Teresa Caldas Camargo O EX-SISTIR FEMININO NUM ROSTO SEM MOLDURA: UMA ANÁLISE COMPREENSIVA. Escola de Enfermagem Anna Nery

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1 Teresa Caldas Camargo O EX-SISTIR FEMININO NUM ROSTO SEM MOLDURA: UMA ANÁLISE COMPREENSIVA Escola de Enfermagem Anna Nery Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro - novembro de 1997

2 Universidade Federal do Rio de Janeiro Escola de Enfermagem Anna Nery O EX-SISTIR FEMININO NUM ROSTO SEM MOLDURA: UMA ANÁLISE COMPREENSIVA Dissertação apresentada à Escola de Enfermagem Anna Nery como requisito final do Curso de Mestrado em Enfermagem. Teresa Caldas Camargo Rio de Janeiro - novembro de 1997

3 Ficha Catalográfica Camargo, Teresa Caldas O ex-sistir feminino num rosto sem moldura: uma análise compreensiva / Teresa Caldas Camargo - Rio de Janeiro, ix, 146 p. Orientador: Ivis Emília de Oliveira Souza Dissertação (mestrado) Universidade Federal do Rio de Janeiro - Escola de Enfermagem Anna Nery, Enfermagem oncológica. 2.Quimioterapia 3.Saúde da mulher. I.Heidegger, Martin - Fenomenologia. II.Título CDD

4 i Defesa da Dissertação CAMARGO, Teresa Caldas. O ex-sistir feminino num rosto sem moldura: uma análise compreensiva. Rio de Janeiro: UFRJ, Escola de Enfermagem Anna Nery, p. mimeo. Dissertação de Mestrado em Enfermagem. Banca Examinadora Professora Doutora Ivis Emília de Oliveira Souza Orientadora Professora Doutora Telma Apparecida Donzelli 1 a Examinadora Professora Doutora Regina Lúcia Mendonça Lopes 2 a Examinadora Professora Doutora Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues Suplente Defendida a dissertação: Conceito: Em: 21/novembro/1997

5 ii Esta pesquisa foi desenvolvida com subsídio da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, na modalidade de Bolsa de Demanda Social nível Mestrado no período de março de 1996 à dezembro de 1997.

6 iii Orientadora Professora Doutora Ivis Emília de Oliveira Souza Sua tranquilidade e segurança, consideração, e amizade, o seu sendo, me possibilitaram serno-mundo- com, ser pre-sença. Dedicatória

7 iv Aos meus queridos pais Sabino e Maria Thereza, que com o seu amor me possibilitaram ex-sistir e me ensinaram a com-preender. Ao meu amado marido Reynaldo, por possibilitar a felicidade que traz a con-vivência autêntica e por ser com-panheiro nesta caminhada de aprendizado acerca do saber sobre oncologia e do saber das pessoas portadoras de câncer. Aos meus filhos Antonio e Eduardo, grandes amores da minha vida, pela possibilidade da imensa alegria que é ser-mãe e de assim poder amá-los todos os dias e ser-no-mundocom-eles. Às depoentes Miriam, Zeni, Maria de Lurdes, Maria Auxiliadora, Nereida, Zilda, Edinéia, Maria Adelaide, Maria Teresa, Laurani, Lenice, Maria Lúcia, Jaciléia, Maria Antonia, Margarida, Sebastiana, Elenice, Jarcira e Margareth, por me mostrarem o valor, a importância e a possibilidade do encontro no cotidiano profissional de assistir ao meu semelhante.

