ALIANÇAS ESTRATÉGICAS PARA O BRASIL: CHINA E ÍNDIA

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1 SEMINÁRIO ALIANÇAS ESTRATÉGICAS PARA O BRASIL: CHINA E ÍNDIA aliança estrategica.indd 1 13/12/ :45:32

2 Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Vice-Presidente da República José Alencar Gomes da Silva Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional Jorge Armando Felix Secretário de Acompanhamento e Estudos Institucionais José Alberto Cunha Couto aliança estrategica.indd 2 13/12/ :45:32

3 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA GABINETE DE SEGURANÇA INSTITUCIONAL SECRETARIA DE ACOMPANHAMENTO E ESTUDOS INSTITUCIONAIS SEMINÁRIO ALIANÇAS ESTRATÉGICAS PARA O BRASIL: CHINA E ÍNDIA Brasília 2006 aliança estrategica.indd 3 13/12/ :45:45

4 Edição: Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais Endereço para correspondência: Praça dos Três Poderes Palácio do Planalto, 4 andar, sala 130 Brasília - DF CEP Telefone: (61) Fax: (61) Criação e editoração eletrônica: CT Comunicação Ltda Impressão: Gráfica da Agência Brasileira de Inteligência A presente publicação expressa a opinião dos autores dos textos e não reflete, necessariamente, a posição do Gabinete de Segurança Institucional. Catalogação feita pela Biblioteca da Presidência da República S471 Seminário: Alianças Estratégicas para o Brasil: China e Índia (Brasília : 2005). Seminário: Alianças Estratégicas para o Brasil: China e Índia. Brasília: Presidência da República; Gabinete de Segurança Institucional; Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais, p. 1. Aliança internacional Brasil China. 2. Aliança internacional Brasil Índia. 3. Relações econômicas internacionais Brasil China. 4. Relações econômicas internacionais Brasil Índia. I. Título II. Presidência da República. CDD aliança estrategica.indd 4 13/12/ :45:45

5 I Apresentação...9 I I O Brasil e a Ásia: perspectivas para o século XXI Embaixador Edmundo Fujita Ministério das Relações Exteriores I I I Índia: padrão de desenvolvimento, inserção internacional, convergências possíveis Professor Sebastião Velasco e Cruz Universidade Estadual de Campinas IV Relações entre Brasil e Índia como um fator decisivo para as relações internacionais do Brasil Professor Cláudio Lopes Preza Júnior Universidade Federal d o Rio Grande do Sul V Participação do debatedor Professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha Universidade de Brasília...,...45 VI Uma visão brasileira da China Professor Severino Bezerra Cabral Filho Escola Superior de Guerra VII China: relações com o Brasil Professor Wladimir Ventura Torres Pomar Universidade Cândido Mendes...67 VIII As relações Brasil-China na estratégia de inserção internacional da China Professor Henrique Altemani de Oliveira Pontifícia Universidade Católica de São Paulo IX O intercâmbio comercial Brasil-China Sumário Jornalista Carlos Tavares de Oliveira Confederação Nacional do Comércio aliança estrategica.indd 5 13/12/ :45:45

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7 APRESENTAÇÃO aliança estrategica.indd 7 13/12/ :46:02

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9 O Seminário Alianças Estratégicas para o Brasil: China e Índia, promovido pela Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais (Saei) do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR), ocorreu no dia 22 de junho de 2005, no Auditório do Anexo I do Palácio do Planalto, e teve como objetivo principal discutir parcerias estratégicas relevantes para o Brasil em relação à China e à Índia. O Encontro foi dividido em dois blocos: no primeiro, foram abordadas questões sobre as relações entre Brasil e Índia, e, no segundo, foram feitas exposições sobre as relações entre Brasil e China. Após as palestras do primeiro bloco, houve a participação do Professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, na qualidade de debatedor. O evento contou com a participação de representantes da Presidência da República, do Congresso Nacional, Ministérios, Forças Armadas, Universidades, Confederações de Indústrias, Empresas de Consultorias, Institutos, Embaixadas, além de outros interessados no tema. Os palestrantes foram: Embaixador Edmundo Fujita, Diretor do Departamento de Ásia e Oceania do Ministério das Relações Exteriores; Professor Sebastião Velasco e Cruz, da Universidade Estadual de Campinas; Professor Cláudio Lopes Preza Júnior, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Professor Severino Bezerra Cabral Filho, da Escola Superior de Guerra; Professor Wladimir Ventura Torres Pomar, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes; Professor Henrique Altemani de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e o Jornalista Carlos Tavares de Oliveira, da Confederação Nacional do Comércio. O General Jorge Armando Felix, Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, proferiu as palavras de abertura do 9 aliança estrategica.indd 9 13/12/ :46:02

