A governança corporativa e as novas tendências do mercado financeiro brasileiro

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1 A governança corporativa e as novas tendências do mercado financeiro brasileiro Elaine da Silveira Leite (UFSCar) Resumo O crescimento da conscientização sobre Governança Corporativa (GC) é um fenômeno que tem chamado a atenção. Para compreender a difusão da GC no Brasil, é necessário associar o ambiente político ao econômico, desenhando as mudanças econômicas que levaram a financeirização, e o seu reflexo na dinâmica organizacional das empresas. Assim, notamos que a GC se concretiza atrelada a idéia de pulverização dos mercados de capitais para todos os segmentos da sociedade, e para isto conta com inúmeros aliados, entre eles, a Bovespa e o Novo Mercado. Este trabalho traz uma visão sobre as novas tendências financeiras que buscam atrair empresas, e popularizar o mercado de ações para a sociedade brasileira em geral. Assim a GC se torna um dos principais elementos de legitimidade das empresas nos dias atuais. Atuando como agente principal na construção de uma nova realidade organizacional. Palavras-chave: Governança Corporativa; engenharia financeira, mercado financeiro. 1. Introdução Assistimos a construção de uma nova realidade organizacional no Brasil; o ideário de shareholder ganha relevância, e pouco-a-pouco configura-se um espaço social no qual as empresas reclamam por maior transparência, eqüidade e respeito aos direitos dos acionistas minoritários. No Brasil, o ideário da GC surge atrelado ao contexto de redemocratização política, ressaltando a idéia de transparência como crítica a administração do governo militar; e vai se concretizando durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a reboque do debate sobre privatização. Atualmente, este tema tem ganhado ainda mais relevância política, já que passou a ser associado a discussão em torno da criação e gestão dos fundos de pensão, item presente na agenda política do governo e dos sindicatos, bem como junto ao mundo empresarial e ao mercado de ações. Desta maneira, estimulando o interesse de diversos atores sociais os quais buscam sua legitimação e consolidação, a GC transformou-se em interessante objeto de estudo e tem instigado grande interesse científico, pois também se concretiza atrelada a idéia de pulverização dos mercados de capitais para todos os segmentos da sociedade. Este trabalho objetiva traçar uma visão sociológica sobre o desenvolvimento das novas tendências do mercado financeiro, com o intuito de atrair empresas, e popularizar o mercado de ações para a sociedade em geral. Para isto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre a GC para um maior embasamento teórico sobre a questão exposta, em consonância como uma leitura sobre a economia, pois a expansão dos mercados de capitais e a redefinição dos agentes econômicos implicam diretamente na Teoria das Organizações, ou seja, na estrutura das organizações que operam atualmente sobre a vigilância dos acionistas. Para finalizar, apresentamos algumas tendências que este movimento nos traz, principalmente, associado com o surgimento de novos produtos financeiros, conjuntamente com a explosão dos bancos comerciais. Como também, o grande empenho da Bovespa, neste sentido, apresentando algumas ações mais concretas, e, finalizando com uma discussão sobre a nova sociedade democrática e financeira no Brasil.

