A DANÇA NA VISÃO DE PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA DAS ESCOLAS DE PONTA GROSSA-PR

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1 A DANÇA NA VISÃO DE PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA DAS ESCOLAS DE PONTA GROSSA-PR 1 CAPRI, Fabíola Schiebelbein UEPG 2 FINCK, Sílvia Christina Madrid UEPG Área Temática: Formação de Professores e Profissionalização Docente Agência Financiadora: Não contou com financiamento Resumo Considerando a dança como conteúdo da disciplina de Educação Física Escolar (EFE) e uma das manifestações da cultura corporal de movimento, pretendemos reconhecer qual o espaço que a dança ocupa nas aulas de Educação Física (EF) nas Escolas Municipais de Ponta Grossa - PR. Para tanto o objetivo desta pesquisa é analisar a dança no contexto da EF em escolas municipais e particulares do município. Uma pesquisa de natureza qualitativa, cuja coleta de dados se obteve através da aplicação de questionário com perguntas abertas e fechadas e os resultados analisados através da análise de conteúdo. Teve como amostra seis (06) professores participantes da pesquisa, sendo três (03) do sexo feminino e três (03) do sexo masculino, todos atuantes no Ensino Fundamental. Após a análise pudemos verificar que a dança está sendo negligenciada nas aulas de EF e vem sendo trabalhada em algumas escolas particulares somente como ensaios para apresentações em datas comemorativas, pudemos também perceber que as aulas de EF têm dado muita ênfase para as atividades esportivas e que a falta de formação continuada dos professores colabora para a negligência deste conteúdo no contexto da EFE. Palavras Chaves: Dança; Educação Física; Escola. Introdução 1 Formada em licenciatura em Educação Física pela UNIVILLE, mestranda em Educação na UEPG, formada em ballet clássico pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, docente na disciplina de Metodologia das Atividades Rítmicas e Expressivas do curso de Licenciatura em Educação Física na Faculdade Sant ana e pesquisadora do grupo de estudos e pesquisas em Educação Física escolar e formação de professores (GEPEFE / UEPG / CNPQ). 2 Doutora na área de Ciência da Atividade Física e do Esporte pela Universidade de León, docente no programa de pós- graduação mestrado em Educação da UEPG, docente no curso de licenciatura em Educação Física da UEPG e pesquisadora do grupo de estudos e pesquisas em Educação Física escolar e formação de professores (GEPEFE / UEPG / CNPQ).

2 6986 O homem, ser social e religioso, sempre sentiu a necessidade de se comunicar com seus pares e com os poderes sobrenaturais. Sendo assim, antes de dominar a linguagem, o meio para comunicar notícias, idéias e sentimentos foi o próprio corpo. A dança é fruto da expressão do homem que através da pantomima e da mímica mais primitiva, iniciou o processo de comunicação com seus semelhantes, com a natureza e com as divindades. (NANNI, 2001). Portanto os primeiros movimentos corporais passaram a ter significados importantes que se transformaram em ritos ancestrais atrelados às crenças e à religiosidade dos povos e tribos mais antigas. Segundo Mendes (1987), os primeiros registros que se tem sobre dança datam do período paleolítico superior, onde o homem tinha como preocupação principal a caça, o cultivo de alimentos e a luta pela sobrevivência. Assim a dança passa a imitar, o trovão, evoca os ventos, na dança imita as fases da lua, imita os animais a fim de atraí-los ao perímetro de tiro, baseado na idéia de que semelhante atrai semelhante. (OSSONA, 1998). Como uma das mais antigas formas de expressão artística, a dança cumpriu papel respeitável no desenvolvimento das civilizações, algumas vezes como instrumento de crenças míticas e mágicas, outras como expressão dos costumes, saberes e preocupações de determinadas sociedades e por fim, como forma de diversão para os mais variados tipos de indivíduos e classes sociais. Com o passar dos tempos, aos poucos, a dança foi se desligando da significação ritualística e religiosa primitiva para desempenhar papel lúdico e estético, aprimorada nas diversas sociedades como manifestação coletiva, de caráter festivo, expressivo, popular e folclórico, possuindo também um vértice para ações estéticas, artísticas e teatrais como o ballet que conseguiu diferenciar claramente as ações entre bailarinos e expectadores. (MENDES, 1987). No século IV, a dança passa a ser rejeitada na sociedade, condenada pela igreja católica, com severos castigos anunciados àqueles que ousasse dançar. Mesmo assim, muitos povos permanecem a dançar como forma de suas manifestações cotidianas, como era o caso dos camponeses, que dançavam em rituais festivos e por isso, eram considerados pagãos (PORTINARI, 1989). Na Idade Média percebe-se que a dança ainda possui escasso campo de reconhecimento como manifestação ritualística social, permanecendo em clima de proibições eclesiásticas e instabilidades, permitia - se dançar apenas as formas que se relacionassem aos cultos religiosos. (NANNI, 1995).