8 v Agradecimentos Ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), pela oportunidade de enriquecimento profissional e pessoal através da liberação para a realização do curso de Mestrado em Enfermagem. Ao dr. Oscar Jesuíno da Silva Freire, diretor do Hospital Luiza Gomes de Lemos (HLGL), pelo apoio, pelo incentivo e pela valorização deste estudo. À Maria de Fátima Rodrigues chefe da Divisão de Enfermagem do Hospital Luiza Gomes de Lemos (HLGL), pela consideração, pela compreensão e pre-sença. Sem o apoio da qual não poderia realizar este estudo. Às colegas de trabalho Eli, Laísa, Liliam, Maria Cristina e Wilza, pelo incentivo, pelo apoio e pela com-preensão, principalmente durante o período em que muitas vezes ficaram sobrecarregadas devido aos meus afastamentos. E por com-preenderem a possibilidade de uma con-vivência preocupada com as nossas clientes. À dona Lair e Gilma, da biblioteca do Hospital Luiza Gomes de Lemos, pela atenção e presteza com que sempre atenderam as minhas solicitações. À professora doutora Ieda de Alencar Barreira, pre-sença que mediada pelo carinho, pela confiança, pelo incentivo, pelo apoio e pela disponibilidade colaborou na construção deste estudo. À professora doutora Benedita Maria Rêgo Deusdará Rodrigues, por acompanhar e colaborar com o desenvolvimento deste estudo. Pre-sença na minha trajetória pessoal e profissional no Curso de Mestrado. Às colegas do curso de Pós-Graduação Ana Lúcia, Aldira Samantha, Sonia Mara, Marilda, Elisabeth e Lia, pela alegria com que com-partilharam comigo esta caminhada na descoberta da Fenomenologia. À Sonia da Secretaria Acadêmica de Pós-Graduação e a Cristina do Serviço de Apoio à Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery, pela colaboração, pelo sorriso e pela disponibilidade com que sempre me receberam. Aos membros da Banca Examinadora, pre-senças incentivadoras desta iniciante no pensar heideggeriano, pelo aceite do convite para contribuir analisando este estudo.

9 vi SUMÁRIO RESUMO VIII ABSTRACT IX CONSIDERAÇÕES INICIAIS 1 VIVENCIANDO A TEMÁTICA COMO PESSOA E PROFISSIONAL: 1 ESTABELECENDO A QUESTÃO EM ESTUDO: 6 CONTRIBUIÇÃO DO ESTUDO: 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 9 O SABER EXISTENTE SOBRE O TEMA: 10 A DOENÇA E SEU DIAGNÓSTICO: 10 O TRATAMENTO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS: 13 O PROBLEMA E SUAS DIFERENTES ÓTICAS: 16 A ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM: 21 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 27 REFERENCIAL FILOSÓFICO 30 CAMINHANDO PARA A FENOMENOLOGIA: 30 A FENOMENOLOGIA: 32 MARTIN HEIDEGGER E O MÉTODO FENOMENOLÓGICO: 34 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 39 ABORDAGEM METODOLÓGICA: 40 O CENÁRIO DO ESTUDO: 40 A TRAJETÓRIA DO ESTUDO: 44 APROXIMAÇÃO AO SER MULHER EM TRATAMENTO QUIMIOTERÁPICO: 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 48 ANÁLISE COMPREENSIVA 49 CONSTRUINDO AS UNIDADES DE SIGNIFICAÇÃO: 49 UNIDADES DE SIGNIFICAÇÃO: 49 A COMPREENSÃO VAGA E MEDIANA: 69 A INTERPRETAÇÃO COMPREENSIVA: 73 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 90

