INCIDÊNCIA DE LER/DORT EM FISIOTERAPEUTAS DOCENTES DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR EM TERESINA (PI)

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1 INCIDÊNCIA DE LER/DORT EM FISIOTERAPEUTAS DOCENTES DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR EM TERESINA (PI) Nayana Pinheiro Machado 1,2,3, Relândia Cristina Machado Reinaldo Ratts 4, Veruska Cronemberger Nogueira 1,2,3 Anne Shirley Meneses Costa 2,3,5, Marcelino Martins 1,2,6, Emilia Ângela Loschiavo Ansawa 7 1 Facid/Fisioterapia, R.Rio Poty, 2381, Horto Florestal, CEP , Teresina-PI, 2 Uespi/Facime, R. João Cabral, 2231, Pirajá, CEP , Teresina-PI, 3 Aluna do Programa de Doutorado em Engenharia Biomédica - Univap/IP&G, Av. Shishima Hifumi, 2911, Urbanova, CEP , São José dos Campos-SP, 4 Hospital Getulio Vargas/ Fisioterapia 5 Faculdade Santo Agostinho/Fisioterapia, Av Valter Alencar, 665, São Pedro, CEP , Teresina-PI 6 Aluno do Programa de Mestrado em Bioengenharia- Univap/IP&G, Av. Shishima Hifumi, 2911, Urbanova, CEP , São José dos Campos-SP 7 Orientadora / Univap/IP&G, Av. Shishima Hifumi, 2911, Urbanova, CEP , São José dos Campos-SP Resumo - A LER/DORT é uma síndrome patológica do sistema músculo-esquelético relacionada ao trabalho, que acomete de maneira insidiosa, principalmente os membros superiores, podendo estender-se a outros segmentos do corpo humano, dentre eles os membros inferiores e coluna vertebral A presente pesquisa teve por objetivo verificar a incidência de LER/DORT em fisioterapeutas docentes de uma Instituição de Ensino Superior da cidade de Teresina (PI) e que atuavam na prática fisioterapêutica regularmente. A amostra foi constituída por 23 profissionais, que responderam a um mapa de desconforto corporal e um questionário auto-aplicável, abordando dados pessoais, atividades profissionais, sintomatologia relacionada ao trabalho e conseqüências da sintomatologia. Os dados coletados receberam a análise estatística descritiva simples. O presente estudo evidenciou um elevado índice de LER/DORT em fisioterapeutas docentes (73,92%), predominância feminina, faixa etária até 40 anos. Diante dos resultados encontrados, faz-se necessária a elaboração e implantação de trabalhos preventivos voltados para amenizar a carga de trabalho e evitar agravos a saúde da população em questão. Palavras-chaves: LER/DORT; Fisioterapia; Incidência. Área do Conhecimento: Ciências da Saúde e Fisioterapia Introdução A LER/DORT, sendo uma síndrome patológica do sistema músculo-esquelético relacionada ao trabalho, apresenta uma etiologia complexa e multifatorial, caracterizando-se pela ocorrência de sintomas tais como dor, desconforto, sensação de peso, fadiga, podendo evoluir para uma incapacidade funcional temporária ou permanente (INSS, 2003). Atualmente, esta síndrome transformou-se em um dos grupos de doenças mais polêmicos e de difícil controle no Brasil e no mundo, tornando-se um sério problema de saúde pública e de economia, pois afeta trabalhadores das mais variadas áreas profissionais, podendo ser citados os digitadores, músicos, bancários, telefonistas, motoristas de ônibus, professores, profissionais da área de saúde, etc (CIARLINI et al, 2005). Segundo Romani (2001) os fisioterapeutas fazem parte da população de risco para o desenvolvimento de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho porque a fisioterapia é uma atividade que exige muito do sistema músculo-esquelético do profissional, devido à aplicação de força dinâmica e estática, movimentos repetitivos de membros superiores e manutenção de posturas estáticas, tornando-se 1