3 6987 A dança não é apenas um resultado artístico e religioso das progressivas mudanças históricas das mais diversas civilizações, ela deve ser entendida como identidade cultural e expressiva de cada povo, que permite ao homem afirmar-se como membro de uma sociedade. "As danças, em todas as épocas da história e/ou espaço geográfico, para todos os povos é representação de suas manifestações, de seus 'estados de espírito', permeios de emoções, de expressão e comunicação do ser e de suas características culturais." (NANNI, 2001 p. 7). A dança acompanhou o processo constante das mudanças históricas da civilização, é um patrimônio cultural herdado que não se limitou em repetir formas tradicionais e acadêmicas, ousou, explorou formas, contatos, padrões e movimentos que permitiu a esta forma de expressão não verbal, corporal, artística e cultural a não estagnação transformandose de acordo com as idéias e necessidades de cada tempo e lugar, incorporando novas técnicas, novas possibilidades, novos ritmos, novos visuais, novas expressões e diversas linguagens. (MENDES, 1987). Linguagens estas, que podem e devem ser desenvolvidas e exploradas na escola, especificamente nas aulas de Educação Física. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN s) de Educação Física, trazem no bloco de conteúdos Atividades Rítmicas e Expressivas, entendido como sendo as manifestações da cultura corporal que têm como características comuns a finalidade de expressão e comunicação a partir dos gestos e a presença de estímulos sonoros como identificador para o movimento corporal, que são danças e brincadeiras cantadas (BRASIL, 2000). Os PCN s também afirmam que no Brasil existe uma riqueza muito grande de manifestações rítmicas e expressivas, aqui pulsa o samba, o bumba-meu-boi, o maracatu, o frevo, o afoxé, a catira, o baião, o xote, o xaxado entre muitas outras manifestações (BRASIL, 2000). Ora, se o Brasil é país dançante por que a dança não é evidenciada em aulas de Educação Física na escola, por que a dança deve ficar na informalidade dos trios elétricos e programas de auditório? (MARQUES, 1997). A dança na escola, articulada as aulas de Educação Física tem um papel fundamental que visa o desenvolvimento geral do aluno. A inclusão e permanência da dança das aulas de Educação Física Escolar e a sua efetiva prática enquanto processo educacional favorece adequado desenvolvimento corporal, educação do senso rítmico, expressão não verbal, desenvolvimento humano e formação integral do educando; não se resumindo apenas em

4 6988 aquisições de habilidades motoras, mas também contribuindo para o desenvolvimento social, expressivo, afetivo e cognitivo. Para Marques (1997, p.21) a escola é um lugar privilegiado para se aprender dança com qualidade profundidade, compromisso, amplitude e responsabilidade, para que isto aconteça e, enquanto ela existir a dança não poderá mais continuar sendo sinônimo de festinhas de fim de ano. Porém, o que se percebe é que a dança na escola é negligenciada, e quando acontece ela é mascarada como ensaios coreográficos para apresentações em datas comemorativas. Rangel (2002) afirma que a dança é uma área pouco utilizada na Educação Física: É certo que a pouca utilização desta atividade em propostas escolares, pode ser um reflexo de sua situação nos cursos de graduação em Educação Física (licenciatura), da visão que os graduandos têm a respeito da dança e, conseqüentemente, do enfoque que a mesma tem recebido, além da falta da licenciatura em cursos superiores de dança. (RANGEL 2002, p. 61). Bérjat apud Garaudy (1980) evidencia que para a criança é tão importante dançar quanto falar, contar ou aprender geografia. É fundamental para a criança que nasce dançando, não desaprender essa linguagem pela influência de uma educação repressiva e frustrante (...) A escola deveria instrumentalizar e construir o conhecimento de dança, pois ela é um elemento fundamental para a educação do ser social. (MARQUES, 1997). Para tanto o conhecimento da dança amplia os conhecimentos do aluno e possibilita que o mesmo se torne um ser dinâmico, criativo e autônomo; entretanto para que o conhecimento de dança seja desenvolvido de maneira satisfatória na escola, é necessário que o professor esteja preparado para tornar o conteúdo significativo para a criança, caso contrário o desenvolvimento da dança na escola passará a ser mera cópia de coreografias já prontas sem nenhum significado, fato que não acarreta quase nada a educação da criança. O professor ao exercer sua função responde a desafios, pois o sistema educacional e o alunado estão em constantes transformações e independente do conteúdo lecionado sua função é de formador, por isso sua formação deve ser contínua e integrada às mudanças de cunho escolar e social. Muitas vezes a formação inicial não fornece subsídios suficientes para a atuação profissional, e em se tratando do conteúdo de dança na Educação Física, percebe-se uma lacuna bastante grande no desenvolvimento do mesmo, porém cabe ao professor buscar constantemente o aperfeiçoamento e as atualizações em sua área, para que possa suprir as