10 vii CONSIDERAÇÕES FINAIS 91 BIBLIOGRAFIA: 98 ANEXO: 102

11 viii CAMARGO, Teresa Caldas. O ex-sistir feminino num rosto sem moldura: uma análise compreensiva. Rio de Janeiro. UFRJ, Escola de Enfermagem Anna Nery. 146 p. mimeo. Dissertação de Mestrado em Enfermagem. RESUMO Este estudo tem como objeto o ex-sistir feminino diante da perda do cabelo, conseqüente ao tratamento quimioterápico para o câncer de mama. Teve como motivação as inquietações surgidas a partir de minhas experiências e vivências profissionais, enquanto enfermeira da Central de Quimioterapia do Hospital Luiza Gomes de Lemos, unidade hospitalar III do Instituto Nacional de Câncer, onde no contato diário com as mulheres submetidas a quimioterapia antineoplásica, pude constatar mudanças em seus comportamentos diante do efeito colateral, a alopécia. O objetivo do estudo foi compreender o ex-sistir feminino diante da perda do seu cabelo e desvelar o sentido que funda o comportamento assumido pela mulher face a este efeito colateral do tratamento. O método utilizado foi a Fenomenologia, sendo o suporte para a análise compreensiva dos depoimentos o pensamento do filósofo Martin Heidegger expresso em Ser e Tempo. A apreensão dos significados atribuídos pelas depoentes à questão da perda do cabelo e a hermenêutica heideggeriana, mostrou a mulher como ser-aí-com exposta ao falatório. Como pre-sença temerosa que diante da ameaça - quimioterapia - enfrenta as variações do temor: o pavor da perda do seu cabelo, o horror de ver-se sem o seu cabelo e o terror de ser vista pelos outros sem o seu cabelo. A análise compreensiva permitiu compreender que na cotidianidade, a mulher caminha da inautenticidade para a autenticidade, passando pela dimensão da angústia, e assim realizando um encontro consigo mesma e seu poder ser. Nesta compreensão, pude refletir sobre a assistência de enfermagem prestada a mulher e perceber como ela tem privilegiado os aspectos factuais e funcionais do dia a dia em detrimento dos existenciais, não valorizando portanto a dimensão humana e a singularidade do assistir ao nosso semelhante. Pontuei ainda a necessidade da enfermagem de buscar o seu rumo enquanto profissão de gente que cuida do seu semelhante. Considero este estudo como um movimento não acabado porque permite que se desvelem outras facetas deste fenômeno que tanto mobiliza o ser-aí, bem como um aprofundamento na disposição privilegiada da angústia.

12 ix CAMARGO, Teresa Caldas. A female ex-sistere on an unframed face: a comprehensive analysis. Rio de Janeiro. UFRJ, Escola de Enfermagem Anna Nery. 146 p. mimeo. Dissertação de Mestrado em Enfermagem. ABSTRACT The object of this study is the female being, who copes with hair loss as a result of chemotherapic treatment for breast cancer. The motivation for the study arose from my professional uneasinesses as a nurse in the chemotherapic center at Luiza Gomes de Lemos Hospital of the National Cancer Institute. During my daily professional practice close to women submitted to antineoplastic chemotherapy, I noticed changes in their behavior as a result of hair loss, one of the side effects of the treatment. Thus, the purpose of this study was to comprehend a female being coping with hair loss and the several meanings which determine their behavior when facing this side effect. Phenomenological approach was selected as the methodological reference. Martin Heidegger s philosophical thinking expressed in Being and Time supported me in the comprehensive analysis of the testimonies collected. Women- being who had lost her hair gave a particular significance for their experience, and according to Heidegger s thinking it seemed that woman-being was exposed to people s remarks. And also, the womanbeing, a fearful one, coped with the chemotherapy effect and passed through different variations of fear such as pavid of hair loss, horror to see herself without her hair and terror to be seen without it by others. The comprehensive analysis allowed me to understand that woman moved daily from untruth to truth, passing through anguish dimension and finally met herself in her original be-ing and possibility of being. In this understanding I could reflect about the nursing assistance to women. Actually, I noticed that the factual and functional aspects of daily care have been privileged putting the existencial values aside, and doing this, unworthing the human dimension and singularity of its fellows. Furthermore, I pointed out the necessity that nursing has to find out its way like a profession where people assist to its fellowman. I do not consider this study finished, but it allows to un-veil other aspects of this phenomenon, that overcomes the woman-being. Besides that, it allows go deep into a thorough study of this privileged dimension of anguish.