2 fatores de risco para o desenvolvimento de LER/DORT. A ocorrência acentuada desses distúrbios parece estar relacionada às cargas físicas e psíquicas às quais estes profissionais estão expostos no ambiente de trabalho (PERES, 2002). No entanto Pivetta et al (2005) afirmam que a maioria desses profissionais acometidos não reduzem ou não se afastam de suas atividades profissionais. Este estudo se propõe a verificar a incidência de LER/DORT em fisioterapeutas docentes de uma Instituição de Ensino Superior (IES), na cidade de Teresina (PI). Material e Métodos O projeto de pesquisa foi submetido à apreciação e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Integral Diferencial- Facid, sob o registro de nº 480/2008 e obedeceu as normas da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1996). Trata-se de uma pesquisa de campo, de natureza descritiva e transversal, do tipo estudo de casos, com abordagem quantitativa, envolvendo 23 fisioterapeutas docentes da Faculdade Integral Diferencial Facid, da cidade de Teresina PI, que participaram voluntariamente do estudo, após a sua assinatura no termo de consentimento livre e esclarecido. O processo de coleta de dados constituiu na entrega, aos participantes, de um questionário do tipo misto, com questões fechadas e abertas, abordando dados pessoais, atividades profissionais, sintomatologia relacionada ao trabalho e conseqüências da sintomatologia, e uma Escala de Avaliação de Desconforto Corporal, baseados no instrumento de avaliação da dissertação de mestrado da fisioterapeuta Celeide Pinto Aguiar Peres, no ano de 2002, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sendo que o mesmo ainda passou por um testepiloto realizado por 07 fisioterapeutas convidados, para verificar a necessidade de possíveis mudanças na sua estrutura, as quais não foram necessárias. Após o recolhimento do instrumento de coleta de dados, os dados obtidos foram processados e apresentados sob a forma de tabelas e gráficos, através do programa Microsoft Excel, seguidos de análise descritiva. Resultados Entre os 23 fisioterapeutas docentes da Facid que responderam ao estudo, houve uma predominância de indivíduos do sexo feminino (78,26%), casados (60,87%), e com uma faixa etária de até 40 anos com 69,56% dos entrevistados. A população estudada possuía pós-graduação lato sensu, especialistas em diferentes áreas da clínica fisioterapêutica, e a maioria (86,95%) dos participantes apresentam uma renda mensal acima de 07 salários mínimos, tendo o salário mínimo brasileiro como referência, com o valor de R$ 415,00 (Tabela 1). Tabela 1 - Perfil sócio-demográfico dos fisioterapeutas docentes da Facid. Teresina, Variável N % Sexo Masculino 05 21,74% Feminino 18 78,26% Faixa Etária Até 40 anos 16 69,56% 41 a 50 anos 04 17,39% Acima de 51 anos 03 13,05% Estado Civil Solteiros 08 34,78% Casados 14 60,87% Divorciados 01 4,35% Escolaridade Especialização % Renda Mensal 04 a 07 SM* 03 13,05% Acima de 07 SM* 20 86,95% *SM = Salário Mínimo=R$ 415,00 Dos docentes fisioterapeutas participantes 91,30% relataram que são educadores e fisioterapeutas diariamente e simultaneamente, ou seja, no dia em que atuam na área da educação, também atuam como fisioterapeutas, o que contribui para uma sobrecarga laboral. No entanto, a docência é menos danosa que a atuação fisioterapêutica, visto que apenas 30,44% destes docentes fisioterapeutas queixavam-se de dor na prática da docência, enquanto 73,92% dos fisioterapeutas docentes pesquisados já sofreram ou sofrem de um ou mais distúrbios que vieram a interferir na sua prática clínica (Tabela 2). Tabela 2 - Distúrbios musculoesqueléticos em docentes e fisioterapeutas. Teresina, Variável Freq. %n 2