5 6989 lacunas deixadas do processo de formação inicial. Ao ensinar a dança como parte criativa de uma ação significativa no processo de aprendizado e desenvolvimento da criança, o professor estará lhe possibilitando a capacidade de criar corporalmente e intelectualmente, buscando assim o desenvolvimento do educando como um todo. Expressão, sentimentos, movimentos, musicalidade, ritmo, linguagem não verbal são conexões necessárias atreladas ao movimento corporal, que constituem a dança; porém, o que se percebe além da falta de preparo nos bancos universitários para atuação com conteúdos rítmicos expressivos, é a falta de conhecimento individual como ser-humano que sente, pensa e se expressa além do gesto técnico e linguagem verbal. A dança é um conhecimento pouco estimulado na escola, será que o educador do físico se permite fazer uso de propostas mais prazerosas, menos hostis, mais reflexivas, menos performáticas e mecanicistas? Sob essa concepção, esta pesquisa está permeada pelas seguintes questões: Como a dança está presente, enquanto conhecimento, nas escolas municipais da cidade de Ponta Grossa - PR? Qual o espaço que a dança ocupa, enquanto conhecimento, nas aulas de Educação Física? Como a dança é tratada pedagogicamente pelos professores de Educação Física, nas aulas das séries iniciais do ensino fundamental, nas escolas municipais da cidade de Ponta Grossa - PR? Para o desenvolvimento da pesquisa selecionamos os seguintes objetivos: a) Analisar a dança, enquanto conhecimento, no contexto das aulas de Educação Física nas escolas municipais da cidade de Ponta grossa PR; b) Analisar qual o encaminhamento metodológico utilizado pelo professor (a) para o desenvolvimento da dança nas aulas de Educação Física nas escolas municipais da cidade de Ponta Grossa - PR; b) Verificar a aceitação da dança, pelos professores e alunos, enquanto conhecimento a ser tratado nas aulas de Educação Física; c) Verificar qual a representação social que os alunos de diferentes escolas/colégios têm de dança. Metodologia A metodologia empregada é a de pesquisa de campo, a abordagem do estudo é qualitativa, com características descritivas e a utilização da análise de conteúdos. Os instrumentos usados para a coleta dos dados foram: as fichas de observações das aulas, a entrevista, os questionários, e a análise de documentos.

6 6990 Através da abordagem qualitativa de pesquisa em ciências sociais, busca-se compreender detalhadamente os significados e situações da realidade da dança na escola, especificamente nas aulas de Educação Física, representada na fala dos professores e escolares. A abordagem qualitativa é uma forma adequada de compreender o fenômeno social pesquisado, procura dar respostas aos aspectos da realidade que não podem ser quantificados. Trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes. (LÜDKE E ANDRÉ 1986, p. 20). A opção metodológica inclui a análise de conteúdos que é entendida como um procedimento de pesquisa que se situa em um delineamento mais amplo da teoria da comunicação e tem como ponto de partida a mensagem (FRANCO, 2007, p.23), permitindo ao pesquisador deduzir sobre qualquer elemento da comunicação, porém deve admitir que as descobertas possuam relevância teórica. Universo da pesquisa e Seleção O município de Ponta Grossa - PR tem cento e uma (101) escolas de ensino fundamental com turmas de séries iniciais sendo, oitenta e três (83) escolas públicas municipais e dezoito (18) escolas particulares. Esta pesquisa foi realizada em três (03) escolas públicas municipais (M1, M2, M3) e duas (02) escolas particulares (P1, P2), no ensino fundamental, especificamente na 4ª série, que corresponde ao grupo de alunos que encontramse na faixa etária entre 9 e 10 anos. A opção por esta faixa etária justifica-se pelo fato de acreditarmos, de acordo com a nossa vivência enquanto educadora, que as crianças com essa idade já possuem experiências significativas com a prática da Educação Física na escola, sendo assim conseguem relatar suas experiências com mais eficácia, também optamos por estas séries considerando o trabalho do professor e a hipótese de que o conteúdo de dança pode ter uma maior representatividade no plano de ensino. O único critério para a escolha das escolas participantes da pesquisa foi a aceitação do professor em participar e consentir a presença do pesquisador observando suas aulas. Entramos em contado com a direção dos colégios e das escolas municipais e também com os professores de Educação Física e três (03) colégios da rede particular de ensino houve concordância em participar da pesquisa; destes três colégios a opção foi dois (02) que tem duas (02) turmas de 4ª série e ficam localizados em bairros diferentes e distantes um do outro,