2 2. Mudanças Econômicas no mundo atual As grandes guerras mundiais da primeira metade do século XIX, assim como os conturbados anos do período entre guerras, como a crise dos anos 1930 e as hiperinflações de países europeus, provocaram grandes perturbações na economia de praticamente todos os países e, por conseguinte, nas relações econômicas internacionais. Esta época viu a dinamização das relações econômicas internacionais, tanto comerciais quanto financeiras. As autoridades da época alertavam que, talvez, o principal problema deste período tenha sido a ruptura do chamado padrão-ouro. Já ao final da Segunda Guerra Mundial mostrava-se necessário a existência de um novo sistema monetário internacional. Neste contexto foram criadas as quatro principais instituições econômicas do pós-guerra o sistema de taxas de câmbio de Bretton Woods; o Fundo Monetário Internacional; o Banco Mundial; e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio. Assim, nas três décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a economia e o comércio internacional prosperaram com base no dólar e no sistema de Bretton Woods. Este, porém, não pode ser mantido, pois já nos anos 50 sua sustentação era contestada. E, a partir da ruptura do sistema monetário internacional de Bretton Woods no início dos anos 70 e a substituição do antigo regime de taxas fixas de câmbio por uma de taxas flutuantes. Observa-se forte processo de desvalorização do dólar, gerando uma instabilidade cambial com efeitos perversos sobre os fluxos comerciais. Temos ainda, nos anos 70, importantes choques de oferta (matérias-primas), instabilizando ainda mais os fluxos comerciais. Os anos 80 marcaram uma ruptura, ocorre a crescente substituição do sistema baseado no crédito por um baseado no mercado de capitais. Ou seja, observamos o aumento da concorrência em função da perda de importância do setor bancário e do crescimento dos investidores institucionais; a liberalização financeira com crescente globalização e internacionalização dos mercados; inovações financeiras como a securitização das dívidas e os mecanismos de diminuição de risco (hedge-finance: futuros e opções). No início dos anos 90, observa-se um grande crescimento na liquidez mundial e maior fluidez do capital. Neste cenário os países em desenvolvimento, ainda com problemas de estabilização econômica e de dívida externa, aproveitaram o momento para entrar em movimentos liberalizantes com vistas a participar deste intenso fluxo internacional de capitais. Neste momento, vários países, como o Brasil, voltam a receber recursos externos. As principais formas de captação são: o lançamento de títulos no exterior; lançamento de ações de empresas nacionais no exterior; e investimento direto e dos fundos de investimento no mercado nacional Bolsa. Nota-se nesta fase uma nova segmentação do mercado, dentro da lógica de alteração do mercado financeiro que vem se observando em nível mundial, onde a atividade de intermediação financeira vem perdendo importância e vem crescendo o mercado de capitais: a colocação de títulos, a securitização da dívida e novas engenharias financeiras. No caso brasileiro, observamos um crescente direcionamento dos bancos para nichos específicos de mercado. Alguns continuam na atividade tradicional e se constituem como os bancos de varejo. Por outro lado, há o crescimento nos chamados bancos de negócios, cuja principal atuação vai no sentido da criação de títulos diferenciados para a colocação no mercado externo e interno, as chamadas engenharias financeiras. Outro ponto de destaque é o grande crescimento no período recente dos chamados investidores institucionais: fundos de pensão, as seguradoras e os fundos de investimento administrados pelos bancos. Outro aspecto importante é como vem se dando a entrada de recursos externos no Brasil no período recente através da bolsa de valores, constituição de fundos de investimento e colocação de títulos. Tudo bem sinalizado para um grande

3 desenvolvimento do mercado de capitais no futuro e uma dependência cada vez menor do crédito enquanto instrumento de financiamento. Observamos também, que o cenário econômico brasileiro apresentou mudanças, marcadas a partir dos anos 90, principalmente pelos processos de privatizações das empresas estatais, movimentos de fusões e aquisições de empresas, intensificação dos investimentos e crescimento dos fundos de pensão. Segundo, Chesnais (1996), estas mudanças foram frutos de uma nova etapa do desenvolvimento do capitalismo mundial, que surge a partir da década de 80, considerada como sendo a mundialização do capital. Na verdade, estamos diante de um novo regime de acumulação capitalista a internacionalização do capital, com características próprias e particulares se comparada com etapas anteriores do desenvolvimento do capitalismo, caracterizado principalmente pelo predomínio do capital financeiro. Os principais atores que se destacam, neste contexto como já dissemos, são as Instituições- Financeiras não-bancárias, isto é, operadores financeiros de um tipo qualitativamente novo, como exemplo, os fundos de pensão e os fundos de investimentos. Este ambiente favorece o surgimento de um problema novo da chamada Corporate Governance, no qual a difusão das boas práticas de GC faz parte da adaptação a essas transformações que ocorrem mundialmente. (Chesnais,1996). Contudo, observamos a construção de uma nova realidade organizacional, o ideário de shareholder ganha destaque e vai se configurando num espaço social, no qual as empresas procuram zelar por maior transparência, equidade e prestação de contas e cada vez mais buscam ser socialmente responsáveis. 