IDENTIDADE E MATABILIDADE

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1 CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES Niterói RJ: ANINTER-SH/ PPGSD-UFF, 03 a 06 de Setembro de 2012, ISSN X IDENTIDADE E MATABILIDADE Tatiana Barboza Miranda Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito- da UFF (PPGSD/UFF) Carlos Eduardo Machado Fialho Doutor em comunicação social pela ECO/UFRJ, Professor Adjunto do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (GSO/UFF) e do Programa de Pós- Graduação em Sociologia e Direito (PPGSD/UFF) RESUMO ESTENDIDO APRESENTAÇÃO Identidade e matabilidade é um trabalho que, a partir do conceito de matabilidade na obra de Giorgio Agamben, visa estudar os mecanismos de construção identitária dos socialmente excluídos através dessa categoria. O grupo social escolhido como recorte são os moto boys da cidade do Rio de Janeiro. O comportamento desses profissionais no exercício de suas funções demonstra a ausência de qualquer atitude efetiva para a preservação de suas vidas. Mediante esse panorama pretende-se analisar as formas através das quais esses atores assimilam e introjetam a sua representação na sociedade como personagens matáveis. Supõe-se que esses indivíduos se sabem e se reconhecem como aniquiláveis e fundam sua identidade e suas relações com a vida, assumindo, entre outros, o papel de matáveis. METODOLOGIA O método de pesquisa para o trabalho de campo será o de entrevistas abertas. Escolhe-se esse modo de estudo devido à liberdade de fala que ele concede aos leitores. Pensa-se que quanto maior o espaço para que o entrevistado fale sobre os temas mais rico será o ambiente discursivo que se tem para análise. O principal objetivo das entrevistas será

2 observar as construções narrativas sobre a suposta matabilidade dos entrevistados. Perceber, através dos discursos dos depoentes, os mecanismos de identificação ou rejeição frente à questão da matabilidade. Os discursos serão interpretados como narrações sobre sua percepção da matabilidade, e não como a real interpretação dos entrevistados sobre sua condição matável. Nesse sentido, a linguagem é mais um elemento de mediação entre a categoria apresentada e a compreensão de mundo dos entrevistados. DESENVOLVIMENTO Desde o exército industrial de reserva houve muitos avanços nos estudos sobre os excluídos. Se em Marx o excedente de pessoas frente aos postos de trabalho formava um grupo de pessoas a serem aproveitadas futuramente como mão-de-obra na expansão da economia capitalista, o filósofo polonês Zygmunt Bauman, avançando na teoria de Marx, nomeou a massa excluída como descartáveis. Segundo o levantamento realizado pelos jornalistas Hans Peter Martin e Harald Schuman (da Der Spiegel), é possível projetar que não mais de 20% da força de trabalho serão suficientes para fazer a economia funcionar pela velocidade do desenvolvimento tecnológico (BAUMAN apud FRIDMAN, 2000, 27). Essa enorme fatia populacional torna-se inútil pelo sistema e é tratada como algo a ser descartado, refugo humano, nas palavras de Bauman. Em 1995 o filósofo italiano Giorgio Agamben se debruça na análise do tema da exclusão. Na obra Homo Sacer- O poder soberano e a vida nua, Agamben lança a categoria de matável, comparando o excluído com o Homo Sacer, figura do direito da Grécia antiga que encerrava em si um paradoxo. O Homo Sacer podia ser assassinado sem que isso fosse considerado um crime, porém, essa morte não poderia ocorrer no formato de sacrifício aos Deuses. Matável e insacrificável o Homo Sacer carrega consigo a imagem da exclusão. As execuções de traficantes e moradores nas favelas do Rio de Janeiro e o assassinato de soldados afegãos durante a guerra com os Estados Unidos são exemplos de mortes que não são tidas como crimes em seus contextos ético-jurídicos. Aproximando o conceito de matabilidade do panorama social brasileiro, reconhecemos uma população cujos membros, quando assassinados, não despertam um

3 posicionamento enfático dos mecanismos punitivos e da sociedade civil. São pessoas que compõem as legiões de excluídos. Agamben nos informa que esses atores figuram como indivíduos matáveis. Excluídos de qualquer tipo de contato com uma existência cidadã, o seu acesso ao mais fundamental dos direitos, o direito à vida, não é garantido. A sua representatividade para o sistema é de um ser matável. Como recorte para o estudo das interações entre matabilidade e construção identitária, escolhemos os motoboys. Vítimas de tragédias no trânsito que são relatadas a cada minuto nos jornais, integrando os altos índices de acidentes fatais no trânsito nas grandes cidades brasileiras. Segundo matéria publicada pelo site globo.com em 20/06/2010, vinte e três pessoas morrem por dia em acidentes envolvendo motocicletas no Brasil. O documento Mapa da violência: acidentes de trânsito, 2011, revela crescimento, no período de dez anos, nas taxas de óbito de motociclistas em acidentes no país. Os motoboys são conhecidos pelo seu comportamento imprudente no trânsito. Violando as leis do tráfego de veículos e agindo de maneira arriscada, esses trabalhadores tem como foco a entrega do produto em tempo hábil. A preservação de sua vida parece ser algo que está em segundo plano. A ausência de atitudes defensivas e prudentes no trânsito e o fato da morte desses motociclistas serem vistas pela população como reflexo do seu comportamento no trânsito, leva ao questionamento sobre a construção da identidade desses indivíduos. Qual é a identidade do indivíduo que não se auto preserva e que tem sua morte vista como fato cotidiano pela sociedade? Suspeita-se que essa identidade se funda, entre outros fatores, na matabilidade. O intuito dessa pesquisa é analisar as identidades desse grupo que não possui atitudes de auto-preservação e que tem sua morte tida como comum. A pergunta principal é: os moto boys assumiram sua matabilidade e se comportam como indivíduos cuja vida, tanto para si quanto para a sociedade em geral, é aniquilável? RESULTADOS ALCANÇADOS Realizamos algumas entrevistas prévias com moto boys que atuam na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, que forneceram algumas pistas para a análise das identidades