7 6991 assim buscamos abranger um maior número de realidades sociais, pois acreditamos que talvez existam diferenças na concepção de dança entre os alunos e professores de uma escola para outra. Dentre as escolas municipais o critério para escolha das escolas se deu pela situação da escolar contar com o trabalho do professor de Educação Física no 2º ano do 2º ciclo, pois são poucas as escolas municipais que possuem aulas de Educação Física, deixamos para descrever esta situação nas análises e discussões. A priori entramos em contato com as escolas e descobrimos quais os professores de Educação Física estavam atuando, quais aceitavam a pesquisa e o pesquisador observando as aulas, para tanto optou-se por duas (02) escolas cujo número de turmas eram maiores, abrangendo uma quantidade significativa de alunos e também por estarem localizadas em diferentes bairros, distantes um do outro. Então nossa amostra foi composta por seis (06) professores, sendo três (03) do sexo feminino e três (03) do sexo masculino. Quatro professores atuantes na rede particular, (sendo um (01) professor e três (03) professoras); e dois (02) professores atuantes na rede pública. Não houve critério para esta situação, pois determinamos somente as escolas, aquelas que aceitaram receber a pesquisadora em seu cotidiano, não sabendo a priori se ali atuavam professores ou professoras. Procedimentos e Instrumentos de Coleta de Dados Em uma primeira etapa, no período de setembro a novembro de 2008, acompanhamos as aulas de Educação Física nas escolas participantes da pesquisa, durante o acompanhamento das aulas buscamos estar atentos aos seguintes aspectos: caracterização do espaço escolar; se as aulas eram propostas para turmas divididas em feminina e masculina ou para turmas mistas; se a faixa etária era homogênea ou heterogênea; o número de aulas semanais; a carga horária de cada aula; o número de alunos matriculados em cada turma; o número de praticantes em cada aula observada; os conteúdos predominantes em cada aula; a metodologia utilizada pelos professores no desenvolvimento das aulas; aspectos predominantes relacionados à competição e a ludicidade; a relação professor x aluno; e o interesse dos alunos durante as aulas. Em uma segunda etapa, no mês de dezembro de 2008 aplicamos um questionário para os professores que atuam nas escolas participantes da pesquisa. Análise e Discussões