3. A Governança Corporativa e a dinâmica organizacional O movimento de GC ganhou força nos últimos dez anos, tendo nascido e crescido originalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, e a seguir se espalhando por muitos outros países. O principal problema da GC surge nas empresas onde existe distinção entre os acionistas e administradores, favorecendo potencialmente o conflito de interesses. Deste modo, podemos dizer que o problema de GC é tão velho quanto às sociedades por ações. A partir da leitura do texto de Güillén (2000), podemos aproximar a GC da revolução dos acionistas, tamanha a valorização e democratização do poder aos sócios minoritários. Nesta nova configuração, ocorre o fim das ações preferenciais, destacando a idéia de uma quota, um voto, ou seja, o ideal de stakeholders é substituído pelo de shareholders. Williams (2000) analisa o impacto do valor de shareholders e da financeirização no capitalismo contemporâneo, em especial na França, Alemanha e Estados Unidos. Assim, aponta que os shareholders têm transformado prioridades e comportamentos organizacionais ganhando importância significativa, uma vez que encoraja visões administrativas que vão além da leitura pós-fordismo e da globalização. Concluíndo que este novo valor de shareholders não apenas ajuda a entender o capitalismo contemporâneo, como também nos ajuda a recuperar o poder de mudança deste. Davis & Thompson (1994), demonstram que os acionistas norte-americanos estão ganhando poder e encontram-se mais organizados para agir efetivamente na regulamentação das leis e na conquista dos seus direitos. A ascensão dos direitos dos acionistas norte-americanos é resultado de três tendências: aumento da concentração de propriedade nas mãos dos investidores institucionais; elaboração e enforcement das estruturas legais de responsabilidades pelos fundos de pensão privados; e uma série de reinvidicações em comum dos investidores, e especialmente a difusão das atividades antitakeover entre as corporações. Destacam também, que a questão da GC, surge nesta nova configuração do mercado financeiro, no qual uma série de instituições que determinam o balanço do poder entre proprietários, gerentes e outros elementos da organização tornam-se um movimento de

4 pressão da política econômica. Portanto a economia política global e a GC, tornam-se cada vez mais solidificadas, pois há uma dinâmica de atores tanto nacional como internacional convergindo nestas questões. Segundo Scherer (2003) o mercado de capitais norte-americano desponta no final do século XIX, e nasce a reboque da expansão das grandes corporações, surgindo então, a necessidade de controlar adequadamente os recursos aportados pelos investidores que não gerenciavam as atividades da empresa. É neste contexto que se desenvolve a Teoria da Agência com o objetivo de resolver o conflito de interesses entre os acionistas/investidores e os gerentes controladores. A Teoria da Agência tem como preocupação resolver dois entraves: reduzir riscos para os investidores e aumentar a participação dos acionistas nas decisões estratégicas da empresa. A partir, destes pontos obtêm-se uma justificativa teórica para a implantação de uma política de GC baseada na visão shareholder da firma. Scherer (ibid) enfatiza que a Teoria da Agência vai moldar a GC e o comportamento dos atores no mercado nos anos 80 e 90, criando uma realidade que a valida a posteriori (ibid.,p.435), ou seja, argumenta que, é a Teoria da Agência que incentiva a busca de mecanismos de GC. Segundo Kester (apud Rabelo 1999), é na perspectiva da Teoria da Agência que surge a preocupação de criar mecanismos eficientes, ou seja, sistemas de monitoramento e incentivos para garantir que o comportamento dos executivos esteja alinhado com o interesse dos acionistas. Segundo Fligstein (2004) a economia norte-americana foi transformada pela lógica do shareholder value essa nova concepção veio para dominar a retórica da firma, principalmente, intervindo no comportamento dos gerentes. Apresentando três aspectos, frutos das mudanças dos últimos vinte anos, que são relevantes para compreendermos as mudanças organizacionais atuais: a queda da manufatura e o aumento dos serviços, a des-sindicalização, e o aumento do uso de tecnologia computacional na produção. Ou seja, a proposta principal é remover os trabalhadores altamente qualificados da produção e bem pagos, aqueles sindicalizados; investindo em tecnologia para aumentar a produtividade do trabalho, o que pode resultar no aumento do lucro. In essence, we want to show that these larger secular changes in the American economy were somewhat endogenous to the spread of shareholder value. While these changes have been the focus of sustained research in literature on the reorganization of work (Harrison and Bluestone, 1988; Osterman, 2001; Card, 1992; Card and DiNardo, 2002; Gordon, 2000; Baumol, et. al, 2003), they have not been the focus of the empirical work that has been interested in shareholder value. We want to argue that focusing on shareholder value pushed managers to pay more attention to profits and less attention to employees and communities. As a result, they made strategic decisions on facilities, employment, and technology using financial criteria that emphasized making their balance sheets more attractive to financial analysts. (ibid., p.16) Neste sentido, Fligstein (ibid) nos mostra que os trabalhadores sobre a visão dos acionistas são cada vez mais vistos como custos de produção e reduzi-los significa aumentar o lucro One way in which this might have worked, was the replacement of both blue and white collar workers by computer technology. In the case of managers and other white collar workers, downsizing and collapsing levels of management could only work if higher level managers had more information about their workers at lower levels of the organization.

