Código da Insolvência e Recuperação de Empresas Apresentação e discussão do anteprojecto

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1 Fórum Auditório da Reitoria da Universidade Nova 16 de Julho de 2003 Código da Insolvência e Recuperação de Empresas Apresentação e discussão do anteprojecto Discurso de Sua Excelência o Secretário de Estado Adjunto da Ministra da Justiça Exma. Senhora Secretária de Estado da indústria, Comércio e Serviços Exma. Senhora Juíza do Tribunal de Comércio de Lisboa Exmos. Senhoras e Senhores Professores Minhas Senhoras e Meus Senhores O XV Governo Constitucional assumiu, no seu programa de Governo, o compromisso de promover as alterações de que o sistema de Justiça carece para estar apto a corresponder às novas exigências dos cidadãos, das empresas e da sociedade em geral. Comprometemo-nos designadamente a empenharmo-nos de um modo especial na área do direito comercial, na sua vertente processual, com vista a proceder à revisão do processo de recuperação de empresas e de falência. Este projecto que nos propomos discutir neste Fórum representa, nem mais, o cumprimento de um compromisso do Governo. O diagnóstico da situação é, elucidativamente, consensual.

2 Três quartos dos processos são da iniciativa do credor, cabendo apenas um quarto ao devedor. Impunha-se, e impõe-se criar mecanismos que levem o primeiro e principal conhecedor da situação da empresa a propor-se ao processo de recuperação ou falência é que a menor iniciativa do devedor significa, em termos concretos, que os processos chegam demasiado tarde aos tribunais. Simultaneamente, constata-se também que as providências de recuperação têm uma aplicação muitíssimo reduzida em Portugal, conclusão que, aliás, não difere substancialmente da situação verificada na generalidade dos países europeus. Mais grave ainda, em todo o diagnóstico, é a constatação da escassa eficácia da falência os credores recebem pouco e tarde. Conscientes de que a justiça falimentar deve merecer prioridade política, promovendo a transparência dos mercados e uma saudável concorrência entre verdadeiras empresas, assumimos pois esta empreitada, com o propósito de apresentarmos um novo Código mais adequado ao dinamismo da economia actual. Definimos à partida 4 objectivos muito claros: Maior preparação técnica dos intervenientes Início atempado dos processos Maior celeridade Maiores possibilidades de sucesso para a recuperação

3 Falamos de objectivos que são políticos, sem dúvida, mas são sobretudo uma decorrência lógica da constatação das necessidades. A necessidade de uma maior preparação técnica dos intervenientes resulta essencialmente do fenómeno, que é transversal e incontornável, de uma progressiva especialização, seja económica ou jurídica o legislador não se pode alhear da realidade, e deve criar condições de especialização e por vezes impô-la. Por outro lado, é nossa convicção que é absolutamente indispensável promover o início atempado dos processos. É neste particular que reside, tantas das vezes, o ponto crítico associado à problemática da insolvência e da recuperação de empresas. Quase que poderíamos aqui invocar uma espécie de instrução político-preventiva dirigida às empresas e, por consequência, ao mercado. Estamos em crer que, por esta via, não só aceleramos o percurso para a desejada transparência como promovemos e tornamos efectivamente viáveis as reais recuperações de empresas em dificuldades. Associada a esta vontade política de precipitar a apresentação à insolvência está também a necessidade de tornar todo o processo mais célere. A celeridade processual é talvez o objectivo primeiro desta reforma as diversas sensibilidades que recolhemos demonstram-no de forma inequívoca. E o Governo, no seu próprio Programa de Governo, assumiu-o. O sistema de Justiça deve ser o sustentáculo dos direitos de cidadania e não um obstáculo ao exercício desses direitos.

4 Sem celeridade, eficácia, agilidade e efectividade não pode haver uma Justiça verdadeira: uma Justiça tardia nunca é Justiça. Nestes termos, e em cumprimento destes três grandes objectivos prédefinidos maior preparação técnica dos intervenientes, início atempado do processo e celeridade processual vamos de encontro ao quarto, mas nem por isso acessório, grande propósito da reforma que nos propomos discutir: criar maiores possibilidades de sucesso para a recuperação. Isto é, com uma maior preparação técnica, com uma intervenção tempestiva e célere, estamos a promover a recuperação das empresas que, embora em dificuldades conjunturais, são efectivamente recuperáveis e, portanto, carecem de um processo expedito de recuperação. Minhas Senhoras e Meus Senhores, Perante tão ilustre e conceituado quadro de oradores presentes neste Fórum, julgo que não cabe aqui uma abordagem dos méritos técnico-jurídicos do projecto ora em discussão reservo-me o papel de interessado espectador, na certeza de que todos os contributos merecerão da parte do Ministério da Justiça a maior atenção. Gostaria no entanto de realçar a cooperação inter-ministerial que vigorou al longo de todo este processo aliás como é apanágio do Governo. Refiro-me naturalmente, não só ao indispensável e sempre crucial contributo do Ministério da Economia, como também à coordenação com o Ministério do Trabalho e da Segurança Social, de que é esclarecedor exemplo o novo Código do Trabalho, com o qual é introduzido, em definitivo, um privilégio imobiliário especial sobre os bens imóveis do

5 empregador nos quais o trabalhador preste a sua actividade trata-se de uma inovação cujo impacto no regime falimentar mereceu a devida e conjunta ponderação. Em suma, este novo Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas, sendo o corolário de um processo que partiu de um diagnóstico rigoroso e assentou em propósitos e objectivos concretos, pretende ser, e é nossa convicção que assim é, um novo impulso para uma economia mais saudável, mais de acordo com as legítimas exigências dos cidadãos, das empresas e da sociedade em geral. Cremos que o desejado equilíbrio de tutela dos diferentes, mas nem sempre divergentes, interesses é alcançado. A ninguém aproveita a subsistência no mercado de situações de insolvência desconhecidas. Quando assim acontece, são os trabalhadores que são prejudicados, porque ignoram que a entidade patronal não está capaz de cumprir as suas obrigações; são os fornecedores que são lesados, porque vendem desconhecendo que podem não ser pagos; é, em suma, todo o mercado que é afectado, porque as regras da concorrência estão assim postas em causa. Nenhum Governo deseja a falência de uma empresa. Mas este Governo assume, com clareza, que deseja a transparência do mercado, e a verdade na economia, tendo proposto à Assembleia da República um Código da Insolvência e Recuperação de Empresas que, partindo de um diagnóstico correcto, é nossa convicção, toma as opções certas.

6 Muito obrigado

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