UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA MESTRADO EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE JULIANI BITTENCOURT COSTA FIBROMIALGIA: HISTERIA DA ATUALIDADE?

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1 UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA MESTRADO EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE JULIANI BITTENCOURT COSTA FIBROMIALGIA: HISTERIA DA ATUALIDADE? Rio de Janeiro 2013

2 Juliani Bittencourt Costa FIBROMIALGIA: HISTERIA DA ATUALIDADE? Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida por JULIANI BITTENCOURT COSTA, como requisito para obtenção do grau de Mestre. Área de concentração: Psicanálise e saúde. Orientadora: Profª Drª Vera Pollo Rio de Janeiro 2013

3 DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU E DE PESQUISA Rua Ibituruna, 108 Maracanã Rio de Janeiro RJ Tel.: (21) (21) FICHA CATALOGRÁFICA C837f Costa, Juliani Bittencourt. Fibromialgia: histeria da atualidade? / Juliani Bittencourt Costa, f; 30 cm. Dissertação (Mestrado) Universidade Veiga de Almeida,Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, Orientação: Profa. Dra. Vera Pollo. 1. Psicanálise. 2. Fibromialgia. 3. Histeria. 4. Dor. I. Pollo, Vera. II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. III. Título.. CDD Decs Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho

4 Juliani Bittencourt Costa Fibromialgia: Histeria da Atualidade? Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida, para obtenção do título de Mestre, tendo como orientadora a Professora Dra. Vera Pollo. Área de concentração: Psicanálise e saúde. Data de Defesa: 17/01/2014 Banca Examinadora Prof.ª Dr.ª Vera Pollo Universidade Veiga de Almeida Prof.ª Dr.ª Rosane Braga de Melo Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Prof.ª Dr.ª Sônia Xavier de Almeida Borges Universidade Veiga de Almeida

5 DEDICATÓRIA Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar em um sonho que se tem. (Renato Russo)

6 AGRADECIMENTO Agradeço ao pai superior, Deus, que me auxilia com todo seu amor e me leva aos caminhos necessários à realização dos sonhos que reservou para mim. A minha mãe Izabeti Bittencourt da Costa, quem, através de seu trabalho, foi a grande incentivadora para que eu nunca desistisse dos meus estudos e lutasse sempre pelos meus sonhos. Ao meu pai, Juarez Lopes da Costa, cujo jeito durão é sua forma diferente de amar e cuidar de mim. Ao meu namorado, Jeison Martins, que esteve durante quase todo o percurso do curso ao meu lado, ajudando-me sempre que o assunto era impressão. Obrigada por me ouvir nos meus momentos de desespero. Às minhas amigas de mestrado, Laura, Martha, Daniele e Ana, fundamentais para que eu não desistisse. À professora Sônia Borges, que foi a grande incentivadora na escolha do tema da minha dissertação e à professora Rosane Melo pelo seu jeito doce de tentar ajudar. À minha querida orientadora, Vera Pollo, que hoje tenho como uma mãe. Muito, muito e muito obrigada pela paciência, por seus conselhos e conhecimentos. A Universidade Veiga de Almeida por me proporcionar mais informações e conhecimentos junto ao seu corpo docente: Antônio Quinet, Maria Anita Carneiro, Sônia Borges, Vera Pollo, Joana Novaes, Beth Fuks e Maria Helena Martinho. Obrigada pelas novas descobertas, vocês são maravilhosos! Enfim, agradeço à vida por ser tão bacana comigo.