5 Computer technology provided one tool by which their performance could be monitored. Computer technology could also be used to reduce the power and numbers of blue collar or service workers. So, for example, bank tellers and phone operators decreased dramatically in numbers as computers replaced them with automatic phone systems and tellers (ibid., p.23). Portanto, percebemos que o contexto econômico de financeirização, afetou a dinâmica organizacional das firmas norte-americanas, baseando-se no na idéia de shareholder value, trazendo conseqüências para os trabalhadores em geral, e esta nova configuração vem atrelada ao processo de institucionalização da GC. E os atores envolvidos neste cenário utilizam diversas estratégias simbólicas e discursivas, estimulando a criação de órgãos, institutos, leis, revistas e todo tipo de ação para a concretização da GC. Como já dissemos, a Teoria da Agência que surge nos Estados Unidos, objetiva resolver o conflito de interesses entre os acionistas e a gestão. Mas no Brasil, este conflito não é tão relevante, pois a estrutura de propriedade é diferente do modelo norte-americano. O ambiente empresarial brasileiro tem como destaque empresas de caráter familiar. Em 1976 foi criada a Lei das SA s pelo governo militar, inspirada no modelo norte-americano com o objetivo de desenvolver o mercado de capitais como alternativa de financiamento da economia, esta lei permitiu a utilização de ações preferenciais, que acabou originando empresas abertas mas de caráter familiar. O cenário brasileiro, portanto, é caracterizado por alta concentração de ações ordinárias nas mãos dos acionistas majoritários; havendo uma alta utilização de ações preferenciais, o que possibilita uma alta sobreposição da propriedade e gestão. Assim, o principal conflito se dá entre os acionistas majoritários e minoritários. 3.1 A Governança Corporativa e o caso brasileiro Desse modo, no Brasil e nos países da América Latina muitas empresas são familiares, não havendo uma clareza entre o que pertence à família e o que é da empresa, assim, a discussão sobre GC acaba girando em torno das relações entre os acionistas. Desta maneira criaram-se no Brasil, empresas abertas, mas de caráter familiar, pois a legislação brasileira da Lei das Sociedades Anônimas permitiu a participação substancial de acionistas minoritários através da emissão de ações sem direito a voto ações preferenciais. Deste modo, o controle familiar não corria risco algum. Portanto, Rabelo (op. cit.) afirma que a principal característica no Brasil é seu caráter familiar, já que os grupos de capital nacional são majoritariamente de controle e propriedade familiar. Sobre esta característica, Grün (2003a) afirma que o caráter familiar é uma peculiaridade que não favorece a GC no Brasil. Mas graças ao contexto político em que ela se insere, é que encontra respaldo para se desenvolver. (...) uma maneira de avaliar esta peculiaridade pode ser depreendida da relação que se faz entre a GC e a noção de transparência. Lembremos que a necessidade de transparência foi um requisito social desenvolvido na crítica dos aparelhos burocráticos hipertrofiados durante a ditadura militar. Uma vez alçada ao rol das preocupações sociais relevantes, essa noção foi sendo modelada para abrigar as necessidades contábeis das sociedades anônimas que queriam ser financiadas pelo mercado financeiro e uma maior discussão em torno do modelo de GC. Com a aproximação do período das eleições federais, em 2002, a agenda imposta pelos ideais convencionais parece ter tido êxito antecipado, já que os economistas ligados ao Partido dos Trabalhadores, principal partido de oposição, passaram a afirmar seu respeito pela ortodoxia econômica então vigente. (ibid.,p.147).