10 Seminário. Segundo ele, há consenso no Governo a respeito da importância de se discutir parcerias estratégicas e o tema não suscita discórdias em qualquer ambiente que se proponha a estudar assuntos relevantes para o Brasil. O Continente Asiático tem se projetado para o mundo com realce e importância. A distância geográfica nada representa na inserção que os países dessa região têm buscado no mundo ocidental. A China, país de tradições e cultura milenares, desenvolve atividades comerciais, artesanato e fabricação de seda desde os anos 700 a.c; um século antes da era cristã, já desenvolvia o comércio transcontinental através da Rota da Seda, que ligava a China ao Mar Negro; anos antes da descoberta do Brasil, o país já utilizava escrita por ideogramas. A história da Índia remonta aos povos neolíticos nos vales dos rios Indo e Ganges, três mil anos antes de Cristo. A cultura e a religião védica dos arianos são introduzidas a partir de a.c. e a organização social passa a obedecer a um regime de castas, vigente até os dias atuais. No Seminário, foram discutidas questões atuais das novas China e Índia, que conhecemos a partir dos anos 80, bem como questões sobre a possível interação do Brasil com estes atores de destaque no âmbito internacional. 10 aliança estrategica.indd 10 13/12/ :46:03

11 O Brasil e a Ásia: perspectivas para o século XXI Embaixador Edmundo Fujita Ministério das Relações Exteriores aliança estrategica.indd 11 13/12/ :46:05

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13 Atualmente, a Ásia é uma das regiões mais dinâmicas do mundo, está crescendo cada vez mais, em ritmo acelerado, e está se tornando, praticamente, a nova locomotiva mundial. Tendo em vista este contexto, é importante que o Brasil tenha, cada vez mais, parcerias estratégicas com os países asiáticos, como, por exemplo, China e Índia (que são, inegavelmente, as duas grandes forças emergentes no cenário internacional), além da Coréia do Sul e de outros países do Sudeste asiático que formam a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean). A Ásia é uma região extremamente complexa, variada, com povos, culturas, religiões e etnias distintas e com histórias milenares. Entretanto, possui uma vocação de modernidade, e até de pósmodernidade, extremamente aguçada. Cabe mencionar que o Japão é, atualmente, a segunda maior potência econômica do mundo e que se encontra em fase de maturidade. Atualmente, o continente asiático concentra um terço do PIB (Produto Interno Bruto) mundial e, de 50% a 60% da população do planeta, ou seja, sua massa demográfica representa mais da metade da população mundial. O ritmo de crescimento da região é bem acima do ritmo registrado em outras áreas (cerca de 5,6%). A China está crescendo a um ritmo de 10%, enquanto a Índia e a Coréia a 7%. Alguns estudos afirmam que, por volta de 2050, pelo menos três países asiáticos estarão entre as grandes potências mundiais: China, Índia e Indonésia. Considerando o ritmo de desenvolvimento da região, é extremamente importante que o Brasil desenvolva alianças sólidas com esse continente e, em particular, com os países-eixo da região. O palestrante apresentou uma rápida descrição do atual panorama político-estratégico da Ásia. Além de abordar a situação da 13 aliança estrategica.indd 13 13/12/ :46:05

