz de envolver largas camadas da população nas dinâmicas de mudança e uma classe política orientada para o bem comum. Trata-se de comportamentos e de maneiras de fazer que são o resultado de uma educação. É a educação não a simples escolarização o motor do desenvolvimento. 2 Em muitos países em via de desenvolvimento, por exemplo, o setor público absorve a crescente oferta de força de trabalho instruída, respondendo a pressões políticas. Ver Gelbi, Knight e Sabot (1991).

10 Complexidade e especificidade A evidência empírica pôs à luz que os fatores que contribuem para o crescimento são inúmeros e interdependentes: o controle do crescimento é mais complicado do que se podia imaginar: qualquer modelo interpretativo que pretenda basear-se em poucos determinantes não resiste à prova dos fatos. É o tema da complexidade, trazido à luz por recentes relatórios do Banco Mundial e de outras instituições. Implicado no tema da complexidade está o da especificidade. Muitos dos fatores relevantes para a eficácia das políticas são específicos de cada país e variam de um país para outro 3. Consequentemente cada país é titular e responsável pelas próprias estratégias de desenvolvimento (ownership). O princípio da titularidade foi identificado como pilar fundamental na redefinição das políticas de ajuda 4 : a evidência dos insucessos levou a reconhecer que é necessário aproximar os recursos das específicas realidades e dá-los nas mãos dos atores; entretanto, como veremos mais adiante, a atenção para com a titularidade e a responsabilidade frequentemente se detém no nível dos estados, sem chegar a uma abordagem subsidiária. Diante da complexidade é difícil entender como mover-se. No plano interpretativo procurou-se reduzir a lista das causas, identificando aquelas fundamentais (deep determinants: Acemoglu, 2003). Muitos consideram a existência de boas instituições o fator fundamental do crescimento no longo período. Entende-se por boas instituições um sistema de defesa dos direitos de propriedade, vínculos claros eficazes à ação da classe política (salvaguarda das formas de democracia e das liberdades fundamentais), uma substancial igualdade nas oportunidades sociais. As duas Coréias (do Norte e do Sul) tinham substancialmente a mesma geografia e a mesma história, mas decidiram, há 50 anos, darem a si mesmas dois sistemas institucionais totalmente diferentes. A diversidade das trajetórias de crescimento que daí nasceram está aí aos olhos de todos. Em escala histórica e geográfica mais ampla, a expansão colonial européia conduziu em alguns casos ao assentamento direto de colonos europeus em áreas geograficamente apropriadas: terra abundante, população indígena escassa, falta de agentes epidêmicos como a malária; nesses casos, os colonos geraram boas instituições porque as pensaram para si, para a própria aventura humana. Nas áreas não apropriadas ao assentamento (devido à presença de doenças, de terrenos e regime das chuvas não adequados à agricultura de tipo europeu) desenvolveram, ao contrário, atividades de plantação ou de mineração baseadas no trabalho indígena muitas vezes reduzido à escravidão, com instituições finalizadas à extração do excedente as quais mantinham uma nítida diferença entre a elite dominante e a população local. Em tais áreas não houve desenvolvimento. Se pararmos aqui, esqueceremos o elemento mais importante. Quando os jesuítas iniciaram, no final do século XVI na atual Bolívia e depois mais completamente no século XVIII no Paraguai, a experiência das reduções, fizeram uma escolha cultural precisa: a sua aventura humana e a das pessoas que eles encontravam coincidiam. Não havia divisão entre nós e vocês, foi um encontro que gerou um nós (com todos os 3 Ver as declarações de Gobind Nankani no prefácio ao relatório do Banco sobre Economic Growth in the 1990s Learning from a Decade of Reforms, de Ver a Paris Declaration on Aid Effectiveness, Paris, Em Accra, Gana, em setembro de 2008, aconteceu o encontro que dá continuidade à Conferência de Paris de 2005, o 3rd High Level Forum on Aid Effectiveness.

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