6 Os economistas do Partido dos Trabalhadores, sobre a GC, apontam que a democratização da riqueza e conseqüentemente da renda só será possível através da democratização do capital em um mercado de capitais forte e pulverizado, e esse tipo de mercado só floresce num ambiente de boa GC. Além disso, o presidente Luís Inácio Lula da Silva em seu primeiro pronunciamento à nação reiterou o compromisso do governo com o mercado de capitais, afirmando que A construção dessa nova perspectiva de crescimento sustentado e de geração de empregos exigirá a ampliação e o barateamento do crédito, o fomento ao mercado de capitais. Várias medidas no sentido do fortalecimento do mercado de capitais já foram anunciadas e fazem parte do Plano Diretor do Mercado de Capitais. Assim, o crescimento da conscientização/implantação da GC no Brasil é um fenômeno que iniciou-se a partir dos anos 90, no qual, ocorreram diversas modificações no setor econômico como os processos de privatizações, movimentos de aquisições e fusões de empresas, e aumento dos investimentos em fundos de pensão. No Brasil, esta década foi marcada por reformas e mudanças estruturais na economia, que atingiu profundamente a base do capitalismo industrial, alterando o papel e a participação de diferentes atores econômicos. a crise do modelo nacional desenvolvimentista e a transição para um modelo centrado no mercado constituíram a tônica deste período (...) Além disso, as reformas e seus impactos influenciaram sobremaneira o plano de composição e de estratégias de ação coletiva das elites empresariais (Diniz & Boschi, 2003:01). Diniz & Boschi (ibid) apresentam como os principais fatores que colaboraram para estas mudanças a abertura comercial, apontando como efeito o grande número de falências; as fusões e aquisições, que possibilitaram um deslocamento do capital doméstico para o estrangeiro; e o programa de privatizações. Desta forma, o movimento de GC é evidenciado durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, atrelado às circunstâncias demonstradas acima, pois naquele momento falar de fiscalização, vigilância, transparência era fundamental para aquecer o mercado de capitais e atrair investidores. Este momento também é fortalecido pela idéia de que o capitalismo brasileiro é carente de um mercado de capitais ativos e fundos para o desenvolvimento dos empreendimentos que poderiam dinamizá-lo (Grün, 2003b). Atualmente, este tema vem ganhando destaque na agenda política do Governo Luis Inácio Lula da Silva principalmente em torno das discussões sobre criação e aumento dos fundos de pensão. Sobre o contexto dos fundos de pensão no Brasil, Jardim (2002) afirma que, o discurso do governo gira em torno de que a previdência social vive uma grave crise, o que acaba favorecendo ainda mais o debate sobre a regulamentação da previdência privada, que vem utilizando uma política agressiva de marketing, na qual busca se diferenciar das empresas falidas do passado, bem como de seus produtos. A estratégia de distinção é apresentar um discurso de transparência da empresa e flexibilidade dos produtos (ibid.,p.49). Os fundos de pensão no Brasil também surgem na qualidade de acionistas minoritários, como importante instrumento de coordenação e de monitoramento constante dos grandes acionistas, e atuam na construção de canais formais e informais para exercer uma influência disciplinadora sobre os executivos das companhias presentes em seus portfólios. Assim, podemos dizer que a GC entra no Brasil atrelado ao período de redemocratização do país e vai se estabelecendo com características próprias, atrelada principalmente a idéia de transparência como crítica a burocracia do regime militar, o que acaba fortalecendo a idéia de

7 associação do conceito de cidadão ao de acionista minoritário, fazendo convergir à nova representação da empresa com a nova representação do Estado, no qual somos todos acionistas minoritários, habilitando-nos a reivindicar o estatuto de clientes uma vez que paguemos nossos impostos e demais obrigações, mas enfraquecendo e desacreditando a pertinência de quaisquer abordagens coletivistas. (Grünb, op.cit.,p.10). Este cenário político propicia um ambiente adequado, facilitando uma aproximação da GC com a idéia de que também é necessária uma democratização dos mercados de capitais; ou seja, é neste contexto que a idéia de associação dos acionistas minoritários ao de cidadão ganha força. Sob o mesmo ponto de vista, Latham (2003), enfatiza as diferenças entre os votos dos acionistas com os votos dos cidadãos, Corporate shareowners generally agree on the primary goal for the joint enterprise (profit), while political goals vary widely in civic societies. Corporate board elections are rarely contested usually just one nominee per open seat; civic elections are usually contested. Shareowners