UMA POLÍTICA EXTERNA AO SERVIÇO DOS INTERESSES DA EUROPA NO DOMÍNIO DA ENERGIA

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1 S160/06 UMA POLÍTICA EXTERNA AO SERVIÇO DOS INTERESSES DA EUROPA NO DOMÍNIO DA ENERGIA Documento da Comissão e do SG/AR para o Conselho Europeu FAZER FACE AOS RISCOS EXTERNOS NO DOMÍNIO DA ENERGIA A UE e o mundo necessitam de débitos de energia seguros, acessíveis e sustentáveis, elemento- -chave do desenvolvimento económico e da consecução dos objectivos de Lisboa. Existe uma ligação óbvia entre segurança energética, sustentabilidade e competitividade. A crescente dependência das importações provenientes de fornecedores e regiões instáveis representa um sério risco, uma vez que alguns dos grandes produtores e consumidores têm vindo a utilizar a energia como alavanca política. Além disso, o facto de alguns intervenientes externos não se pautarem pelas mesmas regras de mercado nem estarem sujeitos, a nível nacional, às mesmas pressões concorrenciais acarreta para o mercado interno da energia da UE outros riscos que haverá que ter em conta. A segurança do abastecimento energético requer uma combinação de políticas internas e externas. Há que intensificar as acções desenvolvidas a nível da UE: por essa razão, com base no Livro Verde da Comissão 1, o Conselho Europeu apelou a que, na sessão da Primavera de 2007, se aprove uma política energética para a Europa e um plano de acção com prioridades bem definidas, na sequência da análise estratégica a apresentar pela Comissão até ao final de Solicitou também à Comissão Europeia e ao Secretário-Geral/Alto Representante que apresentem entretanto contributos para uma estratégia das relações externas da UE no sector energético. Não está em causa o legítimo direito que assiste a cada um dos Estados-Membros de prosseguir a sua própria política de relações externas para garantir a segurança do abastecimento energético e de escolher o seu cabaz energético interno. Não obstante, o desenvolvimento de uma política energética da UE coerente e focalizada, com base em todo o leque de políticas internas e externas por ela adoptadas, aumentará a segurança externa colectiva da União no domínio da energia e contribuirá para que consiga fazer face de modo mais eficaz a eventuais estratégias seguidas pelos principais fornecedores externos de energia no sentido de influenciarem negativamente os fundamentos do mercado. O presente documento analisa a forma como, através da sua política de relações externas, inclusive da PESC, a UE pode prosseguir mais eficazmente o seu objectivo comum de garantir débitos de energia seguros, a preços acessíveis e sustentáveis do ponto de vista ambiental. 1 Estratégia europeia para uma energia sustentável, competitiva e segura, Março de 2006, cf. doc. 7070/06 + ADD 1 (COM(2006) 105 final). 1

2 O documento, que tem necessariamente carácter preliminar, destina-se a lançar o debate mas destaca também acções concretas que poderão ser imediatamente postas em prática. As relações externas no domínio da energia não podem ser artificialmente dissociadas da questão mais vasta que tem a ver com o tipo de política energética que pretendem seguir a UE e os seus Estados- -Membros. A resposta a esta questão fará parte do plano de acção a apresentar na próxima Primavera. Uma política interna desenvolvida em maior plenitude constitui condição prévia para defender os interesses energéticos da UE no plano externo e para melhor julgar que tipo de influência a UE é capaz de exercer através das suas relações externas para promover esses interesses. PRINCÍPIOS ORIENTADORES A fim de reforçar a segurança externa do abastecimento energético da UE, importa adoptar uma abordagem coerente que prossiga os seguintes objectivos: 1. Promover a transparência e uma melhor governação no sector energético através de parcerias energéticas com países terceiros, com o objectivo de criar condições legais mutuamente benéficas, abertas, transparentes, não discriminatórias e estáveis para o investimento e as trocas comerciais no domínio da energia. 2. Melhorar as capacidades de produção e exportação nos países produtores e desenvolver e modernizar as infra-estruturas de transporte de energia nos países produtores e de trânsito. 3. Criar condições que propiciem os investimentos das empresas europeias em países terceiros e abrir a produção e a exportação de recursos energéticos à indústria europeia. 4. Criar condições mais favoráveis às trocas comerciais no domínio da energia, permitindo o acesso não discriminatório dos países terceiros e de trânsito às infra-estruturas de exportação. 5. Aumentar a segurança física e ambiental, bem como a segurança das infra-estruturas energéticas. 6. Promover a eficiência energética, a utilização de energias renováveis, incluindo os biocombustíveis, o recurso a tecnologias que permitam a redução das emissões e a utilização racional da energia em todo o mundo. 7. Implementar os mecanismos relevantes do Protocolo de Quioto. 8. Diversificar as importações de energia por produto e por país. 9. Criar um regime internacional de fornecimento de urânio enriquecido aos países que tenham escolhido a opção nuclear, respeitando os compromissos de não proliferação e tendo em conta as disposições do Tratado EURATOM. 10. Promover a constituição de reservas estratégicas e incentivar o armazenamento em conjunto com países parceiros. Na fase actual, conviria analisar duas das vertentes em que assenta a segurança energética: o funcionamento dos mercados e a diversificação. FUNCIONAMENTO DOS MERCADOS O bom funcionamento dos mercados mundiais constitui a melhor forma de garantir um abastecimento energético seguro e acessível: cria um sistema de aprovisionamento energético mundial flexível e reactivo, facilita as decisões em matéria de investimento, amortece os choques e oferece segurança aos consumidores e aos produtores. Mas os mercados não funcionam no vácuo precisam de infra-estruturas físicas e legais, bem como de informação e transparência e da participação activa dos principais intervenientes. 2

