ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA PELA FACED/UFBA NA FORMAÇÃO DOS ALFABETIZADOES NA ALFASOL

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1 1 Pesquisas e Práticas Educativas ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA PELA FACED/UFBA NA FORMAÇÃO DOS ALFABETIZADOES NA ALFASOL DANIELA DE JESUS LIMA FACED/UFBA INTRODUÇÃO - O presente artigo aborda algumas considerações sobre o processo de formação dos alfabetizadores, realizado pela FACED/UFBA, a partir de uma metodologia de formação de leitores, tendo como foco o desenvolvimento da habilidade para selecionar portadores de texto para serem incorporados na prática pedagógica. METODOLOGIA - Baseado em pesquisa bibliográfica sobre a Educação de Jovens e Adultos, bem como na proposta pedagógica elaborada pela Universidade para desenvolver as ações da ALFASOL nos municípios, buscou-se analisar e apresentar algumas considerações sobre o processo de formação inicial e continuada dos alfabetizadores. RESULTADOS - Apresentação de uma metodologia que tem contribuído para que o processo de alfabetização na ALFASOL utilize procedimentos didáticos que acompanhe a nova concepção de alfabetização com a formação de um cidadão letrado capaz de exercer as práticas sociais de leitura e escrita numa sociedade grafrocentrica que exige o processamento de informações cada vez mais complexas. CONCLUSÕES - A ênfase dada na formação inicial e continuada pela FACED/UFBA na formação do alfabetizador tem contribuído para que a ALFASOL trabalhe a inclusão social e a cidadania, possibilitando ao cidadão que participa do programa inserir-se culturalmente na sociedade letrada. A metodologia utilizada com incorporação de portadores de textos das práticas sociais tem permitido que os envolvidos no processo de alfabetização despertem o interesse pela leitura e exerçam as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na realidade em que estão inseridos. Além de possibilitar o acesso a materiais escrito que circulam na sociedade como o jornal, revista que infelizmente não é um veiculo de informação de fácil acesso para a maioria dos brasileiros.

2 2 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA PELA FACED/UFBA NA FORMAÇÃO DOS ALFABETIZADOES NA ALFASOL DANIELA DE JESUS LIMA 1 Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia - UFBA INTRODUÇÃO O conceito de alfabetização vem sofrendo alterações ao longo do tempo e, em especial, a partir das últimas décadas com a difusão entre os educadores brasileiros dos estudos e pesquisas sobre o aprendizado da língua escrita com base na lingüística e na Psicologia que disseminaram novas práticas de alfabetização. Essa progressiva ampliação pode ser evidenciada quando se comparam os estudos recentes que afirmam que a escrita e a leitura são mais que a transcrição e decifração de letras sem significado para os alfabetizandos com a concepção de alfabetização utilizado, por exemplo, nos Censos Demográficos da década de 40 que considerava alfabetizada a pessoa que sabia ler e escrever. Neste novo contexto, as contribuições de Freire, os estudos da Psicogênese de Ferreiro e da inclusão, progressiva, das idéias de Vygotsky, têm levado as propostas e práticas de alfabetização que se fundamentam nesses referenciais buscar como resultado da aprendizagem o letramento dos jovens e adultos, o que significa possibilitar-lhes a apropriação da leitura e da escrita e a sua conseqüente utilização plena nas mais diferentes práticas sociais. Os novos estudos abordam uma compreensão de alfabetização que ultrapassa o sentido restrito que se tornou insatisfatório para expressar as novas demandas e amplia para uma concepção de alfabetização como prática social da leitura e escrita numa sociedade que exige do cidadão cada vez mais o domínio dos códigos da leitura e da escrita. 1 Graduada em Pedagogia pela FACED/UFBA e Coordenadora Setorial do município de Malhada Bahia.