13 CONSIDERAÇÕES INICIAIS VIVENCIANDO A TEMÁTICA COMO PESSOA E PROFISSIONAL: Este estudo foi se constituindo a partir de minha experiência como enfermeira na Central de Quimioterapia do Hospital Luiza Gomes de Lemos 1, no Rio de Janeiro. No entanto, há muito fazem parte da minha vida, momentos nos quais o câncer de mama e a quimioterapia ganham relevo específico. Lembro-me de uma tia que foi acometida pela doença e, por ser o câncer uma doença terrível, minha mãe e minha avó sempre comentavam aos cochichos sobre a infelicidade de minha tia com a doença e a mastectomia. Anos mais tarde, já estudante de enfermagem, soube de uma jovem conhecida que acometida pela doença, escondeu-se de todos. Ao visitá-la após a cirurgia, sua face era de desespero, angústia, desesperança. A quimioterapia parece ter piorado sua situação de isolamento já que além das náuseas e vômitos, atormentava-lhe a perda do cabelo. Alguns anos após, uma amiga de infância, aos 23 anos, deparou-se com um diagnóstico de câncer de mama. Essa amiga faleceu aos 24 anos e pouco contato tive com ela durante a doença, já que sua família evitava o convívio social e acho que ela também não o queria. Soube que, após a mastectomia, ela comparecia ao tratamento quimioterápico sempre procurando alegrar as outras mulheres. Recordo-me do seu lindo cabelo louro, comprido e liso, então reduzido a nada. Penso com tristeza em como esta vivência transformou seu comportamento e suas perspectivas de vida. Iniciei minha atividade profissional num hospital de ginecologia geral e de câncer ginecológico e da mama. Lá, meus primeiros anos, foram dedicados a aprofundar meus conhecimentos. Naquela época, o câncer de mama com freqüencia surgia mesclado a 1 Hospital Luiza Gomes de Lemos (HLGL), unidade hospitalar III, do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

14 2 outras patologias. Hoje, ao contrário, este hospital atende principalmente às mulheres com suspeita ou diagnóstico de câncer de mama. Após cinco anos de trabalho nas enfermarias, comecei um treinamento efetivo na Central de Quimioterapia. Inicialmente, me vi muito envolvida com os aspectos da manipulação das drogas: sua nomenclatura, diluição, administração, problemas de punção venosa, efeitos colaterais e cuidados pessoais preventivos. Após dominar essas técnicas e procedimentos passei a perceber mais intensamente os sofrimentos dessas mulheres: seu medo, desespero e angústias. É normal, após a consulta médica, recebê-las e esclarecer eventuais dúvidas que, diante da figura do médico, foram esquecidas, ou conscientemente deixadas de lado, por vergonha ou medo. Esta inibição talvez tenha sua origem no fato de ser o médico comumente reconhecido pelo doente como o detentor do saber e da cura. Assim diante dele a mulher doente pode assumir uma postura de inferioridade, por achar que nada sabe ou entende esquecendo-se do seu direito às informações relativas à sua saúde e da intransferível responsabilidade do médico com ela. Estando mais segura senti vontade de conversar com elas, especialmente durante a administração dos medicamentos. De tudo ouvi: casamentos e lares desfeitos após o diagnóstico da doença e durante o tratamento; problemas com a família; filhos em pânico; vergonha da doença; e a perda do cabelo como o pior de tudo, o estigma revelador de tantas perdas. Assim, na assistência diária às mulheres submetidas à quimioterapia, pude captar, através de diálogo informal e observação do estado geral delas, as transformações físicas, psíquicas e sociais que ocorreram durante o tratamento. A quimioterapia parece expor definitivamente a mulher diante de sua doença, tanto para si mesma, como para a sociedade. O impacto sobre a pessoa parece ser, muitas vezes, maior do que o causado pelo conhecimento da doença e a experiência da