3 Este objectivo poderá ser atingido se a UE alargar o seu próprio mercado energético aos países vizinhos de molde a formar uma área regulamentar comum que disponha de normas partilhadas em termos de comércio, trânsito e ambiente. Num plano mais alargado, a UE deverá preconizar a reciprocidade em termos de abertura de mercados e respeito pelas regras de mercado: não discriminação, competitividade, transparência e execução das regras. Precisamos de convencer os países consumidores não pertencentes à UE que os mercados energéticos mundiais podem funcionar a seu contento. Se esses países chegassem à conclusão de que a única via que conduz à segurança passa pela celebração de acordos bilaterais, aumentaria o risco de disfuncionamento do sistema energético. DIVERSIFICAÇÃO A segurança energética da UE pode melhorar se se diversificarem as fontes energéticas e a sua origem geográfica, bem como as rotas de trânsito. A UE deverá facilitar a manutenção e modernização das infra-estruturas energéticas existentes nos países vizinhos que para ela assumam grande importância, bem como o desenvolvimento de novas infra-estruturas. Há uma série de novos projectos no domínio do gás já aprovados ou em fase avançada de planeamento (Norte de África, Médio Oriente, região do Cáspio, Rússia e Noruega). Se forem concretizados, poderão criar novos corredores energéticos e uma nova capacidade de importação, o que se traduzirá numa quota significativa do consumo actual de gás na UE. Além disso, os terminais de GNL contribuem de modo muito específico para a segurança do abastecimento. O desenvolvimento de grandes oleodutos internacionais que transportem os produtos petrolíferos da região do Cáspio e da Ásia Central para a UE é também vital. Todos os instrumentos, desde o diálogo político e das políticas comunitárias em domínios como o comércio, o desenvolvimento, a competitividade, a investigação e o ambiente, passando pelas subvenções e empréstimos financeiros (incluindo os do BEI, do BERD e de outras IFI), deverão ser utilizados de forma coerente a fim de acelerar a concretização desses projectos de infra-estruturas. OBTENÇÃO DE RESULTADOS A presente análise demonstra a importância da política de relações externas da UE no domínio da energia. Terá de ser coerente (sustentada por todas as políticas da União, pelos Estados-Membros e pelo sector industrial), estratégica (reconhecendo plenamente as dimensões geopolíticas das questões de segurança relacionadas com a energia) e focalizada (virada para iniciativas em que a acção desenvolvida a nível da União possa ter claro impacto na promoção dos seus interesses). Deverá também ser consentânea com os objectivos mais vastos da política externa da UE como sejam a prevenção e resolução de conflitos, a não proliferação e a promoção dos direitos humanos. Uma política externa no sector da energia terá de se basear numa clara identificação prévia dos interesses da UE e em avaliações de risco fiáveis, o que significa garantir que a UE disponha das capacidades de controlo necessárias para lançar alertas precoces e melhorar a sua capacidade de resposta. A UE deverá prever a criação de uma rede de correspondentes no domínio da segurança energética que inclua representantes dos Estados-Membros, da Comissão e do Secretariado-Geral do Conselho a fim de controlar a segurança energética, e desenvolver planos de análise e acção. O Observatório Europeu do Aprovisionamento Energético poderá igualmente prestar um valioso contributo. 3