3 3 Neste sentido, as idéias de Paulo Freire têm grande influência, pois desde a década de 60 vêm disseminando uma nova forma de pensar a alfabetização. Para Freire, o processo de alfabetização é um mediador que ensina a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita de forma que os aprendizes se alfabetizem e se tornem ao mesmo tempo cidadãos. (1979, p 47). Compartilhando esta compreensão Magda Soares (2000) afirma que, uma pessoa que não tem domínio da leitura e da escrita não pode exercer a sua cidadania na plenitude, pois não sabe muitas vezes qual são os seus direitos e não sabe como exigir o cumprimento deles. A ALFASOL NO COMBATE AO ANALFABETISMO Idealizado em 1996, pelo Ministério da Educação, o Programa Alfabetização Solidária PAS é implementado pela Comunidade Solidária, e consiste num programa de alfabetização inicial destinado, aos municípios e aos grandes centros urbanos em que se encontram os índices mais elevados de analfabetismo do país. A Alfabetização Solidária trabalha com um modelo de parceria que mobiliza iniciativas diversas do setor privado ao público, passando por universidades e pessoas físicas permitindo formar um grande movimento social no combate ao analfabetismo. A partir de 1997, quando são implementadas as ações da Alfabetização Solidária, o programa tem uma rápida expansão através do regime de parceria envolvendo o co-financiamento do MEC, empresas, doadores individuais, governos municipais e universidades que tem permitido a expansão do programa para as regiões mais distantes do país.

4 4 As ações implementadas pelo PAS vêm se firmando com um modelo de política de alfabetização a ser seguido o que tem permitido que a experiência seja implantada em outros países. Como o Brasil tem altas taxas de adultos analfabetos que não são bem vistas pelos organismos internacionais e por ser a educação básica um direito assegurado pela Constituição, o modelo de regime de parceria adotado pela Alfabetização Solidária com as prefeituras e as instituições de ensino superior tem contribuído para a redução das estatísticas de analfabetismo com a implantação e expansão da Educação de Jovens e Adultos nas regiões mais afastadas do país. Para romper com círculo vicioso de formação de analfabetos no Brasil, é fundamental a oferta de uma educação de qualidade para que os alfabetizandos possam, [...] ler, escrever e calcular criticamente a realidade; organizar a reflexão sistemática sobre ela e permitir o acesso ao conhecimento, às habilidades e à tecnologia, que possibilitem uma nova intervenção dos educandos nessas determinações sociais na busca da reversão de seu sentido. (ROMÃO, 1994, p.222). Neste sentido, a parceria da ALFASOL com as Universidades tem permitido que esta possa cumprir a sua função social de interação com diversos setores da sociedade sem dissociar o ensino da pesquisa através da discussão de novas metodologias que possam atender a especificidade de EJA em cada município atendido. ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO As novas demandas sociais por práticas de leitura e escrita têm revelado que saber ler e escrever se tornou insuficiente para responder as demandas contemporâneas. Portanto, é preciso que o processo de alfabetização vá além da

5 5 aquisição do código escrito e possibilite ao alfabetizando apropria-se da função social deste para que possa intervir na realidade em que está inserido. O uso do conceito de alfabetização, entendido apenas como a aprendizagem mecânica de ler e escrever, dissociado das práticas sociais de leitura e escrita tem reduzido as estatísticas de analfabetos absolutos e aumentado os números de analfabetos funcionais. Esta terminologia vem sendo utilizada pela UNESCO para caracterizar pessoas que tiveram uma experiência escolar insuficiente para garantir o domínio de habilidades como a leitura, a escrita e o cálculo, num grau que corresponda às demandas do mundo do trabalho ou outras dimensões do cotidiano. Para Soares (2000), o letramento é o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais de leitura e escrita. É o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo, como conseqüência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais. Neste contexto, a formação dos alfabetizadores é crucial para que o processo de alfabetização tenha êxito. Como elemento mediador, o alfabetizador é responsável em proporcionar aos alfabetizandos um maior conhecimento de si e da realidade em que vivem, de forma que conseguindo esse entendimento crítico eles possam buscar formas de intervenção para o processo de transformação da realidade. A FORMAÇÃO DO ALFABETIZADOR Partindo do pressuposto de que a alfabetização não pode se restringir somente à aquisição dos códigos da língua escrita sendo, portanto, fundamental o cidadão desenvolver habilidades para fazer uso destes códigos nas práticas sociais da leitura e escrita, priorizou-se na formação do alfabetizador uma metodologia de formação de leitores tendo como foco o desenvolvimento da habilidade para selecionar portadores de texto para serem incorporados na prática pedagógica.