15 3 mutilação através da mastectomia. Esta exposição parece ser determinada pelos efeitos colaterais da quimioterapia, sendo que os mais aparentes são a náusea, o vômito e a perda de cabelo. No entanto, apesar dos avanços no desenvolvimento de medicamentos antieméticos, não se conseguiu resultado equivalente para prevenir-se a perda do cabelo. Até agora este efeito só pode ser amenizado pelo recurso a expedientes, geralmente pouco estéticos, de recobrir a cabeça exposta. A assistência de enfermagem prestada na Central de Quimioterapia do HLGL, além da diluição e administração de drogas, passa também pelo contato diário com estas mulheres, seus familiares e suas vidas. A assistência ali prestada pretende ser de uma natureza holística, no entanto, a correria do dia a dia, a pressão do tempo que deve ser dedicado à atividade diária, o grande número de mulheres agendadas para cada dia, impedem muitas vezes que a equipe olhe cada mulher como ser singular e único. Isto confere uma característica de massificação a um atendimento que pretende ser individualizado. Não obstante, com o passar dos meses, a equipe de enfermagem acaba por fazer parte do universo social dessas mulheres e seus familiares. É comum o diálogo sobre como ela está se saindo em casa após cada dia de tratamento, como sua vida diária foi alterada, o que sentiu ao ver-se sem o cabelo, suas expectativas e perspectivas quanto ao tratamento. Nesse processo, surgem as empatias e existem aquelas enfermeiras e/ou auxiliares de enfermagem que são as preferidas por determinadas mulheres para realizar a punção venosa, administrar a medicação e ouvir o que têm a dizer e perguntar... Há mulheres que manifestam expressivamente sua gratidão ao ver certa enfermeira ou auxiliar de enfermagem.

16 4 Muitas levam presentes, escrevem agradecimentos ao final do tratamento e continuam a visitar-nos, após a alta da quimioterapia, quando vêm ao hospital para as consultas de rotina, e nos mostram como realmente o cabelo voltou a crescer. Mas também surgem aversões. Outras mulheres referem náuseas apenas ao ver a enfermeira ou auxiliar de enfermagem que lhe traz a lembrança dos efeitos desagradáveis da quimioterapia e do mal estar que sentem nos dias subsequentes ao tratamento. Em minha vivência profissional como enfermeira do setor de quimioterapia, pude observar que o impacto da perda do cabelo no comportamento da mulher parece talvez ser pior do que a mutilação causada pela mastectomia, já que esta última pode ser melhor ocultada no convívio social, mediante o uso de próteses externas e vestuário adequado. Sempre me chamou muito a atenção a reação das mulheres quando menciono a queda do cabelo. A expressão delas ao desviar o olhar, em geral cheio de lágrimas, é tão tocante que se faz necessário algum tempo de silêncio, ao fim do qual, normalmente ouço indagações como: Meu cabelo vai cair todo mesmo? ; Quando isto vai acontecer? ; Cairá todo de uma vez?. O cabelo e sua perda sempre me tocaram muito. Toda vez que oriento a mulher sobre isto parece que naquele instante ela me foge, fica inalcançável, fechada em si mesma, inatingível. E ali nesta fuga, algo me escapa, algo essencial desaparece, algo essencial para que eu possa auxiliar a mulher, dando-lhe efetivamente minha compreensão, ajuda, amparo. O que percebo é que, a cada vez que menciono a perda do cabelo, a mulher parece esquecer-se dos demais efeitos colaterais, que podem ocorrer durante o tratamento quimioterápico, do mal estar que sente durante vários dias após a administração das drogas. Sua atenção volta-se toda para o cabelo e sua desastrosa perda.