14 China e da Índia, destacou o Japão, outro importante ator estratégico, apoiado pelos Estados Unidos. Este último país sempre foi uma potência com grandes interesses na Ásia, especialmente na Orla do Pacífico (Ásia do Leste), onde teve uma presença estratégica importante, desde a época da antiga União Soviética. Sendo assim, o que se vê, hoje, é uma importante interação entre estes quatro atores (Estados Unidos, Japão, Índia e China). Com a crise provocada pelo 11 de setembro, entrou em cena, também, um fator estratégico adicional, que é a questão do terrorismo. O Paquistão, que antes ocupava uma posição marginal nesse cenário, passou a ter um papel importante, visto que este país foi a grande base de sustentação das forças dos Estados Unidos, bem como das forças aliadas, para o combate ao Talibã, no Afeganistão. Este fato fez com que, na equação daquela região, China e Índia também passassem a desempenhar papéis diferenciados. A Índia que, antes da crise do terrorismo (e mesmo antes dos testes nucleares de 1997), ocupava uma posição considerada antagônica à política externa americana, passou a ser considerada importante peça estratégica para a presença norte-americana na região. Atualmente, a Índia é considerada uma das grandes parceiras estratégicas dos Estados Unidos, inclusive com uma possível contraposição ao crescente poderio chinês na área. É sabido que a China, a Índia e o Paquistão sempre tiveram um relacionamento triangular complexo. Em se tratando da Índia, antigamente, este país era visto como sendo próximo à antiga União Soviética, fato este que levou os Estados Unidos a manterem certa distância. Atualmente, com a mudança da equação na região e com o retraimento da Rússia nesta área, a Índia passou a ter presença própria maior e mais importante. 14 aliança estrategica.indd 14 13/12/ :46:05

15 Há outros pontos de tensão, além do tradicional impasse entre a Índia e o Paquistão, como a questão das relações entre China e Taiwan, por exemplo, situação esta que continua ambígua. O Brasil reconhece Taiwan como parte da China e não como uma República independente. Porém, esta é uma questão interna chinesa que deve ser resolvida através de negociações. Mesmo assim, o País continua incentivando o diálogo entre os dois lados do Estreito de Taiwan. O terceiro ponto de tensão envolve a Península Coreana, último resquício da Guerra Fria. Atualmente, há negociações entre Coréia do Norte, Coréia do Sul, Japão, China, Estados Unidos e Rússia, a fim de que seja encontrada uma solução que satisfaça às diversas partes interessadas no encaminhamento pacífico da questão. Este é um território extremamente sensível; a Península Coreana é uma área axial daquela região, localizada próximo ao Japão e ao lado da China, além de estar perto da Rússia. Esta situação faz com que qualquer conflito tenha desdobramentos, significativamente negativos, para o resto da região e, em particular, para a Coréia do Sul. Uma grande catástrofe na Coréia do Norte resultaria em conseqüências desastrosas para a economia da Coréia do Sul. Por outro lado, uma atitude mais agressiva da parte Norte, sobretudo com o desenvolvimento de armas nucleares, poderia causar reações extremamente negativas ao Japão. Há um grande temor por parte de outros países da região, especialmente Coréia do Sul e China, de que o Japão, em uma reação, possa se tornar uma potência nuclear, o que seria igualmente complexo para a região. Desta maneira, é do interesse de todos os países daquela área o encaminhamento satisfatório da questão da Península Coreana. No que se refere à economia, a China está crescendo rapidamente e, com a economia japonesa em relativa estagnação, 15 aliança estrategica.indd 15 13/12/ :46:06

