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2 *O Amor é o principal tema de toda a lírica camoniana - como é n'os Lusiadas, uma das grandes linhas que movem, organizam e dão sentido ao universo, elevando os heróis à suprema dignidade de, através dele, atingirem a divinização. *

3 *Na Lírica de Camões, o amor é fonte de contradições vivamente sentidas: ele é sucessivamente 'fogo que arde sem se ver", 'ferida que dói e não se sente", "contentamento descontente" - daí que dificilmente ele possa trazer consigo a alegria e a paz. É algo de indefinível ou, nas próprias palavras do Poeta, "um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê".

4 *O amor aparece nestes poemas sob uma dupla abordagem: à maneira petrarquista, de raiz provençal e neoplatónica. Trata-se de um amor espiritualizado, em que não se vislumbra o corpo dos amantes, que se compraz na adoração e contemplação do ser amado e que leva a que o amador se "transforme" na "cousa amada". Num amor assim vivido, a ausência da amada não só não é sen- tida com dor, mas é encarada como ocasião de purificação do sentimento amoroso. A mulher amada, encarada como reflexo da beleza divina, é a ponte para a perfeição do "amador".

5 *Assim, ela não é retratada com traços fisionómicos precisos - a sua beleza, que é grande, reside sobretudo no olhar, "brando e piedoso", na postura "humilde", na bondade; o seu retrato é um retrato psicológico da perfeição e pureza que dela emanam. Registase a impressão que a sua beleza causa, e não os traços de que essa beleza é feita. Trata-se de um ser sublime, divinizado, que se movimenta numa natureza alegre, colorida, paradisíaca.

6 *Mas o amor aparece também visto sob outro aspecto, numa outra abordagem. Camões, senhor de uma "longa experiência" de vida, apercebe-se da enorme distância que vai do pensamento à realidade vivida - e sente, mais violentamente que Petrarca, que a vivência quotidiana do amor, longe de trazer tranquilidade e paz, se for dela excluído o factor erótico, traz inquietação e perturbação.

7 *Da tensão entre o amor espiritual e o amor sensual, resultam, para quem ama, conflitos interiores, perplexidade, contradições, angústia. O sentimento amoroso torna-se motivo de perturbação; a mulher amada transforma-se em "fera", em "Circe", que enfeitiça, destilando no amador o "mágico veneno" e transformando-lhe o pensamento; a ausência e a morte da amada passam a constituir ocasião de dúvida, ciúme, angústia, "mágoa sem remédio".

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9 *Ligado ao tema do Amor, encontramos o tema da mulher amada, entendida como ser celestial - "celeste formosura" - ou como fera, Circe; da ausência da mulher amada, vivida como ocasião de purificação do amor, ou como mágoa e saudade; o da morte da amada, encarada com mágoa serena e resignação cristã ou como mágoa revoltada, impotente e, esta sim, "sem remédio". É bom de ver que estas visões contrastantes da amada, da sua ausência ou morte, têm que ver com a dupla visão do amor, atrás referida.

10 *Mas o entendimento amoroso amoroso exige um enquadramento natural. A natureza aparece-nos na poesia camoniana, na lírica como na épica, como uma natureza alegre, serena, luminosa, perfumada, em que avultam o verde, o cristal das águas límpidas, os frutos saborosos, as flores. Neste cenário se vivem sentimentos amorosos - e se a natureza, por vezes, fica indiferente, de outras vezes ela compartilha da tristeza dos amantes.

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12 *Experiência amorosa e experiência de vida colocam Camões perante uma constatação: a de que o mundo, a realidade, é absurda e domínio do "desconcerto", em que se premeiam os maus e se castigam os bons. *Esta constatação deixou marcas amargas n'os Lusíadas - e deixou-as na Lírica, em poemas de revolta, queixa, desengano, perplexidade angustiada.

13 * Ingratidão, egoísmo, abuso do poder, perseguições são manifestações de um Destino humano e pessoal que o Poeta sente como inexplicavelmente hostil. Reflectindo sobre a sua experiência, o Poeta conclui que sempre às maiores expectativas sucederam os maiores desenganos, que para ele, vítima da "Fortuna", felicidade foi sempre ilusão e sempre o bem foi passado e o mal presente. A mudança, que é a condição de tudo, para ele fez-se sempre para pior. * Daí a sua dúvida, a sua perplexidade, o seu não compreender, a sua raiva, a revolta impotente - reflectidos em desabafos autobiográficos, em sonetos e canções.

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