17 5 Muitas mulheres, ao final do primeiro ciclo de quimioterapia, pedem-me para ver as perucas que o setor possui para empréstimo. Parecem querer estar prevenidas, quando seu cabelo começar a cair. Outras procuram-me já quando a queda do cabelo tornou-se aparente e é sempre com certo constrangimento no olhar que me pedem para ver e experimentar as perucas. Foi assim que me decidi por este estudo. Fazer galhofa ao mostrar uma peruca, dizer que o cabelo volta, que a saúde é mais importante, que cabelo cresce, que o necessário é impedir o retorno ou a progressão da doença, nada disso parece amenizar esta situação. Com o passar dos meses, essas mulheres comparecem para o tratamento com perucas, lenços, toucas ou turbantes e é sempre com tristeza que relatam sua experiência e a forma como ocorreu a perda do cabelo. O que me parece é que, neste período, elas começam a tentar uma adaptação à sua nova condição e muitas vezes aparentam querer dizer: Agora que o cabelo já caiu todo mesmo, só anseio pelo fim do tratamento para vê-lo crescer e esquecer tudo isto. Percebo também no meu dia a dia que aquela mulher ali está para cumprir um tratamento imposto a ela como meio de sobrevivência. Ela recebe muitas explicações sobre a necessidade de seguir o tratamento para curar-se e evitar o retorno da tão temida doença. Ela é orientada também sobre como agem os quimioterápicos e o porquê dos efeitos colaterais que eles provocam. Mas, na realidade, a palavra não é dada à mulher, ela está ali para ouvir, não para ser ouvida. Está ali para cumprir um tratamento que lhe é oferecido, com as melhores intenções, pelos profissionais que a cercam por todos os lados, sempre vigiando para que ela siga em frente, para que ela se sinta, ao menos fisicamente, o melhor possível, para que ela não abandone o tratamento. Esquecem-se, entretanto, de que cada uma destas mulheres é uma pessoa peculiar no mundo, que pensa e que sente e que talvez desejasse partilhar este seu vivido.

18 6 Ao assisti-las diáriamente, passei a compreender como é importante ouví-las, trocar idéias e outras vezes apenas respeitar seu silêncio... Percebo ainda como o tratamento quimioterápico é desgastante, sofrido e tenso, tanto para a mulher como para a equipe de saúde. Que é necessário não apenas educar e orientar a mulher e sua família quanto ao que esperar do tratamento, mas estar disposta a ouvir e abrir espaço para uma compreensão autêntica de cada ser-mulher e sua família ali presentes. ESTABELECENDO A QUESTÃO EM ESTUDO: A partir das mulheres portadoras de câncer de mama que perdem seu cabelo ao submeterem-se à quimioterapia antineoplásica, passei a me questionar sobre a pessoa que vivencia tal situação, na busca de desvelar o sentido fundante do seu ex-sistir. O OBJETO DE ESTUDO: A partir das inquietações surgidas de minhas experiências e vivências profissionais, tenho como objeto de estudo o ex-sistir da mulher diante da perda do seu cabelo, conseqüente ao tratamento quimioterápico para o câncer de mama. OBJETIVO DO ESTUDO: Compreender o ex-sistir da mulher com diagnóstico de câncer de mama diante da perda do seu cabelo conseqüente ao tratamento quimioterápico e portanto, desvelar o sentido que funda o comportamento assumido por ela.

19 7 QUESTÃO NORTEADORA DO ESTUDO: Como se sente a mulher que, ao submeter-se ao tratamento quimioterápico, ex-siste sem o seu cabelo? CONTRIBUIÇÃO DO ESTUDO: Em minha experiência profissional, reconheço a importância do papel da enfermeira como educadora da família, e no meu caso em que a clientela é feminina, da mulher em tratamento quimioterápico. Ao ser informada sobre os objetivos do tratamento e dos efeitos colaterais que podem advir, a mulher parece se sentir mais capaz de cuidar de si mesma e menos aflita quando os efeitos colaterais ocorrem. Quanto a estar mais preparada, fica uma interrogação, pois no caso da alopécia por exemplo, parece sempre haver um choque e muita tristeza, apesar da informação anteriormente dada. A orientação, que é realizada individualmente com cada mulher, também funciona como um primeiro contato entre ela e a enfermeira, e traz ainda o conforto e a segurança de ter a quem recorrer quando tem alguma dúvida ou problema relacionado ao tratamento. Não é incomum, por exemplo, que muitas delas ou seus familiares, telefonem para o setor de Quimioterapia, buscando mais informações, tirando dúvidas ou pedindo auxílio para resolução de algum problema surgido. A mulher e sua família parecem também sentirem-se apoiadas diante da atuação da enfermeira como educadora e orientadora, pois compreendem que alguém sabe do momento pelo qual estão passando, e têm a liberdade de procurá-la quando julgam necessário. O contato com outras mulheres que estão passando pela mesma experiência, também é bem vindo no entender da mulher. Parece encontrar algum conforto por não ser a única que enfrenta a quimioterapia, gosta de trocar experiência e falar de sua