4 desses indivíduos. A entrevista se compunha de seis perguntas que pretendiam recolher os seguintes dados: o bairro em que mora, a idade, escolaridade, há quanto tempo trabalha como moto boy, formas de proteção aos acidentes e o que esperavam do futuro. Os moto boys foram abordados em seu próprio ambiente de trabalho. Por esse motivo o formato da entrevista deveria ser rápido e bastante objetivo, pois o tempo entre uma entrega e outra é bastante curto. As respostas a essas perguntas forneceram uma prévia do ambiente de construção identitário desses indivíduos. Perguntado sobre suas formas de proteção os moto boys responderam que a única segurança que eles possuem é o capacete e a forma de pilotar. Porém, o que se vê é o contrário, pilotar entre os carros em alta velocidade é postura cotidiana desses trabalhadores. Ao que parece, seu conceito de pilotar de forma segura é distinto do que promoveria uma segurança mais efetiva. Um entrevistado ilustra bem essa idéia, ao ser perguntado como se protege: Tirando dos carros, tirando das fechadas. Em vez de ter atitudes de auto-preservação que evitem o risco de serem fechados por carros, eles se livram da manobra perigosa quando ela ocorre. Outro fator que chamou bastante atenção foram as respostas referentes aos seus planos futuros. Todos os moto boys entrevistados responderam que não desejam continuar em seus empregos. Algumas respostas: Eu quero sair daqui o mais rápido possível. Porque é perigoso. Eu espero sair dessa vida. Quando eu não sei. Não, isso aqui não é futuro não, moto boy não é futuro não. Moto boy é risco de vida. Pelas falas citadas acima observa-se que os moto boys sabem que ocupam um lugar em que ninguém quer estar, nem eles próprios. Ser moto boys não foi uma escolha em suas vidas, e sim, foi o possível. Muitos entrevistados disseram que, por terem baixo nível de escolaridade, não poderiam optar por empregos melhores. Algumas falas revelaram, inclusive, que ser moto boy, é uma solução para o desemprego: Esse trabalho é porque a gente não tem muita opção. Então a gente tá sujeito a agarrar o que tem. Distante de ser uma alternativa de carreira e emprego, o ofício de moto boy é visto como algo que deve ser exercido pela ausência de outras opções, mesmo sendo arriscado e não oferecendo perspectivas, muito pelo contrário, um acidente fatal pode anular a idéia de futuro. Os moto boys entrevistados parecem saber perfeitamente que estão em um lugar

5 indesejável por todos. Sair de casa todos os dias para trabalhar envolve arriscar suas vidas. Reconhecerem-se numa categoria social de refugo humano é o primeiro passo para a construção identitária do excluído. Ele se sabe matável e, muito provavelmente, irá elaborar sua identidade tendo como base a representação social de si mesmo no mundo externo. REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: O Poder Soberano e a Vida Nua.Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. RJ: JORGE ZAHAR EDITOR, BOURDIEU, PIERRE. O MERCADO DOS BENS SIMBÓLICOS E SISTEMAS DE ENSINO E SISTEMAS DE PENSAMENTO. IN: MICHELLI, SERGIO. A ECONOMIA DAS TROCAS SIMBÓLICAS. SÃO PAULO: PERSPECTIVA, GIDDENS, ANTHONY. AS CONSEQÜÊNCIAS DA MODERNIDADE. TRADUÇÃO DE RAUL FIKER. SÃO PAULO: UNESP, MIRANDA, Tatiana Barboza. Primeira Página: Identidade e exclusão social em capas de jornais populares. Dissertação de mestrado. Niterói: PPGSD/UFF :2009. MIRANDA, TATIANA BARBOZA. FIALHO, CARLOS EDUARDO MACHADO. PRIMEIRA PÁGINA: JORNAIS POPULARES E IDENTIDADE. IN: REVISTA CONFLUÊNCIAS, Nº 11. NITERÓI: PPGSD/UFF, 2009, PP 153 A 165. SILVA, TOMAZ TADEU (ORG.). IDENTIDADE E DIFERENÇA: A PERSPECTIVA DOS ESTUDOS CULTURAIS. PETRÓPOLIS-RJ: VOZES, WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência Os jovens do Brasil. Brasília,

6 Ministério da justiça, Instituto Sangari, I. Os trabalhos deverão ser remetidos no modelo Resumo Estendido, com Apresentação, Metodologia, Desenvolvimento, Resultados Alcançados e Referências, em texto com, no máximo, 1500 palavras em Times New Roman 12.

7 II. Não serão aceitos mais de um trabalho com o mesmo autor ou co-autor para um mesmo GT. III. Serão aceitos, no máximo, dois trabalhos, em GTs distintos, por autor ou co-autor. GT- 18- Direitos Humanos, acesso à justiça e cidadania. Resumo estendido com, aproximadamente, 3 páginas. A inscrição deverá ser feita via o para correspondente ao GT em que se pretende apresentar o trabalho com as seguintes informações obrigatórias Assunto do CONINTER Corpo do -Nome completo de todos os autores, com titulação e PG/IES vinculada entre parênteses e link para o currículo Lattes correspondente - para contato -Definição de GT do trabalho a ser apresentado -Título do trabalho -Resumo Estendido, com Apresentação, Metodologia, Desenvolvimento, Resultados Alcançados e Referências, em texto com, no máximo, 1500 palavras (aproximadamente) em Times New Roman 12

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