8 6992 Em decorrência das análises pudemos apontar como resultados da pesquisa as seguintes situações. Para a escolha das escolas municipais não houve a priori um critério de escolha, pois na tentativa de descobrir as escolas municipais que o havia professor de Educação Física atuando, visto que tal informação não foi dada pela secretaria municipal de educação sob nenhuma hipótese, nos deparamos com uma realidade bastante alarmante. Neste trabalho apenas vamos descrever as situações que encontramos, pois não cabe aqui discutirmos as situações de políticas públicas. Das oitenta e três (83) escolas municipais apenas vinte (20) escolas teriam professor de Educação Física atuando junto aos alunos; ao entrarmos em contato com estas escolas municipais, pessoalmente e por sucessivos telefonemas, descobrimos que a realidade era ainda mais grave. Destas vinte escolas que nos informaram ter professor de Educação Física, quatro (04) escolas os professores estavam afastados de suas atividades por motivo de saúde, dez (10) professores trabalham no ano de 2008 apenas com o 1º ciclo de ensino, ou seja, 1ª e 2ª série, faixa etária não condizente com esta pesquisa e apenas seis (06) professores atuavam com o 2º ciclo (3ª e 4ª série). Ao entrarmos em contado com as seis (06) escolas cujo professor estava atuando no ensino de 4ª série tivemos três surpreendentes situações: duas das escolas nos informaram que nossa pesquisa não seria possível ser realizada com os alunos e professore que ali atuava, pois o objetivo principal do trabalho no segundo semestre era com o esporte, as aulas visavam o treinamento para competição entre as escolas municipais o JEEM (Jogos Estudantis da Escolas Municipais). Em uma terceira escola o professor pediu para que voltássemos no mês de outubro para que ele pudesse se preparar para trabalhar algo relacionado com os conteúdos de dança para atingir os objetivos desta pesquisa. Porém, nossa pesquisa não visava que o professor, a partir do nosso interesse realizasse em suas aulas propostas com dança, também observar apenas um mês de aulas na escola não seria o ideal para verificar o cotidiano escolar. Deste universo de escolas municipais nos restaram apenas três (03) escolas, destas três optamos por duas (02) escolas cujo números de turmas de 4ª série era maior. A escola (M1) possuía quatro (04) turmas de 4ª série e na escola (M2) três (03) turmas de 4ª série, abrangendo assim uma quantidade bastante significativa de estudantes. Com a observação nas aulas e a participação no contexto escolar, pudemos perceber que em todas as escolas as turmas eram compostas por crianças com faixa-etária entre nove

9 6993 (09) e dez (10) anos, sendo que nas duas escolas municipais as aulas de Educação Física são mistas e nos colégios particulares as turmas de Educação Física são divididas em masculinas e femininas com conteúdos diferenciados para meninos e meninas. Nas escolas municipais todas as turmas têm duas (02) aulas de Educação Física por semana com 40 min. cada aula. Em um dos colégios particulares participantes da pesquisa (P1), cada turma possui duas aulas de Educação Física por semana com duração de 45 min. cada aula. E no colégio particular (P2), a disciplina de Educação Física possui apenas uma aula na semana com duração de 40 min.; sendo que no horário da aula de Educação Física são unidas duas turmas de 4ª série. Na junção das turmas A e B de 4ª série, totaliza-se uma média de 53 alunos na aula de Educação Física, então as professoras dividem esse total de alunos em uma turma masculina com média de 27 alunos e uma turma feminina com média de 26 alunas. Com estas realidades nos colégios particulares, pudemos verificar que existe uma segmentação nas aulas de Educação Física, pois quando se separa a turma por sexo pode-se reafirmar a situação histórica da Educação Física no Brasil onde a diferença biológica entre os sexos oculta relações de poder, distintas pelo predomínio masculino, que conservaram a divisão entre homens e mulheres, mesmo após a concepção da escola com turmas mista, enfatizando que meninos e meninas são diferentes e devem ser tratados de formas diferente nas aulas de Educação Física. Entretanto meninos e meninas são tratados como iguais em outras disciplinas, não existem diferenciações entre os conteúdos trabalhados em matemática, português, história etc. Por que nas aulas de Educação Física meninos e meninas devem ser separados e realizar atividades e conteúdos diferenciados? A partir desta situação podemos questionar a situação sexista que ainda hoje aparece na realidade da Educação Física Escolar. A questão de gênero atualmente é uma discussão muito importante no contexto escolar, e deve ser enfatizada também nas aulas de Educação Física. Será que em pleno século XXI é aceitável a discriminação e separação de atividades físicas e modalidades esportivas de acordo com o sexo do aluno? Kunz et al. (1998, p. 27) menciona esta discussão assegurando que a educação física, tradicionalmente, encontrou ( e isso ocorre ainda hoje) uma separação de práticas/vivências entre os sexos opostos, que se estabeleceu baseada no preconceito da desigualdade, e mais do que tudo, no da inferioridade feminina. Isto quer dizer que, quando uma diferença entre os sexos justifica a (não) participação/ vivências de um outro sexo em vivências de movimento que lhes proporcionam descoberta de potencial, estabelece-se, como sempre foi reivindicado pelos professores, ou por preconceito, ou por