7 RESUMO A presente dissertação aborda os conceitos psicanalíticos de histeria e dor histérica. Utilizando como referência as obras de Sigmund Freud e de Jacques Lacan, procuramos os embasamentos necessários à articulação da histeria com a fibromialgia. Nesse percurso, trabalhamos os conceitos psicanalíticos de inconsciente, pulsão, sintoma e gozo. Apresentamos um caso clínico de nossa experiência profissional como fisioterapeuta: uma paciente que sofria dores fortes no corpo e chegou para tratamento fisioterápico com o diagnóstico de fibromialgia. Em seguida, cotejamos o seu caso com o Caso Dora e de outras mulheres histéricas que foram pacientes de Freud. Nosso objetivo foi propor uma nova visão do diagnóstico de dor fibromiálgica, salientando a contribuição da psicanálise. Acreditamos ter confirmado a hipótese que a psicanálise, com seus próprios conceitos de sintoma conversivo, dor, corpo, pulsão e gozo, pode contribuir no trabalho de decifração dos enigmas da dor da fibromialgia. Se, no decorrer de um tratamento psicanalítico, os histéricos encontram alguma forma alívio para suas dores e seus sofrimentos, por que não dar a mesma chance aos sujeitos que sofrem de fibromialgia? Palavras- chave: fibromialgia; psicanálise; histeria; dor.

8 ABSTRACT This essay broaches the psychoanalytic concepts of hysteria and hysterical pain. Referring to Sigmund Freud and Jacques Lacan s works, we aim at the basis needed to articulate hysteria to fibromyalgia. During this process, we dealt with the concept of unconscious, urge, symptom and enjoyment. We present a clinical case from our professional experience as physiotherapist: a patient who suffered from severe pains in her body and was introduced to physiotherapeutic treatment related to a fibromyalgia diagnosis. Then, we confronted her case to the Dora s Case and to other hysterical women who were Freud s patients. Our objective was to propose a new view to the diagnosis of fibromyalgia pain, pointing out the contributions of psychoanalysis. We believe we have confirmed the hypothesis that psychoanalysis, with its own concepts of conversion symptom, pain, body, drive and enjoyment, can contribute to the work of deciphering the "puzzles" of fibromyalgia pain. If, in the course of psychoanalytic treatment, hysterical somehow find relief for their pain and suffering, why not give the same chance to subjects suffering from "fibromyalgia"? KEY-WORDS: fibromyalgia; psychoanalysis; hysteria; pain.

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...9 CAPÍTULO 1 FIBROMIALGIA HISTÓRICO E DEFINIÇÃO QUADRO CLÍNICO Etiologia TRATAMENTOS PROPOSTOS UMA PACIENTE EM MEU CONSULTÓRIO...27 CAPÍTULO 2 HISTERIA O CASO DORA HISTERIA NO DECORRER DA HISTÓRIA Freud encontra Charcot ESTUDOS DE FREUD SOBRE A HISTERIA A DESCOBERTA DO INCOSCIENTE...52 CAPÍTULO 3 O CORPO COMO LOCAL DE EXÍLIO PARA A DOR HISTÉRICA O CORPO O Corpo Histérico A DOR Elizabeth Von R (IN) Satisfação da dor histérica...74 CONCLUSÃO...82 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...87 APÊNDICE A...98