get one vote per share; citizens get one vote per person. Investors can easily diversify as well as shift their shareholdings across hundreds of corporations, whereas citizens would have to uproot their lives to change which societies (city, state, nation) they belong to. Perhaps as a result of these features, individuals pay even less attention to how they vote as shareowners than to how they vote as citizens (ibid.,p.92). Mas o ponto principal neste contexto que nos interessa é ressaltando por Grün (2004), com o intuito de delimitar a evolução do espaço financeiro no Brasil, apresenta a importância durante a campanha presidencial de 2002, da presença do presidente Lula na Bovespa preocupado em demonstrar adesão as práticas econômicas estabelecidas no mercado financeiro, assim o tema ganhou o estatuto de manifestação do interesse geral da nação Nesse espaço, a GC foi considerada um instrumento fundamental para o desenvolvimento econômico moderno, pois criaria um clima propício ao investimento produtivo e seguro das poupanças dos trabalhadores brasileiros, principalmente aquelas coletivizadas pelos fundos de pensão, nas empresas e demais empreendimentos do país, que assim passariam a dispor de recursos para realizar seus projetos de expansão (ibid.,p.14). Percebemos que o discurso da GC gira em torno do progresso econômico e este alcança o desenvolvimento social, neste sentido há um forte movimento para a institucionalização da GC tanto internacionalmente quanto nacionalmente. O crescimento da conscientização sobre GC é um fenômeno que tem chamado à atenção no Brasil. Este movimento é evidenciado por vários eventos como a fundação do Instituto Brasileiro de GC, a promulgação da Nova Lei das Sociedades Anônimas, bem como a redefinição das funções de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários, que eram pouco relevantes em momentos anteriores; a criação do Novo Mercado pela Bovespa, a adoção voluntária por parte de várias empresas de padrões rígidos de GC, e a elaboração do Plano Diretor do Mercado de Capitais. 4. A criação de produtos para a conquista de novos adeptos, mudanças culturais

8 Segundo Grün (2004) a boa GC é a solução internacionalmente reconhecida como padrão do receituário neoliberal para resolver o problema da capitalização das empresas, fazer deslanchar não só os mercados financeiros, mas também as economias locais como um todo (ibid., p. 15), afirmando que ela é essencial, pois torna atraentes os investimentos em papéis das empresas, fazendo a economia brasileira deslanchar. O mesmo autor apresenta o desenvolvimento dos bancos comerciais no Brasil, em contraponto, aos bancos tradicionais, demonstrando que com os comerciais há a proliferação de novos instrumentos de liquidez, como os fundos de recebíveis que começam a disseminarse na paisagem financeira, este permite que os títulos sejam securitizados, o que dá a base para o desenvolvimento das novas formas de crédito, e de novos produtos financeiros. Paralelamente, há a criação dos títulos chamados derivativos e opções, estes se destacam devido a desregulamentação dos mercados financeiros internacionais que começou nos anos 90. Também, ressalta os portfólios otimizados, pois se tornam imunes a problemas quanto mais diversificados forem os tipos de risco associados a cada um dos títulos que compõem a carteira. No Brasil, um grande aliado destes atores para a concretização do mundo financeiro é a Bovespa, que criou o Novo Mercado, que é muito mais avançado do que a Lei das SA S, e várias empresas estão se posicionando neste novo segmento de listagem. Este se divide em três níveis e o primeiro é praticamente o que toda companhia aberta deveria fazer. Ao mesmo tempo, assistimos o crescimento dos clubes de investimentos, que visam atrair a população à participação nos mercados de ações. A decisão das empresas de listarem-se no Novo Mercado traz benefícios, segundo a Bovespa, aos investidores, a elas próprias e fortalece o mercado acionário como alternativa de investimento. O que demonstra um grande avanço a criação deste segmento, pois enfatiza que para os investidores isto acarreta uma maior precisão na precificação das ações; melhora do processo de acompanhamento e fiscalização; maior segurança quanto aos seus direitos societários; redução de risco. Para as empresas, melhora da imagem institucional; maior demanda por suas ações; valorização das ações; menor custo de capital. Já para o mercado acionário aumento de liquidez; aumento de emissões; canalização da poupança na capitalização das empresas. E para o Brasil as empresas tornam-se mais fortes e competitivas; e ocorre a dinamização da economia. Contudo no Brasil, quando se fala em Bovespa esta palavra nos remete a idéia de cassino, ou seja, um jogo de alto risco. É nesse sentido que a GC está atuando