4 Uma política externa eficaz no domínio da energia depende da nossa capacidade de explorar os consideráveis recursos colectivos de que dispomos e colocá-los ao serviço de interesses comuns, o que significa assumir compromissos com países produtores, consumidores e de trânsito para produzir resultados. Significa ainda o reconhecimento de que os desafios políticos requerem o estabelecimento de diálogo a nível político (inclusive a nível de Chefes de Estado e de Governo) numa base bilateral, regional e multilateral. Entre os exemplos de iniciativas que poderão ser desenvolvidas contam-se: A nível bilateral Considerando que a UE e a Rússia são e continuarão a ser interdependentes no sector energético, trabalhar com vista ao estabelecimento de um acordo global com a Rússia que abranja todos os produtos energéticos e cujo objectivo seja a integração dos mercados energéticos da UE e da Rússia de uma forma mutuamente benéfica, recíproca, transparente e não discriminatória. O ideal será que tal acordo seja negociado no contexto do quadro contratual pós-apc. Levar por diante a parceria estratégica com a Noruega no domínio da energia (o que inclui apoiar o seu desejo de aderir ao Tratado que institui a Comunidade da Energia) e seguir uma abordagem semelhante em relação à Argélia. Ajudar a Turquia a desenvolver plenamente as suas potencialidades de grande plataforma de transporte de energia e, especialmente, promover a sua rápida adesão ao Tratado que institui a Comunidade da Energia. Implementar o memorando de acordo em matéria de cooperação energética entre a UE e a Ucrânia, incluir um capítulo consagrado à energia no futuro acordo bilateral e ponderar a possibilidade de adesão da Ucrânia ao Tratado que institui a Comunidade da Energia. Dar especial ênfase à implementação das disposições dos planos de acção no domínio da PEV que digam respeito à energia. Desenvolver formas de cooperação bilateral no domínio da energia com parceiros importantes no domínio da produção e do trânsito no Norte de África e na África continental, no Cáucaso, na Bacia do Cáspio e na Ásia Central, no Médio Oriente e no Golfo e ainda na América Latina. Promover o diálogo bilateral e a cooperação com os principais países consumidores, particularmente com os EUA (caso seja necessário desenvolver um diálogo de cariz mais marcadamente político no domínio da energia), e ainda com o Japão, a China e a Índia, procurando desenvolver uma abordagem comum no que respeita às questões globais do domínio da energia. O objectivo consistirá em melhorar a transparência e o funcionamento dos mercados energéticos mundiais e em desenvolver recursos energéticos sustentáveis e a eficiência energética. 4

5 A nível regional Alargar o mercado interno da UE mediante o alargamento do Tratado que institui a Comunidade da Energia aos países do EEE e da PEV. Desenvolver a convergência regulamentar através da PEV, de molde a propiciar os investimentos e a criar condições de concorrência equitativas em termos de abertura dos mercados, lealdade de concorrência e protecção e segurança do ambiente. A nível multilateral Integrar plenamente os objectivos da UE em termos de energia na sua política comercial multilateral e prossegui-los, se adequado, no quadro da OMC. Concluir as negociações do Protocolo sobre o Trânsito da Carta da Energia e assegurar a ratificação do Tratado da Carta da Energia por todos os signatários da Carta. Incentivar os Estados-Membros pertencentes ao G8 e a Comissão a servirem-se deste fórum para promover os interesses energéticos da UE, inclusive no quadro do G8+5, que congrega os principais produtores e consumidores. Ponderar a forma de reforçar a cooperação com a Agência Internacional da Energia e permitir que outros países a ela adiram. Promover um acordo internacional sobre eficiência energética e impulsionar o desenvolvimento de energias renováveis e a utilização de tecnologias eficazes do ponto de vista energético. Solicita-se ao Conselho Europeu que pondere se as presentes propostas constituem um contributo positivo para um processo de reflexão mais alargado que conduza à definição de uma política energética para a Europa e à elaboração de um plano de acção global, a acordar na Primavera de 2007, e até que ponto haverá que as implementar antes de conhecidos os resultados desse processo mais alargado. 5

6 Anexo: Consumo de gás e produtos petrolíferos na UE em 2004 por país de origem GÁS PRODUTOS PETROLÍFEROS Importações da Rússia 24% 27% Importações da Noruega 13% 16% Importações do Médio Oriente 19% Importações da Argélia 10% Importações do Norte de África 12% Produção nacional 46% 21% Outras regiões 7% 5% 6

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