20 8 vivência com outras na mesma situação que ela. No meu local de trabalho, isto é extremamente facilitado, pois as pacientes estão juntas aguardando a consulta ou na sala de quimioterapia. É comum que se consolem umas às outras. Vemos que há preocupação com a alopécia resultante do tratamento quimioterápico para o câncer de mama, e com os danos causados à auto-imagem e auto-estima das mulheres à ele submetidas. Porém, não há até hoje resultado efetivo para a prevenção deste efeito colateral e nem tampouco houve preocupação em buscar o significado desta vivência para a mulher. Entretanto Freedman (1994 : ), julga crucial que se tenha um entendimento profundo do significado da perda do cabelo, para se compreender porque tantas mulheres, na cultura americana, consideram esta perda particularmente traumática e de efeito iatrogênico no tratamento do câncer. À mulher não foi dada voz para expressar o sentido deste vivido. Inclusive vários pesquisadores parecem negar o problema da alopécia para a mulher que se submete ao tratamento quimioterápico, ao relacioná-lo apenas como conseqüência da frustação causada pelo aparecimento do câncer de mama. Ao contrário, este estudo busca o significado atribuído pela vivência da alopécia pela mulher em tratamento quimioterápico. Espera-se assim contribuir, através da compreensão, para um melhor atendimento das suas necessidades, durante este período tão difícil do tratamento do câncer de mama. Espera-se também que a melhor compreensão do fenômeno, provoque uma reflexão sobre a atuação da equipe de enfermagem na especialidade, face ao impacto deste efeito colateral no comportamento destas mulheres.

21 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FREEDMAN, Tovia G. - Social and cultural dimensions of hair loss in women treated for breast cancer. Cancer Nursing, New York, Raven Press, ltd. 17 (4) :334-41, 1994.

22 10 O SABER EXISTENTE SOBRE O TEMA: A DOENÇA E SEU DIAGNÓSTICO: O corpo humano é constituído por vários tipos de células e cada uma tem sua própria estrutura e função. Quando as células chegam ao fim de sua vida ou sofrem algum dano, novas células são formadas, já que o corpo tem a propriedade de repararse. Este processo é chamado divisão celular e, em condições normais, as células se dividem e crescem ordenadamente e de maneira controlada. No câncer, as células se dividem descontroladamente, construindo uma massa de células não saudáveis chamadas de tumor. Um tumor maligno invade e destrói os tecidos adjacentes podendo espalhar-se para outras partes do corpo, originando as metástases (Mead Johnson, 1994). O câncer de mama vem sendo considerado uma doença importante e crescente em várias partes do mundo. As maiores taxas são vistas nos países industrializados da Europa e da América do Norte, porém o aumento da incidência do câncer de mama na série histórica é menor nas nações industrializadas do que nas nações em desenvolvimento da Ásia e da América do Sul. Apesar da incidência do câncer de mama ser crescente na maioria dos países, a mortalidade mantém-se estável ou em declínio naqueles países que estão conseguindo detectá-lo mais precocemente, possibilitando assim um tratamento mais eficiente (Silva, 1995 :80). O câncer de mama pode ser detectado através de três procedimentos: auto-exame das mamas, exame clínico realizado por um profissional habilitado e mamografia. Os dois primeiros são de baixo custo e, por isso mesmo, de fácil implantação em qualquer programa de saúde (Brasil,1996 :3). Entretanto, segundo Lopes (1996 :128-30), o fato de um exame ser de baixo custo, indolor, rápido e gratuito, não implica na adesão a ele pela