10 10 INTRODUÇÃO Atualmente, tem sido comum, em consultórios médicos e fisioterapêuticos o surgimento de pessoas com queixa de dor. Algias que aparecem em pontos diferentes sem alguma causa comum ao paciente, e que geralmente vem acompanhado por fadiga, depressão e insônia. Para a existência desses estados dolorosos foi dado o nome de fibromialgia, reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) em 1992, sob a identificação M790 na Classificação Internacional das Doenças (CID). (BESSET et al, 2010, p. 1246). E o presente estudo tem por objetivo pesquisar até que ponto o diagnóstico médico de Síndrome de Fibromialgia pode ser aproximado do diagnóstico psicanalítico de histeria, particularmente, daquilo que se define como envoltório formal do sintoma. A fibromialgia caracteriza-se por uma dor muscular crônica em pontos diferentes do corpo, e apresenta como sintomas: fadiga, sono, depressão psíquica, ansiedade, dor de cabeça. É uma síndrome que muitas vezes fica difícil de definir se a dor é articular ou muscular. Os pacientes costumam a relatar que não há um só lugar do corpo que não doa. Estudos comprovam que esses pacientes tem uma sensibilidade maior em relação às pessoas que não apresentam esta síndrome. Etiologicamente não existe uma causa definida, mas acredita-se que pode surgir após um trauma físico, psíquico ou por eventos graves na vida da pessoa. Os motivos pelos quais alguns adquirem a fibromialgia e outras não, ainda são desconhecidos. É bastante comum acometer mulheres entre 30 e 55 anos, porém existem dados em crianças, adolescentes e pessoas mais velhas. (KEISERMAN, 2001, p.45). Curiosamente, o aumento do quadro álgico não age na evolução da doença, nem no comprometimento articular ou muscular como no caso de um reumatismo tradicional, o que dificulta um possível diagnóstico. A fibromialgia tem sido discutida pela mídia e especialmente em publicações de artigos. Estas nos indicam que os sintomas desta síndrome foram no passado considerado pelos médicos como próprios de pacientes hipocondríacos, histéricos ou reumatológicos (RANGEL,

11 ). Mas o caminho mudou, a subjetividade foi deixada de lado e o espaço para as comprovações científicas foi ganhando lugar. Alguns autores reconhecem o papel dos fatores psíquicos no surgimento da fibromialgia, mas ao mesmo tempo, rejeitam a assimilação desta a qualquer doença psiquiátrica. Outros autores discutem a ideia que esta síndrome pode intervir na economia psíquica do sujeito como função de apelo, uma lógica de dependência do outro, mas também como mecanismo de defesa em relação a um possível conflito inconsciente. Assim, a fibromialgia pode comparecer no sintoma, na neurose, como modo de gozo ou como um fenômeno psicossomático em qualquer estrutura clínica. (BESSET et al, 2010, p. 1260). Para Teixeira, a fibromialgia não pode ser compreendida como uma visão atualizada de episódios de conversão, nem reduzida ao campo psicossomático. Em função disso, entramos em um caminho contraditório no qual alguns representantes da medicina e pesquisadores se afirmam reticentes em legitimar um estatuto oficial da doença. Os textos médicos sobre o assunto referem-se a tratamentos medicamentosos e à psicoterapia devido ao quadro de depressão e ansiedade, sem mencionar a psicanálise como possível procedimento de tratamento. Apesar de uma parte da classe médica considerar apenas a dor física do paciente e não os fatores psíquicos, a multiplicação de reportagens e artigos a respeito do caráter subjetivo dos transtornos relatados por quem vivencia essa doença vem sendo cada vez mais lançados na mídia. (TEXEIRA, 2006, p ). Não é uma síndrome progressiva, podendo durar por um longo tempo, ou pela vida toda. Não causa danos a musculatura, órgãos internos e às articulações. Não há uma cura definida, mas algumas pessoas melhoram com o tempo. Não causa deformidades ou incapacidade física grave, mas pode-se verificar uma alteração na qualidade de vida, 70% queixam-se de alterações na vida sexual e no trabalho. (Sociedade Brasileira de Reumatologia, 2011). É muito intrigante um corpo são sentir tanta dor ao ponto de paralisar, assim como era intrigante para Freud a histeria, que na sua grande maioria acometia mulheres com sintomas físicos que não podiam ser explicados. Freud decide estudá-las como se houvesse a intenção de mostrar a relação do estado mental com o estado físico de suas pacientes. No final do século XIX, depara-se com mulheres