10 6994 incapacidade de lidar com as diferenças de sexo e/ou de gênero. (KUNZ et al, 1998, p. 27). Precisamos estar atentos a estas questões no ambiente escolar, pois são temas emergentes na sociedade contemporânea. Divisão de turmas e de conteúdos da Educação Física para meninos e meninas não é um fato aceitável nos dias de hoje, pois quais são as vantagens destas divisões se em todo o processo escolar e social restante da vida dos educandos, homens e mulheres estarão juntos? A Educação Física deve educar não só o físico e para o gesto técnico, deve educar para a formação do cidadão que entende e respeita a diversidade social, que respeita as escolhas sejam de modalidades esportivas ou de relações humanas. Porém, para a educação de valores também é preciso que o professor esteja se despindo dos seus preconceitos sociais é preciso atitude, e por que esta atitude não inicia com o trabalho de dança nas aulas de Educação Física para turmas mistas? Futebol para os meninos e dança para as meninas faz parte de ações docentes ultrapassadas e descontextualizadas da realidade social. Pudemos também observar que as aulas de Educação Física ainda não são legitimizadas nas escolas de Ponta Grossa, pois apesar de ser uma disciplina escolar obrigatória (artigo 26, parágrafo 3º da LDB) constatamos que a Educação Física não possui o mesmo valor que outras disciplinas do currículo escolar; pois em muitas escolas a disciplina possui apenas uma aula semanal, com número demasiado de alunos, impossibilitando a realização de um trabalho significativo. Bracht (2003) em seus estudos sobre a legitimidade da Educação Física, argumenta as várias faces que poderiam justificar o espaço (ou a falta dele) e a presença da disciplina no currículo escolar. Mas afinal, educação física para quê? Tentando responder a esta pergunta, muitas vezes nos deparamos com argumentações talvez sem muita reflexão, que tentam justificar o espaço que a Educação Física ocupa dentro da escola. Esta é uma indagação que todos os profissionais da área poderiam neste momento tentar responder, repensando suas ações pedagógicas e idealizando-as em transformar ações pedagógicas para as aulas de Educação Física. Outra situação que pudemos averiguar com as observações, foi em relação a aceitação dos alunos para com as aulas de Educação Física, a participação em todos os colégios/escolas é de quase 100%, os alunos demonstram muita satisfação e entusiasmo nas aulas, espírito de companheirismo, grande amizade e respeito pelo professor e colegas. Observamos que a única

11 6995 situação que leva os alunos a não participarem das aulas de Educação Física é quando estão acometidos de alguma enfermidade. Notamos também que os professores só não permitem que os escolares participem das aulas quando não estão adequadamente uniformizados para a prática de exercícios físicos (calça jeens, chinelos, sandálias ou sapatos; mesmo nas escolas municipais já que o governo municipal padronizou e ofereceu uniforme a todos os estudantes). Outro ponto que é importante ressaltarmos é o domínio e utilização de conteúdos esportivos e recreativos nas aulas de Educação Física por todos os professores participantes da pesquisa. Podemos dizer que estas situações ainda persistem nas aulas devido, em parte às condições dos cursos superiores, como bem aponta o autor abaixo: nos cursos superiores, os discentes receberam os ensinamentos fragmentados, numa visão da pedagogia positivista [...]. As licenciaturas não garantiam a visão do homem que se movimenta intencionalmente em situação de jogo, de esporte, de dança, de ginástica ou de lazer, nem garantiam o status de disciplina acadêmica para a atividade Educação Física. (MOREIRA, 1992, p. 203). Em apenas um dos colégios particulares (P1) pudemos presenciar o desenvolvimento do conteúdo de dança nas aulas de Educação Física; o desenvolvimento deste se deu nos meses de outubro e novembro, devido ao encerramento do ano letivo com um evento que existe a mais de quinze (15) anos no calendário deste colégio. Este festival de dança conta com a participação dos alunos da educação infantil e das séries iniciais do ensino fundamental, e cabe ao professor de Educação Física e professores regentes das turmas elaborarem uma coreografia com os alunos, que é desenvolvida seguindo um grande tema, os ensaios acontecem nas aulas de Educação Física e a participação dos alunos não é obrigatória, dançam àqueles que os pais autorizarem (visto que para a apresentação é necessário confeccionar um figurino especial) e/ou a criança que sente vontade de participar. Nas observações dos ensaios das 4ª séries A e B notamos que os alunos, meninos e meninas, se sentiam muito a vontade, pois participavam alegremente e até contribuíam com idéias coreográficas para o professor, se visualizavam no palco, no evento, criando situações, discutindo sobre a música, sobre o tema, passos e figuras coreográficas; entretanto os alunos não autorizados pelos pais ou que não se sentiram entusiasmados a participar, ficam sentados nas laterais da quadra esportiva sem nenhuma atividade especial, devem permanecer quietos, imóveis para não atrapalhar o andamento da aula/ensaio.