16 ela se tornou, praticamente, a locomotiva da economia asiática. A Índia vem se revelando, também, importante na área econômica e poderá vir a ser a segunda ou a terceira grande economia asiática nos próximos anos. Considerando a situação descrita, o Brasil está bem posicionado, visto que possui boas relações tanto com o Japão, como com a China e a Índia. Em se tratando do Japão, o Brasil tem relações tradicionais que datam de mais de 100 anos. Em 2008, será comemorado o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. O Japão, nos anos 70, chegou a ser o terceiro maior investidor no País, aplicando, significativamente, na indústria de base e na área agrícola, através de grandes projetos, tais como Carajás, Tubarão, Flonibra/Cenibra etc., projetos nos quais as empresas japonesas tiveram participação marcante. O projeto mais emblemático, e do qual os japoneses têm maior orgulho, é o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer), sem o qual Brasília, bem como toda a região do Planalto Central, ainda seria um grande deserto. Graças ao Prodecer, o Brasil se tornou o segundo maior produtor de soja e um grande exportador, o que transformou o cenário da agroeconomia mundial. Com a visita do Presidente Lula ao Japão e a do Primeiro-Ministro Koizumi ao Brasil, em 2004, foi reiniciado o período de dinamismo nas relações bilaterais, após uma fase de relativa paralisia devido às crises da dívida externa brasileira e da economia japonesa. No atual momento, ambos os países estão voltando a crescer, e renasce o interesse na re-dinamização das relações econômicas e comerciais bilaterais. No que se refere à China, este país se tornou o terceiro maior mercado comprador dos produtos brasileiros. O comércio está crescendo a um ritmo exponencial. O Brasil passou de cerca de um bilhão de dólares, em 1999 e 2000, para quase sete bilhões, no ano passado e, neste ano de 2005, o valor projetado é de dez bilhões de 16 aliança estrategica.indd 16 13/12/ :46:06

17 dólares. É visível o processo de crescimento das relações econômicas e comerciais bilaterais, não só nas áreas de comércio e de agronegócio, mas, também, nas de indústria e de tecnologia. Os chineses estão investindo no Brasil de forma bastante conspícua e o País, por sua vez, participa de importantes iniciativas na China, com a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica), a CVRD (Companhia Vale do Rio Doce), e a Petrobras (Petróleo Brasileiro), dentre outras. Este tipo de relacionamento tende a se adensar, cada vez mais, e a expectativa é de que a chamada parceria estratégica entre Brasil e China se consolide. O marco emblemático desse relacionamento é o projeto de satélite entre os dois países uma iniciativa sem precedentes entre países em desenvolvimento (o comum seria dois países avançados construírem este tipo de parceria). O fato de Brasil e China estarem cooperando em um projeto de tecnologia avançada, como a de satélites, evidencia as potencialidades deste relacionamento. Sobre as relações entre Índia e Brasil, tem havido um importante crescimento do relacionamento bilateral. Embora esses países convergissem no discurso e no posicionamento em fóruns multilaterais (no antigo Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio Gatt e, atualmente, na Organização Mundial do Comércio OMC), em termos de relacionamento direto havia muito pouco. Somente a partir dos anos 90, é que ambos os países passaram a possuir um entrosamento maior, começando pela área de fármacos e, agora, com trocas industriais e agrícolas e pesquisas conjuntas em energia, biocombustíveis, dentre outras. A parceria entre Brasil e Índia é muito importante, visto que, certamente, a Índia será uma das grandes potências neste século XXI e, da parte do Brasil (que, freqüentemente, tem sido indicado como um país emergente, com grande perspectiva de se tornar uma potência no hemisfério Ocidental) também há o interesse de criar elos com as grandes potências do hemisfério Oriental. 17 aliança estrategica.indd 17 13/12/ :46:06

18 Em um mundo globalizado como o de hoje, é fundamental que o Brasil possua uma visão estratégica, uma percepção muito clara dos seus interesses em relação à Ásia, que é a última grande fronteira onde o Brasil precisa se firmar, pois já está presente no Mercosul (Mercado Comum do Sul), na América do Norte, na Europa e na África. Com esta atitude, o Brasil completará o perfil não só de global trader, mas também de global actor, ou seja, será um país com presença marcante em todas as regiões do mundo. 18 aliança estrategica.indd 18 13/12/ :46:06

19 Índia: padrão de desenvolvimento, inserção internacional, convergências possíveis. Professor Sebastião Velasco e Cruz Universidade Estadual de Campinas aliança estrategica.indd 19 13/12/ :46:08