12 12 que são consideradas loucas. Em 1885, Freud, médico e estudante de anatomopatologia, chega a Salpêtriére, após conseguir uma bolsa de estudos. Sua intenção era de encontrar com Jean Martin Charcot, médico, cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. As demonstrações clínicas de Charcot, assistidas por Freud até 1886 causaram-lhe interesse e impacto. (FREUD [ ] 1996). A respeito disso, (JORGE; FERREIRA, 2010, p.18) comentam que ao retornar de Paris, Freud se estabelece em Viena como médico especialista em doenças nervosas. Durante anos dedicando-se a ouvir e a estudar as histéricas, Freud abriria uma via nova de prática clínica: a psicanálise. Descobre que o homem é regido por forças que escapam à consciência: o inconsciente. Indo contra o cogito cartesiano PENSO, LOGO SOU, então, não penso, SOU PENSADO. Freud lança com o conceito de inconsciente uma nova concepção de sujeito. O inconsciente é fundado pelo recalque, e recalcar significa negar, manter o que foi negado afastado da consciência. O recalcado sempre retorna, resultado do conflito psíquico entre consciente e inconsciente, ainda que sob forma de disfarce. (RANGEL, 2008). Segundo Freud ([1915] 2006) é nas histéricas que ele percebe que há uma defesa contra as recordações de um evento traumático de natureza sexual. Sujeito e consciência não conseguem suportar essa ideia, ficando estas, recalcadas e ativas no inconsciente, e quem sabe, uma vez na vida adulta por conta de algum acontecimento, essas recordações sejam despertadas, e assim, convertidas em sintomas no corpo. Após seus estudos e a partir dos casos atendidos, Freud conclui que os sintomas referentes aos casos de histeria eram uma expressividade no corpo de tudo o que está aprisionado na alma, e que usando a fala esses sintomas apresentavam melhora. Em seu texto Estudos Sobre a histeria ([ ], 2006), diz que: nenhum sintoma pode emergir de uma única experiência real, mas que em todos os casos a lembrança de experiências antigas despertada em associação com ela, atua na causa do sintoma. Descreve também alguns sintomas histéricos, tais como: angústia, choro, dor de cabeça, depressão, distúrbio no andar, fadiga, insônia, tremores, parestesia. Sintomas que se assemelham tal quais as descrições dos estudos já citados. Afirma que estes sintomas desapareciam de forma

13 13 permanente e imediata quando se conseguia trazer a luz as lembranças do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara. Certamente, as mulheres que Freud ouvia e identificava seus sintomas como algo que foi recalcado pelo inconsciente, não são as mesmas dos tempos atuais. Afinal, muita coisa mudou. Cada vez mais novas patologias vêm surgindo, como se o sintoma estivesse novamente roubando o lugar da palavra. Mas será que são novas as patologias, ou apenas as mesmas com a nova cara do século XXI? Temos aqui semelhanças entre as duas patologias: a fibromialgia como uma doença ligada a traumas físicos e psíquicos para suas dores corporais, e a histeria a traumas psíquicos. Outro ponto comum é o descrédito que ambas provocam a alguns médicos, pois o diagnóstico se dá pelas sensações e experiências relatadas pelos pacientes, não havendo nenhum exame que possa comprovar o que é descrito verdadeiramente. Os sintomas histéricos ainda continuam sendo tratados sem nenhuma simpatia e interesse por alguns médicos, e assim ocorre com a fibromialgia, vale ressaltar que não são por todos, pois hoje em dia já existe uma nova especialidade que já converge para a clínica da dor. Texeira (2006, p. 40) relata que: pessoas que apresentam dor generalizada ou queixas mal definidas não eram levadas a sério. Será que as histórias de vida dos pacientes de hoje diferenciam-se tanto das histéricas ouvidas por Freud? O resultado do corpo dolorido não passa de uma metáfora da surra que levara da vida? A histeria é mais comum em mulheres, a fibromialgia também. Freud, assim quando começou a cuidar de suas histéricas indicava tratamentos de relaxamento e exercícios físicos, e segundo Bennett (1993) além de medicamento, sugerem-se também caminhadas, hidroterapia e relaxamento para a fibromialgia. Os estudos dos pontos dolorosos da fibromialgia faz lembrar outros pontos que eram estudados por um médico neurologista na França (1870), Jean Martin Charcot. Ele chamava esses pontos de zona histerógena, local que havia muita sensibilidade ao toque e fricção, e gerava dor, desconforto e reações semelhantes a carícias voluptuosas ao serem tocados. Já Freud, médico e aluno de Charcot, acreditava que essas reações são frutos de um ataque conversivo, sendo equivalente a um orgasmo. A zona histerógena seria então uma região do corpo que se tornaria erógena. Outra característica que lembra os estudos dos pontos