3 Dor na prática docente Sim 07 30,44% Não 16 69,56% Dor na prática fisioterapêutica Sim 17 73,92% Não 06 26,08% Foi constatado também que os tipos de LER/DORT que mais acometem os fisioterapeutas docentes são as tendinites (41,18%), cervicalgia e lombalgia (35,30%), conforme Figura 1. E as regiões anatômicas que apresentaram uma predominância de distúrbios foram a coluna lombar (52,95%), coluna cervical (47,05%), punho e mão (29,41%) e ombro e/ou coluna dorsal (23,52%), justificando as regiões corporais mais utilizadas nas posturas e movimentos necessários à execução da prática fisioterapêutica.. Figura 1. Distribuição percentual das principais LER/DORT. Teresina, Separando a amostra por sexo, participaram 05 homens (21,74%) e 18 mulheres (78,26%). E verificou-se que, entre os 23 profissionais que apresentavam LER/DORT, as mulheres foram as mais afetadas (77,78%) em comparação aos fisioterapeutas do sexo masculino (60%). Em relação à distribuição dos casos de LER/DORT por faixa etária, verificou-se que os fisioterapeutas docentes acima de 51 anos não apresentaram estes distúrbios, valendo ressaltar que cerca de 60% dos profissionais pertencentes à faixa etária de até 40 anos apresentavam uma grande ocorrência desta síndrome, como também foi detectado os referidos distúrbios e em 100% dos que estavam com 41 a 50 anos de idade (Tabela 03). Tabela 03 - Distribuição de LER/DORT, conforme a faixa etária. Teresina, LER/DORT Faixa Etária (anos) Até a Total SIM NÃO Total Devido aos distúrbios, 41,18% dos profissionais alteraram seus hábitos no trabalho como prevenção de LER/DORT, introduzindo a prática de atividade física (29,41%) e o uso melhor da mecânica corporal (23,53%) no seu dia a dia, como também cerca de 17,65% evitam levantar peso, mudam de posição de trabalho e colocam intervalos durante a sua jornada laboral. Porém dentre estes profissionais que alteraram seus hábitos na rotina laboral, menos de 15% solicitam ajuda de outro fisioterapeuta, orientam técnicas de auto-atendimento, usam com maior frequência a termoeletroterapia, diminuíram o uso de técnicas manuais e realizam alongamentos. Estes últimos são, segundo Ciarlini et al (2005), de todas as medidas preventivas de LER/DORT, a que apresenta maior efetividade. Cerca de 58,82% dos fisioterapeutas docentes não realizaram alterações em sua rotina de trabalho em função de LER/DORT. Este é um número bastante expressivo, levando em conta que o fisioterapeuta é um profissional capacitado a desenvolver medidas preventivas em sua profissão, e a falta de aquecimento ou alongamento muscular antes do atendimento ao paciente proporciona um aumento de desconforto e lesões musculoesqueléticas. Discussão Os fisioterapeutas docentes da Facid representam uma população jovem (com até 40 anos), principalmente do sexo feminino. Este resultado é um pouco inferior aos obtidos nas pesquisas de Pivetta et al (2005) e de Ciarlini et al (2005), onde as amostras eram constituídas de 81,4% e 88% de indivíduos do sexo feminino e masculino, respectivamente. Já a pesquisa em questão obteve resultados superiores aos de Romani (2001) que a sua amostra apresentava 69,5% de mulheres e 50,8% dos indivíduos na faixa etária até 40 anos. Embora não seja uma profissão tipicamente feminina, essa predominância é confirmada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. A alta taxa de distúrbios musculoesqueléticos (LER/DORT) encontrada é inferior aos 90,7% e 51% dos fisioterapeutas pertencentes à amostra das pesquisas de Pivetta et al (2005) e Ciarlini et al (2005) com queixas de algum distúrbio musculoesquelético, respectivamente. Porém, é 3