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21 O palestrante iniciou sua exposição discorrendo sobre as convergências entre Brasil e Índia, convergências que se apresentam e se manifestam de forma evidente no plano diplomático, isto é, no plano das relações multilaterais. Brasil e Índia têm posicionamentos comuns nos planos das negociações comerciais como, por exemplo, na Rodada de Doha (IV Conferência Ministerial da OMC, em 2001); além disso, ambos estiveram à frente do Grupo dos 20 (G-20), com participação e ação incisivas na Conferência de Cancun (2003). Participaram juntos, ainda, da Rodada Uruguai, na década de 80, liderando o conjunto dos países que resistiram à incorporação de temas como Serviços e Propriedade Intelectual e, anteriormente, na Rodada de Tóquio (década de 70). Em 1948, na Conferência de Havana, Brasil e Índia, juntamente com Austrália e Argentina, estiveram à frente do esforço para incorporar à Carta de Havana a Agenda de Desenvolvimento, o que resultou na frustração do grande projeto desta Carta, que era a constituição de uma Organização Internacional de Comércio. Atualmente, outra convergência em destaque na imprensa é o empenho comum de Brasil e Índia na reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), mais especificamente na ampliação do Conselho de Segurança. Em 1946, o Brasil chegou a ser cogitado como Membro Permanente desse Conselho e a Índia, que vivia os últimos momentos do seu processo de Independência, já manifestava o mesmo interesse. Dessa forma, fica claro que existem interesses comuns entre ambos os países, apesar da imensa diferença nas trajetórias históricas, nas manifestações culturais, na religião, enfim, em tudo o que os separa como países, para além da distância geográfica. Para compreender esta convergência é preciso mencionar que o Brasil e a Índia fazem parte de uma categoria de países que aparecem 21 aliança estrategica.indd 21 13/12/ :46:09

22 na literatura como grandes países da periferia do capitalismo ou grandes países semiperiféricos. Esta condição comum faz com que ambos, apesar das diferenças já mencionadas, enfrentem desafios similares que se desdobram em duas faces: a face problemática, relativa às questões que se interpelam e se interrogam e, por outro lado, a face das possibilidades contidas no desafio. Brasil e Índia, pela posição que ocupam no sistema internacional, são induzidos a se colocarem de forma análoga, em um conjunto de temas, independentemente da falta de interação entre eles. Dentre os pontos convergentes, destaca-se a questão dos padrões de desenvolvimento. Na segunda metade do século XX, Índia e Brasil passaram por um profundo processo de transformação econômica. São países que avançaram mais do que a maioria, ou como poucos, no processo de implantação de sistemas industriais complexos. Ambos os países realizaram isso por meio de uma ação propositada e dirigida a partir do Estado, que protegeu este sistema produtivo através de barreiras tarifárias e não-tarifárias. Além disso, o Estado estimulou a atividade econômica por meio de linhas preferenciais de créditos, dirigidas a setores selecionados, e implantou, ainda, segmentos importantes na indústria através de empresas públicas, explorando estes setores pela forma de monopólios estatais. Cabe, portanto, afirmar que Índia e Brasil são casos bastante famosos de Estados desenvolvimentistas. O Professor Sebastião Velasco assinalou, ainda, algumas diferenças que, sob esse pano de fundo comum, correspondem às divergências observadas nas trajetórias de ambos os países. Em primeiro lugar, cabe mencionar que o desenvolvimento, a política econômica e a política desenvolvimentista, na Índia, são marcados por um esforço autoconsciente, continuado e sistemático de planejamento que não possui similar no mundo, considerando os países externos ao 22 aliança estrategica.indd 22 13/12/ :46:09