6 6 Auxiliar os alfabetizadores a desenvolver e a desenvolverem nos seus alunos as habilidades para ler, compreender e interpretar e escrever diferentes tipos e gêneros de textos, escritos em diferentes modalidades de língua com diferentes portadores de textos que as práticas sociais de escrita exigem dos alfabetizandos têm se constituído uma proposta da FACED/UFBA para a formação dos alfabetizadores nos municípios atendidos pela instituição. Esta proposta tem como objetivo levar aos alfabetizadores a se apropriarem destes conhecimentos a fim de criar oportunidades, partindo da realidade dos alfabetizandos para que estes descubram o prazer da leitura e escrita, e favoreça a sua compreensão de seus usos das mesmas formas pelas quais elas são utilizadas verdadeiramente nas práticas sociais. Outro fator que merece ser enfatizado, no que se refere à formação dos alfabetizadores é a necessidade de despertar no alfabetizador a consciência de que a alfabetização é um importante instrumento para a conquista da cidadania e que esta deve sempre ser trabalhada dentro de uma perspectiva social e política. Essa concepção pode ser evidenciada, principalmente, nas obras de Paulo Freire o qual afirma que educandos e educadores devem aprender juntos a tomada de consciência da situação em que vivem pois, [...] a alfabetização não pode ser encarada simplesmente como o desenvolvimento de habilidades que visem à aquisição da língua padrão dominante. Esse modo de ver sustenta uma idéia de ideologia que, sistematicamente, antes rejeita do que torna significativas as experiências culturais dos grupos lingüísticos subalternos que são de modo geral, o objeto de suas políticas (FREIRE, 1979, p.43) Para tanto, as ações realizadas devem buscar superar os procedimentos pedagógicos desvinculados da realidade do educando trabalhado, distante de sua vivência, do conhecimento por ele adquirido na sua experiência de vida para que possa proporcionar o aperfeiçoamento de ações cotidianas e, assim, permitir uma inserção mais cidadã no contexto social pois,

7 7 ler e escrever constitui hoje, uma demanda social que precisa mais do que nunca ser re-significada e atendida pela escola. Neste sentido, é fundamental redefinir juntos aos professores o conceito de alfabetização e o que significa estar alfabetizado numa sociedade letrada. O domínio do sistema lingüístico é ferramenta indispensável para o exercício da cidadania, embora nossa experiência demonstre que nem sempre ler e escrever garante ao indivíduo autonomia e participação social (POSSAS, 1999, p.29). Para tanto, a partir da capacitação inicial dos alfabetizadores deu-se início ao processo de formação baseado nos fundamentos teóricos e metodológicos para a Educação de Jovens e Adultos. Esta primeira etapa é de fundamental importância para que os alfabetizadores se familiarizem com os referenciais teóricos-práticos do processo de alfabetização de jovens e adultos e não transponha a metodologia utilizada na educação fundamental das crianças e desrespeite, assim, os limites e a especificidade da EJA. Na segunda etapa, iniciada na primeira visita de capacitação continuada buscou-se a implementação de uma formação dividida em dois momentos: primeiro a formação do alfabetizador leitor e em seguida o desenvolvimento de habilidade para selecionar portadores de textos, a fim de romper com a utilização de metodologias fora de contextos significativos que não auxiliam na sua compreensão e não despertam nos alfabetizandos o prazer da leitura e da escrita. O processo de formação do alfabetizador leitor é fundamental para que este possa despertar o prazer pela leitura e incentivar os alunos para o hábito de ler. Neste processo, a estrutura da biblioteca do PAS tem um importante papel, pois possibilita o acesso à publicação de grandes autores. Na biblioteca os alfabetizadores escolhem um livro para leitura, fazem um resumo da obra, apresenta para o grupo e promove uma discussão das principais questões abordadas. Esta atividade é realizada a cada visita de capacitação e tem possibilitado aos alfabetizadores o desenvolvimento da oratória, o exercício da produção de textos, superar dificuldades ortográficas da Língua Portuguesa, bem como tem despertado interesse em ingressar na Universidade.