14 14 dolorosos da fibromialgia é que essas zonas histerógenas podem aparecer também em qualquer lugar do corpo. Mais uma vez um ponto intrigante da fibromialgia: a relação dos seus pontos dolorosos com as zonas histerógenas. Seria então esse ponto doloroso um local de conversão histérica? Uma zona erógena? No que se diferenciam as pacientes histéricas de Freud com as de hoje? Afinal, é um corpo que fala, que dói. O pensar, o sentir, e a dor da vida, podem então ser curados com medicamentos? Medicação esta que serve para dopar ou calar o corpo. O foco para o presente trabalho de mestrado concerne à posição subjetiva daquele que sofre de fibromialgia, apostando que além da dor, há um ser humano, um sujeito em questão, e que pode haver um novo diagnóstico para a fibromialgia à luz da psicanálise. No campo da fisioterapia e da psicanálise, o estudo objetivou a pesquisa bibliográfica da fibromialgia, da histeria, assim como alguns casos histéricos vivenciados na prática psicanalítica por Freud. Utilizar livros, artigos científicos, internet, revistas. Foram consultados obras de Lacan e Freud: Estudos sobre a histeria, Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos, Interpretação dos sonhos, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, As formações do inconsciente e outras obras para a formulação da dissertação. E para melhor concepção do tema, traremos durante a dissertação a descrição da fibromialgia, seu meio de tratamento na área médica e um caso vivido pela autora da dissertação, em seguida faremos relação com casos vividos na prática psicanalítica por Freud e suas descobertas com as histéricas. Se a dor marca o corpo da paciente com fibromialgia, mostraremos como a dor é interpretada no corpo psicanalítico e histérico cartografado pelo desejo. Se para alguns médicos o diagnóstico se firma nos fenômenos comprovados, a psicanálise busca modos de enfrentar as singularidades do sofrimento. O traço de cada um dirá mais sobre aquele que sofre e sobre o uso que se faz de sua dor. (BESSET et al, 2010, p.1250).

15 15 CAPÍTULO I - FIBROMIALGIA 1.1 HISTÓRICO E DEFINIÇÃO Em 1824 e 1841, Balfour e Vallux apontaram e descreveram pacientes com pontos musculares sensíveis e passíveis de desenvolver dores irradiadas. Já em 1904, Stockman encontrou,por meio de biópsias, processos inflamatórios do tecido conectivo. No mesmo ano, o termo fribrosite foi defendido por Willian Gowers. Ele acreditava haver alterações inflamatórias no tecido fibroso do dorso que geravam um reumatismo muscular, havendo ou não história de sintoma. (MARTINEZ, 1997). Em 1940, Collins definiu fibrosite como um estado doloroso agudo, subagudo ou crônico dos músculos, tecidos subcutâneos, ligamentos, tendões ou aponeuroses, independente da lesão anatomopatológica que tenha originado a dor. (IBID, p.100). Ferreira et al (2005, p.149) aponta que o desenvolvimento de pesquisas clínicas sobre a fibromialgia só foi possível em Martinez (1997) afirma que, em 1977,Smythe e Moldosfsky restringem o uso da palavra fibrosite à sintomatologia de pacientes que apresentam dores musculoesqueléticas difusas acompanhadas de pontos dolorosos a digita-pressão, fadiga e distúrbio do sono. A fibromialgia foi por muito tempo conhecida, inicialmente, como fibromiosite, fibrosite, miofascite e reumatismo muscular. Em 1981, Yunus (apud Hall, Body, 2007) indica o termo fibromialgia, que vem sendo usado pelos autores até hoje. Consideramos que o estudo de pesquisas clínicas sobre a fibromialgia sofreu um grande atraso, por conta da denominação fribrosite (inflamação, reumatismo muscular). Preferiu-se o nome fibromialgia, pois a inflamação não é predominante nessa doença. A nomenclatura fibromialgia primária surge para designar os casos em que nenhum outro distúrbio era encontrado como causa ou contribuição para o quadro. Já a fibromialgia secundária era considerada uma síndrome parecida com a