23 antigo Bloco Socialista. O planejamento, na Índia, não foi como no Brasil, isto é, intermitente e parcial, antes, era constitutivo do projeto de construção nacional, formulado na primeira metade do século (principalmente entre 1930 e meados dos anos 40) pela liderança do Movimento Nacional indiano, que envolveu intelectuais e políticos, como Gandhi e Nehru, além da elite intelectual e empresarial indiana. A idéia era a de que o Estado deveria, conscientemente, transformar a economia, o que ocorreu por meio de um projeto implementado em 1944, mas que iria se materializar, somente, em 1956, com o segundo Plano Qüinqüenal de Desenvolvimento (atualmente, a Índia está no 10 Plano Qüinqüenal). No final dos anos 60, houve uma interrupção, porém a centralidade do planejamento econômico indiano é um elemento que distingue esse país. O segundo ponto divergente a ser mencionado diz respeito à prioridade, precocemente, atribuída à indústria pesada na Índia. Brasil e Índia cresceram à base de substituição de importação; a Índia, entretanto, apresenta certa peculiaridade. A transformação da indústria na Índia foi delegada a arquitetos como Nehru e Mahalanobis; este último, o grande pai do planejamento indiano. A meta não era realizar uma substituição fácil ou difícil, a implantação dos setores básicos, a indústria pesada, bens de capital etc. Influenciados e informados pelo êxito da planificação soviética, eles se dispuseram, desde o princípio, a implantar, como condição para o tipo de desenvolvimento industrial que pretendiam, a indústria pesada. Além disso, devido à escassez de recursos, tencionavam limitar o crescimento da indústria leve, produtora de bens de consumo duráveis e não-duráveis. Esta última questão está relacionada a um terceiro elemento discordante, responsável pela particularização da trajetória indiana, 23 aliança estrategica.indd 23 13/12/ :46:09

24 que é a decisão de estimular e proteger a indústria artesanal, caseira. A ênfase na preservação e no fomento desse setor está diretamente relacionada a características estruturais da economia. Houve época em que mais de 80% da população viviam nos campos e se alternavam no desenvolvimento de duas atividades sazonais, a agricultura e a indústria artesanal, que o imperativo político (através de uma das alas do Movimento Nacional indiano) desejava transformar em âncora da nova sociedade que buscava criar. É sabido que Gandhi (um dos responsáveis pela reconstrução nacional indiana) possuía uma atitude profundamente hostil à idéia da indústria capitalista. A idéia de preservar a pequena indústria, e, com isto, os empregos e a dignidade da maior parte da população que vivia nos campos, foi um imperativo, permanentemente, acentuado nos documentos de política econômica indiana que se traduziram em políticas curiosas para aqueles que têm contato com a Índia. Um exemplo dessa política curiosa é a instituição de reserva de mercado. No final dos anos 80, mais de 800 gêneros industriais eram reservados à pequena indústria, ou seja, havia barreiras institucionais à expansão da indústria capitalista nestes setores. A quarta particularidade que merece ser destacada é o papel limitado atribuído ao capital estrangeiro no desenvolvimento indiano. Na política econômica indiana de 1940 a 1948, na primeira resolução de política industrial, o capital estrangeiro foi tratado de formas diferentes, ora com desconfiança, de forma restritiva, ora de maneira mais simpática. Entretanto, o que prevaleceu foi a presença de dispositivos que buscavam, efetivamente, limitar o espaço do capital das empresas estrangeiras, entronizando o capital indiano como empresa pública, de um lado, e como capital privado nacional nas posições de liderança, de outro. 24 aliança estrategica.indd 24 13/12/ :46:09

25 Este conjunto de políticas se consolidou de forma mais plena, no final dos anos 60 e começo dos anos 70, por meio de legislações importantes como a Lei de Patentes indiana, que limitava, fortemente, as rendas das multinacionais, e a lei que impunha, inclusive às empresas internacionais já em operação no país, a diluição do seu controle acionário, permitindo-lhes um teto de 40% de participação. Trata-se, portanto, de uma economia que, neste particular, possui um padrão muito diferente do padrão industrial brasileiro. E isto se deve ao fato de a Índia, durante todo este período, ter sido um pólo relativamente fraco de atração de capital estrangeiro. O fluxo de investimento direto para a Índia foi sempre muito baixo, durante todo o século e, mesmo agora, quando as reformas econômicas já estão bastante avançadas e vêm sendo praticadas desde o início dos anos 90. Ainda no que se refere à economia indiana, cabe apontar três pontos principais: o primeiro deles está relacionado ao final dos anos 80, quando a Índia aparecia, entre todos os países e todas as economias fora do Bloco Socialista, como a mais insulada, autárquica e introvertida. A economia indiana não viveu os pesadelos que a sabedoria econômica convencional ameaça a todos que escapam, ou fogem da cartilha, embora não tenha deixado de conhecer problemas importantes no plano econômico, os quais alimentavam, desde o final dos anos 60, um forte debate entre os economistas indianos a respeito do caminho a ser seguido. Desde a sua Independência, a Índia manteve uma trajetória de crescimento baixa (sobretudo se comparada à dos países asiáticos), mas que não passou pelas oscilações bruscas que conhecemos na América Latina, e, particularmente no Brasil da década de aliança estrategica.indd 25 13/12/ :46:10