4 superior ao resultado de Romani (2001), que observou que 62,5% dos indivíduos participantes foram acometidos por um ou mais distúrbios. Os tipos de LER/DORT que mais acometeram os profissionais deste estudo também foram mencionados por Ciarlini et al (2005), onde as tendinites apareceram em 44,4% dos casos, em sua pesquisa, enquanto Peres (2002) observou que 50% dos fisioterapeutas do seu estudo referiam cervicalgia. As tendinites podem surgir devido aos movimentos repetitivos dos MMSS e uso de técnicas manuais; já a cervicalgia e a lombalgia podem estar relacionadas com a postura estática e/ou sustentação de peso em posição de pé por longos períodos, executados na atividade profissional dos fisioterapeutas. Em relação à distribuição de LER/DORT conforme o sexo, os resultados deste estudo foram semelhantes aos de Pivetta et al (2005), que encontraram 91,43% de indivíduos do sexo feminino com os referidos distúrbios, e aos do estudo de Ciarlini et al (2005), onde 88% das mulheres apresentavam estas disfunções. Tais resultados confirmam as observações encontradas na literatura, onde mostram a maior suscetibilidade da mulher aos fatores causais dessa síndrome. De acordo com a distribuição de LER/DORT, conforme a faixa etária é possível presumir que os profissionais fisioterapeutas possuam uma carga de trabalho excessiva, juntamente com despreparo físico, não realizando atividades preventivas e, assim colocando a sua saúde em risco. A grande tendência de não realizar alterações em sua rotina de trabalho não se apresentou somente nos fisioterapeutas desta pesquisa, pois Romani (2001) identificou em seu estudo que cerca de 38,75% dos fisioterapeutas não modificaram sua rotina de trabalho, apresentando um grande risco para agravar o distúrbio atual ou para o surgimento de novos distúrbios. Apesar da grande incidência de LER/DORT encontrada nos fisioterapeutas docentes desta pesquisa, 82,35% dos indivíduos acometidos não pensavam em mudar de trabalho ou área de atuação por causa do aparecimento do distúrbio. Conclusão Após os resultados obtidos, conclui-se que as LER/DORT fazem parte da realidade dos fisioterapeutas docentes de uma Instituição de Ensino superior em Teresina (PI), onde apresentaram distúrbios que vieram a interferir na sua prática clínica. O trabalho do fisioterapeuta é realizado, principalmente, de forma manual e individual, onde há a execução de movimentos e posturas que exigem uma maior carga postural dos mesmos. E esses movimentos e posturas, dependendo de sua freqüência, duração e intensidade, são considerados fatores de risco para a ocorrência de LER/DORT em fisioterapeutas docentes, sendo de extrema importância as alterações de hábitos na atividade laboral e a adoção de medidas preventivas, tais como a realização de alongamentos e pausas durante o trabalho, melhoria da biomecânica corporal, uso de mobiliários ajustáveis, etc. Além disso, torna-se cada vez mais evidente que o fisioterapeuta, atuando como docente, deve conscientizar os estudantes de Fisioterapia sobre a importância da utilização adequada da biomecânica corporal desde o início da vida acadêmica, pois, embora o fisioterapeuta tenha a função de promover a saúde, não pode esquecer de preservar a sua. Referências CIARLINI, I. A. et al. Lesões por Esforços Repetitivos em Fisioterapeutas. Revista Brasileira em Promoção da Saúde Universidade de Fortaleza, v.18, INSS Instituto Nacional de Seguro Social. Norma técnica de avaliação de incapacidade para fins previdenciários. MPAS/INSS, Brasília, PERES, C.P.A. Estudo das sobrecargas posturais em fisioterapeutas: uma abordagem biomecânica. Florianópolis, Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção Universidade Federal de Santa Catarina. PIVETTA, A.D et al. Prevalência de Distúrbios Osteomusculares relacionados ao trabalho em Fisioterapeutas. Revista Digital. Buenos Aires, 10ªed,nº80,2005. Disponível no site < >, acesso em: 10 mai Ministério da Saúde. Resolução nº196/96 do Conselho Nacional de Saúde-CNS. Dispõe sobre as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, Brasília (Out, 1996). Disponível em: URL: 4

5 ROMANI, J.C.P. Distúrbios músculos-esqueléticos em fisioterapeutas: incidência, causas e alterações na rotina de trabalho. Florianópolis, Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção Universidade Federal de Santa Catarina. 5

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