perante a sociedade, tentando desmistificar esta idéia. E a Bovespa é um ator importante na tentativa da construção desta nova realidade. A compra de uma ação é a mesma coisa de investir num bem, num carro, numa casa, e ainda tem a vantagem de ser uma operação simples. Portanto, pense sempre no investimento em ações como uma formação de patrimônio, uma poupança de longo prazo. Bovespa. Porque seus sonhos precisam de ação. Deste modo, percebemos o desenvolvimento de novos produtos e serviços, pela Bovespa, juntamente com a implantação do Novo Mercado, com o intuito de atrair empresas, e pulverizar o mercado de ações para a sociedade em geral. O quadro está preparado para que o mercado de ações continue avançando em De um lado, por razões internas: as campanhas de popularização promovidas pela Bovespa, que atraem novos personagens de sindicalistas à nova mulher e ampliam a base de investidores; o enraizamento gradativo da GC; a crescente aceitação de instâncias como o Novo

9 Mercado. De outro lado, pelo ambiente externo, quer dizer, pelos ventos ainda favoráveis soprados pela economia, que se traduzem, por exemplo, na boa rentabilidade das empresas (tendência que despontou em 2003 e firmou-se em 2004). Basta ver que, ao contrário de juízos há muito estabelecidos, os bancos não são mais os únicos ganhadores: siderúrgicas, mineradoras, petroleiras, exportadores em geral também apresentam balanços de dar água na boca, e de grande atração para investidores do presente e do futuro (http://www.bovespa.com.br/instsites/revistabovespa/93/produtos.shtml). Neste sentido, constatamos através do site da Bovespa, diversos lançamentos de produtos relacionados com a GC, ou com os seus pilares - transparência, equidade, prestação de contas, responsabilidade social. E a segmentação destes produtos para inúmeros tipos de investidores - dos pequenos aos grandes. A busca nos permitiu observar que, no Brasil, está se constituíndo tanto o segmento mais tradicional dos fundos de investimento especializado em renda fixa como os produtos de renda variável, tais como clubes de investimento, fundos de ações que acompanham o índice Bovespa e, ainda, fundos especializados, por exemplo, em ações de dividendos. - Os investidores a longo prazo, mostram crescente interesse por novos fundos de renda variável (ativos, passivos e setoriais) e fundos abertos de previdência. - No segmento puro de ações, os clubes de investimento mais de mil clubes estão em funcionamento. Muitos dos seus participantes são novos aplicadores, alguns, sem maiores noções do mercado, mas curiosos e bem-informados, atraídos pela possibilidade de obter melhores ganhos se aplicarem seus recursos no longo prazo. Há três tipos de clubes: Os primeiros delegam à corretora a gestão dos recursos e sua administração (parte legal, cálculo de cotas e prestação de contas à CVM). No segundo tipo, a corretora fica apenas com a parte administrativa dos negócios e, no terceiro, o grupo contrata um gestor de fora. Mesmo quando gestão não cabe ao clube. O investidor tem que ser ativo. - Observamos, por exemplo, fundos especializados na compra de cotas de outros fundos, como os de dividendos. E os que incluem, em suas carteiras, papéis menos tradicionais, como Cédulas do Produtor Rural (CPRs). Entre os novos produtos, os fundos de dividendos são os que merecem destaque, pois nos últimos dois anos. Em novembro de 2004, havia neles R$ 5,950 bilhões. Além disso, percebemos que ainda, muitos investidores preferem os fundos imobiliários. Onde, os aplicadores investem em imóveis sem incorrer nos custos de transação transmissão, escrituras, registros, etc. Os fundos imobiliários atraem investidores tradicionais com visão patrimonialista. Em vez de comprar uma casa, adquirem cotas de empreendimentos, como shopping centers. Evitam perder tempo assinando contratos, sofrer riscos de inadimplência e pagar tributos, como IPTU e taxa do lixo. E não sofrem os ônus da depreciação do imóvel. Neste segmento mais tradicional, também existem os CRIs, estes têm vantagem tributária e são classificados pelas agências de rating, ou seja, são um instrumento de renda fixa com colaterais e garantias. A aplicação mínima em CRIs é de R$ 300 mil, mas a CVM já pode reduzir esse valor. O CRI tem como lastro o fluxo de pagamentos de prestações na compra de imóveis ou de aluguéis. Outro produto são os Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs), espécie de fundos de recebíveis. Há 33 FIDCs registrados na Anbid, com patrimônio de R$ 3,783 bilhões. Antes eram atrelados ao mercado imobiliário, mas surgem recebíveis de outros setores, como petroquímico e educacional. Também se destinam mais a investidores qualificados, como os institucionais. Os FIDCs obedecem a regras de governança e têm boa

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