23 11 população alvo, já que a ação de prevenir não depende apenas da vontade do profissional e da disponibilidade dos serviços. Importa, na instância existencial, a decisão da cliente, a qual se dá a partir da compreensão e interpretação que tem da possibilidade de prevenir a doença e ser responsável por cuidar da própria saúde. Na Europa e nos Estados Unidos, o câncer de mama é a forma mais comum no sexo feminino. Mant e col. (1991 :236) dizem que o Japão, apesar da forte industrialização, apresenta baixo risco para esta patologia, porém suas mulheres ao emigrarem para países com alta incidência da doença, aumentam o risco de desenvolver este tipo de câncer. O câncer de mama tem, como fatores de risco, a menarca precoce, menopausa tardia, primeira gestação completa com idade acima de 30 anos, nuliparidade, doença mamária benigna, doença tireoideana, exposição prévia à radiação ionizante, história familiar da doença, câncer prévio de mama, dieta rica em gorduras e proteínas animais, biópsia prévia de mama (Brasil,1995 :33-34). O risco para o câncer de mama também é maior nas mulheres que vivem nas áreas urbanas do que entre as que vivem na zona rural. Os fatores ambientais têm papel preponderante sobre os raciais ou genéticos e as mulheres de situação sócio-econômica mais elevada têm maior probabilidade de serem acometidas por essa doença. Ao contrário do que comumente se pensa a amamentação não diminui o risco. Antes da menopausa os fatores de risco estão principalmente relacionados à atividade ovariana, tendo a ooforectomia bilateral produzido redução da probabilidade de câncer de mama, especialmente se o procedimento for realizado antes dos 40 anos (Silva,1995 :80-82). A expectativa de vida da população brasileira vem aumentando. Este é um indicador sócio-econômico e de saúde positivo, mas ele demanda que o setor da saúde se prepare para atender à população idosa a qual apresenta maior probabilidade de ter câncer (Minayo1995, :12).

24 12 O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer estão agora com uma proposta para a implementação de um programa nacional para a prevenção e diagnóstico precoce do câncer cérvico-uterino e de mama (Brasil, 1996 :12). Este programa vem da necessidade de ser o câncer de mama o mais freqüente em incidência e mortalidade no sexo feminino. A faixa etária de maior concentração está entre 45 e 50 anos, representando aproximadamente 20% de todos os casos diagnosticados de câncer e 15% em média, das mortes por câncer em mulheres ou seja, dos óbitos por neoplasia ocorridos em 1996 em mulheres, 6450 serão por câncer de mama. As regiões sul e sudeste do Brasil apresentam incidência do câncer de mama comparáveis a dos países desenvolvidos que possuem taxas maiores. Porto Alegre apresenta os níveis mais elevados do país (66,12%) segundo dados do Registro de Câncer de Base Populacional local de 1991 (Brasil 1996, :3). Numa estimativa para o ano de 1997, o número de óbitos esperados por cancer em mulheres computa casos, sendo que destes serão por câncer de mama, o que mostra um crescimento em relação a estimativa para 1996 ( Brasil 1997, :8 e 9). Quanto à mortalidade, o câncer de mama juntamente com o câncer de colo do útero, são responsáveis pelo maior percentual dos óbitos por câncer ocorridos em mulheres em todas as regiões do Brasil. Segundo estatísticas de mortalidade do Ministério da Saúde no ano de 1989, nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, o câncer de mama apresentou a maior frequência relativa (12%). Inclusive, os óbitos por câncer ocorridos nas mulheres brasileiras nas faixas etárias de anos e anos, de 1981 a 1989, 20% em média tiveram como diagnóstico o câncer de mama (Brasil, 1996 :5-7).

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