12 6996 Nesta situação permaneceram sete (07) alunos sendo duas (02) meninas e cinco (05) meninos Em conversa informal com estas crianças que permaneceram dois meses excluídas das aulas/ensaios de Educação Física, destacamos que uma (01) das meninas não participaria do evento por que não estaria na cidade na data marcada da realização do mesmo, a outra os pais não autorizaram-na a participar por situação financeira; ela relata sua vontade em estar participando. Dentre os meninos, somente um (01) os pais não autorizaram, os outros quatro (04) meninos alegaram que não se sentiam a vontade para dançar. Percebemos nesta realidade duas situações pontuais: 1ª) que a dança em P1 está presente no contexto da Educação Física Escolar, contudo se resume em montagem coreográfica e ensaios para o evento que acontece no fim do ano, como enfatiza Marques (1997) é sinônimo de festinha de fim de ano ; 2ª) que a dança se torna excludente ao ser trabalhada desta maneira, com a finalidade apenas da apresentação; pois alguns alunos não participam por não se sentirem a vontade com a apresentação para um grande público, no palco. A preocupação do professor deveria ser em ensinar a dança como parte criativa de uma ação significativa nas aulas de Educação Física para todos os alunos, ao proporcionar tal prática favoreceria as crianças capacidade de criar corporalmente e intelectualmente, promovendo além do autoconhecimento corporal, educação do senso rítmico, expressão não verbal, desenvolvimento humano e formação integral dos educandos. Os resultados dos questionários aplicados aos professores de Educação Física participantes da pesquisa foram organizados através das seguintes temáticas: formação inicial e continuada; atuação profissional; planejamento anual e conteúdos de dança; adesão dos conteúdos de dança nas aulas de Educação Física. Com esta categorização, os resultados apontaram que a dança faz parte do contexto da Educação Física Escolar nas escolas pesquisadas, contudo estão sendo trabalhadas de forma diminuta, raramente aparece ou aparece somente como ensaios coreográficos para apresentações em datas comemorativas e eventos especiais de acordo com o cronograma da escola. Pudemos verificar que a forma como os conteúdos de dança são trabalhados no processo de formação inicial, colaboram para a ausência da dança nas aulas de Educação Física, e a ênfase dos conteúdos esportivos e seus aspectos técnicos no processo de formação colaboram para que na escola se deixe o trabalho com a dança de lado. Outra situação apontada nos questionários está relacionada com a falta de afinidade dos professores para com os conteúdos de dança, fato que contribui para que a dança seja negligenciada enquanto

13 6997 conhecimento a ser tratado pedagogicamente nas aulas de Educação Física. Os professores se dizem em constante processo de atualização com leituras e cursos na área dos esportes e recreação, e se mostram dispostos a participar de cursos e especializações na área da dança escolar. Pudemos verificar que a dança está inserida no contexto escolar quando decorrente da necessidade de se seguir os cronogramas sugeridos pela escola. Dois (02) professores (P2 PC) e (P2-PD) relataram que o momento em que trabalham a dança, está relacionado, ou melhor, reduzido (grifo nosso), aos ensaios de festa junina. Dois professores (P1-PA) e (P1- PB) inserem o trabalho com a dança em duas situações distintas, ensaio de festa junina e preparação coreográfica para o tradicional evento de fim de ano. Um dos professores (M2 PF) diz trabalhar esporadicamente com cantigas de roda explorando movimentações rítmicas, outro professor (M1-PE) trabalha raramente em aquecimentos para as aulas de Educação Física. Os professores das escolas (M1) e (M2), professores (PF) e (PE) também relatam que um dos motivos que os leva a não trabalhar os conteúdos de dança nas aulas é a dificuldade de aceitação do conteúdo por parte dos alunos e a não exigência da escola. Aí podemos perceber certo comodismo dos mesmos, pois é mais fácil negligenciar o conteúdo do que se desgastar ao explicar, encorajar e argumentar com os alunos sobre a importância do aprendizado de outros tipos de atividades físicas na escola, que o jogo, os esportes e a recreação são divertidos e importantes, mas que o espaço escolar deve estar aberto a todas as possibilidades de aprendizado motor, e principalmente aquelas que fazem parte da cultura corporal de movimento. Nesse sentido, foi possível perceber que o fato da dança fazer parte da cultura corporal, da formação inicial dos professores, dos PCN`s e dos conteúdos previstos para serem desenvolvidos nas aulas de Educação Física nas escolas públicas municipais, não garante que a dança seja abordada e desenvolvida pelos professores nas aulas. Considerações Finais Pudemos conferir que os conteúdos da disciplina de Educação Física nem sempre são compreensíveis aos professores na escola quando não há preparação adequada. Tal fato resulta da dificuldade em entender como os conteúdos desenvolvidos na disciplina farão parte do processo ensino-aprendizagem de forma significativa e concisa para o educando. É