26 Também não conheceu recessões profundas. No entanto, com as reformas liberais da década de 90, proporcionou a sua economia um rápido crescimento, que já vinha se configurando desde a década de 80. O segundo ponto a ser salientado a respeito da economia indiana é que, felizmente, este país não possui a experiência da hiperinflação que se tornou um fardo para o Brasil. Apesar dos desequilíbrios, ela conseguiu manter sob controle seu processo inflacionário. Em terceiro lugar, cabe mencionar que a economia indiana escapou das grandes crises financeiras internacionais, enquanto o Brasil e a América Latina viviam a experiência amarga da recessão e do desemprego dos anos 80. Além disso, a Índia também passou, praticamente incólume, pelo vendaval que, no final dos anos 90, atingiu a Tailândia, a Indonésia, a Coréia, a Rússia e o Brasil. A economia indiana não conheceu estas crises por uma razão singela: apesar da globalização e de ser, hoje, uma economia muito mais integrada aos fluxos de comércio e de investimento do que foi no passado, ela não apostou na dívida externa como fator propulsor do seu desenvolvimento. Em se tratando da inserção internacional, as diferenças da Índia em relação ao Brasil são evidentes, basta olhar o mapa e levar em conta, por exemplo, o trauma da divisão, visto que o Paquistão não existia e a Índia era homogênea. A idéia em voga, até o fim, na liderança do Movimento Nacional indiano, era a de que o país fosse um Estado unificado. Entretanto, não foi dessa maneira que o processo ocorreu e este divórcio de comunidades que conviviam sob o Império inglês e, anteriormente, sob o Império Mogul, resultou em um conflito que se traduziu em conflito bélico (1965 e 1971) e que, até hoje, é atualizado, permanentemente, por rusgas e movimentos 26 aliança estrategica.indd 26 13/12/ :46:10

27 terroristas. Outra particularidade da Índia, no âmbito internacional, é que, a partir dos anos 60, ela e a China passaram por um período de tensas relações e chegaram, também, ao conflito militar. Após pequena contextualização a respeito da Índia, o palestrante apresentou algumas observações de caráter mais geral para reflexão acerca desse país. A primeira delas é a vocação universalista da política externa indiana. Desde o primeiro momento, quando o país ainda lutava para não se desintegrar, a liderança indiana interpelava o mundo, ou seja, se posicionava a respeito das grandes questões da humanidade. A segunda observação diz respeito ao imperativo da autonomia nacional. Após ter lutado mais de cem anos pela Independência, a idéia de subordinar-se ao ditame desta ou daquela grande potência não fazia sentido para os líderes do Estado Nacional em formação. Uma das expressões desta atitude é a política consistente de nãoalinhamento, que foi o grande vetor da política externa indiana nas décadas de 50 e 60 (a Índia foi o país fundador do Movimento dos Países Não-Alinhados). Outra manifestação indiana relevante foi a denúncia que fez, juntamente com o Brasil, desde o início, contra o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que seria discriminatório. O palestrante sugeriu alguns pontos para discussão como, por exemplo, a existência de uma relação entre o grau de autonomia que a Índia se permitiu e conseguiu sustentar no plano das relações internacionais, de um lado e, de outro, as características do desenvolvimento indiano, no passado, bem como as observadas no processo de reforma pelo qual sua economia passou na década de 90, quando houve a idéia de redirecionar e diminuir o intervencionismo estatal, abrir maior espaço ao setor privado e ceder a liderança do processo de desenvolvimento ao setor privado e nacional, 27 aliança estrategica.indd 27 13/12/ :46:10

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