16 16 primária, porém só acontecia em determinadas condições secundárias, fossem elas reumáticas ou não. Os estudos liderados por Wolfe, em 1990, representaram um marco na pesquisa dessa síndrome. Foi a partir daí que se solidificou o termo fibromialgia, abandonada a distinção entre fibromialgia primária e secundária e estabelecidos critérios de avaliação. Fica sendo definida como uma síndrome de dor difusa e crônica, caracterizada pela presença de pelo menos 11 dos 18 pontos anatomicamente específicos chamados de tender points, dolorosos a palpação de cerca de 4kgf. (FERREIRA et al, 2005, p. 149) Marques et al (2002) a definem como uma síndrome reumática, ou seja, a fibromialgia seria de origem reumatológica e não ortopédica, que acomete, preferencialmente, as mulheres e de etiologia desconhecida, caracterizada por dor musculoesquelética difusa e crônica. Apresenta locais anatômicos específicos dolorosos à palpação (tender points). Além disso, há sintomas associados, como o distúrbio do sono, fadiga, distúrbios psicológicos, rigidez matinal, depressão e ansiedade. Provenza et al (2004, p. 104) publicaram na Revista Brasileira de Reumatologia: Sua definição constitui motivo de controvérsia, basicamente pela ausência de substrato anatômico na sua fisiopatologia e por sintomas que se confundem com a depressão maior e a síndrome da fadiga crônica. Por estes motivos, alguns ainda consideram-na uma síndrome de somatização. A síndrome da fadiga crônica, por sua vez, é caracterizada por cansaço profundo. Com ela, 25% dos pacientes ficam acamados ou são incapazes de trabalhar. (HALL, BRODY, 2007). Já a definição de fibromialgia apontada pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (2011, p. 19) é: uma síndrome clínica que se manifesta com dor no corpo todo. Fica difícil definir se a dor é muscular ou articular. Uma grande sensibilidade ao toque e à compressão de pontos nos corpos. Para Besset et al (2010), a classificação dessa patologia como uma síndrome não resolve a polêmica entre os especialistas no assunto sobre seu estatuto de doença. Seu diagnóstico permanece em discussão, em virtude da falta de causalidade orgânica detectável e das características subjetivas dos transtornos

17 17 dela resultantes. Diferentes de outras doenças reumatológicas como a artrite reumatoide que se tem uma comprovação diagnosticada por exames e tratadas com excelência pelo corpo médico. 1.2 QUADRO CLÍNICO A síndrome da fibromialgia (SFM) é crônica. Seus sintomas se intensificam e melhoram com o passar do tempo, sem haver um comprometimento articular avançado. O American College of Rheumatology (ACR) lista a SFM como uma doença reumatológica que apresenta distúrbio extra-articular. Para a Sociedade Brasileira de Reumatologia (2011), a dor generalizada é o sintoma principal, uma vez que é muito difícil para os pacientes definir o local correto onde ela se dá. Além da dor espontânea, eles se queixam também do dolorimento ao toque. Alterações no sono, cansaço, sono não reparador, distúrbio no humor, depressão e ansiedade são comuns a essa patologia. A depressão encontra-se em 50% dos pacientes que apresentam essa síndrome, piorando cada vez mais esse quadro. As sensações ruins podem gerar um desconforto maior para a dor, que pode ser explicado pelo mecanismo da serotonina e noradrenalina (neurotransmissores). Segundo Hall e Brody (2007, p.251), a modulação da dor pode estar alterada na SFM no nível medular ou nos centros superiores do SNC. Yunus (1981) (apud HALL, BODY, 2007), por sua vez, propõe uma hipótese para unificar muitas das teorias da fisiopatologia da fibromialgia. Ele enfatiza uma possível disfunção neuro-hormonal, que resulta em dor e mecanismos centrais, os quais são propostos como sendo responsáveis por fadiga, depressão, ansiedade e estresse mental, o que altera ainda mais a atividade simpática e amplifica a percepção da dor. Não é uma síndrome progressiva, podendo durar por um longo tempo ou pela vida toda. Não causa danos a musculatura, aos órgãos internos e às articulações. Não há uma cura definida, mas algumas pessoas melhoram com o tempo. Não causa deformidades ou incapacidade física grave, mas pode-se verificar uma alteração na qualidade de vida. De acordo com a Sociedade Brasileira de