14 6998 importante que o professor tenha consciência que todos os conteúdos da cultura corporal são importantes e necessários para o desenvolvimento e conhecimento do aluno, pois um profissional descontextualizado e descomprometido, com uma atuação negligente e insuficiente, terá sua ação pedagógica comprometida. Diante das realidades encontradas, percebemos a necessidade de nós educadores estarmos inseridos no processo pedagógico escolar; que a escola não deve apenas ensinar a ler e a escrever, como educadores devemos ter um olhar atento aos procedimentos inovadores que permeiam a prática escolar. O profissional que educa não pode mais limitar-se somente a sua área atuação, a escola e os alunos clamam por profissionais visionários que estejam inseridos não apenas no contexto escolar, mas que estejam integrados e interessados no mundo que os cerca; um mundo múltiplo e relacional buscando assim formar um ser social atento às questões sociais, a pluralidade cultural, a diversidade, as diferenças, a natureza, as tecnologias, a educação e as relações humanas. Encontramos respaldo para esta reflexão nas palavras de Paulo Freire (1983) formar é muito mais que treinar o educando no desempenho de destrezas, sejam estas: intelectuais ou físicas. Quando se trata de destrezas físicas, percebemos que no cotidiano escolar a Educação Física ainda vive a sombra de seu passado, associando a educação do físico, da saúde corporal e do aprendizado do esporte. Ao percorrermos algumas escolas e observando algumas aulas de Educação Física no município de Ponta Grossa PR, pudemos perceber que o tema da cultura corporal Dança possui seu espaço no contexto escolar, porém não como conteúdo a ser desenvolvido nas aulas de Educação Física, mas sim como prática utilitarista na escola. Sua prática é enfatizada somente como ensaios coreográficos para apresentações em festas juninas ou para eventos de fim de ano, reduzindo sua contribuição a uma prática utilitarista e sem finalidades pedagógicas. Este estudo ainda contempla a análise do conteúdo em questionários respondidos pelos alunos de 4ª série das escolas/colégios participantes da pesquisa, com objetivo de verificar a aceitação dos conteúdos de dança pelos alunos e identificar qual a representação social que os alunos têm de dança. Entretanto, tais análises e conclusões ainda estão sendo realizadas e não puderam estar contempladas neste manuscrito. A dificuldade em se trabalhar os conteúdos de dança em aulas de Educação Física continuamente presente nos discursos dos professores da área, tendem a justificar a ausência de um trabalho contínuo e significativo com dança nas aulas. Vemos a dança como um

15 6999 conteúdo em potencial a ser desenvolvido nas aulas de Educação Física, cabe ao profissional da área se atualizar, sair da zona de conforto e ousar abordando pedagogicamente tais conhecimentos, em prol de uma educação mais prazerosa e reflexiva, ao invés de uma prática hostil, performática e mecanicista. REFERÊNCIAS BRACHT, Válter.,et alli. Pesquisa em ação: Educação física na escola. Ijuí, Rio Grande do Sul: Unijuí BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) artigo 26, parágrafo 3º. FRANCO, M. L. P. B. Análise do Conteúdo. Brasília: Líber, ª ed. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra GARAYDY, R. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, MARQUES, I. Dançando na escola. Revista Motriz, UNESP, Rio Claro, vol. 3, nº I, p.20-28, MENDES, M.G. A Dança. São Paulo: Ática, ª ed. MOREIRA, W.W. Por uma concepção sistêmica na pedagogia do movimento. Educação Física & Esportes; perspectivas para o século XXI. Campinas, Papirus, NANNI, D. Dança Educação: Pré-escola à Universidade. Rio de Janeiro: Sprint, NANNI, D. Dança Educação: Princípios, Métodos e Técnicas. Rio de Janeiro: Sprint,1995. KUNZ, M.C. S. et al. Improvisação & Dança. Florianópolis: UFSC, PORTINARI, M. História da Dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, RANGEL. N. B. C. Dança, educação, educação física: proposta de ensino da dança e o universo da educação física.b Jundiaí: Fontoura p. 61.

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