8 8 Outro fator que merece ser ressaltado em função desta atividade é o desenvolvimento da consciência dos alfabetizadores que tem possibilitado um olhar mais atento nas questões sociais que afetam o município. No segundo momento da capacitação continuada, tendo como foco o desenvolvimento de habilidade para selecionar portadores de textos a fim de serem incorporados na prática educativa, dá-se inicio ao processo de seleção dos materiais. Esta seleção envolve jornais, revistas, livros, tabelas, formulários, carteira de trabalho, contas de água, luz, telefone, cartas, bilhetes, telegramas e outros exemplos de portadores de textos das práticas mais comuns e cotidianas de leitura e escrita. Em seguida, cada alfabetizador elabora um planejamento de aula e apresenta para ser discutido no grupo. O uso desta metodologia tem possibilitado aos alfabetizadores trocar experiências o que tem possibilitado um maior enriquecimento nas aulas. Outro fator positivo atribuído a esta etapa, é a oportunidade que os alfabetizadores e alfabetizandos têm de ficarem imersos em um ambiente de letramento com acesso a livros, jornais e revistas que contém opiniões diferentes sobre questões atuais possibilitando que estes formem ou reavalie sua própria opinião e possam discutir com mais segurança os problemas que afetam o município, o que representa uma forma de inclusão social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o objetivo de formar um cidadão letrado capaz de intervir nos problemas da realidade que está inserido, a ênfase dada na formação inicial e continuada pela FACED/UFBA na formação do alfabetizador tem contribuído para que a ALFASOL trabalhe a inclusão social e a cidadania, possibilitando ao cidadão que participa do programa inserir-se culturalmente na sociedade letrada. A metodologia utilizada com incorporação de portadores de textos das práticas sociais tem possibilitado que os envolvidos no processo de alfabetização despertem o interesse pela leitura e exerçam as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na realidade em que estão inseridos. Além de possibilitar o

9 9 acesso a materiais escrito que circulam na sociedade como o jornal, revista que infelizmente não é um veiculo de informação de fácil acesso para a maioria dos brasileiros. A Educação de Jovens e Adultos por ser um espaço permanente de criação e de busca de experiências pedagógicas, outro fator relevante é a pesquisa de metodologias por parte da Universidade para atender a especificidade dos municípios atendidos. Estas pesquisas têm contribuído para que o processo de alfabetização na ALFASOL utilize procedimentos didáticos que acompanhe a nova concepção de alfabetização com a formação de cidadãos letrados capazes de exercer as práticas sociais de leitura e escrita numa sociedade grafrocentrica que exige o processamento de informações cada vez mais complexas. REFERÊNCIAS FREIRE, Paulo. Educação e mudança; Tradução de Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, Vol. 1 (Coleção Educação e Comunicação) POSSAS, Wania M. Compreensão e domínio da escrita: vale o escrito. In: Salto para o futuro - Educação de Jovens e Adultos. Brasília: MEC/SEED, 1999 (Série de Estudos. Educação à distância). ROMÃO, José Eutásquio. Poder local e educação. São Paulo: Cortez, SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

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