18 18 Reumatologia (2011): 70% queixam-se de alterações na vida sexual e no trabalho. Desse modo, é intrigante uma síndrome sem uma causa definida que aparece e some em alguns casos e que gera tantos danos na vida do ser humano e no seu cotidiano, mas que, fisicamente, não cria nenhuma deformidade ou progride. Recentemente, foi avaliada a população brasileira, questionando-se diferentes culturas, economias, etnias e grupos sociais que poderiam influenciar no reconhecimento da síndrome e de suas manifestações clínicas. Estudos da ACR mostraram que a combinação de dor difusa em 9 ou mais pontos dolorosos dos 18 apresentou sensibilidade de 93,2%, especificidade de 92,1% e acuaria de 92,6%. Os distúrbios de sono e fadiga ocorreram em mais de 80% da população. Dor difusa: dor no lado esquerdo do corpo, dor no lado direito do corpo, dor acima da linha da cintura. Além disso, uma dor no esqueleto axial (segmento cervical, torácico ou lombar da coluna vertebral) deve estar presente. A dor difusa deve estar presente pelo menos por três meses. Dor a palpação: com uma pressão de aproximadamente 4Kgf em pelo menos 11 dos 18 tendes points.(ferreira et al, 2005, p.150) Pode ocorrer a dor nos seguintes pontos: Occipital: inserção dos músculos suboccipitais. Cervical Inferior: anteriormente, entre os processos transversos C5 C7. Trapézio: ponto médio das fibras superiores do músculo trapézio. Supra-espinhal: inserção do músculo supra-espinhal, acima da espinha da escápula, próximo ao ângulo medial. Segunda articulação costocondral: lateral e superior à articulação. Epicôndilo lateral: 2 cm distalmente ao epicôndilo. Glúteo: quadrante superior e lateral das nádegas. Trocânter maior: posterior à proeminência trocantérica. Joelho: coxim gorduroso medial, próximo à linha articular. Para Hall e Brody (2007, p. 252), o diagnóstico pode ser feito inclusive quando não estão presentes 11 dos 18 pontos sensíveis, pois também existem outras características encontradas. Há para eles uma discussão acerca dos critérios

19 19 diagnósticos considerarem somente no início as características subjetivas como a própria dor. Nesse caso, não existe nenhum exame laboratorial que exclua ou afirme o diagnóstico. Para a Sociedade Brasileira de Reumatologia (MARIANO, 2011), o diagnóstico é essencialmente clínico. Durante a avaliação do paciente, o médico obterá informações que sejam semelhantes ao quadro patológico, utilizando estes questionários: Índice de Dor Generalizada, o Índice de Severidade dos Sintomas e o Questionário de Impacto da Fibromialgia. Na verdade, não existem exames para a fibromialgia, o médico pode pedir exames apenas para excluir a possibilidade de doenças que se assemelhem à SFM, tais como uma ressonância magnética ou uma radiografia do local da dor. Os estudos dos pontos dolorosos fazem lembrar outros pontos que eram estudados por um médico neurologista na França em 1870: Jean Martin Charcot. Ele chamava esses pontos de zona histerógena, local em que havia muita sensibilidade ao toque e à fricção. Em função disso, gerava dor, desconforto e reações semelhantes a carícias voluptuosas ao ser tocado. Já Freud, médico e aluno de Charcot, acreditava que essas reações são frutos de um ataque conversivo, sendo equivalente a um orgasmo. A zona histerógena seria, então, uma região do corpo que se tornaria erógena. Freud ([ ], 2006) em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, afirma que as duas têm a mesma característica. Esse processo é ativo em indivíduos que apresentam complacência somática (expressão introduzida por Freud para explicar a "escolha da neurose escolha histérica e de órgão do corpo ou aparelho em que ocorre a conversão), que pode converter em sintoma no corpo. Outra característica que lembra os estudos dos pontos dolorosos da fibromialgia é que essas zonas histerógenas podem aparecer também em qualquer lugar do corpo. Mais uma vez, um aspecto curioso da fibromialgia: a relação dos seus pontos dolorosos com as zonas histerógenas. Segundo a Revista Brasileira de Reumatologia (MARIANO, 2011, p. 5), a questão do diagnóstico, porém, ainda deve ser mais explorada. A utilização dos critérios de classificação do ACR foi um grande avanço em termos de inclusão em estudos científicos. Mas para uso individual, ainda deixa muito a desejar.. Essa falta de diagnóstico atrapalha o cuidado ao paciente, afetando seu relacionamento com o médico e a sociedade. É fato que existe uma dor, entretanto

20 20 não se apresenta nenhum resultado laboratorial. Com isso, outros profissionais de outras áreas, como psicólogos e psicanalistas, vêm brigando para um possível diagnóstico voltado para a subjetividade do paciente, acreditando que um corpo que dói é também um corpo que fala. (MARTINEZ, 1997). Diante desse quadro, conclui-se que diagnóstico correto da fibromialgia não é definitivo, pois sua etiologia ainda se encontra sem definição clara, ou seja, temos duas questões apresentadas, a etiologia indefinida que gera a dificuldade do diagnóstico da patologia. Além disso, essa síndrome apresenta outras manifestações associadas. Segundo Besset et al (2010), alguns pacientes sofrem com a falta de adaptação à doença e com as manifestações clínicas. Isso, de modo geral, leva-os a valorizar sua dor e culpar as pessoas próximas pela sua limitação e dificuldade para realizar as tarefas. Apresentam quadros de irritabilidade e sentem-se desiludidos por não conseguir uma resposta firme e ideal para o que sofrem. Por conta da complexidade dessa síndrome, muitos pacientes procuram por médicos de diversas áreas, sendo, muitas vezes, submetidos a vários tipos de exame. [...] Procuram o neurologista, apresentando queixas de cefaleia tensional crônica e recebem o rótulo de enxaqueca. Buscam o otorrino em razão da tontura e do zumbido e recebem o diagnóstico de labirintite. Vão ao cardiologista por dor toráxica e palpitações e, após exames de eletrocardiografia e ecocardiografia normais, recebem diagnóstico de costocondrite. Procuram um gastroenterologista e são submetidos a exames invasivos, não demonstrando qualquer anormalidade. Além dos múltiplos diagnósticos de tendinites, tenossinovite, bursite e neuropatias associadas. (CHIARELLO, 2005, p.152). Como podemos perceber, algumas terapias e tratamentos acabam sendo inapropriados com o que o paciente verdadeiramente sofre. Não há como deixar de citar a quantidade de medicamentos que alguns profissionais da área médica utilizam para dopar os que se mostram com depressão, angústia e irritabilidade, sem, ao menos, mostrar algum interesse pelo lado da subjetividade.

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